Os espaços deixados, a mudança de Luan e a verticalidade dos passes – ANÁLISE TÁTICA DE GRÊMIO 3 x 2 CEARÁ

Por Maurício Wiklicky

Essa análise tática é especial, pois os temas foram escolhidos pelos seguidores. Algo que se repetirá, fiquem atentos ao meu Twitter @mwgremio.

No bom jogo contra o Ceará, os seguidores escolheram três temas muito interessantes e pertinentes, o que mostra como casa vez mais o pessoal se interessa pela tática:

  1. Como o Ceará conseguiu chegar com superioridade no campo de ataque no lance de gol e se isso aconteceu em outras ocasiões – por @sergiostn_
  2. Diferença do Luan do 1o para o 2o tempo – por @HiqueHaas
  3. Objetividade dos passes, vejo muito passe para trás e para o lado – por @cassidrumn

Os espaços deixados pelo Grêmio e Lisca não tem nada de doido

Para responder o primeiro tema temos que elogiar a postura do Ceará em toda partida. O time cearense em nenhuma momento abdicou de jogar, sempre buscando o ataque. O time jogou em um 442, explorando a velocidade pelos lados e marcando em bloco médio (na linha intermediária, não fazendo o que costumeiramente os adversários fazem na Arena, de defender com duas linhas de 4 jogadores próximos a grande área). Além do Ceará, apenas São Paulo e Palmeiras jogaram assim nesse campeonato brasileiro. Curiosamente o líder e vice-líder nesse momento do campeonato. O Grêmio, dono da melhor defesa do campeonato com apenas 14 gols sofridos, nesses três jogos que sofreu marcação em bloco médio, sofreu 5 gols. E qual o motivo disso?

Pegando como exemplo o jogo contra o Ceará, o time de Lisca sempre procurava o lado direito da defesa tricolor para atacar. Seja com Callyson (formado nas categorias de ase do Grêmio) ou com Arthur, que tem a função de centroavante, mas como no lance do 2o gol buscou o lado direito para fazer a jogada.

Posicionamento médio do Ceará antes das substituições.

Essa procura pelo lado direito da defessa gremista se deve ao fato de Leo Moura ter atuado como titular. A marcação nunca foi seu forte, e com a idade avançada a recomposição fica prejudicada. Além disso, o Grêmio com Maicon e Cícero perde em velocidade na marcação. Por isso, quando os adversários enfrentam o tricolor gaúcho de igual para igual tem muitas chances de fazer um gol. Maicon já disse em entrevista quando perguntado se poderia jogar ao lado de Arthur, pois ambos não tem características de muita marcação (assim como Cícero) se poderiam jogar juntos, e a resposta do capitão foi “Claro que podemos, ficamos com a bola quase todo tempo, teremos que correr no máximo umas 5 vezes por jogo.” Porém nessas cinco vezes, a defesa nao pode cometer erros, tanto é que Geromel e Kanneman são os dois zagueiros que tem mais confronto direto com os atacantes, pois ficam expostos.

O lance do segundo do gol o Cerá é o maior exemplo disso. Abaixo reproduzo todo o lance do segundo gol do Ceará. Notem que aos 44 segundos, Leo Moura perde o rebote e corre muito para recuperá-la, lance para quem estava na Arena foi de aplausos. Porém, aos 57 segundos, Luan perde a bola, Leo Moura está avançado e não aparece mais na imagem, pois não consegue voltar para marcar. Após isso uma sucessão de erros: Geromel não acerta o bote, Kannemann que estava na cobertura centraliza, pois pensa que Geromel recuará, mas isso não ocorre e o jogador Arthur fica livre para o chute, e por fim, Kannemann ainda escorrega na tentativa de afastar no rebote. Ou seja, um gol que começa pela falha de recomposição de nosso lado direito, mas que decorre uma sucessão de erros poucos vistos pela Arena.

A diferença de Luan do primeiro para o segundo tempo

Todos sabemos que Luan é o centro do time. É por ele que o time joga. Ele tem total liberdade de se movimentar, buscar espaços, jogar nas entrelinhas, se associa tanto na direita quanto na esquerda. Quem joga ao lado de Luan, se aproveitar a chance, renderá muito (são os casos de Pedro Rocha, Fernandinho, Everton, Edilson, Cortez, Arthur…).

Sabendo de toda essa qualidade, os adversário costumas marcá-lo de uma forma especial, seja marcação individual, seja marcação por zona, deixando um jogador enre as duas linhas de quatro, assim Luan não terá a liberade de circular entre as linhas (exemplo do rival com Dourado), ou então as duas linhas são bem compactas.

Associacao de passes de Luan como centro do time

Porém contra o Ceará isso não ocorreu, pois foi um jogo mais aberto e Luan teria liberdade de atuar. A grande mudança que vejo de um tempo para o outro foi o lado de atuação. No primeiro tempo atuou mais pela direita, com Ramiro e Leo Moura. A associação com Leo Moura, que sabemos da excelente técnica é sempre muito boa. Porém, como falamos acima, a falta de recomposição faz com que Ramiro recue mais, atuando quase como um volante, assim Luan assume o papel do criador pelo lado direito. Nesse sentido, a marcação em cima de dois jogadores fica mais fácil e o time terá mais dificuldades para criar.

Já no segundo tempo algumas mudanças ocorrem. Leo Moura não se expõe tanto e fica no campo defensivo. Pepê entra no lugar de Ramiro, o Grêmio assim tem mais opções de jogadas por esse lado, e Luan pode se associar mais com o grande ponto forte do time, o lado esquerdo de ataque com Everton e Cortez. Com maior liberdade de atuar, com mais opções pela direita, e com maior associação do lado esquerdo, Luan renderá mais.

A diferença de quantidade e direção de passes do Luan no 1o e 2o tempo contra o Ceará.

Comparativo de Luan no 1o e 2o tempo contra Ceará

OBJETIVIDADE DOS PASSES DO GRÊMIO

Primeiramente é preciso falar que o fato do Grêmio ter um modelo de jogo de posse de bola faz que que seja o time que mais troque passes no Brasil. Em média são mais de 500 passes por jogo, com uma efetividade de mais de 90%.

Obviamente que esses passes não são sempre para frente, aqueles passes de ruptura, os que quebram a linha dos adversários. O Grêmio tem a bola e aguarda o momento certo para atacar. Acima eu comentei a entrevista do Maicon onde ele diz que o Grêmio é pouco atacado, pois tem a posse de bola, por isso podemos ter dois volantes que joguem, que não sejam de extrema marcação. Imaginem o Grêmio sempre arriscando passes para frente, e o quanto sofreríamos de contrata ataque.

Como exemplo podemos citar Maicon. Quase tudo passa por ele, sendo assim ele da ritmo ao time, pois ele quem da mais passes. Contra o Ceará não foi diferente. Abaixo podemos ver a direção de passes dele no jogo. Já uma clara diferença entre o primeiro e segundo tempo. Dinâmica essa alterada também pelas questões mencionadas acima na diferença de Luan no jogo. Maicon foi mais vertical em suas decisões.

Futebol se decide em uma fração de segundos, por isso o Grêmio tem essa paciência de trabalhar a bola de um lado para o outro até achar o melhor momento para o gol. Sem pressa, mas com qualidade. Futebol de alto rendimento é um jogo de xadrez e qualquer movimento errado pode-se perder o jogo.

@mwgremio

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