Vanderlei Luxemburgo, Telê Santana e Tite – o domínio do talento no futebol brasileiro

Por Lucas Mateus

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Desde Arthur Friedenreich, passando por Leônidas da Silva, Didi, Garrincha, Pelé, Zico, Sócrates, Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Neymar, entre tantos outros, o talento sempre foi a maior arma do futebol brasileiro, a gingada diferente, a velocidade e precisão dos movimentos técnicos, a naturalidade para jogar, sempre foi algo impressionante da nossa escola de futebol.

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Nos últimos dias, ao dar uma entrevista para o Esporte Interativo, Vanderlei Luxemburgo levantou alguns questionamentos interessantíssimos sobre o nosso futebol, primeiro assistam esse vídeo:

A seguinte frase do pofexô é impactante e bem reflexiva para nosso cenário: “Se fala muito em esquema tático e não está se ensinando mais o jogador (…)”, Luxa faz parte de uma escola mais antiga do nosso futebol, uma escola onde a técnica era quem reinava, uma escola pautada no talento, nos jogadores e não nas estratégias, não no sistema.

Telê Santana, em entrevista ao programa Roda Viva, quando questionado sobre seus treinamentos disse dar mais foco a técnica que a tática, segundo o próprio, isso se dá fato de que se o jogador não souber jogar, pouco importa suas estratégias.

Mestre Telê dizia que o jogador perfeito era aquele que sabia passar, finalizar, dominar, cabecear e cruzar com perfeição, ou seja, jogadores completos ao realizar os movimentos técnicos. E para isso, seus treinos eram muito voltados ao lado do desenvolvimento do jogador, ensinando fundamentos e movimentos técnicos, buscando que cada jogador cometesse o mínimo número de erros nessas situações.

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Deixo aqui a entrevista do grande Mestre Telê:

Desde os primórdios o jogador brasileiro é como um pássaro, livre e espontâneo, ou seja, não pode ser limitado por regras implantadas por técnicos, por isso o surgimento de assimetrias, aproximando e fazendo com que talentos se associem e criem jogo através da qualidade. O jogo brasileiro é livre, espontâneo, talentoso, vistoso, do jeito brasileiro. Por isso, tanto foco no desenvolvimento técnico dos jogadores, basta lembrarmos de Cafu e Telê, o técnico desenvolveu toda a técnica do capitão do penta.

O talento brasileiro quando exponenciado é tão, ou até mais, fatal quanto uma boa estratégia, permitir tais conceitos anti-posicionais, aproximações, associações, assimetrias, jogadas individuais, talento exposto e fundamental no jogo, criou-se então uma cultura de técnica e não tática. Exponenciar talento e deixar que ele decida, isso era o trabalho de um técnico brasileiro, e convenhamos que talento sobrava/sobra por aqui.

Na mesma entrevista, Luxa destaca Keno e sua capacidade de quebrar linhas, driblar e fazer coisas diferentes, coisas espontâneas, coisas que partem do talento do próprio jogador, coisas da técnica e da habilidade.

Não que Telê ou Luxa, ou qualquer técnico brasileiro do passado, não usassem táticas, usavam, muito bem inclusive, mas a base, o fundamento, a origem do nosso futebol se dar no talento e na espontaneidade, se dar através da técnica e da habilidade, da capacidade espontânea dos nossos jogadores.

“Agora fica todo mundo robô, todos os times jogam parecidos”. Mais uma citação reflexiva e bem polemica de Vanderlei. É muito compreensível toda essa revolta, pelo o contexto que ele se desenvolveu como pensador e influenciador do nosso futebol, Luxa é acostumado a trabalhar talentos, a conseguir desenvolver os jogadores nos seus movimentos técnicos, a exponenciar talento e espontaneidade, por isso não enxerga o tatiquês com os mesmos olhos dos mais atuais.

A visão de Vanderlei não é ultrapassada, ela é diferente da dos novos técnicos, ela é a visão que lhe foi passada por Telê e outros pensadores e influenciadores que vieram antes dele, é a visão do talento, mas nos últimos anos a visão da estratégia vem chegando cada vez mais forte no futebol nacional, o tatiquês começa a tomar conta, principalmente dos novos técnicos, e isso gera alguns problemas em jovens potenciais para técnicos do futuro do nosso futebol.

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O futebol é conjunto, todos devem sentir e respirar o jogo de forma igual ou parecida em uma equipe, para que toda a ideia seja bem-sucedida. No Brasil, tem surgido bons estrategistas que pecam nas outras partes que envolvem uma equipe, a parte técnica vem sendo pouco explorada, prejudicando a natureza do nosso futebol, temos as vezes jogadores presos a espaços, não podendo sentir ou respirar o jogo da forma correta, da forma como eles sentem esse jogo desde que eram apenas moleques que brincavam na rua, criando certas anomalias do nosso jogo.

Muitos técnicos com boas teorias, mas falta de aplicação prática, ou seja, alguns com boas ideias, mas com os jogadores despreparados para cumpri-las, seja por falta de aprimoramento técnico ou por ideias prejudiciais aos jogadores, entre tantos outros problemas. Assim como já existia problemas nas gerações passadas, e sempre continuarão existindo.

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No início de seu trabalho na Seleção, Tite montou um sistema funcional, focado no talento de seus jogadores, permitindo assimetrias para criar associações, aproximações e assim deixar com que o talento de seus comandados fluísse e isso ocasionou muitas das nossas vitorias sobre o comando de Adenor. Fundamental a forma como Tite interpretou e soube aplicar nosso principal fundamento em um jogo moderno, gênio.

Coutinho, Neymar, Renato Augusto, Jesus e Marcelo eram os jogadores mais talentosos da seleção, todos próximos, participativos, associativos, criativos, esbanjando talento, espontaneidade e assim gerava um futebol vistoso, Tite conseguiu entender a nossa essência nesses momentos.

Foto do primeiro gol contra a Argentina, naquele 3×0:

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Gol pautado na proximidade do talento, Coutinho era ponta direita, mas flutuava todo o campo para se aproximar do lado esquerdo, tornando-o lado forte e associando muito talento e muita espontaneidade em conjunto, criando a superioridade qualitativa da equipe. Gol ao estilo brasileiro.

Melhores momento dessa partida:

Sobre esse sistema de Tite, indico o grande trabalho de @Jozsef_Bozisk: Esse sistema de Ataque Funcional foi extremamente positivo na seleção brasileira, permitindo que talentos fossem maximizados, buscando o fundamento do futebol brasileiro, uma Seleção Brasileira com cara de futebol brasileiro, fugindo do domínio de espaços dos europeus, buscando o talento e a espontaneidade que tanto nos marcaram.

Um exemplo ideal do nosso futebol é o gol de Carlos Alberto Torres na final da Copa do Mundo de 1970:

A espontaneidade desse lance, as aproximações, as assimetrias, a criação de aglomerações no lado esquerdo, a naturalidade, o talento, são os fundamentos desse gol. O atrair e enganar, o jogo vistoso, a posse, tudo se encontra ali, síntese do futebol brasileiro.

Falemos da relação entre o Talento Brasileiro, Espaço e o Tempo. O Talento Brasileiro sempre foi ponto de desequilíbrio quando falamos nesses conceitos, o mínimo espaço parece quilômetros quando Ronaldinho ou Garrincha dominavam a bola, Romário ou Ronaldo não precisavam de muito espaço para encontrar uma finalização certeira e marcar, Zico ou Sócrates encontravam passes incríveis pelo o único espaço possível, Pelé fazia como queria no mínimo espaço. O mínimo Tempo parecia horas quando Romário dominava dentro da área, quando Zico recebia de frente pra área e começava o movimento técnico para finalizar, quando Ronaldinho vinha na sua direção para realizar o drible e finalizar, o Talento Brasileiro não depende do Espaço e do Tempo, o talento molda esses conceitos de acordo com o seu desejo, não é necessário receber em um contra um, Ronaldinho era perigoso mesmo se enfrentasse os onze jogadores adversários, a vantagem qualitativa era enorme, o talento moldava o jogo a sua imagem.

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Luxa não está errado ao questionar o porquê de ser tratado como ultrapassado, principalmente quando seu companheiro Felipão acaba de ser campeão brasileiro ao saber como usar o talento de cada um dos seus comandados, nem os novos técnicos estão errados ao respirar o jogo de outra forma, é questão de momentos, um não pode anular o outro, são visões e forma diferentes de sentir o  mesmo esporte, o mesmo jogo, é essa variedade que torna o futebol tão lindo.

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Futebol não envolve só o campo, envolve muito mais, contextos, inspirações, estudos, escolas, entendimentos próprios e que se herda de alguém, é muito maior que apenas um jogo, é como filosofia, cada um sente e respira da sua forma, mas não há certo ou errado, há visões, ideias e ideais.

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“Atingir a perfeição é impossível. Mas, aproximar-se cada vez mais dela, não.”, acho que não existe frase mais perfeita que essa para definir Telê, o autor, Luxa, Tite e todo o futebol brasileiro.

@LucaM008

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