Saída de bola: uma história de revolução mexicana, argentina e catalã

Por Lucas Mateus

Sarrismo

A saída de bola é um dos momentos mais importantes e determinantes do jogo, a forma como a bola sai da defesa para o ataque define os meios que serão utilizados no momento ofensivo, cria espaços entrelinhas, superioridade numérica, entre outros fatores.

Durante um tempo a saída de bola foi de modo bem simples, mesmo com as pequenas evoluções que sempre aconteciam, mas o argentino, Ricardo La Volpe, El Bigotón, fez uma grande revolução ao desenvolver um método de saída com 3 jogadores, conhecida como a Saída Lavolpiana, ou Saída de 3.

La Volpe trabalhou grande parte de sua vida no futebol mexicano, atualmente trabalha no Pyramids, time egípcio.

Em 2006, La Volpe comandou a seleção do México na Copa do Mundo, caindo para a seleção da Argentina, nas oitavas de finais, mas as características dessa seleção chamaram atenção de um certo aspirante a técnico, Pep Guardiola.

O catalão se impressionou com a facilidade que os mexicanos possuíam para iniciar o jogo, sempre pelo chão e com superioridade numérica. Atributo que foi dominante no Barcelona quando esteve no comando e se espalhou por todo o mundo.

A construção de 3 foi criada com a utilização de alguns conceitos e situações de jogo. Nesse tempo as equipes sempre pressionavam com dois atacantes, encurralando a dupla de zaga e dificultando o inicio do jogo. Ao ter um terceiro homem, a equipe encontrava linhas de passe, fugia da pressão e iniciava o jogo pelo chão.

Para evitar essa pressão adversaria, El Bigotón adiantava e abria seus laterais no campo, dando amplitude a equipe e consequentemente criando mais espaço para seus jogadores. Um dos homens de meio afundava na dupla de zaga, cobrindo todas as faixas do campo e possibilitando superioridade numérica a frente dos atacantes, devendo haver flutuação entrelinhas. Combinando o terceiro homem e o avanço dos laterais, havia um espaçamento maior entre o trio, gerando ao menos duas opções de passes para o portador da bola, criando mais um elemento dificultador da pressão por dois atacantes, que se encontram em um duelo 2×3.

Como consequência, o adversário adiantava sua equipe, e gerava maiores espaços no segundo terço do campo, possibilitando uma facilidade para o ataque.

SarrismoBusquets afunda para ser o terceiro homem, os laterais dão amplitude e os outros dois meias tentam aproveitar o espaço entrelinhas.

Com o tempo as equipes passaram a pressionar esse tipo de saída com 3 homens, buscando, obviamente, a pressão 3×3. Assim dificultando a concepção das estratégias citadas anteriormente, como resposta foi desenvolvida uma variação da saída de 3.

Além do recuo de um primeiro homem no meio, há ainda uma aproximação de um segundo homem, criando assim novas linhas de passes. Esse novo integrante da saída precisa se aproveitar do espaço entrelinhas e sempre se posicionar o mais próximo possível da bola.

O Real Madrid tenta pressionar com 3, impedindo um passe de virada de jogo, mas a aproximação de Vidal cria uma nova linha de passe e rompe essa pressão. Foto de Flavio Fusi.

Essa nova linha de passe que será criada irá encontrar espaço que permitirá uma maior velocidade na jogada, repare na imagem a cima. Criando uma espécie de transição zaga-ataque muito rápida, a amplitude dos laterais se transforma em profundidade nessa transição ofensiva veloz. Esse tipo de saída, além de quebrar a primeira linha de defesa, fornece velocidade e dinamismo ao jogo.

Em uma segunda variação, um dos laterais se fixa como terceiro homem, enquanto o outro avança no campo. O primeiro homem de meio fica de frente para os 3 mais recuados, sendo opção de passes atrás da pressão adversaria.

Há flutuação de um segundo homem entrelinhas, agora mais avançado, devido ao avanço do meio para pressionar o primeiro homem de meio, fixado a frente da defesa. Há um retorno de um dos avançados para dar a amplitude e profundidade do lado oposto ao lateral avançado.

Abidal faz o terceiro homem, Busquets se posiciona em frente a defesa, Xavi flutua entre as linhas e Dani Alves faz a amplitude. Foto de Caio Gondo.

Perceba que na imagem, ao pressionar o homem a frente, o trio atrás tem tranquilidade para tomar decisões e iniciar o jogo, permitindo que encontrem novas linhas de passe. Caso a pressão seja feita diretamente ao trio, Busquets se torna uma opção de passe atrás dos atacantes, que certamente se dividirão ao pressionar, devido a inferioridade numérica.

Com o desenvolvimento da técnica dos goalkeepers, no que diz respeito ao jogo com os pés, os técnicos passaram a utilizar essa qualidade na saída de bola, criando mais uma variação da ideia de La Volpe.

Ter Stegen sendo terceiro homem na saída.

Quando a situação de pressão ocorre muito atrás na defesa, como é normal atualmente, é fundamental que o goleiro seja esse terceiro homem. Permitindo as características das saídas anteriores, inclusive a flutuação entrelinhas mais a frente do segundo homem de meio, a amplitude dos dois laterais e o posicionamento frontal do primeiro homem de meio.

Existe também casos de participação mais a frente, em certos momentos do jogo. A foto abaixo mostra bem os princípios dessa variação, repare no posicionamento de Witsel e os laterais (Hakimi e Diallo), além de Weigl flutuando mais a frente, é simplesmente genial consegui unir todos, ou quase todos, os fundamentos.

SarrismoBurki participa ativamente da saída de bola do Dortmund, mesmo longe da área. Foto de @GKSweeper

Em todos esses sistemas é fundamental que os jogadores mais recuados se apresentem de frente para o jogo, não dando as costas para o adversário, esse tipo de comportamento facilita a pressão adversaria, limita as linhas de passe e a compreensão do lance, além de induzir ao erro. E errar perto da sua área pode ser fatal.

Erro grotesco de Arão contra o Corinthians, por sorte César evitou um desastre ainda maior.

Além da Lavolpiana, Pep implantou diversas outras ideias em seus times, de acordo com a evolução de seu trabalho. No Manchester City é implantado outros dois tipos derivados do conceito de La Volpe, que já são usados por outras equipes no mundo.

Pep Guardiola, o maior gênio do futebol atual? PS: Prefiro o Klopp.

Ao jogar com 3 zagueiros, City utiliza de uma saída 3–2, ou seja, um meio-campo, na maioria das vezes De Bruyne, se aproxima de Fernandinho para dar superioridade numérica nas costas dos atacantes adversários.

Saída 3–2 do City contra o Liverpool pelo jogo de volta da UCL Foto de Leonardo Miranda.

Foi desenvolvido um ataque das entrelinhas, criando uma espécie de pressão com quatro homens, dificultando a Lavolpiana clássica, mas com 5 homens participando dessa saída cria-se uma resistência a essa pressão em 4, exemplo abaixo.

Ancelotti anulou a pressão em 4 de Klopp no duelo pela UCL. Foto de Duarte, the Red Scouser

Na imagem da pra perceber como falha a pressão da equipe inglesa, sempre há alguém livre e com espaço. Henderson não pode acompanhar um dos dois que descem, pois, o espaço no meio seria ainda maior. A equipe italiana foi perfeita ao evitar a maior característica do Liverpool, ainda mais após a lesão de Keïta, o melhor na função de pressionar nas entrelinhas dos reds.

Essa saída também foi utilizada por Tuchel no PSG contra o Estrela Vermelha.

PSG em uma saída 3–2 para se livrar da pressão servia. Foto de @PasseEPosse

Quando uma equipe pressiona em 4, ela permite que a adversaria tenha maior controle do meio, ou seja, ao sair dessa pressão é difícil parar o ataque no segundo terço do campo. Forma-se uma espécie de 3–4–3 em alguns momentos, com o avanço dos alas.

Alguns conceitos de La Volpe são utilizados aqui, a amplitude no campo, a criação de superioridade numérica e a saída por baixo são os principais.

Saida em 3–2 do City contra o Liverpool pela oitava rodada da PL. Foto de @DKtricolor

Outro conceito é a saída 2–3, visando superioridade numérica atrás dos atacantes. Invés de os laterais darem amplitude, eles se tornam opções de passe no meio, junto do primeiro homem. Sendo responsabilidade dos wingers gerarem amplitude e profundidade.

A aproximação dos laterais a Fernandinho cria superioridade numérica. Foto de @Taticamente

Ao criar mais opções nas entrelinhas nas costas dos atacantes, serve como uma armadilha, já que estes quando pressionam a dupla de zaga dão ainda mais espaço para os homens no centro. Com os alas bem abertos é possível ter profundidade e amplitude, permitindo a criação de triângulos laterais, que facilita a troca de passes e dificulta a marcação. Mas é bastante arriscada, afinal zagueiros com pouca técnica podem sofrer mais que o necessário na pressão 2×2.

Preserva os mesmos conceitos da saída de 3 e cria novos, formando dois aglomerados entre as linhas (atrás dos atacantes e atrás dos meio campistas), permitindo uma saída rápida e positiva.

Essa “armadilha” de subir a marcação adversaria, se bem utilizada, é fatal. Ao subir a pressão, o adversário acaba deixando mais espaço que o normal, permitindo assim uma tranquilidade maior no momento ofensivo, desde que seja bem executado em velocidade.

Por ser um momento tão importante do jogo, a saída de jogo possui diversas outras versões e provavelmente sempre surgirão novas, sempre evoluindo e “driblando” a pressão adversaria para permitir que seu jogo já comece fluido e possa terminar de forma benéfica para a equipe.

Evitar perder bolas perto do gol aliado e até mesmo não se livrar da bola, são coisas difíceis em um jogo de futebol, mas é necessário e isso foi maximizado com essa importante evolução.

Uma revolução que começou no futebol mexicano, mas possuía um argentino como líder e foi aprimorada por um catalão, representa bem a globalização do futebol e mostra que ótimas ideias surgem em todos os lugares.

@LucaM008

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3 comentários sobre “Saída de bola: uma história de revolução mexicana, argentina e catalã

  1. Excelente apanhado de informações,post bom de se ler. Só tenho uma dúvida, esse tipo de saída de bola já não podia ser vista com a seleção brasileira na copa de 94? O Mauro Silva chegava a afundar entre os zagueiros e os laterais ficavam bem adiantados, me corrija se minha percepção estiver equivocada.

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