Flamengo em 2019, finalmente engrena?

Por Luan Silveira e Lucas Mateus

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Em 2018 o Flamengo já possuía um dos times mais interessantes do Campeonato Brasileiro, nomes como Lucas Paquetá, Everton Ribeiro, Vinicius Júnior, Cuellar, Léo Duarte se destacaram durante todo o ano rubro negro. Alguns saíram no meio da temporada, Vinicius, mas chegou Vitinho, Uribe e PIris da Motta, reforços interessantes, nesse inicio de ano o time perdeu seu melhor jogador, Lucas Paquetá, mas conseguiu Gabriel “Gabigol” Barbosa, De Arrascaeta e Rodrigo Caio, ainda com possibilidade de chegada para Bruno Henrique do Santos, além do técnico Abel “Abelão” Braga.

Será que nessa temporada o Mengão finalmente sai da fila e conquista ao menos um grande título? Nesse texto vamos tentar entender como pode funcionar essas peças dentro de um sistema que potencialize seus talentos e suas principais características. Apresentaremos diversos modos possíveis de jogo, pautados nos já destacados por Abel, Time A e Time B.

Time A

Considerado o time principal, com os melhores jogadores, time esse que deve focar na conquista da Copa Libertadores da América, reunião de grandes estrelas e talento.

Isso partindo de um 4-2-3-1, ou 4-3-3 com um MEI e dois VOL. Dessa forma:

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Ataque Posicional

Dorival Júnior aplicou no Flamengo um sistema de Ataque Posicional, nada mais é que o domínio do espaço através dos conceitos estruturais, sempre fornecendo apoio e simetrias, veremos um exemplo de como funcionava esse sistema:

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Esse sistema tinha bons conceitos e funcionou muito bem em certo momento da passagem do treinador pelo Ninho do Urubu. Focado em triângulos laterais, formados por Arão – Rodinei – Everton Ribeiro, na direita, e Renê – Vitinho – Paquetá, na esquerda. O triangulo da direita era bem móvel e fluido, sempre mantendo as características de base – amplitude/profundidade – entrelinhas, mas sempre trocando funções e posições, na esquerda o triangulo era mais fixo, mantendo-se presos ao espaço, Paquetá mais livre, mas sempre nas entrelinhas.

Com essas associações, tínhamos Uribe como um 9 móvel, se movendo por toda a profundidade, as vezes até fora dela, para criar paredes e participar de tais associações, dando opção de passe diagonal ou vertical, ganhando metros, movimentação permitida graças ao posicionamento fixo de Vitinho na profundidade e a capacidade de Rodinei em gerar profundidade graças ao seu físico e velocidade, mesmo que com a sua baixa técnica ofensiva.

Pensando no time de 2019, imaginando um cenário posicional, pode ser bem interessante, veremos:

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Por causa da queda física em relação Paquetá e Arrascaeta, é mais viável colocarmos uma dupla de meio campistas defensivos, com Piris da Motta e Cuellar, protegendo, dando físico, capacidade técnica para a manutenção da posse, balanço defensivo da transição negativa. Uma base sólida para permitir diversas movimentações no terço final, mas com pouca capacidade de passe verticais, por isso a necessidade de uma possível movimentação de apoio por parte de Everton Ribeiro.

Assim como no anterior, temos Vitinho em profundidade, aberto no lado esquerdo, para receber em 1×1, e poder criar uma situação de gol, Gabigol emula o 9 móvel de Uribe, mas dando opção de rupturas, principalmente pela direita, atacando os espaços nas costas da defesa adversária. Liberdade de movimentações para Arrascaeta e Ribeiro, podendo se aproximarem sempre da bola, associar-se e criar jogo.

Apesar disso, Arão deve ser titular com Abel, ou seja, teríamos algo assim:

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Perde-se físico e imposição nas transições negativas da base, mas ganha-se em infiltrações e jogo aéreo ofensivo de Arão. A construção pode ser afetada pela falta de intensidade do camisa 5, lentidão dos movimentos técnicos e fraqueza física. Também há uma certa duvida entre Rodinei e Pará, o segundo é mais técnico, bom passe e até mesmo mais associativo, pode exercer a amplitude na direita, sem tanta imposição física, mas com melhores tomadas de decisões.

Time B

Time secundário, focado na disputa do brasileiro, time mais reativo e direto.

Isso partindo de um 4-3-3, dessa forma:

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Focado em um jogo mais direto e vertical, usando da explosão de Bruno Henrique e Berrio, da boa recepção de bolas longas feita por Uribe, permitindo um Diego mais próximo do gol, enquanto Jean Lucas é o principal ritmista, porém, também pisando em zona de finalização.

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Aqui cabe um adendo, Trauco seria importante para lançar as bolas no espaço, pelo passe longo qualificado, cruzando cedo e buscando ser o gatilho de verticalidade ideal. Pará mais por dentro, apoiando o jogo de Berrio completamente aberto, para correr metros, aproximando de Piris e Jean para associar-se.

Se fosse Rodinei, provavelmente teríamos uma incompatibilidade nesse sentido, já que Berrio e o lateral atacam melhor por fora, o camisa dois é pouco associativo e funciona melhor lançado no espaço, igual ao camisa 28. Mas teríamos algo assim:

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Um time mais reativo, principalmente para potencializar seus extremos, atacando o espaço em campo aberto e em velocidade, ataque ao espaço, bolas longas, ataque direto, transições, uma equipe mais simples e veloz.

Uma equipe funcional

Quando falamos em muito talento junto, jogadores com ótima capacidade de desmarques, capazes de se movimentarem e criarem, jogadores como os que tem a equipe rubro negra, um funcional, jogo que parte das ações realizadas por um jogador em campo, assimétrico e foca nas associações, seria perfeito. Veremos:

Partindo, inicialmente de um 4-2-2-2, considerando até mesmo Rafinha, outro provável reforço do Flamengo:

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Um sistema funcional é caracterizado por assimetrias, ou seja, formação de lado forte e lado fraco, determinados pela localização da bola, ou seja, onde a bola estiver teremos aglomeração de jogadores, no lado contrario tentaremos explorar com infiltrações ou técnica de 1×1.

Bola na esquerda:

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Trauco é muito potencializado nesse sistema, por ser um lateral muito associativo.

Função dos jogadores:

Gabigol – Centroavante. Postado em profundidade, servindo como parede.

Vitinho – Extremo Esquerdo. Aberto no lado, também em profundidade, recebendo no desmarque de ruptura, ou para o 1×1.

Arrascaeta – Segundo Atacante. Flutuando entre o espaço entrelinhas e a profundidade, entrando em espaços criados por Gabigol.

Trauco – Lateral Associativo.

Everton Ribeiro – Meio Campista Construtor. Variando entre a base e as entrelinhas, cola entre os sistemas.

Rodinei – Lateral Interior. Atacando por dentro, mas também por fora, no lado fraco.

Cuellar – Opção de Retorno e Balanço Defensivo.

Piris da Motta, Rodrigo Caio e Léo Duarte – Balanço Defensivo.

Nota-se duas diagonais, mecanismo usado para evitar contra-ataques adversários, criando densidade defensiva para evitar que o adversário receba em campo aberto.

Arrascaeta, Vitinho e Gabigol são os principais responsáveis pelos desmarques, de apoio ou de rupturas, sempre móveis e com compensação de movimentações intuitivas de seus companheiros.

Bola na Direita:

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Nesse sistema, Trauco é potencializado por poder finalizar de média distancia ou por receber com tempo e espaço para cruzar.

Função dos jogadores:

Gabigol – Falso 9. Saindo para associar-se.

Vitinho – Extremo Esquerdo. Aberto no lado, também em profundidade, recebendo no desmarque de ruptura em diagonal, ou para o 1×1.

Arrascaeta – Meio Campista Construtor. Variando entre a base e as entrelinhas, cola entre os sistemas. Realizando os demarques de ruptura com uma distância maior, mas mais participativo na criação e construção.

Trauco – Lateral Interior. Atacando por dentro, mas também por fora, no lado fraco.

Everton Ribeiro –Meia Direita. Centralizando para receber em zona de finalização e criação ou aberto para receber no 1×1.

Rodinei – Lateral Associativo. Rodinei é falho nisso, mas Rafinha, provável reforço, pode ser potencializado.

Piris da Motta– Opção de Retorno e Balanço Defensivo.

Cuellar, Rodrigo Caio e Léo Duarte – Balanço Defensivo.

Formação de 3 diagonais defensivas, com Gabigol variando entre duas delas, mesmo objetivo das outras.Everton Ribeiro, Arrascaeta, Vitinho e Gabigol os fundamentais nos desmarques ofensivos, apoio ou ruptura, Vitinhodo lado fraco.

Organização Defensiva

Já no momento defensivo, um pouco mais simples que o ofensivo, a tendência é o time marcar com um bloco mais alto, ou seja, no campo do adversário, segundo recentes entrevistas de Abel Braga. Essa marcação pode vir através do pressingestruturado em bloco alto, ou em uma pressão pós-perda, essa muito difícil de se manter durante toda uma temporada no futebol brasileiro. Importante ressaltar que Abel deu a entender em entrevistas, e no modo que armou o time na Florida Cup, que tentará liberar atletas da marcação em alguns momentos. Foi possível observar pelo menos um e algumas vezes até dois jogadores postados de modo a já iniciar a transição ofensiva.

Defesa Posicional

Partindo de um 433 (4231) no momento ofensivo, onde o segundo volante infiltrará com frequência, Arão principalmente, a transição defensiva se dará no 433, na espécie do 4141, pois o 2º volante estará na mesma altura, ou mais avançado que o meia, principalmente para facilitar os gatilhos de intensidade no pressing estruturado. Dessa forma, os jogadores encaixariam no atleta mais próximo a sua posição (seja fechando a linha de passe ou não), com o extremo do lado oposto da bola se posicionando de modo a vigiar duas opções de passe, uma delas sendo o atleta posicionado para receber uma virada de jogo. No exemplo a seguir vemos como funcionaria caso o adversário estivesse com a bola pela esquerda de sua defesa e partindo de um 4-4-2.

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Vencida a pressão, ou não sendo ela feita, o time se portando em bloco médio/baixo tende a marcar em 442 (4411), com os extremos podendo descer juntos à linha de volantes ou apenas quando a bola estiver no seu lado de modo a facilitar a transição ofensiva caso a bola seja recuperada, com um dos dois mais avançados (meia ou o centroavante) fechando linha de passe do retorno adversário, enquanto o outro se posiciona pra iniciar o contra-ataque. A seguir, como seria caso o adversário atacasse pelo lado esquerdo da nossa defesa e a bola estivesse com o ponta-direita.

No time B, que contará com pontas mais velozes e focará em jogar mais sem a bola a tendência é essa pressão ocorrer com menos frequência, e os jogadores buscarem, ao roubar em bloco baixo, acionar os pontas ou o atacante lançando no espaço, no ponto futuro, potencializando assim a capacidade de receber em campo aberto dos extremos.

Importante que a linha de defesa esteja postada de forma um pouco mais estreita do que a segunda linha de modo a proteger melhor a frente da área (vulgo “funil”), usando o conceito de linha sustentada, que estatisticamente é o local onde os times mais sofrem gols e que foi responsável por 40% dos gols sofridos de bola rolando ano passado no Campeonato Brasileiro (50% dos gols saíram pelo lado direito, onde o time apresentou problemas o ano todo pois era o lado que o lateral avançava mais e não foi encontrado um sistema eficiente de compensações).

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Meia fechando linha de passe de acordo com a posição da bola em relação a opção de retorno

  • Três zagueiros?

Logicamente, essas não são as únicas possibilidades de formações defensivas a partir do 4-3-3 que Abel disse pretender utilizar, vez que também ressaltou a possibilidade de jogar num sistema de 3 zagueiros, entretanto não é a que ele parece estar treinando de início. Não obstante, aqui está uma possibilidade de formação defensiva em bloco baixo no 3-5-2(5-3-2). A única diferença possível em relação ao time que ele aparenta colocar de titular é a mudança nas laterais, e a entrada de Rodrigo Caio no lugar de Arão, que inclusive não elimina a possibilidade de jogar em 4-3-3 iniciando com linha de 3 atrás. Exemplo com a bola no mesmo lugar do caso anterior:

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Ala do lado da bola daria combate na segunda linha e o balanço defensivo ocorre com o ala do lado oposto fechando na primeira linha. Interior pela direita recua conforme a localização da bola ou orientação do treinador.

Defesa Funcional

Aqui a transição defensiva, caso Abel pretenda realmente marcar mais avançado, provavelmente seria uma pressão pós-perda intensa de modo a permitir que os jogadores que flutuaram pro lado da bola pudessem retornar as suas posições, sem deixar de tentar roubar essa bola no campo de defesa adversário pra poder verticalizar e definir rapidamente a jogada.

A intensidade e altura da pressão provavelmente alternará dependendo do time que entre em campo. O A focaria em pressionar por mais tempo e visando roubá-la, enquanto o B pressionaria de modo a facilitar a recomposição de quem flutuou para o lado da bola, e visando secundariamente em roubar no campo de ataque.

Em bloco baixo o posicionamento defensivo pode ser o mesmo do time que parte do posicional, mas o ataque funcional permitirá o time defender de outros diversos modos, entre eles o 4-3-1-2, tal sistema foi visto no segundo tempo do primeiro jogo da Florida Cup. Nele, os atacantes de frente se revezariam para acompanhar o lateral do seu lado que subisse ao ataque (Ex1), enquanto o outro se projetaria para o contra-ataque juntamente do “10”, ou ambos os atacantes esperariam na frente (ex2), e o time marcaria os lados fazendo o balanço defensivo, ou seja, a linha de três do meio flutuaria pro lado da bola, com o armador atento ao lado oposto pra uma virada rápida, mas pronto pra sair no contra-ataque também. Ambos os estilos requerem bastante intensidade e sincronia na marcação, e se usados provavelmente não serão durante todo o jogo.

Exemplos a seguir:

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Ex1 – Bola com o lateral-esquerdo adversário:

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 Ex2 – Bola com o meia aberto pela direita.

No sistema funcional, a pós-perda será fundamental, bem guardada pelas diagonais, poderemos ter combates duplos e encaixes individuais em pontos certos, evitando que o adversário consiga tirar a bola da Zona de Pressão, ou seja, não consiga acionar o corredor contrário.

No Lado Esquerdo:

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As diagonais dão densidade, evitando que o adversário receba em campo aberto para acelerar, mesmo com as aproximações para a pressão, deve-se visar a manutenção dessas. Congestionar o setor da bola com os encaixes, sabendo compensar movimentações verticais de pressão, consegui anular as tiradas de bola da pressão, roubando-a em campo alto, pode ser muito bom para definir rapidamente, ainda mais com ótimos finalizadores de média distância.

No lado direito:

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Encaixes individuais, pressão dupla ao portador, divisão da zona do campo, evitando a bola seja alçada no lado contrário. Necessário muita intensidade, densidade dada por linhas diagonais, focada em proteger o centro, com um homem defendendo a extrema esquerda.

Preferência do autor (Luan)

Usando 4-3-3/4-2-3-1, usaria Cuellar como segundo homem de meio, de modo a liberar mais Pará pela direita pra interagir com Everton Ribeiro e permitir que ele pressione no campo de ataque, aproveitando, portanto, sua capacidade de combate no 1×1, além da sua leitura de jogo pra conseguir interceptações em uma zona mais próxima ao gol adversário. A entrada de Rodrigo Caio no meio permitiria uma alteração de 4-3-3 pra 3-5-2 dentro da partida sem fazer alterações.

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@luansilveirap e @LucaM008

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Um comentário sobre “Flamengo em 2019, finalmente engrena?

  1. Na estreia do carioca, tivemos um time com uma boa variação de posição no 1 tempo, segundo o time estava exausto e mais fixo. Everton Ribeiro aparecendo algumas vezes na esquerda com o vitinho e o Diego fechando pelo meio. Mas também tivemos o Diego na esquerda, com o vitinho pelo meio. O Abel parece ter acrescentado uma troca de posição dos atletas mais constante. Achei o lado esquerdo lado forte(uma mudança já q o time sempre joga pela direita), por isso Pará apareceu muito cruzando com liberdade e sendo a opção de profundidade. O q e difícil de se manter devido ao seu físico.

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