O Sassuolo de Roberto De Zerbi

Por Caio AIves

Roberto De Zerbi é mais um treinador promissor a surgir no futebol europeu. Curiosamente, com uma história parecida com a de outro homem bastante elogiado nos últimos meses. Assim como Maurizio Sarri, De Zerbi comandou clubes pequenos e passou por divisões inferiores até ganhar protagonismo na Itália. Darfo Boario, Foggia, Palermo, Benevento e, agora, Sassuolo, onde, apresentando um bom futebol, encontra-se entre os 4 primeiros da Serie A.

Em sua primeira temporada no novo clube, De Zerbi surpreende muito pela posição em que se encontra na tabela. Acontece que, acima disto, existe o desempenho semanal, ponto, até aqui, bastante efetivo. Adepto ao jogo posicional, o italiano conta com um material humano, embora não tão conhecido pela maioria, muito qualificado. Mesmo tendo a intenção de propor sua ideologia, De Zerbi mostra, ao menos até aqui, não ter dificuldades para adaptar-se ao seu plantel, ponto extremamente importante para o seguimento e sucesso do trabalho.

west ham

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Como a maioria das plataformas condizentes com esse modelo de jogo, o Sassuolo usa, como esquema-base, o 4-3-3, ainda que não se limite a isso e ofereça intercâmbios pontuais. À partir disto, De Zerbi, no momento ofensivo, também proporciona o 4-3-2-1. Defendendo seu campo, a equipe usa, como principal argumento, o 4-4-2.

Durante esse início de temporada, o Sassuolo mostra-se bastante híbrido. Da mesma forma que defende e ataca com a primeira linha de 4, tem o 3-4-3 como argumento – esse, em ambas as fases de jogo. Se adaptando e somando minutos com sua equipe, De Zerbi pouco repetiu escalações e plataformas, ainda que não deixe sua ideologia possessiva e posicional como segunda opção.

Saída de bola

Construindo jogo desde trás e oferecendo uma saída de bola limpa, o Sassuolo preza pelo jogo de posse-passe, como visto até aqui – até mesmo contra a Juventus, no Allianz Stadium. Uma das grandes qualidades possuintes por De Zerbi é sua primeira linha. Com a equipe sempre prezando pela verticalidade, Ferrari e Marlon (especialmente) se responsabilizam por subir o bloco, conduzir e distribuir jogo. Enquanto isso, os laterais, Pol Lirola e Rogério, mostram-se bastante protagonistas em seus corredores, principalmente no jogo transicional.

west hamRecepções de passe de Locatelli

Sendo a engrenagem e totalmente chave no sistema de jogo, Manuel Locatelli vem sendo um dos maiores protagonistas do Sassuolo. Bem como um pivote, Locatelli é o responsável por recepcionar jogo dos centrais, oferecer apoio em zonas pressionadas, distribuir desde a base e servir como terceiro homem nos triângulos constantes. Ao seu lado, Duncan é totalmente operário e eficiente. Perseguindo, destruindo e contribuindo na construção de jogo, o ganês vem fazendo uma sociedade promissora com o italiano.

No último terço, um tripé ofensivo móvel, associativo e rápido. Com Berardi e Di Francesco jogando ao pé contrário pelos lados, o Sassuolo ganha, no momento ofensivo, um poder de fogo intenso. Ademais, possibilitam pressão ao portador e encaixes efetivos, sem mencionar o jogo interior dos extremos para que os laterais, principalmente no 4-3-2-1, possam executar as ultrapassagens e transitarem pelos corredores, argumento muito usado pela equipe.

west hamRecepções de passe de Kevin-Prince Boateng

Ainda sobre o setor ofensivo, talvez o jogador mais conhecido da equipe. Nas mãos de seu novo comandante, em sua nova equipe – após boa passagem pelo Eintracht Frankfurt –, Kevin-Prince Boateng chave e importantíssimo cumprindo seu papel. Emulando a figura de falso 9, Boateng é apresenta-se em total solo ofensivo, além de abrir campo e oferecer alternativas de passe constantemente.

Transição defensiva

É de conhecimento geral que, ao menos no início e na maioria das equipes que praticam o Jogo de Posição, a transição defensiva é um dos aspectos que mais geram dúvidas e problemas. Com o Sassuolo, não vem sendo diferente.

Considerando o contexto atual do futebol e relacionando com outros exemplos, o time de Roberto De Zerbi não é um dos que mais sofrem com isso. De qualquer forma, contudo, há problemas pontuais. Por ser uma equipe que atua em bloco médio-alto, pressiona o portador – por ora em superioridade numérica – e oferece encaixes bastante impositivos, o time acaba correndo riscos.

Entretanto, visto que seus laterais – principalmente Rogério – são bastante lúcidos em ambas as fases e a primeira linha conta com um central rápido como Marlon, é um aspecto que, com o processo de sequência e treinamento, De Zerbi tende a corrigir durante a temporada.

Fases de jogo

Verticalidade e superioridade numérica. Fosse para resumir o Sassuolo, seria assim. Além do esquema tático, que já estamos acostumados e é um pouco mais comum, De Zerbi, dentro de sua ideologia, apresenta argumentos um tanto quanto promissores e positivos.

Quando com 3 jogadores, sua saída de bola é executada com Locatelli entre os dois zagueiros. Ainda que com uma linha de 4, os demais jogadores se posicionam em campo rival com o intuito de ocupar mais espaços e gerar, no mínimo, igualdade numérica nos duelos a serem disputados.

Posicional que é, o jogo do Sassuolo requer amplitude, algo que seus laterais fazem bem – acontece que não é a todo momento. Emulando os ataques, por exemplo, do Brasil, de Tite, e do Manchester City, de Guardiola, o lateral do lado em que a bola se localiza abre o campo por completo, enquanto, do lado oposto, o lateral torna-se interior e ataca por dentro, possibilitando aproximações e um campo menos aberto para oferecer alternativas. Assim que a bola gira, o lateral abre e o outro vira interior, tornando-se um movimento cíclico.

Quando a equipe perde o domínio da posse, pressão constante no portador, além dos encaixes individuais nos demais jogadores. Tudo isso para evitar, ao máximo, com que o adversário aproveite o espaço gerado e, assim, encontre uma transição defensiva falha por parte da equipe de Roberto. Caso a saída de bola seja efetuada de forma curta, rápida e efetiva, os laterais tratam de fazer a cobertura e, em momentos específicos ou de jogo, defender em uma linha de 5, se necessário.

Ademais, a superioridade não se limita apenas em campo contrário, sendo transportada, também, para o próprio campo. Defendendo sua área, o Sassuolo busca preencher seu campo com os jogadores necessários, sempre em superioridade, com o intuito de diminuir a probabilidade de gol adversário.

Cagliari Calcio v Benevento Calcio - Serie A

Roberto De Zerbi, mesmo que em poucos jogos em sua nova equipe, está um tanto quanto acostumado com o futebol italiano, visto que surgiu como treinador em divisões inferiores e comandou o Benevento em 2017-2018. O hype, em momentos como esse, sempre haverá, visto os apreciadores fervorosos do jogo mais posicional. Acontece que o Sassuolo, querendo ou não, muito por seu novo treinador, sabe ser impositivo no modelo de jogo atuante. Com uma ideologia bastante rica e promissora, é um time – e um técnico – a ser acompanhado de perto.

@CaioAIves

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