O jogo reativo no futebol brasileiro

Por Caio Alves 

Assim como na vida, o futebol brasileiro é ligado por diversos aspectos. Dentre eles, o cultural. Quase tudo o que acontece nele, na verdade, se dá pela cultura do país e dos que o comandam, independentemente de ideologia, religião, instituição ou qualquer outra vertente. A cultura não somente nos dispõe intelectualmente ou cria trajetórias, mas acaba formando pensamentos ortodoxos, resultando em saudosismo e, talvez, o medo do novo. Acontece que a cultura também pode – e deve – ser tratada como nova, assim como não devemos nos esquecer das raízes e do que nos fez chegar até aqui.

O saudosismo e o pensamento ortodoxo causam preconceitos – ou pré-conceitos –, o que, em partes, é de extremo entendimento. A internet, além de discussões políticas e agressões horrendas sem motivo algum, também nos proporciona a divisão de espaço com quem acompanhou o Milan de Arrigo Sacchi, por exemplo, enquanto eu, nascido no ano em que o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo para a França, também tenho a liberdade democrática de debater futebol e expor minhas ideias. A internet, assim como o futebol e a vida, causa sentimentos e, consequentemente, preferências. Gosto não se discute e não cabe a ninguém aplicar juízo de valor, mas é necessário buscar, também, a necessidade e utilidade de enxergar o outro lado da moeda. Sendo mais breve, isso leva o nome de empatia, que é – ou deveria ser – conhecida por todos.

A cultura brasileira, assim como seu futebol, dispõe de uma estética divina. O Brasil, abençoado que é, foi capaz de ter Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Neymar, Kaká, Garrincha, Sócrates e tantos outros que merecem, indiscutivelmente, o seu lugar ao sol. Assim sendo, o brasileiro passou a acostumar-se com o “futebol bonito”, expressão bastante usada por aqui. Tudo isso sem mencionar a formação de caráter causada pelos times internacionais, como a Holanda de 74 ou o já mencionado Milan de 88.

No Brasil, imagina-se, de forma errônea, que o jogo de reação é sinal de covardia. Indo além, é dito que o time só utiliza tal estilo por não possuir material humano ou intelectual por parte de seu comandante ou plantel. Sendo ainda mais profundo, há quem diga – e confunda – que a reatividade nada mais é que passar o jogo se defendendo durante todo o jogo. Pensamentos que, possivelmente, tenham sido criados devido a cultura brasileira. Nós temos, de fato, jogadores históricos, craques que marcaram épocas e gênios que fizeram com que o futebol parecesse ainda mais bonito. Mas não pode ser limitado a isso. É preciso entender que sempre haverá o outro lado da moeda, assim como toda ocasião haverá prós e contras. É a lei da vida. Acima de tudo, o futebol é lindo por não possuir uma certeza absoluta. Além de não sabermos quem vai ganhar a partida ou marcar o próximo gol, não há o modo certo de jogar. Nunca haverá. Existem formas que possibilitam chegar ao gol mais rapidamente, assim como o estilo paciente e que estuda cada probabilidade dentro dos 90 minutos. Além da preferência pelo estilo – que todo mundo possui –, é necessário ter respeito e analisar o contexto.

Atualmente, os maiores campeonatos nacionais são dominados por times reativos. No Campeonato Brasileiro, Internacional, São Paulo e Palmeiras, com Odair Hellmann, Diego Aguirre e Felipão, disputam o título. Enquanto isso, na Copa do Brasil, Cruzeiro, de Mano Menezes, Corinthians, de Jair Ventura, e o mesmo Palmeiras encontram-se nas semifinais do torneio. O outro time, bastante comentado em território nacional, tem estilo oposto. O Flamengo, de Maurício Barbieri, assim como o Grêmio, de Renato Portaluppi, são, de forma assumida, propositivos em seus modelos e formas. Muito por isso, acabam ganhando certo protagonismo.

E o que tudo isso tem a ver com a cultura em si? No início deste texto, onde mencionei que o futebol brasileiro é ligado por diversos aspectos, escrevi pensando no principal: o calendário. O debate sobre o tema é amplo, o que pode ser percebido facilmente se levarmos em conta que discutimos sobre isso há, no mínimo, 15 anos. E isso envolve tudo, seja falando do treinador, de seus atletas, dos torcedores, dirigentes e da própria mídia. É certo que, assim como todos nós, cada técnico possui sua preferência. Entretanto, pelos motivos e prejuízos causados pelos que comandam o futebol deste país, muitos acabam sendo despedidos e mudando de ideologia – de forma forçada, o que é diferente de se adaptar ao elenco – por conta disso. No fim das contas, o modelo reativo acaba servindo de apoio para quem necessita lutar contra esse tipo de dificuldade. Quantas vezes já não vimos um time, na zona de rebaixamento, contratar um treinador reativo para organizar a equipe e voltar a vencer? Aliás, isso é ainda mais comum quando o clube de maior expressão passa a sofrer dificuldades dentro do campeonato em que disputa. O calendário que não disponibiliza tempo, assim como a cultura do torcedor e/ou dirigente que prioriza o resultado a curto prazo, que requer pressa ao desenvolvimento do trabalho, acabam sendo grandes vilões do nosso futebol. Não há possibilidade de crescimento se não houver sequência – e paciência. Parece um tanto quanto óbvio, mas difícil de ser executado pelos responsáveis.

Para que fique bem claro, não é uma crítica pela escolha ou domínio do jogo reativo no Brasil, e sim uma exposição de fatos e consequências por estarmos vivendo e vendo um futebol tão pobre de ideias e diferentes culturas. Não basta valorizar somente o “futebol raiz”, como dizem, mas saber que é importante ter e reconhecer o oposto. A evolução se passa por isso. Assim como o país em que vivemos, o futebol é muito amplo e democrático para se contentar com tão pouco.

Em meio a tantas demissões e trabalhos interrompidos por diversos motivos, existem treinadores promissores e que sofrem com o preconceito sobre a novidade. Hoje, além de Barbieri, Thiago Larghi tem extrema capacidade para chegar ao topo. Indo além, Tiago Nunes, do Atlético-PR, também demonstra ser. Roger Machado, Guto Ferreira, Enderson Moreira, Alberto Valentim e tantos outros também fazem parte disso. Uma vez mais, é necessário entender que o futebol tem espaço para tudo e todos, desde que bem apresentado, organizado e profissional, algo que o futebol brasileiro não vem demonstrando ser.

Dassler Marques, jornalista do UOL e correspondente da revista Kicker.

Por que tanta dificuldade em implantar um jogo propositivo e, até mesmo, posicional no Brasil?

Dassler: O assunto foi muito comentado, de fato, após as partidas muito disputadas e pouco fluídas na Copa do Brasil. A causa principal, ao meu ver, é a falta de continuidade das equipes, interrompida por mudanças constantes de elenco e comissão técnica. A falta de qualidade técnica, claro, atrapalha em alguns momentos se compararmos a outras ligas da Europa. E para ser bem sucinto, porque o tema é muito abrangente, vale citar calendário cheio e gramados ruins, como o do Maracanã, nas últimas semanas, como fatores influentes.

Em 2015, Tite, quando voltou ao Corinthians, foi adepto da reatividade. Com o passar do tempo, passou a equilibrar seu jogo. Ou seja, no primeiro momento, organizou o time e, com a consistência do trabalho, passou a implantar sua ideologia. Imagina que ele tenha tido essa atitude por conta do calendário, falta de tempo e prioridade pelo resultado?

Dassler: Basicamente, porque precisava de tempo, sequência de treinamentos, construção de entrosamento, ajustes, etc. E, mesmo assim, se lembrar bem, essa equipe só atingiu seu ápice no returno do Brasileiro. E era sequência de uma equipe montada em 2014. Olha como o Liverpool, para pegar um exemplo distante, demorou muito tempo para se encaixar no modelo Klopp e começar a disputar títulos.

Hoje, o treinador com mais tempo de trabalho em um clube brasileiro é Mano Menezes, há 2 anos no Cruzeiro. Por mais reativo e taxado como pragmático, é um estilo de jogo que necessita do mesmo tempo de treinamento e trabalho que os demais?

Dassler: Destruir leva muito menos tempo. Creio que Mano se sente mais confortável com equipes assim. Quem o contrata, deve estar ciente das peculiaridades de seu trabalho e não só pensar “invisto X e quero ganhar tudo”. Creio que ele deve ser, sim, cobrado pelo baixo número de gols do time, mas os resultados no fim das contas depõem a favor dele, por mais que o Cruzeiro faça um Brasileirão morno.

Nessa temporada, Inter, com Odair, São Paulo, com Aguirre, e Palmeiras, com Felipão, disputam títulos. A que se deve tantos times que optam pela reação tendo tanto sucesso no Brasil?

Dassler: É uma ideia mais eficiente e mais simples de ser executada por todas essas peculiaridades do futebol brasileiro. As duas equipes se ajustaram melhor dentro da temporada quando partiram, claramente, para esse caminho. A saída do D’Alessandro no time titular do Inter coincidiu com a ascensão no Brasileiro. E o palmeirense se sentiu mais confiante com Scolari, com uma defesa mais segura e uma equipe mais direta para Borja e Deyverson.

Normalmente, times que precisam de confiança e vitórias optam por treinadores que “organizem a casa”. Vemos isso com Lisca, por exemplo, no Ceará. É a melhor alternativa ou o treinador com estilo mais propositivo teria o mesmo desempenho?

Dassler: O Paraná fez essa aposta com Micale e acredito que teve (mesmo com circunstâncias de planejamento ruim no ano, muitas chegadas de jogadores e rebaixamento iminente) um bom resultado. O melhor rendimento do time, no ano, foi com ele. Mas, para quem precisa evitar derrotas, organizar o sistema defensivo é sempre uma premissa importante. Micale e o jogo mais propositivo só foram possíveis porque houve um período de treinamentos para o Paraná no início do processo.

Em análises e até mesmo na imprensa, há o debate de que o jogador tem mais facilidade para entender estilos mais pragmáticos e ortodoxos. Isso existe ou atualmente, com jogadores que buscam entender mais o jogo, não há essa dificuldade?

Dassler: Eu discordo. Evidente que o jogo mais reativo tem menos complexidade, embora eu não enxergue simplesmente como de fácil execução! Porém, noto que temos jogadores cada vez mais preparados e inteligentes no alto nível. E o mais importante de tudo isso: todos devem estar dispostos a aprender, evoluir, entender o jogo. Esse conceito, certamente, faz o jogador se sentir mais útil. Veja o quanto Guardiola, a todo momento, desafia a si mesmo e a seus jogadores a fazerem novas funções, jogarem em novos sistemas, etc.

A cultura brasileira tem responsabilidade pelo domínio do jogo reativo no futebol brasileiro?

Dassler: Sim, é como já falei anteriormente, e acho que isso também envolve todo o coletivo que orbita em torno do futebol, como, por exemplo, a torcida e a imprensa! A influência de ambos no processo é muito grande.

Na temporada passada, Antonio Conte, reativo, estava no Chelsea. Neste ano, Maurizio Sarri, o oposto, assumiu o time. Em 5 rodadas, já é possível ver, de forma nítida, a mudança de postura e atitude da equipe. Por que no Brasil demora tanto e na Europa vemos isso de forma bem mais rápida?

Dassler: Vi apenas o jogo com Arsenal completo e momentos de outros, mas creio que Sarri foi muito inteligente nessa transição. Primeiro, por levar o eixo principal desse modelo, que é Jorginho. Chegou ao clube com muita personalidade, rapidamente se impôs e foi bem aceito para liderar a proposta da equipe. Kepa foi outro acerto, aparentemente. E Sarri, mesmo sem adquirir muitas peças, utilizou aqueles que potencializavam seu modelo, como David Luiz e Rüdiger como zagueiros, desafiou Kanté a uma função diferente, etc. Creio que se trata de um treinador especial e deve provar isso em um novo país.

Rodrigo Ferrari, treinador de futebol.

Por que tanta dificuldade em implantar um jogo propositivo e, até mesmo, posicional no Brasil?

Rodrigo: Acredito que criar seja mais difícil do que destruir. Além dessa dificuldade, temos que entender que, ao atacar, temos que estar preparados para ser contra-atacados. Ao entender desse jeito, alguns treinadores preferem deixar esse trabalho para seu oponente.

Em 2015, Tite, quando voltou ao Corinthians, foi adepto da reatividade. Com o passar do tempo, passou a equilibrar seu jogo. Ou seja, no primeiro momento, organizou o time e, com a consistência do trabalho, passou a implantar sua ideologia. Imagina que ele tenha tido essa atitude por conta do calendário, falta de tempo e prioridade pelo resultado?

Rodrigo: Ao chegar em um novo desafio, a tendência é primeiro ajeitar a organização defensiva. “Se não faço, pelo menos não levo”. Isso tem a ver com a cultura imediatista do nosso futebol. Com o passar do tempo, o trabalho vai evoluindo e os trabalhos começam a ter um foco maior no modelo de jogo específico de cada treinador.

Hoje, o treinador com mais tempo de trabalho em um clube brasileiro é Mano Menezes, há 2 anos no Cruzeiro. Por mais reativo e taxado como pragmático, é um estilo de jogo que necessita do mesmo tempo de treinamento e trabalho que os demais?

Rodrigo: Todo trabalho bem feito necessita de tempo e não existe uma regra básica, pois isso depende das características do grupo e da capacidade do treinador de passar suas ideias. Posso ter um modelo propositivo que se encaixa em X tempo em um determinado clube e Y em outro, ou X tempo em um elenco e Y com outros atletas.

Nessa temporada, Inter, com Odair, São Paulo, com Aguirre, e Palmeiras, com Felipão, disputam títulos. A que se deve tantos times que optam pela reação tendo tanto sucesso no Brasil?

Rodrigo: Ter a bola e criar em uma organização ofensiva, requer, além do trabalho, um elenco com qualidade técnica alta, inteligente, atento e preparado taticamente para a transição defensiva. Com a mudança da mentalidade brasileira em relação aos trabalhos, aos poucos esses perfis serão moldados e preparados para querer jogar com a bola. Enquanto ainda estamos no processo de evolução desse modelo, fica mais viável compactar a equipe e ao recuperar a bola utilizar os espaços deixados pelo adversário.

Normalmente, times que precisam de confiança e vitórias optam por treinadores que “organizem a casa”. Vemos isso com Lisca, por exemplo, no Ceará. É a melhor alternativa ou o treinador com estilo mais propositivo teria o mesmo desempenho?

Rodrigo: Para trazer a confiança de volta, não tomar gol ajuda muito. Em cima disso, “fechar a casinha”, normalmente, é o primeiro ponto a ser trabalhado. Com a moral elevada, os trabalhos começam a ter outros objetivos. Como disse acima, ao não tomar gol, no mínimo um ponto será conquistado.

Em análises e até mesmo na imprensa, há o debate de que o jogador tem mais facilidade para entender estilos mais pragmáticos e ortodoxos. Isso existe ou atualmente, com jogadores que buscam entender mais o jogo, não há essa dificuldade?

Rodrigo: Acredito que, com o passar do tempo, cada vez menos os jogadores sentem dificuldade de entender novos métodos de treinamento. Além de estarem se adaptando, veem com um aporte da base, onde métodos bem atualizados, normalmente, são aplicados. Outro ponto que percebo é que, muitas vezes, a falta de entendimento do trabalho passa pelas nossas mãos (treinadores). Ao não nos capacitarmos em questões pedagógicas e didáticas, temos dificuldade de passar nossas ideias.

A cultura brasileira tem responsabilidade pelo domínio do jogo reativo no futebol brasileiro?

Rodrigo: A cultura brasileira é ambígua, pois quer um futebol ofensivo, de posse, vertical, mas, ao mesmo tempo, não nos dá tempo de desenvolver nossos conceitos. Acho que entre esses dois fatores, a pressão por resultado imediato pesa mais, fazendo como já dito antes, que a maioria dos trabalhos seja de menor risco.

Na temporada passada, Antonio Conte, reativo, estava no Chelsea. Neste ano, Maurizio Sarri, o oposto, assumiu o time. Em 5 rodadas, já é possível ver, de forma nítida, a mudança de postura e atitude da equipe. Por que no Brasil demora tanto e na Europa vemos isso de forma bem mais rápida?

Rodrigo: Estamos em processo de mudança e evolução. Nossos atletas estão se adaptando a métodos e conceitos novos. Estão, também, começando a entender que o futebol moderno requer atletas versáteis, que possam fazer mais de uma função. Com a questão do modelo de jogo não é diferente, as vivências estão desenvolvendo atletas mais maleáveis, com cognitivo mais desenvolvido e com melhores e mais rápidas tomadas de decisões. Todos os tópicos que citamos aqui, já são trabalhados há tempo no futebol europeu.

Gustavo Fogaça, analista de desempenho e comentarista da Rádio Gaúcha.

Por que tanta dificuldade em implantar um jogo propositivo e, até mesmo, posicional no Brasil?

Guffo: Acredito que, em parte, é porque temos uma cultura de que “organização tática” se refere apenas a como se defende. No Brasil, pensamos que o importante é se organizar lá atrás e, na frente, deixa os caras com talento resolverem. Existe o pensamento que “craque tem que ter liberdade pra resolver”. E isso é cultural, é muito forte. Complicado para treinadores mudarem isso se, desde a base, o atleta é convencido que ele, como atacante ou meia de técnica mais apurada, não precisará pensar o jogo taticamente. Acredito que isso esteja mudando, lentamente, mas mudando.

Por outro lado, com média de três meses de permanência, fica muito difícil pro treinador brasileiro trabalhar suas equipes de forma propositiva. Quem dirá fazer um jogo posicional, que demanda muito treino, meses e meses de trabalho de repetição. E aí o time perde jogos, perde pontos, namora com a zona do rebaixamento e foi pro brejo toda possibilidade de trabalho. Infelizmente, no Brasil, o resultado manda mais que o desempenho, e isso sim estamos longe de mudar.

Em 2015, Tite, quando voltou ao Corinthians, foi adepto da reatividade. Com o passar do tempo, passou a equilibrar seu jogo. Ou seja, no primeiro momento, organizou o time e, com a consistência do trabalho, passou a implantar sua ideologia. Imagina que ele tenha tido essa atitude por conta do calendário, falta de tempo e prioridade pelo resultado?

Guffo: Somente Tite poderá responder esta pergunta com precisão, mas, ao meu ver, inteligente como ele é, sabia que, pra ser campeão, um time precisa ser FLEXÍVEL. Tem que saber jogar de acordo ao contexto, e encontrar soluções mesmo que elas sejam de uma forma distinta ao modelo de jogo usual da sua equipe. A equipe que consiga ser propositiva quando possível e reativa quando necessário, sem perder contundência em ambos modelos, sempre será uma equipe competitiva e com chances de títulos.

Hoje, o treinador com mais tempo de trabalho em um clube brasileiro é Mano Menezes, há 2 anos no Cruzeiro. Por mais reativo e taxado como pragmático, é um estilo de jogo que necessita do mesmo tempo de treinamento e trabalho que os demais?

Guffo: Destruir sempre é mais fácil. Montar uma boa organização defensiva e saber jogar em cima dos erros do adversário é um jeito de jogar futebol. Quem não gosta de ver o Atlético do Simeone? Quem não torcia pelo joguinho murrinha do Leicester do Ranieri? Quando bem executado, o jogo reativo ou mais pragmático, é muito bonito de ver e traz resultados. Tem quem não goste, mas isso não se discute. Para se jogar reativamente com qualidade tática e técnica, também precisa de tempo e consistência no trabalho.

Nessa temporada, Inter, com Odair, São Paulo, com Aguirre, e Palmeiras, com Felipão, disputam títulos. A que se deve tantos times que optam pela reação tendo tanto sucesso no Brasil?

Guffo: Faz umas temporadas que vemos mais times reativos que propositivos no Brasileirão. Isso tem tudo a ver com essa rotatividade absurda dos treinadores. Chega um treinador novo e ele precisa manter o time ou conseguir resultados rápido, e aí vai pelo caminho de “fechar a casinha” e jogar no contra-ataque. Mas, no caso dos 3 times citados, os caminhos foram diferentes: Odair se deu conta que não conseguiria um modelo mais propositivo com o elenco que tinha em mãos e se adaptou às características dos atletas. Isso é inteligência e capacidade. Aguirre impôs sua característica ao elenco, que se adaptou. Apesar que sofre altos e baixos justamente por isso. E Felipão pegou um time muito bem treinado, e adaptou coisas que ele gosta pessoalmente.

Normalmente, times que precisam de confiança e vitórias optam por treinadores que “organizem a casa”. Vemos isso com Lisca, por exemplo, no Ceará. É a melhor alternativa ou o treinador com estilo mais propositivo teria o mesmo desempenho?

Guffo: Confiança é tudo no futebol. E, pra recuperar a confiança, a primeira coisa é não perder mais. Veja o Juventude na Série B. Ninguém duvida que Luiz Carlos Winck seja um baita treinador. É um cara super competente. Mas o primeiro passo dele será recuperar a confiança dos jogadores. Sem ela, nem Guardiola dá jeito. Por isso, todo treinador é, antes de tudo, um gestor de recursos humanos.

Em análises e até mesmo na imprensa, há o debate de que o jogador tem mais facilidade para entender estilos mais pragmáticos e ortodoxos. Isso existe ou atualmente, com jogadores que buscam entender mais o jogo, não há essa dificuldade?

Guffo: Os atletas estão chegando no profissional com maior capacidade analítica e de compreensão. Seja pelos treinamentos e metodologias aprendidos na base, ou pelo fato de que muitos jogam games e aprendem com isso também. A real é que o jogador sempre vai respeitar quem entende o jogo e quem ele veja que poderá evoluir e crescer na profissão. O jogador não é burro, ele sabe sempre o que está acontecendo de certo ou de errado em sua equipe.

Na temporada passada, Antonio Conte, reativo, estava no Chelsea. Neste ano, Maurizio Sarri, o oposto, assumiu o time. Em 5 rodadas, já é possível ver, de forma nítida, a mudança de postura e atitude da equipe. Por que no Brasil demora tanto e na Europa vemos isso de forma bem mais rápida?

Guffo: Aqui se vê isso também. Quando Roger Machado assumiu o Grêmio, em seu primeiro jogo já se via a total diferença de modelo de jogo com os mesmos jogadores e a mesma plataforma (4-2-3-1) que Felipão jogava. Mas, sim, há, nos elencos europeus, um sentido de profissionalismo maior que aqui, onde o atleta ainda manda no clube. Aqui, se o grupo não vai com a cara do treinador, nada acontece. Lá, vai acontecer, apesar que, no longo prazo, também não vai dar certo. Não há fórmulas mágicas, mas a cultura do nosso futebol, o clima do nosso meio ambiente, os estádios e os gramados, a imprensa e a torcida, tudo isso influencia no comportamento das equipes.

Caio Gondo, analista de desempenho da categoria de base do Vila Nova.

Por que tanta dificuldade em implantar um jogo propositivo e, até mesmo, posicional no Brasil?

Caio: O futebol brasileiro tem muita influência de seu calendário e as distâncias para os jogos nacionais e internacionais. Com a falta de tempo para treinar, desenvolver uma fase de jogo da qual apresenta, sim, ações táticas, torna-se bem difícil de ter times os quais realmente joguem um jogo propositivo ou, até mesmo, posicional.

Em 2015, Tite, quando voltou ao Corinthians, foi adepto da reatividade. Com o passar do tempo, passou a equilibrar seu jogo. Ou seja, no primeiro momento, organizou o time e, com a consistência do trabalho, passou a implantar sua ideologia. Imagina que ele tenha tido essa atitude por conta do calendário, falta de tempo e prioridade pelo resultado?

Caio: Aquele Corinthians já havia começado a apresentar ideias e movimentos ofensivos em sua pré-temporada, nos Estados Unidos. Os jogadores que lá estavam já haviam falado de que o técnico havia chegado na pré-temporada com o 4-1-4-1 na cabeça e querendo utilizá-lo com movimentações e ações ofensivas. E respondendo à pergunta: o futebol brasileiro, ainda, vive muito dos resultados. Com isso, aqui, enquanto o time estiver tendo resultando até independentemente do desempenho, o trabalho vai ser “considerado” bom, do contrário, vai ser ruim. No entanto, no caso de Tite, em 2015, eu via que ele já tinha um passado no clube paulista do qual o permitia já começar a desenvolver ideias e movimentações ofensivas desde a pré-temporada. E, com o passar do tempo, sim, essas ideias e ações táticas ofensivas foram aparecendo com mais fluência e efetividade.

Hoje, o treinador com mais tempo de trabalho em um clube brasileiro é Mano Menezes, há 2 anos no Cruzeiro. Por mais reativo e taxado como pragmático, é um estilo de jogo que necessita do mesmo tempo de treinamento e trabalho que os demais?

Caio: Sim. Todas as ações táticas em todas as fases de jogo requerem tempo de assimilação dos jogadores e do técnico em relação com o que ele tem em seu elenco. E digo mais: todas as ações táticas, para apresentarem fluência e efetividade na partida, requer treinos, jogos, testes, análises e ajustes finos dos quais somente com o tempo passam a apresentar um desempenho muito grande.

Nessa temporada, Inter, com Odair, São Paulo, com Aguirre, e Palmeiras, com Felipão, disputam títulos. A que se deve tantos times que optam pela reação tendo tanto sucesso no Brasil?

Caio: A falta de tempo para treinar, pois poucos times brasileiros apresentam um jogo propositivo com efetividade e fluência. Com isso, os times que jogam bem reativamente usufruem desta falha das outras equipes e acabam ganhando jogos atrás de jogos.

Normalmente, times que precisam de confiança e vitórias optam por treinadores que “organizem a casa”. Vemos isso com Lisca, por exemplo, no Ceará. É a melhor alternativa ou o treinador com estilo mais propositivo teria o mesmo desempenho?

Caio: No futebol, não existe o que é melhor ou pior. O que diferencia de um trabalho para o outro é o encaixe das ideias do técnico com o grupo de jogadores que estão a sua disposição. Se essas duas situações “casarem” rapidamente, o time passa a realizar jogos em alto desempenho rapidamente. Do contrário, pode demorar muito mais tempo ou até mesmo nunca apresentar.

Em análises e até mesmo na imprensa, há o debate de que o jogador tem mais facilidade para entender estilos mais pragmáticos e ortodoxos. Isso existe ou atualmente, com jogadores que buscam entender mais o jogo, não há essa dificuldade?

Caio: Vejo que depende muito de como os jogadores são instruídos e o quanto eles próprios “compram” a causa. Hoje em dia, temos gerações e gerações de jogadores na base e nos profissionais que buscam e, até mesmo, procuram os analistas de desempenho do seu clube para saber sobre os adversários e de como eles podem melhorar no campo. Com isso, qualquer proposta de jogo pode ser realizada e bem desempenhada. Basta as duas partes estarem em boa sincronia.

A cultura brasileira tem responsabilidade pelo domínio do jogo reativo no futebol brasileiro?

Caio: Sim. No Brasil, o que importa é ganhar. O desempenho é pouco relevante quando se conquista algum campeonato. Com isso, se o time ganhar, mesmo sendo reativo, para a maioria dos brasileiros, está tudo bem.

Na temporada passada, Antonio Conte, reativo, estava no Chelsea. Neste ano, Maurizio Sarri, o oposto, assumiu o time. Em 5 rodadas, já é possível ver, de forma nítida, a mudança de postura e atitude da equipe. Por que no Brasil demora tanto e na Europa vemos isso de forma bem mais rápida?

Caio: Essa situação envolve diversos aspectos, como, por exemplo, o nível de compreensão dos jogadores que jogam em altíssimo nível, a maneira como o técnico passa o que quer, os instrumentos utilizados para que os jogadores assimilem as ideias o mais rápido possível, o nível de comprometimento e vontade dos jogadores de quererem abraçar a causa, a ambição da comissão técnica e dos jogadores em quererem conquistar ainda mais do que já conquistou, a ambição da comissão técnica e dos jogadores em quererem desenvolver e estudar mais sobre as suas profissões e assim segue. Já na maioria do futebol brasileiro, muitas destas situações pouco ou nem são desenvolvidas.

@CaioAIves

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