Explicando como joga o maior campeão da Copa do Brasil

Por Davi Magalhães, com a contribuição de Christiano Candian

22Cruzeiro levantando a 6° taça da Copa do Brasil em sua história.

Pelo segundo ano consecutivo, o Cruzeiro é campeão da Copa do Brasil. Com o título, o time se torna o maior vencedor da competição com seis conquistas e o primeiro clube a ganhar dois títulos seguidos. Abrindo mão do Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro tem se transformado em um time “copero”. Muito forte em competições de mata-mata, sabendo muito bem jogar esse tipo de competição. Na Libertadores de 2018, chegou até as quartas de final e na Copa do Brasil deste ano, precisou eliminar Atlético-PR, Santos e Palmeiras para disputar a final contra o Corinthians.

Coincidência ou não, é do Cruzeiro o treinador a mais tempo em clube da elite do futebol brasileiro. No cargo desde o segundo semestre de 2016, além do título da Copa do Brasil em 2017, o treinador conquistou o título do Campeonato Mineiro em 2018 e colhe os frutos pelo trabalho desenvolvido no time. E muito desse “DNA copero” do time se deve ao comandante. Que, em sua carreira é conhecido como um especialista em mata-mata.

Outro rótulo que o gaúcho carrega é o de “retranqueiro”. Porém, é um fato que o treinador sabe montar muito bem sistemas defensivos. Tanto que chegou a comandar a Seleção Brasileira, após ótima passagem pelo Corinthians.

No Cruzeiro, é notável esse estilo de jogo do treinador. Talvez a principal característica do time, seja o sólido sistema defensivo. Nesses mata-mata, algo recorrente foi a dificuldade do adversário em conseguir superar o sistema defensivo celeste. Tanto que na maioria das eliminatórias, o time venceu o primeiro jogo e administrou muito bem a vantagem conquistada. É nesse cenário, onde o time mineiro mais se sente confortável, quando tem a vantagem no placar.

SISTEMA DEFENSIVO DO CRUZEIRO

Outra característica forte do treinador é o tradicional esquema tático 1-4-2-3-1. Esquema adotado por ele na maioria das equipes onde passou. Se postando no 1-4-4-2 quando o Cruzeiro não tem a bola. Ou seja, quando o time está no momento defensivo, os laterias se alinham aos zagueiros formando a primeira linha de marcação, os volantes se alinham aos extremos (meia que atua pelo lado do campo) formando segunda linha de marcação e o meia-atacante (antigo ponta de lança), se alinha ao centroavante, formando a última linha de marcação. A linha de marcação mais próxima ao gol adversário.

22Na imagem, repare como o Cruzeiro se defende no 1-4-4-2. Edílson, Dedé, Léo e Egídio formam a primeira linha de marcação; Robinho, Henrique, Lucas Silva e Arrascaeta, a segunda; Thiago Neves e Barcos formam a última linha de marcação. Procurando manter uma distância de 30 metros entre o jogador de linha mais recuado e o mais avançado do time. Diminuindo o espaço efetivo de jogo. (TV Globo)

A intenção de Mano é negar espaços ao adversário. Afinal, esse é um dos princípios táticos defensivos. Pois, com liberdade e espaço para jogar a chance do adversário, finalizar no seu gol aumenta. Ao reduzir o espaço de jogo do adversário, Mano protege muito bem o seu gol. Impedindo que o adversário finalize no gol defendido pelo goleiro Fábio.

Essa marcação do Cruzeiro começa a partir do meio de campo. Justamente para não chamar o adversário para o seu campo de defesa. Barcos e Thiago Neves começam a pressionar o adversário com a bola, a partir do meio de campo. Sendo assim, a troca de passes entre os zagueiros adversários não incomoda o Cruzeiro. Afinal, a troca de passes entre os zagueiros não é efetiva.

CONTROLE DO JOGO SEM A BOLA

Mano definiu o conceito de controlar o jogo sem a bola na entrevista: “Ás vezes a pessoa acha que controlar o jogo é sempre estar com a bola. Não! Controlar o jogo é fazer com que o adversário faça aquilo que você quer que ele faça”. Quando não tem a posse, o Cruzeiro procura controlar o jogo sem a bola. Como o próprio treinador definiu em entrevista ao analista de desempenho da Espn, Renato Rodrigues, além de formar duas linhas de marcação próximas, é preciso controlar o jogo sem a bola.

COMO O CRUZEIRO FAZ ISSO?

Tendo em vista que é pelo meio que saem a maioria dos gols. Mano Menezes procura ocupar muito bem os espaços por dentro. Principalmente, a entrada da área. Também conhecido como “funil”. A zona mais perigosa do campo. É por ali, onde sai a maioria das finalizações. O colunista Leonardo Miranda, falou muito bem sobre isso em seu texto sobre como o Cruzeiro protege bem a entrada da área:

https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2018/09/13/funil-fechado-o-cruzeiro-de-mano-menezes-e-uma-aula-de-como-montar-defesas-fechadas.ghtml?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_content=Esporte&utm_campaign=globoesportecom

DIRECIONAMENTO

E através do direcionamento, o Cruzeiro induz o adversário a jogar por onde ele quer. O que seria isso? O direcionamento se refere à busca de conduzir o adversário para zonas mais favoráveis para a roubada da bola. Ou seja, o Cruzeiro direciona o adversário a jogar pelos lados do campo. Mano entende que pelos lados é mais propício de roubar a bola. Por uma questão geográfica, o jogador pelo lado do campo tem muito menos opção de passe. Sendo assim, ao chegar nos lados do campo é muito mais fácil cortar as opções de passe do portador da bola. Por isso, quando a bola chega aos lados do campo, o atacante (Barcos) flutua para o lado da bola, e procura encaixar no zagueiro não permitindo que o time saia da zona da pressão. No setor da bola, um jogador pressiona o portador da bola e os companheiros encaixam nos adversários que podem receber a bola, cortando as opções de passe do portador. Como o adversário acaba ficando sem com quem jogar, o Cruzeiro acaba tendo muito mais chance de recuperar a bola.

Esses encaixes em quem pode receber o passe do adversário, permitem que o Cruzeiro execute mais um conceito tático defensivo: a igualdade numérica no setor. Através desses encaixes, o time cruzeirense nunca fica em inferioridade numérica no setor da bola. Sempre está em igualdade numérica no setor. Um dos conceitos táticos do comandante cruzeirense.

PRESSÃO NO PORTADOR DA BOLA

Não só apenas pelos lados que o Cruzeiro realiza esses encaixes. Realiza esses encaixes curtos no setor da bola. Para assim, diminuir o tempo e espaço do adversário. Tirando a liberdade dos adversários, pois o grande problema da marcação zonal é a passividade. Através desses encaixes setorizados, a equipe cruzeirense pressiona o portador da bola, impedindo que o adversário consiga avançar no campo com a bola. Executando um dos princípios táticos defensivos. Assim, ao defender cada jogador tem sua zona para ocupar. Quando algum adversário entra nela, ele passa a ser a referência posicional do jogador. Nesses encaixes setorizados, os jogadores encaixam nos jogadores que podem receber a bola, mantendo as distâncias curtas entre eles. O marcador acompanha o adversário até um certo ponto, depois que o adversário sai da sua zona, não é mais responsabilidade do jogador, encaixar no adversário. As perseguições não são longas. Justamente para não deixar espaços que o adversário possa ocupar. Nos jogadores que tem menos chance de receber a bola, a distância é mais longa.

22No jogo de ida das oitavas de final da Libertadores, Henrique foi muito importante no sistema defensivo do Cruzeiro. Muitas vezes, o camisa 8 encaixava em Diego para cortar a linha de passe para o meia flamenguista. Diego procurou se movimentar para receber a bola, e quando estava em seu setor, Henrique rapidamente entendia que era preciso cortar a linha de passe e não deixá-lo receber a bola. (TV Globo)

DEFESA DA ÁREA

Como a equipe cruzeirense induz o adversário a jogar pelos lados do campo, quase todos ataques dos adversários acabam em cruzamentos para a área. Um dos grandes problemas ao se defender de cruzamentos é marcar apenas a bola e esquecer do adversário. Para não acontecer isso, a equipe celeste marca de forma individual nos cruzamentos. Sendo assim, quando o adversário chega até a linha de fundo ou em condições de cruzar a bola para a área, cada jogador marca o seu. Nos cruzamentos, a referência é o jogador. A principal referência individual do sistema defensivo do Cruzeiro é Dedé. O zagueiro que voltou a ser convocado pela Seleção Brasileira, possui um jogo aéreo excelente. Sendo soberano nos cruzamentos para a área do Cruzeiro.

22Na imagem, percebe como cada jogador marca o seu. Cruzeiro marca de forma individual nos cruzamentos. (Fox Sports)

Por isso é tão complicado furar a defesa cruzeirense. Afinal, os comandados de Mano não apenas se defendem com duas linhas de marcação próximas. Claro que atacar, propor o jogo é mais complicado. Mas, se defender exige muita concentração por parte dos jogadores. Pois um erro pode custar muito caro. Estando completamente concentrados para não deixar o adversário progredir no campo e finalizar no seu gol. Além da compactação defensiva, a equipe realiza os encaixes no setor da bola para pressionar o portador da bola e cortar as opções de passe do adversário. Além de uma ótima proteção a entrada da área e defender muito bem nos cruzamentos. Com esses conceitos, o time procura reduzir o espaço efetivo de jogo, evitar a superioridade numérica no setor da bola, induz o adversário a jogar pelos lados, evitar que o adversário progrida no campo com a bola e finalize no gol de Fábio.

QUANDO TEM A BOLA

Tanto quando recupera quando tem a posse de bola, o Cruzeiro busca atacar pelos corredores. Porque? Pois, como Mano Menezes gosta de um estilo mais vertical, com troca de passes menos elaboradas, atacar pelos lados permite que a jogada se desenvolva de forma mais rápida. Por esse motivo, tento quando recupera, tanto quanto tem a bola, o Cruzeiro ataca pelos lados de forma mais direta, objetiva, rápida. Usa muito os lados do campo para criar chances de gol. Pelos lados, sempre procura realizar a dobradinha entre extremo e lateral do lado. Se a bola está com o lateral, o extremo daquele lado se aproxima para tabelar com o lateral. Enquanto, o extremo do lado oposto se desloca em direção ao meio, para ficar mais próximo do jogo. Podendo se oferecer como opção de passe entre as linhas do adversário e principalmente entrar na área caso o time consiga chegar a linha de fundo. Na criação ofensiva, o extremo do lado oposto se desloca em direção ao meio. As referências individuais no momento ofensivo são os meias. Principalmente os extremos Arrascaeta (extremo-esquerdo) e Robinho (extremo-direito). Robinho possui um ótimo passe de ruptura, tem muita qualidade de passe. Quando o time precisa propor o jogo, o camisa 19 procura ajudar muita a construção do jogo, recuando até o meio de campo. Vendo o campo de frente. Em momentos que o time precisa do gol, o treinador usa ele como volante.

22No primeiro jogo da final da Copa do Brasil, Robinho foi muito importante na construção do jogo. O meia recuava até a base da jogada (espaço a frente dos volantes adversários) para receber a bola dos volantes cruzeirenses. Mapa de passes do camisa 19 na partida demonstra bem isso.

Arrascaeta é um dos principais destaques individuais do time. O uruguaio tem muita qualidade técnica, mobilidade, ocupa muito bem os espaços. Em razão disso, os extremos flutuam pelo campo no momento ofensivo. Ambos, se deslocam em direção ao meio para jogar entre as linhas de marcação do adversário e estarem mais próximos da bola. Mano Menezes já disse que o uruguaio rende mais jogando por meio. Em razão disso, ele dá toda a liberdade para Arrascaeta partir da esquerda em direção ao meio e pisar na área, no momento ofensivo.

22Números de Arrascaeta, um dos principais jogadores do time campeão, após o primeiro jogo das oitavas de final da Libertadores contra o Flamengo. Via: FootStats

Por ter toda essa liberdade quando o Cruzeiro tem a bola. Por vezes, é preciso que os companheiros compensem essa movimentação do jogador. Algumas vezes, quando o time perde a bola, Arrascaeta se encontra muito distante do lado esquerdo. Com isso, o jogador mais próximo procura realizar a compensação e recompor pelo lado esquerdo até que a jogada acabe. Até o centroavante Barcos já realizou essa compensação quando o time perde a bola e o uruguaio está longe da sua posição.

Na frente, Mano Menezes opta por centroavantes de apoio, ou seja, que além de finalizadores, também se aproximem da bola para participar da construção da jogada. Com a referência de ataque saindo da área, Thiago Neves e Arrascaeta tem a liberdade de pisar na área para ocupar o espaço. Robinho, por característica, não avança tanto,

Tanto Fred quanto Barcos tem essa característica de apoio. Raniel ajuda, mas de outras formas: tem bom pivô e é bem físico, trombador. Sassá também, mas este já é um centroavante que prefere atacar espaços, recebendo bolas em profundidade pra finalizar.

Os laterais não atacam ao mesmo tempo. Para não ficar desprotegido na

transição defensiva, o lateral do lado oposto fica na base da jogada (espaço a frente dos volantes adversário). Quase alinhados aos volantes para caso a equipe perca a bola, já estarem posicionados para defender. Mas, se a bola a gira e é invertida para o seu lado, o lateral ataca o corredor e avança para procurar ir até a linha de fundo cruzar. Mantendo um balanço ofensivo do time 5×5. O Cruzeiro procura atacar com 5 jogadores (lateral do lado da bola + extremos + meia-atacante + centroavante) e deixar 5 jogadores atrás da linha da bola, já preparados para a transição defensiva, momento em que o time perde a bola, (lateral do lado oposto + volantes + zagueiros).

Uma das características do time é a procura por cruzamentos no momento ofensivo. Como na criação ofensiva, o time busca muito os lados do campo. Com as combinações entre lateral e extremo, o time cria muitas chances de gol através dos cruzamentos. Procurando sempre ter 3 jogadores atacando a área. Geralmente, o extremo do lado posto, o meia e o centroavante.

22Nos cruzamentos, sempre pelo menos três jogadores entram na área adversária. São eles: o extremo do lado oposto a bola, o meia atacante e o centroavante.

ESCANTEIOS OFENSIVOS

Nas bolas paradas ofensivas, o time usa o mesmo padrão que a seleção inglesa na Copa do Mundo de 2018. Os jogadores ficam enfileirados antes da cobrança curta. Ainda conta com 1 jogador na entrada da área para o rebote ofensivo e outro posicionado na 1° trave.

22Jogadores do Cruzeiro enfileirados antes da cobrança. Após a cobrança, cada jogador se desloca para um lado.

Após a cobrança, cada jogador se desloca para um lado diferente. Tirando a referência da marcação. Geralmente, Dedé é posicionado mais atrás. Por ser um ótimo cabeceador, é feito bloqueio para que ele realize o cabeceio livre de marcação. E consiga cabecear com liberdade para marcar o gol. É a grande referência nas bolas paradas ofensivas.

ESCANTEIOS DEFENSIVOS

O Cruzeiro opta pela marcação predominantemente setorizada em escanteios defensivos. Se defendendo com 9 jogadores, deixando 1 na frente. Desses 9, 6 marcam por zona. Sendo 2 deles na 1° trave, e os outros 4 jogadores alinhados. Ainda conta com 1 jogador bloqueando um dos melhores cabeceadores do adversário, para impedir a impulsão dele. E conta com 2 jogadores na entrada da área para pegar o rebote.

Quando o adversário opta pela cobrança curta, um dos jogadores do rebote vai marcar a opção de passe curta para impedir o adversário de cobrar o escanteio curto. Na imagem, Robinho e Thiago Neves ficam no rebote; Egídio e Henrique por zona na 1° trave; Dedé, Léo, Barcos e Edílson por zona e Lucas Silva realiza o bloqueio no adversário.

22Quando o adversário opta pela cobrança curta, um dos jogadores do rebote vai marcar a opção de passe curta para impedir o adversário de cobrar o escanteio curto. Na imagem, Thiago Neves vai marcar a opção de passe curto.

Quando o cobrador do escanteio tem o pé trocado. Ou seja, é destro e cobra no lado esquerdo, o time se posta mais na pequena área para cortar uma possível cobrança fechada do adversário.

22O cobrado do escanteio pela esquerda é destro. Sendo assim, o time se posiciona na pequena área. Henrique na 1° trave, fica bem próximo ao primeiro poste.

Pelo segundo ano consecutivo, o Cruzeiro é campeão da Copa do Brasil. A verdade é que sob o comado de Mano Menezes, o time se sagrou hexacampeão mostrando muita organização em todos os momentos do jogo, coletividade, solidez defensivamente, equilíbrio, coletividade e ainda mostrou ser muito “copero”. Sabendo jogar muito bem jogar competição por mata-mata. O bicampeonato coroa o trabalho do técnico que está a mais tempo comandando uma equipe no futebol brasileiro. Mostrando que através da manutenção do treinador no comando da equipe, os resultados positivos são colhidos, aliando bom desempenho a vitórias, acompanhadas de conquistas.

@magalhaesDavi_

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