Rapidez, mobilidade e liquidez. O 4-3-1-2 de Pochettino.

Por Lucas Mateus e Davi Magalhães

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No inicio existia apenas o caos, o dominante, o grande e majestoso caos no futebol, esse caos era derivado das disputas por tempo e espaço, nem um pouco elaboradas no inicio do esporte. Com o tempo foram surgindo ideias que visavam anular o máximo possível desse caos, muito preciosismo e tentativa de controlar todos os movimentos possíveis da sua equipe e da adversária, aumentar o tempo, com paciência para decidir, e controlar os espaços através do posicionamento, porém o caos sempre esteve ali, e sempre vai estar.

Pochettino busca criar situações onde esse caos seja usado a seu favor, diminuir o tempo necessário para concluir um lance, dominar espaços com naturalidade e mobilidade, a partir das associações, deixar com que seus jogadores ajam com naturalidade e entendam qual a necessidade do jogo naquele momento, entrosamento, companheirismo, entre outros elementos são fundamentais nesse estilo de controle do caos.

Para realizar tais elemento, Mauricio Pochettino usa de um 4-3-1-2. Mas por qual razão Pochettino mudaria o sistema para um 4-3-1-2?

Claro que o esquema tático não é tudo dentro do jogo e não define o modelo de jogo adotado pelo time. O que importa são as ideias. Porem, o esquema não é completamente inútil. Ele se refere a como aquela equipe aplica as ideias de seu treinador.

Seguindo a ideia do caos e da sua influência em um jogo de futebol, vamos entender com Pochettino tenta controlar esse elemento ao seu favor, usar dele contra seus adversários, buscar o “caos controlado”.

Pochettino gosta de ter a bola, seus times sabem muito bem propor o jogo. Porém, ele faz isso de maneira diferente a de Guardiola, por exemplo. Nos mostrando como é possível propor o jogo de distintas maneiras. Guardiola prefere um jogo mais paciente, procurando construir o jogo através da circulação de bola, com os jogadores do City procurando controlar o espaço primeiro para assim receber a bola. É o jogo de posição, onde cada jogador ocupa uma posição e utiliza a bola como ferramenta desse jogo. Já Pochettino prefere dar mais verticalidade ao seu jogo.

Quando o Tottenham possui a posse da bola e busca marcar gols, time busca ser veloz, dinâmico e líquido (um time onde os jogadores têm mais liberdade de se movimentar pelo campo) nesses momentos, privilegiando as associações e movimentações dos jogadores, não os perdendo ante o sistema, mas sim tendo eles como protagonistas, uma espécie de “espontaneidade que gera a organização” considerando os padrões de movimentação:

Esse 4-3-1-2 ou 4-4-2 losango permite que os jogadores estejam mais próximos para associar, trocar passes, atacar os espaços e assim criar chances de gol. Muitas vezes com poucos passes. Por dentro Kane, Son, Dele Alli e Eriksen estão próximos uns dos outros. Criando superioridade numérica por dentro, podendo concluir o jogo por dentro e principalmente, por fora com a ultrapassagem dos laterais. Atraindo o adversário pelo meio – com muitos jogadores por ali – para atacar pelos lados do campo com os laterais, que sempre atacam o corredor quando a bola gira para o seu corredor. Como os jogadores estão muito próximos, o Tottenham sempre ataca com muitos jogadores. É um ataque mais rápido, dinâmico e letal.

A verticalidade acompanhada da mobilidade do time do Tottenham é uma grande sacada de Pochettino. No plantel possuem muitos jogadores velozes, que sabem muito bem correr com a bola, aproveitando muito os espaços: Lamela, Son, Lucas Moura. E outros com ótima leitura dos espaços, caso de Alli e Kane. Por isso, o ataque aos espaços é tão letal nesse Tottenham. Sendo tão bem-sucedido pelo entrosamento dos jogadores, que sabem muito bem associar e atacar os espaços que surgem na defesa adversária. É da aí que vem o “movimentar-se e associar-se”. Ideia muito bem assimilada pelos jogadores ofensivos, sobretudo a dupla de ataque. A dupla de ataque (normalmente Kane e Son) se entende muito bem. Ambos possuem muita qualidade técnica, por isso se movimentam muito. Caindo pelos lados ou recuando para associar, criando espaço para o companheiro ocupar. Seja quando é pressionado e atrai o adversário para o seu campo de defesa para depois atacar os espaços no campo de ataque (utilizando muito a bola longa para Kane nesse momento) ou quando é atacado.

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Movimentar-se e associar-se, a síntese do Tottenham de Pochettino

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Fazendo um resumo rápido dos mecanismos e funções que envolvem o time nesse momento:

  • O lateral do lado da bola sempre sobe e apoia os jogadores, enquanto o lateral do corredor contrário fica para o balanço e na base junto de Winks.
  • Winks é quem dar ritmo e organização para a equipe, principal construtor, também é responsável por tirar rapidamente a bola da zona de pressão e buscar o lado contrário, quando temos Dier, temos um terceiro zagueiro, limitado com a bola no pé, mas que entrega uma segurança a mais na defesa.
  • Sissoko é o físico, a intensidade, cumpre funções de cobrir Trippier e atacar os espaços nas subidas dos laterais adversários. Fundamental para as transições defensivas, ataque-defesa, e principal combatente do meio campo.
  • Eriksen é o todocampista, meio-campista livre para movimentar-se, associar-se, criar e finalizar, jogador mais técnico da equipe, se aproxima sempre da bola e chama a responsabilidade da criação. Não se prendendo apenas em uma função ofensiva. Eriksen sabe construir, criar e finalizar as chances de gol.
  • O trio ofensivo é formado por um centroavante, um segundo atacante e um jogador de ligação entre os setores, na teoria, já na prática, há muita movimentação, trocas de posições, aproximação e associações entre eles. Son é o mais veloz e por isso principal arma no um contra um, Alli possui muito boa técnica para criar e explorar espaços, além do bom físico e Kane é a referência móvel, sai para receber ligações diretas e participa bastante fora da área, além de ser um matador dentro dela.

Dito isso, faz mais sentido entender por que Pochettino, que adotou mais vezes o 4-2-3-1 no Tottenham, resolveu mudar o esquema do time para um 4-3-1-2 para que o Tottenham execute muito bem aquilo que acredita e gosta no futebol.

No momento defensivo, o time procura sempre pressionar a saída de bola adversária (principalmente nos 15 minutos inicias da partida), adiantando seus jogadores no campo de ataque para roubar a bola mais próximo ao gol e não deixar o adversário sair jogando com tranquilidade.

Através de encaixes individuais, um jogador do Tottenham pressiona o portador da bola, enquanto os jogadores próximos cortam as opções de passe do portador. Aí que entra a questão do esquema tático. Esse 4-3-1-2 ou 4-4-2 losango ajuda nessa marcação adiantada no campo do adversário. Pois, os dois atacantes encaixam nos zagueiros e esse “1”, o meia atacante, encaixa no volante adversário (geralmente o primeiro volante adversário). Assim, só resta ao adversário jogador pelas laterais. É nesse momento que entra a linha de 3 do meio-campo. A linha de 3 se movimenta em direção a bola. Assim, o meio-campista do lado da bola e o volante dos Spurs encaixam nos adversários. Movimento que corta as opções de passe do portador. Com a pressão que o time faz em quem tem a bola, o adversário tem dificuldade de virar o jogo (onde o lateral do lado oposto está livre). Por isso, o meio-campista do lado oposto flutua em direção a bola. Criando uma superioridade posicional (ocupando os espaços de forma melhor que o adversário) no lado da bola e cobrindo os espaços no meio-campo. Assim, o Tottenham consegue reduzir o campo de jogo do adversário, dificultando a saída de bola adversária, com o objetivo de roubar a bola rapidamente. O vídeo abaixo mostra bem isso.

Inclusive em momentos em que o adversário está com a bola no campo defensivo do time, o modelo privilegia a verticalidade, rapidez. Por isso, o time mesmo em campo de defesa, próximo ao seu gol, se defende em 4-3, de forma mais zonal, com menos pressão no portador. Uma vez que a equipe se defende com menos jogadores, em função da melhor eficácia na transição ofensiva. O meia atacante Alli costuma ficar a frente da segunda linha defensiva de marcação, encaixando no primeiro volante adversário e os atacantes voltam somente até a intermediária.

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Tottenham se defendendo no 4-3-1-2, com os dois atacantes mais a frente, já preparados para explorar os espaços na defesa adversária no momento em que o time recuperar a bola.

Em alguns momentos quando o adversário cria superioridade numérica no lado do campo, um dos atacantes retorna. Como Son atua mais pela esquerda e Kane pela direita, se o adversário está com a bola pela esquerda, Son retorna no setor e Kane fica a frente, e vice-versa. Isso é fundamental para a verticalidade e rapidez do time com a bola. Pois, ao deixar pelo menos um jogador a frente no momento defensivo, quando o time recuperar a bola, sempre haverá pelo menos um jogador pronto para ser lançado e explorar o espaço na defesa adversária nos contragolpes.

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Na imagem, Kane acompanhava a subida do zagueiro (David Luiz) ao ataque. Por isso, Son não voltou para formar o sistema defensivo do Tottenham. Quando o time recuperou a bola, Son se projetou para receber a bola no espaço e partir em direção ao gol adversário.

Após 21 rodadas da Premier League, o Tottenham é o 3° colocado, dois pontos a menos que o vice-líder Manchester City e seis pontos a menos que o líder do campeonato, Liverpool. É mais uma temporada em que o time faz uma ótima campanha no campeonato inglês, além de se classificar mais uma vez para as oitavas do torneio de mais alto nível entre clubes do mundo, a Champions League.

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Perceba nos números o poderio ofensivo do Tottenham, que marcou gols em 97% dos jogos da temporada. Outros pontos interessantes de observar são: o ataque pelos lados do time (atraindo o adversário pelo meio para atacar por fora), o índice de desarmes no  campo de ataque (21,7%) e o protagonismo de Eriksen e Harry Kane.

O trabalho de Mauricio Pochettino é espetacular a um bom tempo, colocando o time londrino em outro patamar, com plenas condições de competir contra os principais times da Inglaterra e da Europa. Os números acima da atual temporada (2018/19) nos mostram isso.

@LucaM008 e @magalhaesDavi_

Vídeos: Pedro Galante

Dados coletados por: Rafael Maciel do @pochgenius

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