O legado de Johan Cruijff para o futebol

Por Ícaro Caldas Leite

amigas

Um dos maiores e melhores jogadores/treinadores de todos os tempos, mudou a história do esporte para sempre. Aqui você vai observar o seu legado para o futebol e que é muito praticado hoje em dia.

História do seu legado em Barcelona:

Para falarmos de Johan Cruijff é quase que obrigatório falar de dois rapazes: Jack Reynolds e Rines Michels.

Esses dois são os principais responsáveis pelo futebol total que também tem um toque Húngaro da década de 50.

O ataque continua sendo a melhor defesa.” Jack Reynolds

Acredito que a marca profunda de toda revolução e geralmente de todas as descobertas científicas é a contraintuividade, ou seja, o fator de proferida contra as evidências do senso comum.

O “futebol total” — visto como filosofia, como um conjunto de inovações conceituais antes que técnicas ou táticas — começa justamente por um núcleo contraintuitivo. Isto aparece evidente num dos livros mais densos sobre o assunto do futebol, Teambuilding do “General” Rinus Michels, técnico da “grande Holanda”. Michels é considerado por unanimidade — tanto dos históricos ortodoxos, quanto dos heréticos — o pivô teórico e prático da ideia de “futebol total” (em holandês, totaalvoetbal). O livro dele é ao mesmo tempo uma autobiografia (repleta de anedotas e observações sobre técnicos, jogadores e dirigentes do período que vai da década de 60 até o começo do novo milênio) e um rigoroso ensaio teórico-prático, mas é principalmente um concentrado de princípios de jogo, tão inovadores que cabem em qualquer estilo do jogo atual.

Um princípio de base, por exemplo — inclusive assimilado por muitos técnicos — é olhar para o time como se fosse uma orquestra. Citando o vídeo didático favorito com os “ensaios” de Leonardo Bernstein, Michels descreve a sequência em que o regente, depois de ter deixado solar um virtuoso do violino por um bom tempo, suspende a execução e gela o músico dizendo: “Sozinho é muito bom, mas para tocar bem numa orquestra tem ainda muito caminho pela frente”. O time orquestra — Objetivo de produzir um jogo que “flui sem esforço algum” — seguindo com a metáfora musical, um “time de futebol” procura uma orquestração polifônica mais do que homofônica, focada na harmonia e no contraponto mais do que na melodia: o solo (a jogada individual) ganha sentido somente se acontecer dentro do conjunto. A propósito disto, Michel traz alguns exemplos negativos de talentos não integrados: Romário no Psv (que viria a jogar melhor no Barça de Cruijff) ou Georghe Hagi, e conclui que as jogadas individuais incríveis podem ser aceitas somente se elas garantirem com certeza a chegada ao gol: veja o Ronaldo dos primeiros anos de carreira na Europa. Este é o aspecto principal da contraintuividade, não apenas respeito das táticas informais de boteco ou dos comentaristas de TV local, mas também respeito da crença de muitos técnicos profissionais.

O principal sucesso do Barcelona é a maneira de jogar, que antepõe sempre a estética ao resultado. Esta perfeita assimilação do “Futebol Total” holandês trouxe para o jogo ibérico (muitas vezes sem sentido) o rigor, a perspectiva e a objetividade que estavam faltando. Há um momento fortemente simbólico que indica a hora em que o transplante se torna absolutamente completo. Foi também numa noite no estádio de Wembley, em 20 de maio de 1992, a final da primeira copa dos campeões ganha pelos blaugrana sobre a Sampdoria. Naquela ocasião, o dreamteam (com Johan Cruijff no banco) vestiu uma camisa Orange, e o gol da vitória — na prorrogação, quase chegando aos pênaltis — foi de falta, com um chute violento e milimétrico de Ronald Koeman, um holandês puro-sangue. Paradoxalmente, aquele time que levou a copa ainda estava longe da sintonia incrível dos “antenascidos” do Ajax. O Barça chegará na assimilação completa devagar, mediante aproximações pacientes e moleculares, passando através dos outros técnicos holandeses como Van Gaal e Rijkaard. E o momento em que realmente alcança a perfeição está justamente ligado à transformação de um dos campeões, protagonista daquela noite de 1992. Josep Guardiola de jovem prodígio do meio campo se torna um técnico competente, dono de um conhecimento estratificado e dissimulado. É com ele que o Barcelona consegue dar o “pulo quântico”, alcançando uma caracterização inconfundível. A pessoa de Guardiola representa a ponte de conexão entre uma e outra noite em Wembley.

Graças, principalmente, à qualidade de jogo — com a visão de que tudo tem algo mais do que a soma das partes — um grupo de jogadores habilidosos se tornou uma equipe de campeões conclamados. Se formos observar cada um deles, os atletas do Barça são ótimos jogadores, mas quase todos são basicamente incompletos, particularmente do ponto de vista de suas características: ou são muito exuberantes ou muito anônimos, ou exageradamente egoístas ou tímidos. O que faz com tudo com que dê certo é justamente o sistema do Barça — atento com a questão da complementaridade de atitudes — que completa e exalta seus atletas: aumentar a “visibilidade” do talento individual, como numa orquestra. De fato, o sistema do clube é altamente inclusivo e educativo, proporcionou e proporciona o crescimento de muitos catalães (Victor Valdés, Piqué, Xavi, Busquetes, Sergi Roberto, Denis Suarez), mas também de castelhanos da Mancia como Iniesta e das ilhas como Pedro (Tenerife) e soube integrar asturianos como David Villa.

Uma diferença substancial. O Ajax e a seleção holandesa desenvolveram suas utopias futebolísticas em sintonia com a história: aquele futebol corria na mesma direção do sonho do movimento hippie (a melhor parte dele) e dos “socialistas”, em que as pessoas ainda acreditavam que fosse possível ter mais do que um único modelo de desenvolvimento. O Barça de Guardiola conseguiu seguir e melhorar aquele mesmo modelo na era do desencanto, em que as saudáveis ilusões — inclusive aquelas de revolução de 68 — foram trocadas pela ausência completa de qualquer tensão construtiva: junto com as ideologias queimaram os ideais, sumiram as utopias junto com os desejos de justiça.

Talvez seja mesmo esta a razão da profunda sedução do esquema de jogo blaugrana: continuar a acreditar na utopia, manter o olhar aberto para outra dimensão sem esperar que chegue a substituir.

Para alcançar uma boa sinfonia, é essencial praticar um “estilo de jogo” baseado na cooperação e no pensamento coletivo: um estilo cuja cadência — com foco no tempo e no espaço — sirva para orientar o time a prescindir do adversário, domesticando a complexidade e a imprevisibilidade de todo jogo. Analisando os detalhes dos principais módulos dos últimos cinquentas anos (o 4–2–4 do Zagalo na década de 70, o contra-ataque do Herrera, o 4–4–2 do Ramsey em 1966, o 5–3–2 de Beckenbauer em 1990, o 3–4–3 de Cruijff antes e de Van Gaal depois), Michels defende a tese de que seu próprio estilo de jogo é uma fusão de “Total Football” e “pressure football” — pressão na metade de campo adversária — que tende ao indefinido, quase abolindo as distinções entre as fases de jogo e as (tri)partições do campo. A “estrutura” do time — termo que ele me menciona muito — precisa metabolizar conceitos e movimentos que permitem antecipar as situações e acelerar as decisões: aliás, de acordo com este ponto de vista, antecipar as situações é a melhor maneira para acelerar as decisões. A consequência principal disso — outro aspecto contraintuitivo — é que as fases defensivas e construtiva-ofensiva no momento seguinte e construir-atacar com dez jogadores (claro, seguindo um critério) significa predispor o time para inibição de contra-ataque adversário. O estágio final desta teoria — levado até o extremo pelo Barcelona de Guardiola — é o relacionamento equivalente entre posse de bola (circulação) e reconquista imediata.

A síntese desta concepção — mais uma vez, em contracorrente com as crenças mais comuns que veem o “Futebol Total” como um modelo baseado em riscos inúteis e masoquistas — é o conceito de “equilíbrio”. De acordo com Michels uma equipe precisa ter sempre quatro jogadores estruturando a “zaga fechada”, ou seja, uma defesa que mesmo não sendo passiva — com os laterais livres para avançar e os centrais predispostos para a construção de jogo — esteja sempre atenta a ocupar espaço, usando o recurso de impedimento de uma forma que ninguém nunca chegou a teorizar nos demais modelos parecidos. No que diz respeito ao ataque em si — separado das demais fases de jogo apenas para facilitar a descrição — o princípio-guia é a recusa de uma profundidade “cega e compulsiva” (as bolas longas para a frente), que, pelo contrário, precisa ser motivada e coerente com aquela construção de jogo que leva o time ao ataque.

Conotações sistêmicas de um time, ou seja, que se aplicam a todos os setores: a marcação e a antecipação baseadas num dobramento e triplicamentoconstantes, numa ajuda pela qual nenhum jogador encara situação do resgate da bola sozinho; as soluções construtivas (antes que de ataque) baseadas na posse de bola, ou seja, na precisão dos passes e na libertação da marcação adversária (veja a jogada que redundou no gol no segundo minuto da final de Munique, com a Alemanha que começa perdendo sem nem tocar na bola); a própria desmarcação alcançada por diversos homens ao mesmo tempo, de forma que sempre existem muitas opções para o passe e que ninguém fique isolado do restante do time, principalmente na fase de construção.

Compactação com a bola e a linha alta.
A famosa linha de impedimento que deixava no mínimo 2 jogadores impedidos. Olhe o bloco baixo e compactado que hoje em dia é muito utilizado.
  1. Na minha equipe, o goleiro é o primeiro avançado e o avançado o primeiro da defesa.

Em processo ofensivo, o goleiro moderno tem de ser um autêntico jogador de campo ou, pelo menos, com competências técnico-táticas aproximadas. Para além das suas capacidades em defender o gol, a sua preponderância na construção de jogo não deve ser desconsiderada. Por sua vez, um atacante ou extremo não pode apenas saber marcar gols ou criar situações de finalização; tem também de saber defender, no sentido de criar uma unidade funcional ao nível da organização defensiva da equipa. Basicamente, todos os jogadores devem saber atacar e defender, pelo que é relevante que os miúdos joguem em diversas posições ao longo do processo formativo.

2) Se tens a posse da bola, precisas fazer com que o campo seja o maior possível. Se não a tens, precisas de fazer com que fique o mais pequeno possível.

Os princípios espaço (“campo grande”) e concentração (“campo pequeno”) são fundamentais para a aprendizagem do jogo coletivo. Contudo, ao contrário do que é comum, os treinadores devem dar liberdade à criança/jovem para perceber que (1) se houver mais espaço, há mais tempo para ler o jogo e executar em conformidade e (2) se estivermos mais perto dos nossos colegas, torna-se mais fácil defender, devido à existência de coberturas defensivas e equilíbrios e, assim, recuperar a posse de bola. As soluções devem ser descobertas, não cedidas gratuitamente.

Amplitude(abrir o campo) que hoje em dia é muito praticada por vários times do mundo; e que seu Dreamteam em 1994 já utilizava.

Agora veja o abrir o campo(amplitude) do futebol “moderno”.

Basicamente a mesma ideia: os pontas abertos (dando amplitude) e os centroavantes dando profundidade.

O jogo de posição é uma das melhores ideias que Cruijff e Michels deixaram para o futebol, que hoje é muito bem executado pelo pupilo de Cruijff chamado Pep Guardiola.

Olhe o Barcelona de Cruijff há 24 anos atrás:

Agora observe o Manchester City de Pep Guardiola na temporada 17–18.

As ideias deles (Michels e Cruijff) ainda são bastante utilizadas hoje em dia. Com execuções diferentes, claro, mas a base é a mesma.

Outra ideia que hoje também é bastante utilizada é o apoio (opções de passes).

Barcelona da temporada 93–94
Atlético-PR do Fernando Diniz, 2018

Superioridade numérica e marcação setorizada, a Holanda de Michels já fazia em 1974.

Superioridade numérica (6×5) na fase ofensiva do Manchester City de Pep Guardiola.

Superioridade numérica (4×2) na fase defensiva do Vitória e sua marcação setorizada.

Marcação pressão que hoje é utilizado por quase todos os clubes do mundo. É outra ideia que a Holanda já fazia em 1974.

5 jogadores no campo do Uruguai.

O Botafogo de Alberto Valentim apertando a saída de bola do Grêmio de Renato Portaluppi.

@CoachAbilio10

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