A volta da fábrica de craques do Vasco

Por Ricardo Leite

O Vasco da Gama é, reconhecidamente, uma das maiores fábricas de jogadores do futebol mundial. Dinamite, Edmundo, Romário, Felipe. Atualmente, podemos citar destaques como Coutinho e Allan, com grandes carreiras na Europa.

Há alguns anos, mesmo com boas revelações, a base do Vasco demonstra grande necessidade de reformulação e estruturação. Nesse caminho, no dia 28 de Janeiro de 2018, o Vasco contratou o executivo Carlos Brazil, para promover uma grande reformulação no futebol de base e integração com os profissionais. Essa atitude estava relacionada com pedidos, do então treinador vascaíno Zé Ricardo, com grande carreira no futebol de base.

Já em Março, as primeiras ações efetivas foram tomadas: no início do mês, Celso Martins e Marcos Valadares foram cobtratados para as duas categorias mais valorizadas: sub-17 e sub-20, respectivamente.

Em comum entre esses profissionais, a mentalidade do futebol ofensivo, de posse, controle e muito estudo. Profissionais que utilizam muito os analistas e prezam por cursos e novas metodologias de trabalho. Ambos acreditam que um jogador é formado de forma muito mais eficiente, numa filosofia “à lá” Cruyff, Guardiola, Sarri, entre outros.

Desde abril de 2018, com apenas um mês de trabalho, já era possível ver diferenças no comportamento e no desempenho dessas equipes, principalmente no sub-20, que acaba tendo mais visibilidade e cobertura da grande mídia. O ano de ambos foi muito proveitoso e contam com grande confiança da diretoria, atletas e torcedores.

Neste texto iremos analisar o trabalho do Marcos Valadares, visto com muita clareza durante a Copa São Paulo de Futebol Júnior, tendo conquistado o vice campeonato, perdendo nos pênaltis para o SP. A equipe saiu da competição de forma invicta.

A cobrança por resultado não era tão grande, já que muitos atletas que jogaram o ano de 2018 pelo sub-20 acabaram subindo à equipe profissional. Diante disso, os destaques do sub-17 integraram a equipe sub-20, o que, geralmente, causa grande impacto em competições de base.

Mas desde a fase de grupos, o que se viu, era um grupo extremamente preparado (até por Celso Martins utilizar a mesma filosofia no sub-17), que tinha as ideias muito bem assimiladas, cujo modelo de jogo dificilmente se altera ao decorrer das partidas.

E quais são os aspectos que caracterizam esse modelo de jogo? O Vasco joga hoje prioritariamente num 1-4-2-3-1. E por quê esse “1” antes da disposição tática que estamos acostumados? Porque Alexander (ou Lucão) que são os goleiros, participam ativamente do jogo. Isso acontece para que seja um desafogo, gerando superioridade numérica em relação ao adversário para fazer a saída pelo chão (chamada de saída apoiada).

Para isso também, é necessário que os zagueiros tenham essa habilidade. Miranda foi o que mais se destacou, mas até zagueiros mais “limitados” como Ulisses e Norões, não fogem destas características e priorizam este tipo de construção. Até por isso, não é incomum ver Valadares utilizar volantes na posição de zagueiros. Aconteceu com Ritter e Rodrigo (promovidos aos profissionais) e, durante a Copa SP, com Bruno Gomes.

Em relação aos volantes, o comandante do sub-20 geralmente opta por por leveza e forte capacidade construtiva – a partir do sistema defensivo em porções mais avançadas do campo, como um armador. Bruno Gomes e Caio Lopes foram os destaques vascaínos da posição ao longo do campeonato e exerceram diferentes funções dentro das partidas.

Bruno Gomes era o responsável por criar na base da jogada. A equipe fazia uma “linha” de 3 jogadores (os dois zagueiros abertos + Bruno Gomes recuado), e adiantava seus laterais. Bruno fez uma competição irretocável e foi um dos atletas mais elogiados. Volante inteligente, que controla o jogo, valoriza a posse, mas que tem muita qualidade no passe de ruptura (quando o passe ultrapassa a linha de marcação adversária e faz a equipe progredir no campo de jogo. Sem a bola, jogador intenso, de boa marcação, vai bem no duelo 1×1 e possui ótima leitura e posicionamento. Jogador pronto em termos técnicos e táticos, podendo ainda evoluir nos aspectos físicos e psicológicos.

dsSaída de 3 e goleiro se colocando como opção.

Ao seu lado tivemos, na maioria das partidas Caio Lopes, um jogador que pode ser descrito em uma palavra: INTENSIDADE. Caio subiu há pouco tempo, mas orienta seus companheiros o jogo inteiro e participa de todos os nomentos do jogo: marcação, transição defensiva, transição ofensiva e ataque propriamente dito. É um autêntico box-to-box (jogador que tem facilidade aparecer nas duas áreas durante a partida). Caio deu assistência, fez gol, finalizou de fora da área, desarmou, orientou, deu carrinho. Ele era o termômetro para a equipe sair de uma marcação em bloco médio para uma marcação alta. O Vasco marcava, normalmente, num 4-1-4-1 e quando ele se tornava mais agressivo e exercia perseguições, a equipe mudava sua forma de marcar. Além de “2° volante”, Caio também jogou de 1° volante, meia centralizado e até aberto, extremamente versátil.

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Vasco subindo a marcação e ocupando campo adversário.

Outra questão muito importante do modelo de Valadares são os extremos (pontas). Ele gosta de jogar com pontas invertidos (destro na esquerda e canhoto na direita), para dividir a responsabilidade da criação com o meia, são os chamados pontas construtores. Eles se posicionam bem abertos, para dar amplitude – que é uma ferramenta para abrir os sitemas defensivos e gerar espaços para infiltração. Mas, ao receberem, quase sempre optam pela jogada por dentro. E nas equipes de Valadares, esses jogadores precisam ser habilidosos, incisivos, com bom passe. Os que mais se destacaram nessas posições na Copinha foram Lucas Santos (que também jogou de meia) e João Pedro. Aliás, a forma de atacar do Vasco era bem peculiar, começava de forma cadenciada, com paciência e, ao chegar no ultimo terço do campo, ganhava intensidade através do talento individual desses jogadores.

Lucas Santos como ponta construtor, fazendo mais uma jogada por dentro.

O ataque contou ainda com Tiago Reis, apontado por muitos como um (apenas) finalizador. Entretanto, Tiago tem duas características de jogo que aumentam as opções da equipe. A primeira é o pivô. O jogador tem muita facilidade ao sair da área , sabe jogar de costas e distribui o jogo dessa posição “sem inventar”. A outra (ainda mais importante) é a sua capacidade de movimentação. Faz diagonais curtas muito interessantes. Nesse movimento, ele sempre se preocupa com a linha de impedimento e se desloca no limite, dificultando a marcação. Dessa forma, muitas foram as bolas que recebeu em condição de finalizar cruzado. Além disso, há outro benefício nesse tipo de jogada, que é a geração de espaços para infiltração de outros jogadores.

Exemplo da diagonal curta do centroavante. Terminou em gol!

Apesar de ter terminado a competição com a melhor defesa, o Vasco era um time que se arriscava demais, pois escolhia ser extremamente ofensivo, mesmo sabendo que poderia ceder espaços para os adversários. E essa é uma das razões para o Gigante da Colina utilizar outro aspecto de jogo muito presente nas grandes e ofensivas equipes do mundo: a pressão pós-perda. Explico: ao perder a bola no campo de ataque (ou qualquer outro local do campo), os jogadores do setor exercem grande pressão imediata no local a fim de recuperar a posse, ou parar o lance. Tendo, inclusive, marcado alguns gols dessa forma na competição.

dsApós pressão de Caio Lopes, Tiago Reis faz mais um na Copinha.

Alguns jogadores antes criticados por nós (@analisevasco), como Tenório (LD), Coutinho (LE) e Ulisses (zagueiro), fizeram uma competição acima do seu nível individual e merecem reconhecimento. Isso se deve muito ao fato do coletivo ser forte. Os reservas também foram muito bem utilizados por Valadares, que demonstrou sabedoria e conhecimento do seu grupo, utilizando diferentes jogadores, em diferentes funções, como Werick (Centroavante e meia), Laranjeira (volante e meia), Riquelme (LE e ponta) e Talles (centroavante e ponta).

Como nem tudo é perfeito, acredito que o professor vascaíno pode buscar potencializar as participações ofensivas dos laterais do Vasco nas próximas competições, a fim de gerar mais jogadas de superioridade numérica pelos flancos e também as ultrapassagens e cruzamentos da linha de fundo.

@analisevasco

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