Volume, posse e vitórias: a revolução no Real Betis com Quique Setién

Por Gêra Lobo

O futebol internacional vive um momento incrível em relação a filosofias de jogo, com técnicos aplicando sistemas e conceitos bem modernos, mas até que com um toque “retrô”, por assim dizer. Um desses entusiastas é o já experiente Quique Setién, que faz um trabalho simplesmente magnífico no Real Betis, uma das grandes surpresas da Europa desde a temporada passada.

Antes de entrar no Betis de Setién, vale lembrar que esse grande trabalho não é exatamente de agora. Com o Las Palmas, time anterior aos béticos, ele tinha a terceira maior posse de bola na Espanha, atrás apenas dos gigantes Barcelona e Real Madrid. Independente da limitação do time, Setién sempre prezou pela bola, pela posse.

Enfim, vamos começar falando que, antes de Setién chegar, o Betis disputou uma segunda divisão e constantemente brigava contra o rebaixamento. Porém, na temporada passada, isso mudou, com um capital bem mais ativo e, claro, a chegada de um técnico “velho” apenas na idade. Muitas coisas mudaram e o Betis, time que deu trabalho no início do século, voltou a chamar atenção na Espanha e, agora, na Europa.

Filosofia e estilo

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Bom, é meio difícil formatar um time titular indiscutível do Betis, exatamente pelas várias ótimas peças, além das variações táticas na equipe. Mesmo assim, pode-se dizer que o esquema e jogadores acima formam uma equipe “base”, totalmente focado em uma formação que virou até moda no mundo do futebol, que é o 3-4-3.

A ideia de jogo de Quique Setién é bem destacada, o que cria uma identidade ao Betis. Independente dos adversários, a equipe não deixa seu estilo de jogo, de muita posse, volume, jogo de posição, para trás. Sua filosofia é sempre de ter bastante a bola, pois, com a bola, o adversário não chega ao seu gol. Mesmo em situações de blocos altos dos adversários, pressionando sua saída no princípio, o Betis mantém seu estilo, sempre tentando achar espaços, com os jogadores buscando se movimentar para encontrar espaços vazios e, aí sim, organizar a jogada no seu princípio. Só em situações emergenciais, sem nenhuma outra saída, que os béticos abdicam do seu estilo e dão um chutão para frente, por exemplo.

Isso é muito interessante de se observar, ainda mais falando de uma equipe que não é nem uma das maiores no seu país. A forma “atrevida” de atuar é que tornou o Betis na potência que é hoje, uma equipe respeitada por todos, exatamente por essa forma moderna e propositiva de se atuar, o que acaba, querendo ou não, chamando a atenção dos gigantes Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid. Setién não abre mão do estilo e isso tem trazido muitos triunfos.

Saída de bola e organização do ataque

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Como dito no começo, o Betis não abdica do seu estilo de jeito algum, independente do adversários em questão. Sua saída de bola tem como destaque a linha de três zagueiros, com todos bem avançados e iniciando a jogada em sua base. Para se ter uma ideia, Aissa Mandi é o líder da La Liga em passes, enquanto Marc Bartra, que joga centralizado na linha de zaga, é o quarto no quesito. Eles são as peças chaves do sistema.

Além disso, destaca-se, também, o apoio dos dois homens centrais no meio de campo que, em tese, são William Carvalho e Andrés Guardado. Ele auxiliam a saída sustentada e dão opções para ligar o time ao ataque. Além disso, Francis e Firpo dão bastante amplitude, buscando atacar os lados e até “levar” os marcadores laterais. Ambos dão muita profundidade, mais uma opção. Por fim, os dois meias descem para ajudar na ligação ao ataque, mas isso vai ser debatido mais à frente.

jairMuito apoio na saída, mesmo com alta pressão do adversário.

Algo que difere o Betis de muitos times pelo mundo é sua facilidade em sair de situações como a do frame acima. Sua compactação e aproximação na saída de bola, com muitos apoios e opções para sair de pressões com blocos bem altos, é muito importante para achar espaços, pois consegue chamar o adversário ao seu campo e acaba acionando jogadores mais velozes, buscando uma situação de 1 contra 1, por exemplo. O time não cede a bola de graça.

Fases de jogo

Existem dois jogadores muito mais importantes do que parecem no jogo posicional do Betis: Francis e Firpo. A função dele é dar verticalidade e muito amplitude ao jogo posicional de Quique Setién, algo que ambos fazem de maneira bem correta. Olhando para o exemplo abaixo, observe-se Firpo abrindo o campo e dando opção em profundidade para o cruzamento, enquanto Francis tem a chance tanto de atacar o fundo, como interiorizar seu jogo. Isso vira um momento constante, acontecendo na situação inversa. Isso é bastante visto na Seleção Brasileira de Tite e no Manchester City de Pep Guardiola, por exemplo.

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Além disso, o Betis sempre tenta ter superioridade númerica, seja com ou sem a bola. Com a bola, a aproximação acontece, na chance de achar assosiações para o avanço do time ao campo de ataque. É difícil ver um Betis espaçado, por exemplo. Setién busca preencher todos os espaços possíveis. Sem a bola, tentam avançar suas linhas e atacar o portador da bola, com até alguns encaixes individuais, mesmo que arriscado em determinadas situações. A ideia é evitar erros na transição defensiva do Betis, que vamos falar agora.

Deficiências

Uma das grandes incógnitas de times que jogam da maneira como o Betis joga, com linhas altas e jogo de posição, é seu momento defensivo. Isso sempre gera dúvidas em relação a regularidade da equipe neste momentos, e com o Betis não é diferente. Como atua com as linhas bem adiantadas, o Betis acaba gerando espaços desnecessários em alguns momentos, o que acarreta situações onde os adversários disputam em velocidade com seus defensores. Um espaço vazio para correr não é lá algo tão benéfico para o trio de zaga bético.

jairAssim saiu o terceiro gol do Levante nesta partida. (Foto: Reprodução)

Além disso, a transição defensiva sempre foi um problema nas equipes de Quique Setién. Suas equipes sempre tiveram dificuldades para manter um equilíbrio entre gols marcados e sofridos. No início do seu trabalho com o Betis, isso foi visto e revisto, mesmo que tenha melhorado consideravelmente na segunda parte da última temporada. No início da atual temporada, as deficiências no jogo transicional defensivo apareceram mais uma vez, ainda mais em momentos mais “tensos” e derradeiros das partidas.

Por fim, algo que vem melhorando, mas segue incomodando, é a dificuldade do Betis em finalizar no último terço do campo. Às vezes falta um auxílio maior dos meias mais ofensivos neste momento, no último passe. Por várias vezes a melhor escapatória do Betis na temporada são seus alas, principalmente Junior Firpo, jogador bem vertical e intenso, além de muito forte. Mas isso é pouco para uma equipe que troca tantos passes e tem tanto volume.

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Setién não é nenhum garoto e, em tese, não faz parte da nova geração de técnicos, ainda mais por estar no cargo há bom tempo. Porém, suas ideias e formas de se adaptar aos novos recursos do jogo são impressionantes. Os holofotes nunca estiveram tanto em cima de si como agora, o que é meio injusto, pois ele sempre foi um “treinador”, desde seus tempos como jogador. Um cara inteligente e produtivo. O Betis já conquistou e segue conquistando milhares de adeptos, aqueles que amam o futebol propositivo, atrevido e muito bem jogado, tudo por conta de Quique Setién, que, querendo ou não, é um dos maiores entusiastas do futebol atualmente. Sua filosofia é incrível e com ideias bem promissoras. O Betis mira coisas gigantes, assim como seu técnico, e o caminho é esse.

@gerinhalobo_

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