Dissecando o modelo de jogo de Milton Cruz – NOVO TREINADOR DO SPORT

Por João Pedro Pereira

Sarrismo

Antes de qualquer coisa, é preciso contextualizar a carreira fora dos gramados de Milton Cruz. Atualmente treinador, Milton iniciou sua carreira como auxiliar técnico fixo no São Paulo, onde permaneceu por 18 anos, comandando a equipe em 43 oportunidades obtendo 23 vitórias e aproveitamento de 58,9% até ser demitido em 2016. No início de 2017, fechou com o Náutico onde permaneceu por 12 partidas (52,7% de aproveitamento) deixando uma ótima impressão do seu primeiro trabalho como treinador, sendo demitido apenas por questões financeiras, pois na época o Náutico não estaria conseguindo pagar os seus salários. Ainda em 2017, em agosto, assume o Figueirense com a missão de livrar a equipe do rebaixamento e obtém tranquilamente o êxito, renovando assim para o ano de 2018. Campeão do campeonato Catarinense e eleito melhor técnico da competição, Milton é demitido na 26ª rodada do Brasileirão série B, deixando o Figueirense em 6º colocado brigando pelo acesso à apenas 3 pontos do G4 e com campanha de melhor visitante da competição até o momento. No momento da despedida, há relatos de que o presidente e os principais jogadores da equipe choraram, pois queriam a permanência do técnico no comando.

Dito isto, precisamos entender que são poucos os exemplos claros do que Milton pode exigir da sua equipe. Foram apenas dois trabalhos bem promissores que foram interrompidos por questões extracampo. Tudo o que for dito aqui é fruto de análise de apenas dois trabalhos e passível de mudanças.

Vamos pro campo!

ORGANIZAÇÃO OFENSIVA:

Nos dois trabalhos, Milton mostrou algumas semelhanças, e a primeira se encontra logo na forma como a equipe busca atacar. O sistema tático adotado é à princípio o 4-2-3-1, com bastante variações para o 4-3-3 ou 4-1-4-1. Na saída de bola os zagueiros + a dupla de volante são os principais encarregados. Há bastante cautela e calma ao fazer a bola circular, os laterais sobem até a linha do meio campo dando amplitude para “esticar” o campo lateralmente. Ao romper a linha do primeiro terço (defesa) e atingir o meio campo, o meia de criação desce para se associar aos volantes e fazer a bola chegar até os laterais ou pontas, que com muita velocidade buscam o atacante de referência que normalmente tem boas valências físicas e na bola aérea.

milton

ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA:

Assim como no ataque, a defesa tem um sistema padrão definido, porém com variações à depender do adversário ou resultado do jogo em andamento. Na curta e boa passagem no Náutico e no início no Figueirense, Milton buscou adotar o 4-1-4-1, quase que com 3 volantes (não atoa Marco Antônio era o pilar no Náutico e em seguida se transferiu para o Figueirense pedido pelo treinador que o conhecia). Marco Antônio atuava com o famoso “3º homem de meio” e fazia bastante a transição entre volante e meia de ligação. Com o decorrer do trabalho no Figueira e a chegada de novas peças no elenco, o treinador passou a variar a forma de se defender para o 4-4-2 na maioria das situações iniciais de jogo com 2 volantes e um meia na linha do centroavante. E em situações em que a equipe estava na frente do placar adotava o 4-3-3 novamente com 3 volantes e um trio de ataque com muita velocidade e mobilidade, mas sem abrir mão do seu homem de referência.

Enquanto empata ou perde a partida: 4-1-4-1 variando para o 4-4-2

Sarrismo

Enquanto está vencendo: 4-3-3 com trio de ataque buscando velocidade para ampliar o resultado.

ismo

Algo que também chama a atenção é que principalmente nos minutos iniciais, a equipe comandada por Milton busca marcar a saída de bola em bloco alto, com até 4 ou 5 jogadores pressionando o portador da bola e buscando fechar as linhas de passes para que a bola seja recuperada próxima à meta adversária. Desta forma, com muito esforço, a equipe conseguia recuperar várias bolas ainda no campo ofensivo e criar bastante oportunidades de gol.

city ataque em superioridade

BOLA PARADA DEFENSIVA:

Na bola parada defensiva há claramente (no Figueirense) uma incidência de marcação zonal. O que isto significa? Os cabeceadores do time adversários ficam “livres” e os defensores ocupam zonas pré-determinadas, onde cada um é responsável pelo espaço nas costas do companheiro de equipe na sua frente. Resumindo: um cobre as costas do outro. Os 10 atletas de linha participam da bola parada defensiva, sendo 8 dentro da área (7 claramente em zona e apenas 1 individual) e 2 jogadores atuam na sobra, na entrada da área, para brigar pelo rebote e fazer a transição ofensiva.

ismo

Há ainda dois pontos para serem esclarecidos sobre esse tipo de marcação:

1 – a maioria das literaturas só considera marcação mista quando há NO MÍNIMO 3 jogadores marcando individual e 3 marcando por zona, neste caso há apenas 1 atleta marcando individual).

2 – bola na pequena área NÃO NECESSARIAMENTE precisa ser do goleiro. Isto porque a marcação zonal cria uma espécie de “barreira” na frente do goleiro e a obrigação de corte passa a ser do atleta que ocupa a zona em que a bola entrar.

BOLA PARADA OFENSIVA:

Neste caso do Figueirense, o técnico Milton Cruz optava pelo lateral do lado da cobrança fazendo a batida. Se o escanteio era do lado direito, batia o lateral direito, se era do lado esquerdo, batia o lateral esquerdo, o que acabava dando a impressão da cobrança sempre ser aberta, saindo da área. Mas aí mora o engano. Na maior parte do campeonato os laterais que atuavam na equipe de Milton (Diego Renan e Matheus Ribeiro) são ambidestros e por isso podiam bater tanto com a perna esquerda, quanto com a perna direita, e eles variaram bastante o estilo de batida dessa forma. O gráfico abaixo, fornecido pelo Instat, mostra a relação de quantidade de bolas cruzadas por zona (cima) e a porcentagem de cruzamentos aproveitados (baixo).

Cruzamentos aproveitados = cruzamentos em que a bola foi finalizada/cabeceada.

ismo

O que isso significa? Apesar da maior parte dos cruzamentos terem sido na marca do pênalti (32%), as bolas foram melhores aproveitadas (34%) quando foram cruzadas na 2ª trave.

MAIORES PROBLEMAS OBSERVADOS (opinião do analista):

1 – Falta de compactação defensiva. Por isso os times de Milton não podem ser taxados de propositivos ou reativos, pois ele pratica os dois métodos de acordo com o momento da partida. O Figueirense foi um time que sabia jogar, mas também deixava bastante espaço para ser explorado. Jogava e deixava o adversário jogar.

2 – Excesso de chutão quando o time estava vencendo. Não caracterizei como “ligação direta” porque a bola sempre “batia e voltava” para o controle do adversário.

3 – Falta de infiltração. Infiltração ou ação de ruptura é um aspecto ofensivo importante e pouco visto no Figueirense comandado por Milton Cruz.

@Joao_PPereira

Anúncios

Deixe uma resposta