COMO PODEMOS IDENTIFICAR UM MODELO DE JOGO?

Por Rafael Maciel

INTRODUÇÃO

A importância do Modelo de Jogo no Futebol é incontestável e objeto de muitos estudos acadêmicos. Qualquer comissão técnica possui um modelo próprio, independente de sua complexidade, efetividade ou sua estruturação, pois em muitas ocasiões o MODELO não é construído de modo sistemático (organizado por etapas), mas sim de modo intuitivo, onde os padrões (coletivos ou individuais) à serem adotados são definidos para cada situação do jogo sem a utilização de uma visão mais sistêmica (global).

Quem acompanha futebol, sabe que não podemos definir um estilo como CERTO ou ERRADO. Praticamente tudo que está relacionado ao futebol será subjetivo, onde ora será positivo e ora será negativo. Em quantas ocasiões, presenciamos equipes com modelos “simples” e capacidade individual limitada, vencerem adversários com modelos mais complexos e elencos valiosos? Exatamente, nem sempre os MODELOS ROBUSTOS/ESTRUTURADOS serão os mais indicados e nem sempre os MODELOS INTUITIVOS serão desprezíveis:

Para construção de um Modelo de Jogo, além de considerar os Princípios Táticos Gerais e Específicos, é importante considerar a Cultura do Clube (caso exista e esteja sendo cultivada recentemente). Na imagem à cima, confrontamos alguns benefícios e alguns prejuízos em cada um dos métodos utilizados para construir um modelo de jogo. Por demandar muito tempo de consolidação, a Construção Estrutural de um Modelo muitas vezes fica difícil de ser plenamente implantada, principalmente em cenários onde há muita insegurança e instabilidade das comissões técnicas: nestas ocasiões, é extremamente recomendável utilizar uma abordagem mais direta para construção do modelo.

Segundo José Guilherme Oliveira, “o treinador transmite as ideias, que serão interpretadas de forma diferente pelos jogadores e a respectiva interação vai fazer com que sejam recriadas, contudo, essas ideias terão sempre a cor azul e nunca amarela, vermelha ou verde. É um processo que na Periodização Tática se denominou auto-eco-hetero. Como tal, o modelo de jogo é um processo dinâmico e não linear, em permanente construção, que parte sempre das ideias que o treinador tem para resolver os problemas que o jogo levanta.

José Guilherme ainda se utiliza de uma analogia com as cores, para ilustrar esse fenômeno: “por vezes, para melhor explicitar este conceito, costumo utilizar uma analogia com cores. Imaginemos que as ideias de jogo do treinador eram manifestadas pela cor azul. Quando a transmitimos aos jogadores, eles vão captá-las, mas essa percepção está condicionada pelos seus gostos, pelas suas experiências e por muitas outras coisas vivenciadas com a cor azul. Como tal, cada jogador assumirá a cor azul com uma tonalidade que pode ser distinta. Quando essas diferentes tonalidades interagem vai emergir uma nova tonalidade, que também de certa forma poderá ser desconhecida, contudo, será sempre azul.”

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Segundo Garganta (1997), “é possível, observando equipes e jogadores ao longo de vários jogos, encontrar padrões de organização, que permitem tirar conclusões sobre o comportamento de jogo de jogadores e equipes. Esse comportamento tem relação com as características do jogo construído pela equipe, especialmente com o seu sistema organizacional. Este comportamentos e suas relações, caracterizam o chamado “modelo de jogo”.”

Já Rodrigo Leitão (2009) afirma que “da mesma forma que elementos surgem do modelo, o modelo. Os elementos que surgem do modelo ganham características de subsistemas que se relacionam com o sistema “modelo organizacional do jogo”, e esse por sua vez interage como subsistema do sistema “jogo e sua lógica”. Em outras palavras o modelo assume papel fundamental para cumprimento da lógica do jogo.”

Enquanto o treinador José Mourinho afirma que o Modelo de Jogo ideal não deve sofrer alterações em função do adversário, para Leitão uma equipe deveria ter seu modelo corrigido e ou alterado sempre que necessário além de ser capaz de operacionalizar modelos de jogo distintos (de maneira que seu modelo seja uma integração sistêmica de modelos).

O assunto é realmente complexo, e para refletir melhor, devemos ler mais o que esses pensadores citados à cima falam sobre o tema.

OBJETIVO

Este artigo buscará propor uma metodologia para observar, analisar e identificar características do modelo de jogo de equipes.

METODOLOGIA

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  • TÁTICO
    • Formatação/Plataforma/Sistema de Jogo: como é realizada a distribuição/posicionamento dos atletas em campo, conforme as fases do jogo?
      • Padrão: sistema utilizado predominantemente;
      • Variações: variações de sistema conforme ocasiões, ou fases do jogo (variação ofensiva ou variação defensiva);
      • Exemplos: Equipe atua no 4231, porém conforme situação do jogo, pode se defender no 4141 e atacar com 433.
    • Proposta de Jogo: como a equipe costuma se portar durante as partidas? Esta proposta varia conforme o nível dos adversários ou mando de campo?
      • Exemplos: Equipe costuma Propor as ações do jogo (mentalidade ofensiva) em casa. Quando não possui o mando, equipe atua de modo Equilibrado (mentalidade neutra) em caso de placar empatado e passa para uma mentalidade Reativa (defensiva) quando possui vantagem no placar.
    • Organização Defensiva: como a equipe se comporta quando não possui a posse da bola? Quais são os princípios trabalhados?
      • Transição: jogadores recompõem ao posicionamento defensivo imediatamente pós perda da posse ou pressionam a bola para depois recompor? Quais jogadores possuem atribuições de participar da transição/recomposição defensiva? Goleiro trabalha mais adiantado, para oferecer proteção às costas dos defensores?
      • Marcação: como a marcação é realizada pela equipe? De forma zonal, mista, encaixe individual ou encaixe por setor? As perseguições são curtas, médias ou longas? Como funciona a estruturação das linhas (mais rígidas ou flexíveis)? Linhas defensivas basculam conforme setor onde encontra-se a bola?
      • Pressão: a equipe costuma trabalhar com qual altura seu bloco pressionante (alto – campo de ataque, médio – faixa central, ou baixo – campo defensivo)? A equipe trabalha mais com perde-pressiona ou perde-recompõe?
      • Bola Parada Defensiva: como a equipe dispõem seus defensores durante as bolas paradas (escanteios, cruzamentos, faltas diretas, faltas indiretas, etc.)? Qual a marcação utilizada (individual, zonal ou mista)?
    • Construção Ofensiva: como a equipe se comporta quando possui a possa da bola? Quais são os princípios utilizados de modo padrão?
      • Transição: por qual zona a equipe prefere iniciar suas transições (pelas pontas ou por dentro)? Como os jogadores se posicionam para gerar opções de linhas de passe?
      • Estilo de Construção: como a equipe faz a circulação da bola (de modo paciente ou mais veloz)? Trabalha com passes mais curtos, diretos ou equilibrados? As jogadas são iniciadas desde a defesa ou iniciam apenas na faixa central? Quais os jogadores chaves para a criação? A equipe trabalha com amplitude? A amplitude é gerada por laterais ou extremas? Em qual altura do campo?
      • Conclusão: como a equipe costuma concluir suas jogadas ofensivas? Equipe costuma trabalhar com bolas alçadas para a área? Os cruzamentos são antecipados ou na linha de fundo? Cruzamentos rasteiros para trás ou cruzamentos altos para o meio da área? Equipe trabalha com finalizações de longa distância (em qual zona, quais jogadores possuem essa característica, como os espaços são gerados)? Como equipe explora/ataca o funil adversário? Quais jogadores mais trabalham no terço-final?
      • Bola Parada Ofensiva: como a equipe dispõem seus atacantes durante as bolas paradas (escanteios, cruzamentos, faltas diretas, faltas indiretas, etc.)? Quais os jogadores responsáveis pelas bolas paradas (características das cobranças e zonas preferidas)? Escanteios são curtos, primeira trave ou na segunda trave?
    • Funções: como é realizada a distribuição das funções da equipe? É possível notar características individuais ou coletivas?
      • Individuais: É possível notar as atribuições táticas de cada atleta? Quais as características táticas (atribuições táticas definidas pelo treinador) ou individuais (jogadas características de cada atleta)?

OBS: Segue abaixo um quadro proposto para identificar Posição x Função x Características

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*Veja mais sobre função no excelente texto da colega Camila Aveiro (aqui) ou nesse do blog O Analista de Futebol (aqui)

      • Coletivas: os grupos que atuam em setores próximos possuem funções coletivas? Como é feita essa interação?
  • TÉCNICO
    • Características Ofensivas: quais são as principais características individuais ofensivas da equipe? Quais jogadores se destacam nestas características?
    • Características Defensivas: quais são as principais características individuais defensivas da equipe? Quais jogadores se destacam nestas características?
    • Características Defensivas: quais são as principais características individuais defensivas da equipe? Quais jogadores se destacam nestas características?
  • FÍSICO
    • Características:
      • Condicionamento: qual altura média da equipe? Jogadores maisaltos ou mais baixos? Qual a resistência física do elenco? Há muito desgaste físico durante os jogos? Equipe apresenta muito histórico de lesões?
      • Força/Explosão: equipe apresenta força para duelos e disputas no chão? Qual o nível aparente de explosão durante os movimentos?
      • Velocidade: equipe apresenta velocidade com ou sem a bola?
      • Impulsão: equipe apresenta sucesso durante as disputas aéreas?
      • Orientação Corporal: jogadores trabalham de modo sincronizado referente à orientação corporal em cada uma das situações do jogo? Linha de impedimento, marcação, fintas sem bola, etc.
  • MENTAL
    • Características:
      • Concentração: equipe costuma falhar com frequência? Em qual ocasião as falhas costumam ocorrer com mais frequência?
      • Tomada de Decisão: equipe costuma apresentar erros em tomadas de decisão simples? Jogadores conseguem ler e analisar os problemas que surgem durante cada lance da partida?
      • Segurança/Confiança: a equipe costuma se abalar quando inicia perdendo? Equipe demonstra “desespero” em quais situações? Jogadores demonstram confiança para agredir/investir (ofensivamente) contra o adversário? Equipe costuma arriscar? Como equipe trabalha com os riscos?
      • Liderança: quem são os líderes da equipe? Como é realizada a comunicação entre os jogadores?
      • Disciplina: equipe trabalha de modo disciplinado (fair-play)? Jogadores respeitam decisão da comissão técnica? Há muitos conflitos aparentes no grupo de jogadores ou na comissão?

PROPOSTA DE FORMULÁRIOS PARA A COLETA DE INFORMAÇÕES

Quer outros modelos?

Entre no nosso clube de vantagens:

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A utilização da metodologia proposta neste artigo poderá aumentar consideravelmente as chances de se analisar o modelo de uma determinada equipe, pois leva em consideração diversos fatores e possui um considerável nível de detalhamento. Obviamente que um MODELO DE JOGO REAL, estabelecido pela comissão técnica em um clube, contém inúmeras especificações além das mencionadas neste texto, que ficam difíceis de serem identificadas por quem observa as partidas.

Seguimos no árduo e fascinante caminho de análise futebolística, buscando sempre melhorar nossas análises agregando novas práticas e novos conhecimentos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • Entrevista de José Guilherme à Universidade do Futebol (2015) (link)
  • Artigo “How to create a game model” do site Spielverlagerung (2016) (link)
  • LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. 2009.
  • • GARGANTA, J. Modelação táctica do jogo de futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipas de alto rendimento. 1997. 302f. Tese (Doutorado em Ciências do Desporto e de Educação Física)-Faculdade de Ciência do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto, 1997.

@rafaellomaciel

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4 comentários sobre “COMO PODEMOS IDENTIFICAR UM MODELO DE JOGO?

  1. Rafael,

    Sou torcedor do Athletico Paranaense, e acompanhando algumas notícias, vi que os jornalistas deram informações como: “William Thomas, responsável pelo DIF (Departamento de Informações de Futebol)… Teve sob seu controle as definições de… decisão da integração tática [todas as categorias usando o mesmo SISTEMA DE JOGO(sic)]…” .

    https://www.tribunapr.com.br/esportes/atletico/atletico-vive-reformulacao-do-departamento-de-futebol/

    Outra notícia sobre a demissão do William Thomas dá conta de que: “… ajudou a implementar as diretrizes do DIF… indica contratações e idealiza o MODELO DE JOGO DO CLUBE”.

    https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/01/14/atletico-pr-demite-idealizador-de-modelo-de-jogo-e-departamento-de-futebol.htm?cmpid=copiaecola

    Minhas dúvidas são:

    1. É possível dizer que um clube possui não apenas uma cultura de jogo mas também um modelo de jogo próprio e completo ao qual seus treinadores de todas as categorias devam se adaptar e modificá-los de acordo? Ou será que os jornalistas se confundiram com a terminologia?

    2. Você conhece exemplos de outros clubes que possuem seu próprio modelo de jogo definido?

    Obrigado e abraço!

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