Sistemas táticos e seus componentes

Por Camila Lima

No primeiro texto dessa série tática apresentamos o conceito por trás dos sistemas táticos, fizemos uma breve passagem por sua evolução na história do futebol, com declarações de alguns treinadores renomados, como Pep Guardiola.

Leia  aqui (https://mwfutebol.com.br/2018/08/29/sistemas-taticos-conceito-ideias-linhas-e-evolucao/)

Nesse segundo texto vamos mostrar os componentes que formam estes famosos números, explicando suas relações.

Com base na escola espanhola, a organização estrutural no futebol é determinada por uma dimensão estática e uma dimensão dinâmica. Entendendo por dimensão dinâmica a movimentação dos jogadores cumprindo suas funções dentro de campo e por dimensão estática o sistema de jogo ou o dispositivo tático que representa o modo como os jogadores ocuparão o campo, os famosos números que se dividem em linhas de defesa, meio-campo e ataque. Porém dentro desse conceito é necessário entender que esses sistemas são apenas um ponto de partida, pois pela dinâmica de jogo as posições iniciais são alteradas a cada instante, principalmente em função da bola e das situações de ataque e defesa, ou seja, nunca podem ser considerados um fim em si mesmo, deve ser algo flexível e está sempre a serviço da equipe.

É importante lembrar que para além de uma evolução na maneira de distribuir os jogadores em campo, hoje a missão táctica dos jogadores dentro do sistema de jogo da equipe passou a ser mais importante do que o seu posicionamento. As funções individuais de cada jogador associadas às dinâmicas da equipe e ao cumprimento dos princípios são as informações mais relevantes que devemos buscar para entender melhor o jogo dentro de seu contexto.

Mas o que de fato compõe um sistema tático? Por que equipes que utilizam do mesmo esquema podem jogar de maneiras tão distintas? Eis aqui uma explicação: cada sistema tático possui suas características, o 433 tem uma dinâmica de funcionamento diferente do 442, por exemplo, mas ambos têm componentes em comum, que se relacionam entre si e vamos caracteriza-los agora.

1. Posições específicas: a disposição inicial dos jogadores gera espaços específicos dentro da estrutura do jogo. A distribuição do espaço favorece a realização de um trabalho específico do jogador que o ocupa, de acordo com suas características. Reparem no posicionamento inicial da equipe do Barcelona em um jogo contra o Real Madrid:

lado direito fraco

2. Características dos jogadores: existe um princípio na biologia que diz que cada indivíduo tem uma individualidade própria e isso deve ser de total compreensão por parte dos treinadores. Esse perfil biológico associado ao desenvolvimento das habilidades esportivas formam as características dos jogadores e isto precisa ser respeitado quando elaboramos um modelo de jogo, que nele está incluso os esquemas táticos a serem utilizados. Um jogador como Ralf do Corinthians, que possui uma capacidade defensiva muito aguçada, consegue cobrir uma grande faixa de campo, auxilia em coberturas e desarmes, sem muita velocidade, mas com grande vigor físico não renderia como ponta/extremo, por exemplo. É um contexto um tanto exagerado, mas o ideal é entender a ideia abordada aqui.


lado direito fracoDois gênios, porém com diferentes características em suas formas de jogar.
Fonte: Pergaminho Virtual

3. Meio técnico-tático individual/grupal: para os espanhóis, esse componente refere-se as ações realizadas por um jogador com base na “técnica”, para resolver um problema específico de jogo “tático”, tanto no ataque como na defesa (analisando na perspectiva individual). Quando nos atentamos ao ‘’grupal’’ relacionamos a dois ou mais jogadores (associações) para resolver um problema do jogo, ou seja, as tão famosas tomadas de decisão. Isso nos remete, na verdade, ao conceito de tática individual e de grupo que explicamos nesse texto: https://mwfutebol.com.br/2018/02/20/o-conceito-de-tatica-no-futebol/.


lado direito fracoUm exemplo de uma ação grupal de nível técnico-tático. Ação técnica do Cristiano Ronaldo e leitura do Carvajal para atacar o espaço.

4. Relação entre os jogadores: essas relações formam pequenas subestruturas de jogo e estão presentes nas interações de jogadores de um mesmo setor e entre setores, nas mais variadas faixas ou zonas de campo. É a maneira como os jogadores ‘’conversam’’ dentro de campo, através do cumprimento de suas funções e norteados pelos princípios de jogo dentro das ideias de jogo de cada treinador.


lado direito fracoRelação dos jogadores de ataque de diferentes setores, em ação de apoio ao portador da bola. Em contrapartida, a relação também entre os jogadores de defesa, na ação de pressionar o portador, encurtar espaços e tentar quebrar linhas de passe.

5. Funções: quando falamos de função nos referimos aos comportamentos ou ações que o jogador deverá cumprir dentro de campo nos diferentes momentos do jogo, com e sem a bola (ataque, defesa e suas transições) e está diretamente relacionada ao modelo de jogo do treinador para seu time. Elas precisam também estar em sintonia com as características dos jogadores e são responsáveis pela engrenagem de uma equipe e seu funcionamento dentro de campo. Pra saber mais, clique aqui: https://mwfutebol.com.br/2018/03/29/posicao-x-funcao-no-futebol-voce-consegue-diferencia-las/

6. Relação posição-função: entende-se por posição a região do campo em que o jogador vai jogar e é preciso que essas dinâmicas (as funções) estejam relacionadas ao espaço ou zona que cada jogador ocupará dentro do campo para realizar suas atribuições dentro do modelo de jogo. Cada posição especifica gera mais ou menos a ideia de como serão as tarefas realizadas pelos jogadores, porém óbvio que em cada equipe há sua particularidade. O jogador destacado na imagem abaixo é Marcelo, lateral da equipe do Real Madrid, e a partir de sua posição é possível ter ideia de algumas tarefas que ele deva realizar em campo, como ações de cobertura no momento defensivo junto à última linha de marcação e apoio pelas laterais ou pelo meio para os atacantes e meio-campistas, por exemplo.

lado direito fraco

7. Relação espacial: esse componente segue a seguinte premissa: para alcançar a máxima eficiência em cada sistema do jogo o jogador deve estar no momento certo e no lugar adequado. Essa relação também possui ligação com um conceito chamado espaço efetivo de jogo, que nada mais é do que a área total que uma equipe consegue ocupar em campo, seu desenho externo. Nessa lógica quanto maior o espaço efetivo de uma equipe maior será sua capacidade de manter a posse de bola e de dificultar ações defensivas adversárias como compactação e coberturas, por exemplo.


lado direito fracoFonte: Escola Tática

Seguindo a ótica dessa composição existem algumas características para auxiliar na identificação de um bom sistema tático. São elas:

  • Ser simples para ser facilmente compreendido e interpretado por todos os jogadores.

  • Ser equilibrado na relação de forças defesa/ataque uma vez que o objetivo do futebol consiste em marcar gols na baliza adversária sem os sofrer na própria.

  • Facilitar as transições de forma fluida e sem ocasionar a criação de espaços vazios entre os setores defensivo e ofensivo.

  • Permitir a ocupação racional e adequada do espaço de jogo de forma a maximizar as potencialidades de todos os jogadores.

  • Formar um conjunto coerente onde cada jogador possui tarefas que deve executar em proveito de toda a equipe.

Se você for se aprofundar no assunto, ainda encontrará literaturas que classificam os sistemas pensando apenas em sua ocupação no terreno de jogo, sem relacionar com suas movimentações, ou seja, pensando em posições fixas. Nessa perspectiva existem autores que definem quais sistemas possibilitam melhor capacidade de utilização da amplitude do campo, melhor capacidade de aplicação do jogo de posição melhor capacidade de incorporação dos jogadores em linhas avançadas e afins, mas dentro da evolução do jogo tais aplicações não explicam muita coisa, pois o futebol é cada vez mais orgânico, dinâmico, estratégico e cada treinador o interpreta de um jeito, tentado executar suas ideias da melhor forma de acordo com seu plantel.

Em breve discutiremos sobre outro ponto envolvendo os sistemas táticos: suas linhas. Até lá, podemos trocar ideia no twitter, pois como diz o nosso lema #apredemosjuntos.

@camilaaveiro

Anúncios

Um comentário sobre “Sistemas táticos e seus componentes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s