Cotia, análise de desempenho e fator psicológico: a formação do goleiro nas categorias de base do São Paulo FC

Por Caio AIves

22Rogério Ceni, maior goleiro da história do clube [São Paulo FC]

É de conhecimento geral que o goleiro tem um papel, muita das vezes, mais importante que jogadores de outro setor. Tudo isso porque, seja por um lance capital, uma defesa em um momento importante da partida ou um erro que decida o campeonato, a cobrança sobre o goleiro sempre será mais pesada.

Culturalmente, o goleiro sempre teve a função única e exclusiva de evitar gols dos adversários. Por consequência, entende-se que seu papel era um tanto quanto subestimado e limitado. Com o passar dos anos – e o surgimento de treinadores que buscaram pensar o jogo de maneira heterodoxa –, a posição passou a ser revolucionada. Com um protagonismo na saída de bola, ajudando a construir o jogo desde trás, o time passou a ser visto com 11 jogadores, e não somente com 10 atletas de linha e mais um homem para evitar gols.

No Brasil, muito dessa cultura foi rompida por Rogério Ceni. Durante os seus 25 anos de carreira, Ceni foi responsável por exercer um papel de líbero, além de cumprir com suas responsabilidades debaixo das traves. Desde a sua aposentadoria, em 2015, o São Paulo busca seu substituto. Passaram-se nomes como Denis e Sidão, mas todos com certa desconfiança da torcida. Hoje, o nome da vez é Jean, jovem goleiro proveniente das categorias de base do Bahia.

Entretanto, a partir de suas avançadas instalações para as categorias de base, em Cotia, o São Paulo busca revelar, além de goleiros, novos atletas para o futebol nacional. Para Gabriel Fuhrmann, jornalista e especialista em futebol de base, o clube sempre foi especialista no assunto. “O CFA Laudo Natel levou a formação para um nível de profissionalismo e capacitação mais elevado. Hoje, falo, sem medo de errar, que Cotia, desde 2005, já deu passos que o profissional do São Paulo não conseguiu dar até hoje no que diz respeito à evolução de como se lê futebol. Os títulos de Cotia são resultados de uma boa formação, sim, mas, também, de um trabalho de análise profunda de desempenho, de muito estudo, que, infelizmente, às vezes ainda falta no profissional. A fórmula que o São Paulo usou de alto investimento, capacitação profissional e estudo, é vencedora em qualquer lugar que seja aplicada”, comenta.

A formação do goleiro é sempre muito criticada. Ainda que hajam exceções, é uma posição que requer mais tempo que os demais. Seja pelo aspecto mental – gerado por críticas –, tático – geralmente, o jogador foi formado em um modelo de jogo diferente – ou técnico – normal que o goleiro tenha uma margem maior de evolução –, o atleta, desde os seus primeiros passos, necessita de preparação em todas as áreas possíveis, além das citadas. E, no São Paulo, não é diferente.

Em entrevista para o MW Futebol, Luiz Orlando, preparador de goleiros do sub-14 do clube e com passagens por Rio Claro e Shandong Luneng, afirma que o São Paulo se preocupa não somente com o atleta em questão, mas, também, em formar o cidadão, “cobrando, além dos aspectos técnicos, táticos e físicos, o desenvolvimento e aprendizagem fora das quatro linhas”.

MW Futebol: Quais os aspectos mais trabalhados na formação do goleiro no sub-14?

Luiz Orlando: Devemos sempre pensar em treinamento desportivo como um processo de aprendizagem, assim como na escola. Desta forma, devemos iniciar os treinamentos com os aspectos técnicos e físicos básicos (sub-13), como fazer uma defesa alta central, média, rasteira, lateral, ensinando o posicionamento correto do corpo e das mãos para uma maior eficácia na defesa, para que, com isto, possamos aprimorar estas mesmas técnicas na categoria subsequente (sub-14). Sendo assim, nesta categoria em questão, realizamos o aprimoramento de todos os aspectos técnicos e físicos já ensinados anteriormente.

Contudo, pontuado os aspectos mais trabalhados na formação do goleiro no sub-14, penso que são os aprimoramentos dos aspectos técnicos e físicos primários, onde podemos exemplificar com as defesas centrais e laterais altas, médias e rasteiras, saída do gol em cruzamento e enfrentamento, assim como, também, as reposições de bola com as mãos e com os pés (altos e do chão).

MW: O São Paulo dispõe da tecnologia e plataformas táticas para melhorar e trabalhar seus atletas, especialmente o goleiro? Em sua categoria, você utiliza estatísticas em treinamentos e jogos?

Luiz: Na formação do São Paulo FC, possui uma planilha de controle de treinamentos e jogos para a categoria como um todo, assim como uma planilha de avaliação de atletas. Para o controle de treinamentos e jogos de goleiros, foi desenvolvido, por mim e pelo setor de análise de desempenho, há 5 anos, duas planilhas, onde consigo fazer o controle de tudo que fiz nos treinamentos e uma planilha onde posso coletar todas as ações que os goleiros fazem em jogos. Porém, estas duas planilhas específicas dos goleiros não são oficiais do SPFC, ela é particular, onde estou interessado em transformar em um único aplicativo e, assim, facilitar o arquivamento de dados e uma possível comercialização do mesmo.

MW: Qual a maior dificuldade que o goleiro tem durante a transição?

Luiz: Em minha opinião, a maior dificuldade que os goleiros possam vir a ter em transição de categoria, não importando a idade, é a adaptação da forma de jogo para cada etapa. Isto é, para cada categoria se tem uma velocidade de jogo, tem uma necessidade de se antecipar movimentos e ações (não adivinhando). A segurança de jogo é o mais importante para mim. Sendo assim, em todos os momentos, devemos incentivar e dar feedback aos goleiros.

MW: Acima de tudo, o atleta é um ser humano. Como é feita essa capacitação?

Luiz: Aqui, no SPFC, se cobra seu desenvolvimento técnico, tático e físico, porém, também se cobra seu desenvolvimento e aprendizagem fora das quatro linhas. Na escola, temos uma cobrança efetiva e intensa na assiduidade das aulas e suas notas em provas. Formando, assim, não somente um atleta, mas, também, um ser humano completo e ciente de suas obrigações e deveres.

MW: Por que o goleiro é o jogador que menos tem oportunidade e sequência em relação à jogadores de outras posições?

Luiz: Tem estudos que comprovam que o goleiro obtém sua maturidade de jogo entre os 24 e 26 anos. Sendo assim, principalmente em equipes grandes, se espera mais para se dar a oportunidade aos atletas oriundos das divisões de base devido a cobrança que se faz da direção e torcida por resultados.

MW: Você tem a licença B da CBF e teve uma passagem pelo Shandong Luneng, da China. Considerando o seu conhecimento sobre o futebol nacional e internacional, você acha a formação do goleiro na Europa superior aos padrões nacionais?

Luiz: Tenho uma visão diferente em relação à formação de goleiros. Para mim, a base é como uma escada, onde, em cada degrau, devemos dar o maior número de informações sobre jogos e treinamentos possíveis, não se esquecendo do desempenho. Para mim, a formação deve se pautar em cima da busca do que fazer, da melhor forma possível e em menos movimentos possíveis. Penso que a técnica, assim como a tática, é muito importante, pois, como posso colocar o goleiro em um jogo importante se o mesmo não possui uma técnica muito boa, colocamos este contexto em cima de uma frase: “O jogo é um espaço para resolver problemas”. No entanto, acredito que, se você não possui uma técnica específica muito boa, a resolução do problema não se fará de forma efetiva.

Na Europa e Ásia, no entanto, eles acreditam que a técnica deve ser treinada, sim, porém, se faz mais necessário o aperfeiçoamento e aprendizagem dos aspectos táticos (resolução de problemas em jogos) do que técnicos. Se pudermos quantificar os treinos no ano, acredito que, no futebol internacional, se dará uma maior prioridade aos aspectos táticos do goleiro.

Com isto, acredito que os goleiros brasileiros são mais completos em ambos os aspectos (técnicos e táticos) do que o europeu quando falamos de formação.

MW: Há diferença entre as categorias de base da China e do Brasil?

Luiz: Existem muitas diferenças entre os princípios de treinamentos dos países em questão. Na China, acredita-se muito na melhora e treinamento do goleiro em jogo (unicamente), pois eles pensam que, se o goleiro aprender a jogar, ele aprenderá a defender.

Não concordo com a especialização do goleiro em jogo, e sim em um entendimento global da posição (jogo x treino; técnica x resolução de problemas).

MW: Em campo, é notado mais os aspectos técnicos e táticos, deixando de lado o jogo mental, por exemplo, que também é de extrema importância, principalmente para o goleiro. Você trabalha esses aspectos mais subestimados?

Luiz: Procuro trabalhar em campo com o entendimento do jogo e técnica global do goleiro. Desta forma, fazendo com que os atletas que estão em treinamento comigo consigam identificar e se auto corrigir em uma determinada jogada/defesa.

No SPFC, temos o setor de psicologia que busca trabalhar de forma mais eficiente e eficaz neste aspecto. Trabalhamos em conjunto, onde pontuo as minhas ideias e observações dos atletas em campo e, junto com o psicólogo, desenvolvemos os trabalhos.

Lucas PerriLucas Perri em treinamento pelo São Paulo [Mauricio Rummens]

MW: Lucas Perri, hoje, é um dos goleiros mais promissores e técnicos do futebol brasileiro, sabendo jogar com os pés e ser seguro sob as traves. Isso foi evoluído e trabalhado durante o processo de formação em Cotia ou o talento do jogador acabou se sobressaindo?

Luiz: Sem sombra de dúvida, todo o conhecimento que o atleta adquiriu durante sua passagem pela base da Ponte Preta (primeiro clube do atleta) e, posteriormente, a do São Paulo FC fez com que, durante os treinamentos, ele se desenvolvesse ainda mais sobre os aspectos apresentados.

Devemos ressaltar que o atleta, durante a passagem na base do São Paulo, foi treinado por dois treinadores de goleiros com grande importância no cenário nacional – Carlos Gallo (com três Copas do Mundo e passagens por Ponte Preta, Corinthians, Palmeiras, Guarani, Portuguesa e Turquia) e o Haroldo Lamounier (hoje, treinador de goleiros do Fortaleza e treinador do Rogério Ceni por 13 anos). Cada treinador somou em seu crescimento como goleiro e sua performance mais apurada.

Não acredito em talento nato, acredito em inteligência em aprendizado e aperfeiçoamento. Isto é, quanto maior a inteligência do atleta, maior sua aprendizagem e naturalidade na execução da técnica.

MW: Muitos preparadores, especialmente em divisões maiores, costumam dizer que os goleiros não costumam chegar em um nível avançado de preparação, o que acaba dificultando no conhecimento do próprio atleta e áreas a serem trabalhadas. Você e o São Paulo têm esse cuidado de manter uma filosofia de trabalho para que o atleta chegue no profissional sem pular etapas?

Luiz: Com a necessidade em formar e, ao mesmo tempo, ganhar campeonatos na base, por vezes, acabamos por acelerar determinados processos. No entanto, acredito que o fato dos preparadores de goleiros, nas divisões maiores, dizerem que os atletas não chegam a um nível ideal por conta de que o atleta, quando chega ao profissional, pode vir a ter entre 17 a 20 anos, sendo ainda muito novo e sem a vivência plena da posição. Ainda mais quando falamos de goleiros, pois, nas posições de linha, se consegue uma maior condição de jogo para os atletas porque se pode improvisá-los em outras posições, não sendo possível para a posição de goleiro.

No São Paulo FC, procuramos não pular etapas, porém, quando solicitado pelo profissional, colocamos todas as possibilidades e quais goleiros estão mais próximos do ideal para integrar a equipe principal.

MW: Com o passar do tempo e a evolução no futebol, os goleiros passaram a utilizar os pés na saída de bola no intuito de dominar a posse de bola. Isso é trabalhado desde as categorias de base ou o objetivo de formação é outro?

Luiz: Nas equipes de base do São Paulo, sempre consideramos este fundamento como um dos mais importantes, até mesmo porque a equipe principal do São Paulo teve, por seu maior ídolo, um goleiro que tinha um diferencial a excelente utilização dos pés.

Porém, acredito que a utilização dos pés para a posição dos goleiros não se deve ter por cobrança a excelência, e sim pela eficácia. Isto quer dizer que o goleiro precisa saber o que fazer, como fazer, quando fazer e de que forma fazer quando for requisitado a utilização dos pés.

MW: Osny Oliveira, preparador de goleiros do sub-17, diz que sua preferência é por inserir o jogo coletivo, estimulando a saída de bola com passes, domínios e controle de bola. Qual a sua opinião?

Luiz: Esta pode ser uma das formas de estimular os goleiros a utilizar os pés, isto é, uma forma de treinamento. Acredito, também, que existam outras possibilidades, como os treinamentos analíticos, que são de tão valia quanto os inseridos no grupo.

MW: Na Europa, é comum os times (Barcelona e Ajax, por exemplo) trabalharem o mesmo modelo de jogo desde as categorias de base, para que o atleta chegue no profissional com mais conhecimento e menos dificuldade no momento de transição. No Brasil, é mais difícil ter times com DNAs e modelos definidos. Isso pesa na formação do jogador?

Luiz: Infelizmente, no Brasil, as equipes, em um modo geral, não seguem os mesmos modelos na base e no profissional. Sendo assim, se um clube tem uma mesma forma de jogo ou uma sequência a ser seguida em suas respectivas categorias, fica mais fácil do atleta chegar ao profissional e se adaptar mais facilmente.

MW: O torcedor está mais acostumado a acompanhar, ainda que não seja na mesma intensidade, o sub-20, enquanto as outras divisões continuam causando pouco interesse. No sub-14 e divisões menores, o processo de formação dos goleiros (e outras posições) são as mesmas ou muda de acordo com os treinadores e preparadores?

Luiz: Aqui, procuramos manter o tempo de maturação biológica dentro dos treinamentos. Isto é, para cada idade se faz necessário aprender uma situação, não podendo ser cobrado ou requerido a atletas sub-11 um desempenho tático que se cobraria da categoria sub-13, por exemplo.

MW: Assim como em outras áreas que relacionam o futebol, a bibliografia para goleiros, no Brasil, ainda é muito escassa, restando as de outros países. Thiago Mehl, preparador de goleiros do Bahia, bate muito nessa tecla, inclusive. Você acha que, caso houvessem mais livros e meios de estudos, os goleiros teriam melhor conhecimento e evolução?

Luiz: Acredito que, no Brasil, os preparadores de goleiros são antigos goleiros, utilizando suas vivências em seus treinamentos. Porém, acredito que se faz necessário um maior estudo e dedicação dos meios científicos o estudo da posição, seja em questões de treinamentos ou de jogos.

@CaioAIves

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