As mudanças em Nápoles

Por João Victor Cardoso

ataFoto: getty images

Ocorreram muitas mudanças em Nápoles desde o fim da temporada passada. Jogadores importantes, como Jorginho e Pepe Reina, se foram, assim como o antigo treinador da equipe, Maurizio Sarri, que revolucionou o futebol praticado na região da Campânia. Depois de três incríveis e surpreendentes anos no comando dos napolitanos, Sarri embarcou para a Inglaterra, mas deixou um grande legado para trás: um time muito competitivo e intenso para as competições. Mesmo com um elenco muito reduzido e com um poder econômico tremendamente inferior se comparado a adversários do calibre de Juventus e Roma, o Napoli foi vice-campeão duas vezes e ficou uma vez em terceiro lugar com Sarri. Com a saída do carismático ex-banqueiro da casamata napolitana, houve a chegada do experiente treinador Carlo Ancelotti. Assim, há uma clara quebra de filosofia no jogo praticado pela equipe, afinal Maurizio sempre se destacou por ser um técnico com ideias propositivas e de controle e Carlo é um técnico que se caracteriza por ser mais pragmático e organizacional em suas equipas. Prima por uma boa organização defensiva, mas sem dispensar os ataques, obviamente. Desenvolveremos os ataques de Ancelotti mais adiante, agora vamos ao modelo de jogo do seu Napoli!

Com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito.”

Pitágoras

ataImagem ilustrativa do elenco. Fonte: LineupBuilder.com

Quando desembarcou em Nápoles, Ancelotti propôs um estilo que mantivesse alguns aspectos do sistema praticado por Sarri, para que a descaracterização não fosse tão grande. Porém, já nos primeiros jogos ficou visível que seria impossível manter muita similaridade com o modelo antigo, principalmente por não possuir no elenco um jogador como Jorginho (que foi para o Chelsea). O ítalo-brasileiro era o centro do time e com sua saída o jogo de posição ficou comprometido no Napoli (o jovem Diawara talvez seja um jogador, no futuro, capaz de exercer função semelhante a Jorginho para a saída de bola e fluidez de um jogo de posição, por exemplo, mas hoje ainda está um tanto “verde” para a função). Em resumo, para quem não sabe, o jogo posicional nada mais é que um modelo de jogo que propõe que a bola vá até os jogadores em suas devidas posições e não os jogadores irem até ela. Assim há a criação de triângulos associativos que promovem uma maior facilidade nas relações entre os jogadores.

Mas virando a página de Maurizio Sarri e jogo de posição, entramos definitivamente no modelo de Ancelotti. No início, Marek Hamšík foi utilizado de 1º volante (antiga posição de Jorginho) na plataforma utilizada por Maurizio, o 4-3-3. Uma péssima experiência, pois o eslovaco não manteve uma boa proteção à defesa e nem oferecia muitos argumentos para melhorar a marcação naquele setor, embora sua qualidade com a bola já fosse conhecida. Depois dessa tentativa, Ancelotti voltou ao bom e velho 4-4-2 com Allan e Hamšík sendo a dupla de volantes. A melhora foi exponencial. Mesmo que não retomasse o futebol espetacular das temporadas anteriores, o time ficou muito mais organizado para aproveitar as transições e o talento de seus atacantes.

Em organização defensiva a equipe mantém as duas linhas de 4 compactas para não oferecer espaços na entrelinha, forçando os adversários a utilizarem as laterais ou então praticar o mesmo jogo de transições velozes. E aí está o ponto fraco do Napoli. Como, com a bola, Allan e Hamšík se adiantam muito para articularem as jogadas ofensivas e melhorarem a circulação da bola, acabam deixando muitos espaços entre eles e os zagueiros, que adversários com atacantes velozes buscam aproveitar com contragolpes e passes em profundidade para que os avaçados ataquem o espaço. Na etapa defensiva há dois destaques essenciais a se fazer: os encaixes individuais e perseguições. Desde tempos de Sarri há um sistema de compensações interessante na defesa do Napoli, quando, por exemplo, Koulibaly sai para dar combate ao centroavante que vai dominar a bola no setor de meio para fugir da marcação e fazer o pivô. Assim, há a formação do triângulo de marcação. Os laterais fecham a linha e Albiol fica como zagueiro central para que o senegalês faça a perseguição individual e tente recuperar a bola:

ataImagem: LineupBuilder.com

Há o mesmo nas laterais, tanto Hysaj e Mário Rui tem liberdade para quebrar a linha e partir em caça dos pontas quando estes recebem a bola. Como mostrado na imagem:

china fc

Falando um pouco das transições (talvez o principal acréscimo de Carlo Ancelotti neste período de mais ou menos 4 meses no comando). Antes os melhores argumentos ofensivos do Napoli eram as triangulações rápidas, superioridade numérica e a posse, hoje em dia é a velocidade para ativar a transição ofensiva e se utilizar de mecanismos de amplificação da influência de jogadores como Allan, por exemplo. Intensidade e potência para chegar rapidamente no gol adversário, independente da quantidade de jogadores, e muita força para exercer a pressão pós-perda (outra característica mantida de tempos de Sarri).

Como já foi citado, Allan tem uma função fundamental no sistema napolitano de agora em diante. Além de ser um dos líderes do grupo, é também o motor que dá ritmo ao meio e que condiciona toda equipe as suas ações. Antes era uma arma muito mais utilizada para melhorar a pressão ao perder a bola, mas, como dito, ampliou-se muito seu campo de atuação. Na ausência de Jorginho, é ele que toma para si a responsabilidade de coordenar as linhas defensivas e ofensivas, com intensidade nas transições e vigor na marcação.

china fcImagem: Getty images

Outro jogador a se fazer destaque nesse início da era Ancelotti é Fabián Ruiz. Talvez a principal contratação dos partenopeo para a temporada. Ruiz já atuou como meia interno, como meia pela esquerda (onde conquistou a titularidade, pelo fato de Mário Rui ser um grande apoiador e precisar de mais algum jogador para auxiliar na marcação) e como enganche (atrás do centroavante). Mas a polivalência não é a principal qualidade de Ruiz. Um grande condutor e com muita qualidade para se desvencilhar da marcação em espaços curtos, é uma arma para o Napoli pelo lado esquerdo, além de acrescentar ótimos chutes de média distância que levam perigo aos adversários e ser outro grande fator na pressão pós-perda, como nesse lance em que há a perda da bola em campo ofensivo e uma rápida pressão para recuperar a posse. Ao retomá-la, Fabián faz uma ótima jogada que resulta em um golaço para o Napoli.

Para a grande final deixei a organização ofensiva dos napolitanos. Com dois atacantes muito móveis e leves como Lorenzo Insigne e Dries Mertens, Carlo desenvolveu ótimos mecanismos para os dois se utilizarem de sua velocidade para que aproveitassem passes de ruptura e atacassem o espaço. Esses passes não vem só dos meias, mas também dos laterais, principalmente Rui, que chegam no terço final e, vendo que os zagueiros adversários são lentos, fazem passes no espaço vazio para que Dries e Lorenzo ataquem. Nesse esquema, sendo os jogadores terminais, tem se destacado muito, tanto que os números comprovam:

Insigne em 9 jogos fez 6 gols e deu 1 assistência
Mertens em 10 jogos fez 4 gols e deu 2 assistências

Isso talvez explique o baixo rendimento do atacante polonês Arkadiusz Milik, pois é aquele centroavante que precisa ser servido com cruzamentos ou jogadas trabalhadas para ser somente o jogador que coloca a bola para a rede. Nesse sentido, muitas vezes se vê obrigado a recuar e trabalhar pelas laterais para que a jogada se desenvolva e isso não favorece o seu futebol, pois é um tanto lento para associações internas e externas também.
Porém, repito, o Napoli ainda é uma equipe em reconstrução. Tem feito bons jogos e se recuperado bem da perda do antigo comandante, mas ainda há de se acertar a transição defensiva e as laterais, para que não seja tão fácil entrar na defesa.
O futuro se desenha de um modo muito favorável para os napolitanos. Consolidados na zona de classificação para a Champions da próxima temporada e com ótimos jogos no seu grupo da UCL, podendo inclusive eliminar o PSG e se classificar para as oitavas.
Carlo tem um plano: organização e paciência para reconstruir o Napoli e mostrar que ele chegou ao patamar de grande da Europa para ficar.

@jvcardoso05

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2 comentários sobre “As mudanças em Nápoles

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