O fim da “Era Larghi” no Atlético e a borracha em toda a mudança existente

Thiago Larghi deixa o Atlético após um trabalho promissor, mas com falhas contundentes. Foi o treinador que durou mais tempo no cargo pelo clube desde os vencedores Cuca e Levir Culpi (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)

Quando assumiu o comando interino do Atlético, Thiago Larghi tinha em mãos um desafio bem complicado. A temporada mal começou e o clube mineiro já havia demitido Oswaldo de Oliveira após as primeiras partidas instáveis em 2018. De linhagem e ideias bem diferentes do seu antecessor — embora tenha sido seu auxiliar, além do trabalho no Galo, também foi no Sport e no Corinthians — , Thiago se apresentou como uma novidade para a filosofia do clube, com preferências e um estilo mais ligado ao jogo de posiçãoe ao equilíbrio, tendo posse de bola e bom controle das zonas de campo.

Toda mudança causa impacto. Todo impacto traz opiniões distintas, porque é a novidade, o inesperado. Larghi foi o “diferente”: precisou ganhar tempo de trabalho, superar algumas desconfianças e, enfim, conseguiu ver sua equipe desenvolver melhor sua forma de jogo, porque houve sequência e confiança para o treinador conhecer seu elenco — remodelado nas primeiras semanas com ele, de acordo com o que se esperava na forma de atuar. O auge deste estilo se deu em boa parte do primeiro turno do Campeonato Brasileiro.

Já foi dito aqui sobre como o Atlético de Thiago Larghi buscava uma identidade. Também foi falado que seu trabalho é um pouco diferente do que a filosofia do clube trouxe em anos de sucesso, e absorver isso leva tempo. Algumas características fortes em seu modelo: começar as jogadas em toques curtos desde o goleiro, aproximar os jogadores formando triângulos na defesa, pelos lados ou até na frente, utilizar as interações entre meia, lateral e ponta para gerar superioridade e trabalhar mais especificamente no módulo do 4–3–3 para explorar as capacidades do ataque posicional. O que variou muito no processo foram as peças utilizadas e, portanto, a efetividade e sequência do time. Foi também um ponto crítico para a queda de rendimento posterior.

Em entrevista à ESPN com Renato Rodrigues, Larghi falou sobre o efeito das mudanças de jogadores em um curto intervalo de tempo e a dificuldade (especialmente em aspectos defensivos). Após a Copa do Mundo, isso foi ainda mais agravante, haja vista as tantas mudanças no elenco e um time quase que completamente modificado no retorno.

“ É complicado. As coisas mudam tanto e mudam tão rápido… Às vezes você vai e acerta algum aspecto da transição defensiva, um retardo, uma pressão pós-perda. Mas aí tem a mudança dos jogadores. De jogo para jogo variou muito estes detalhes. Se não me engano a gente usou três ou quatro linhas defensivas diferentes em seis jogos. Aí é mais difícil retomar o padrão”.

Em números

O Atlético, durante o período com o treinador, somou 49 partidas: obteve 55,1% de aproveitamento —  23 vitórias, 12 empates e 14 derrotas no todo; 74 gols marcados e 46 sofridos. Larghi foi o treinador que durou mais tempo no clube desde Cuca e Levir Culpi (última passagem). Deixou o Brasileiro com o melhor ataque da competição até então, ainda que tenha passado por alguns jejuns de gols, e uma defesa confusa quanto às jogadas de bola parada e erros individuais sequentes. Um modelo com pontos fortes e falhos.

Ao olhar para o desempenho nesse período, há destaques positivos e negativos em uma equipe que, naturalmente, enfrentaria oscilações e mudanças na estrutura: o Atlético chegou à parada para a Copa do Mundo em 2º lugar no Brasileiro, num torneio que se esperava menos que isso no início. Quando retornou da parada, perdeu muita gente importantes: Blanco (por lesão séria que o tirou de toda a temporada), Roger Guedes, Bremer, Otero e Yago de forma definitiva (transferências), além de Cazares e Adilson por lesões que os deixaram fora de combate por mais de um mês. Entre eles, mais de meio time de desfalques. Seria impossível o desempenho não ser influenciado.

Antes disso, vimos um Atlético muito feroz nos ataques, rápido e eficaz. Um time que possuía algumas dificuldades em se defender da bola parada, mas que era bem eficaz acelerando, rodando com a bola e utilizando os desequilíbrios individuais para criar chances. Até a Copa, o alvinegro tinha o líder de desarmes por jogo no Brasileiro (Blanco — 4,4 por jogo), o líder de assistências (Blanco, com 4), o artilheiro (Roger Guedes — 9 gols) e o vice-artilheiro (Ricardo Oliveira — 6 gols). No que tange o coletivo, o Atlético seguiu como equipe ligada a alguns ideais fortes: é a 4ª em média de posse de bola por jogo (53,8%), a 5ª em aproveitamento de passe (84,1%), a 3ª que mais vence disputas de bola aérea (média de 53% de vitórias no campeonato) e a que mais finaliza por jogo (14,1).

Muito significativo em um time que estava vivendo remontagem. Pelas perdas, natural a queda depois. E, até mesmo com as tantas reposições, é difícil para o treinador reconstruir um sistema dessa forma.

O efeito e as dificuldades no pós-Copa do Mundo

A partir do retorno, queda nos resultados e escalações diferentes. O time também jogava diferente, não conseguia ser tão eficaz construindo e se defendia pior: perdeu seu volante que começava o jogo (Adilson), seu meia construtor no campo ofensivo (Cazares), seu ponta que entrava na área e marcava gols (Roger Guedes), seu meio-campista que ia de uma área à outra (Gustavo Blanco). Revitalizar e “emular” as funções com outros jogadores dá trabalho e pode levar a erros. Larghi cometeu esse equívoco e viu derrotas cruciais pesarem em seu trabalho. Precisou mudar a forma de jogar com as muitas novidades, e o time manteve instabilidade.

A “linha do tempo” do Atlético no Brasileiro ajuda a explicar algumas causas do insucesso e da insatisfação com o desempenho do time nos últimos meses. Trata-se de um projeto com falhas (e que devem ser corretamente responsabilizadas, em toda a estrutura de futebol do clube), três montagens diferentes de elenco durante o ano (com Oswaldo, após a saída dele, e após o desmanche no segundo semestre) e três comandos técnicos diferentes em menos de nove meses. Também é importante falar de um elenco que mudou seu perfil de 2016/17 para 2018, seja pela questão financeira (reduzir gastos) ou da nova forma de jogo que se esperava, de uma queda de competitividade pela perda de material humano, e um plano que não se desenvolveu por completo. No Twitter, escrevi uma thread explicando bem os porquês da queda e a visão particular sobre isso [você pode ler clicando aqui] .

Parte da thread com motivos da queda de rendimento do Atlético a partir da Copa do Mundo, e como é exagerado criticar algumas das exibições do time desde então (mesmo entendendo a necessidade de se criticar alguns pontos)

As causas e consequências do imediatismo dentro do Atlético

No fim, a demissão do Larghi remete a um problema na estrutura de jogo do Atlético. Mais uma vez, o trabalho — com potencial, alguns erros, mas margem para crescer a médio/longo prazo e com peças melhores — ruiu e a reta final da temporada será dada com um novo plano e total imediatismo, o mesmo que deu fim a outros potenciais projetos de mudança e competitividade no clube. Afinal, qual é o futuro atleticano com outra mudança de perfil e a tentativa de resgate ao passado? Por que a mudança de comando? Seria mesmo prejudicial ao clube manter o treinador e iniciar um projeto forte no próximo ano com ele?

Começar do zero pode ter vantagens e desvantagens, mas o projeto e a ideia estabelecida precisam estar à frente de tudo isso. No Galo, a forma de se pensar futebol têm sido, já há alguns anos, questionável quanto à maneira como é desenvolvida e como ganha o aval de sua diretoria/torcida. É uma questão cultural, com ideias diferentes da “raiz” atleticana, mas também a dificuldade de aceitação de uma mudança, seja ela dentro do clube, da sua filosofia ou do esporte no todo. Chegou a hora da reflexão, e a saída de mais um treinador só aumenta a necessidade de questionar se “passar a borracha” nos projetos é mesmo a saída para um amanhã melhor.

@matheusesouza

Dados: Galo Estatísticas (@galoestatistica) e WhoScored (@WhoScored)

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