No Bahia, organização tática não é sinônimo de bola na rede

Por Michel Corbacho

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A temporada de 2018 é a mais numerosa e desgastante para o Bahia dos últimos anos. Campeão do Estadual diante do maior rival e perda do título da Copa do Nordeste para o modesto Sampaio Corrêa, após a Copa do Mundo o Bahia ainda disputava três competições. Além do principal campeonato do país, o tricolor luta pela Copa Sul-Americana e chegou até as Quartas da Copa do Brasil.

Uma das equipes que mais disputaram jogos na temporada e com um elenco não tão numeroso – e qualificado – para fazer frente em todas as competições, o que acaba por sobrecarregar fisicamente alguns atletas dos considerados titulares.

Apesar do notório desgaste físico, a equipe dirigida por Enderson Moreira demonstra uma consistência tática, uma postura ofensiva e busca manter este padrão seja na Arena Fonte Nova, como mandante, ou atuando longe dos seus domínios.

O treinador encarnou a ideia de jogo do Bahia – principalmente na Fonta Nova – para buscar o protagonismo, ditar o ritmo, ter maior volume e propor o jogo, independente de quem seja o adversário.

Na partida diante do América-MG, por exemplo, o Bahia foi totalmente superior ao “coelho”, não apenas por quase 60% da posse de bola, até porque o legado que a Copa do Mundo nos deixou foi de que posse de bola não ganha jogo, mas a superioridade numérica no campo do adversário e a ideia de propor, fez com que o Bahia terminasse o embate, por exemplo, com 14 finalizações contra apenas cinco do adversário.

No flagra, podemos notar o volume territorial do Bahia no campo do adversário – contando com todos os jogadores de linha – os laterais Léo e Bruno bem abertos oferecendo amplitude e com o objetivo de encontrar espaços nas linhas de marcação do América.

O Bahia que inicia com o desenho tático de 4-2-3-1 demonstra variações no decorrer das partidas. Ainda na imagem, pode-se notar a aproximação de Edigar Júnio e Gilberto, deixando a equipe praticamente com dois atacantes – quem olha o desenho inicial, pensa apenas em Gilberto na referência – enquanto que Zé Rafael e Vinícius recuam para buscar a bola nos pés de Gregore, dono do “primeiro passe”.

A ideia desta movimentação de Zé Rafael e Vinícius, além de tentar se desvencilhar da marcação, é chegar ao campo de ataque com a bola dominada de frente para os adversários, onde os meio-campistas do tricolor podem fazer a diferença, seja em lançamentos, seja em passes infiltrados – pouco visto nos últimos jogos – ou até mesmo partir para o drible diante da marcação adversária.

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A evolução tática do Bahia sob o comando de Enderson Moreira não é vista apenas nas movimentações ofensivas do tricolor, mas também na recomposição dos seus homens, que geralmente se defende com as famosas “duas linhas de quatro”, liberando dois homens para flutuar e pressionar mais a frente às saídas de bola do adversário.

Essa recomposição também é feita de forma variável. Muitas vezes, pode-se ver a primeira linha de marcação formada pelo recuo dos meias, geralmente Zé Rafael e Vinícius, enquanto Edigar Júnio – que ainda não está 100% da sua forma física – fica mais próximo de Gilberto na frente.

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Em outros momentos, pode-se perceber uma recomposição – ainda no 4-4-2 – com uma variação de movimentação dos atletas. No flagra abaixo, na partida diante do Internacional, o Bahia marca com suas linhas baixas com a primeira sendo formada por Zé Rafael (direita), a dupla de volantes Gregore e Élton, além da recomposição de Edigar Júnio (esquerda).

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Desta maneira, o meio-campista Vinícius se aproxima de Gilberto, mas também não se distancia tanto da primeira linha de combate, até para as eventuais jogadas de contra-ataques.

Vinícius é o responsável por ditar o jogo, buscar a bola mais atrás e iniciar, com qualidade, as jogadas ofensivas do tricolor. O problema é que nem sempre o meia demonstra intensidade na partida e fica claro que quando Vinícius atua bem, com a tal intensidade para buscar a bola “nos pés” dos volantes e levar ela até os homens de frente, o futebol apresentado pelo Bahia em campo eleva-se.

Apesar da evolução tática, o Bahia ainda peca nos fundamentos

A evolução tática é notória e oferece um suporte estrutural para a equipe do Bahia. Apesar disto, a disposição e interação tática não são sinônimos de triunfos e boas campanhas. Para que se alcance o objetivo na temporada, torna-se fundamental a qualidade técnica e eficiência nos fundamentos do futebol.

Esse é um dos pontos que o tricolor ainda peca neste ano. Falta efetividade nos principais fundamentos do jogo. Citando alguns números, tentaremos explicar para você leitor, os motivos destas dificuldades técnicas do Bahia.

Por exemplo, o Bahia é apenas a 16ª equipe no quesito “finalizações para marcar gol”. Em outras palavras, o tricolor têm dificuldades em fazer gols, devido ao grande volume e quantidade de jogadas que cria durante as partidas. Em média, o Bahia precisa acertar 13 finalizações para marcar um gol.

Nas três últimas partidas em que atuou fora de casa – apesar de ter conquistado dois empates diante de Fluminense e Cruzeiro – o tricolor baiano acertou apenas duas finalizações no alvo contra os cariocas, uma única contra os mineiros e nenhuma diante do Santos.

O problema das finalizações do tricolor não é apenas acertar ao alvo – o índice caiu nas últimas partidas – mas, principalmente, é converter as finalizações certas em gols. O Bahia acertou 101 chutes no alvo e marcou 20 gols na competição. Efetividade de apenas 20%.

A baixa efetividade fica nítida quando se observa que o Bahia é uma das equipes que mais finalizam no Campeonato Brasileiro, atrás de Atlético-MG e Flamengo que são, por exemplo, dois dos melhores ataques da competição. O tricolor é apenas o 13º em questão.

Outra deficiência são as finalizações de fora da área. Por características, o tricolor baiano conta com poucos atletas com este potencial. Os volantes, por exemplo, possuem apenas características de desarmes e passes curtos. Para citar a dificuldade no quesito, todos os 20 gols marcados pelo Bahia no Brasileiro 2018 foram de dentro da área dos adversários.

Pode-se pensar que essas estatísticas são mínimas no esporte, o que vale mesmo é bola no fundo das redes e conquistar os pontos necessários. Não posso deixar de concordar, porém, para citar o São Paulo, por exemplo, líder do Campeonato Brasileiro, o tricolor paulista tem uma média de seis finalizações para marcar um gol. É o líder também no quesito!

Além das finalizações, tricolor também falha nos cruzamentos

A principal ideia da equipe de Enderson Moreira é propor o jogo explorando os lados do campo com o apoio dos laterais e flutuação dos extremos para se aproximar da meta adversária. Sendo assim, uma alternativa para a tal proposta são os cruzamentos para a área.

Esse é outro fundamento que demonstra precariedade técnica na equipe do Bahia. Disparada como a equipe que mais busca as bolas alçadas como alternativa, o Bahia tem apenas 27% de efetividade no quesito. Em média, seis cruzamentos certos e 22 errados por partida.

O Bahia é também a equipe que mais erra neste fundamento dentro da competição nacional. Nino Paraíba é o atleta que mais peca no quesito com 79 cruzamentos errôneos, efetividade de apenas 26%. O tricolor ainda precisa, em média, de 27 cruzamentos para marcar um gol através deste tipo de jogada.

É compreensível, por características dos atletas, explorar os lados do campo, porém, sabe-se que os cruzamentos, assim como as finalizações, são fundamentos que podem – e devem – evoluir através dos treinamentos.

Contudo, pode-se dizer que o Bahia é pouco eficiente nas construções ofensivas e nos métodos por onde tenta chegar ao gol adversário. A ideia de jogo pode ser coerente devido às características dos atletas presentes no elenco – como a torcida sente falta de um meia criador, cabeça pensante – e assim, as jogadas pelos flancos e os cruzamentos, por consequência, acontecem.

De fato, a equipe é bem organizada taticamente por Enderson Moreira, que também conseguiu mudar a postura atuando longe dos seus domínios, porém as dificuldades do tricolor baiano são os fundamentos e o elenco tecnicamente abaixo para a quantidade de competições disputadas ao decorrer da temporada.

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@michelcorbacho

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