Tática e acaso

Por Pedro Galante

O que determina o resultado de uma partida de futebol? Essa não é uma pergunta fácil. O esporte é um objeto muito complexo e que sofre a influência dos mais diversos fatores. Ao futebol, em particular, acrescenta-se o fato de que é praticado com os pés e não com as mãos como a maioria dos esportes. Vou tratar a seguir de dois grandes aspectos do jogo: a tática e o acaso.

Por vezes, vemos vitórias e derrotas serem creditadas a argumentos muito abstratos como dizer que um time perdeu por falta de gana, ou que uma equipe foi campeã por ter um espírito vencedor. Não que essas convenções estejam totalmente incorretas, mas são pouco tangíveis para um técnico de futebol. Como resolver o problema de um time que falta gana? E então surgem soluções totalmente genéricas, como impedir qualquer abordagem descontraída entre técnico e elenco.

A conscientização tática surge como uma forma de encarar esses mesmos problemas por uma outra perspectiva. Não é que falta gana, é que a forma de atacar somada as características dos jogadores resultam em uma transição defensiva lenta, por isso quase não existem combates no meio campo. Perceba como agora fica mais fácil identificar e consequentemente resolver o problema da equipe.

É por isso que a noção tática é de suma importância, ela permite uma visão diferente do jogo e nos afasta de um julgamento quase moral – que não é totalmente errado, mas muito reducionista. É fácil dizer que um atleta com baixo desempenho é ruim, quando na verdade está jogando fora de posição ou em um sistema que não permite a ele desempenhar o máximo de seu potencial.

E a consciência da importância da tática é algo que tem crescido. Treinadores buscam estudar o jogo, os torcedores buscam consumir uma mídia esportiva que se aprofunda mais nesse aspecto, e por consequência, os agentes da mídia buscam se adequar a essa demanda. Todo esse movimento tem alterado a forma como enxergamos o futebol e nos afastado daquele perigoso lugar cheio de diagnósticos e soluções genéricas. O problema é que podemos estar caminhando para um pensamento de que a tática possa explicar todo o esporte.

A tática não deve ser vista como um plano que se bem executado é infalível. Por melhor que seja o sistema defensivo, ele vai eventualmente sofrer gols. Por melhor que seja o sistema ofensivo, o chute vai eventualmente parar no goleiro, na trave ou nas mãos de algum torcedor da arquibancada. Nada, absolutamente nada, garante o gol, ou a vitória.

Quando falo isso não quero diminuir a questão tática, mas chamar a atenção para um fator que muitas vezes passa despercebido: o acaso. Toda defesa vai sofrer gol, mas não por isso o treinador deve deixar de tentar evoluir seu sistema defensivo. O ponto desse texto não é chegar a uma solução para não sofrer gol, mas justamente criar a consciência de que eventualmente o gol adversário acontecerá e usá-la como uma forma de diminuir a chance de que isso ocorra.

O acaso está ali, e por mais que neguemos a sua existência, ele é inerente ao futebol. Ao invés de negar o acaso, deveríamos torná-lo um aliado, buscar entendê-lo e – se é que isso é possível – controlá-lo em alguma instância. Os técnicos que levarem isso em consideração na hora de montar sua estratégia podem criar estruturas que incorporem o acaso como um benefício, e evitem situações onde o acaso pode gerar uma punição.

Que continuemos exaltando a tática, mas sem esquecer do acaso. Porque o futebol tem uma lógica própria, que a nossa lógica não é capaz de explicar.

@Pedro17Galante

Foto destaque: ESPN

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