RESENHA: A PIRÂMIDE INVERTIDA (JONATHAN WILSON)

Por Rafael Maciel

Este livro pode ser considerado, como a maior base de estudos e referência da Tática no futebol. Mesclando ingredientes históricos, culturais, táticos e curiosos, o autor consegue transportar o leitor à todas principais eras na história do futebol.

Através de uma linha de tempo contínua e crescente, iniciamos a leitura no cenário inglês, berço oficial do futebol. Passamos pela Escócia, Hungria, Áustria, Suíça, Rússia, Argentina, Uruguai, Brasil, Holanda, Itália, Espanha, etc. Fomos apresentados aos treinadores mais pragmáticos e aos mais românticos. Esquemas táticos focados no ataque, focados no meio e esquemas mais focados na defesa.

Trata-se de um guia único e obrigatório à todos aqueles que buscam estudar e conhecer um pouco melhor o esporte mais popular do mundo, chamado de Futebol.

Como forma de organizar todas as revoluções compreendidas no livro, busquei estruturar um quadro reunindo as principais eras, suas características dominantes e quais equipes foram referência para época.

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  1. RESUMO DOS PRINCIPAIS TEMAS ABORDADOS

Inicialmente o autor explana sobre as origens do esporte e os primeiros indícios primários de tática existentes. Por ser um esporte basicamente derivado do Rugby, inicialmente os ingleses focavam muito no jogo físico focado majoritariamente pela fase ofensiva. Apesar de, obviamente, já existirem as formações táticas da época, raramente havia uma reflexão sobre o tema.

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A tática inglesa, consistia basicamente em uma progressão individual constante, onde o portador da bola carregava a bola até onde conseguia e os demais companheiros de equipe acompanhavam a jogada atrás da linha da bola. Podíamos imaginar o quão insano deveria assistir partidas sem troca de passes, resumidas à transições individuais constantes.

            Fundamentos inicialmente no futebol primitivo:

  • Condução de bola;
  • Passes e cooperação defensiva vistos como ações subalternas;

Além de existir um cenário extremamente caótico em relação à sua execução, suas regrar demoraram para ser consolidadas e cada escola aplicava suas próprias regras.

Após as primeiras modificações e ajustes na regra de impedimento, aos poucos as equipes passaram à gradativamente os passes. O time do Sheffield Club, apesar de não ter plenamente estruturada a cultura do passe, tinha o hábito de efetuar um lançamento longo da defesa em direção ao ataque, com o intuito de tirar a bola da zona de pressão o mais rápido possível.

A cultura do passe é fruto dos escoceses, que estabeleceram este fundamento como estratégia para enfrentar o futebol extremamente físico apresentado pelos ingleses. A estratégia deu certo e os escoceses arrancaram um empate sem gols. Logo após este jogo, muitos clube ingleses passaram à adotar esta estratégia mais coletiva e apoiada.

Juntamente com a consolidação do passe, ocorreu a primeira grande domínio de uma plataforma tática: 1-2-3-5 pirâmide.

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Esta plataforma tornou popular uma posição muito conhecida e importante para a evolução tática do jogo: o centro-médio.

“(…) jogador polivalente, de muitas qualidades, defensor e atacante, líder, autor de gols e destruidor de jogadas. Era, como o grande escritor de futebol austríaco Willy Meisl definiu, ‘o homem mais importante em campo’.”

A pirâmide reinou soberana praticamente durante 30 anos, tendo variações basicamente resumidas ao estilo de jogo: mais escocês (coletivo, apoiado em passes curtos) ou inglês (jogo direto, com passes longos, “chutar e correr”).

            Obviamente que durante este período, surgiram novidades interessantes:

  • MOVIMENTAÇÃO: Jogo apoiado em passes, incorporado à movimentação sem bola para oferecer opção ao portador;
  • TRAINGULAÇÃO: “Jogo Triangular”, que envolvia trocas de passes entre o centromédio, o atacante por dentro e o ponta em um ou ambos os lados do campo;
  • EMBRIÃO DO FALSO 9: O Corinthians inglês, foi um dos precursores à utilizar um centroavante que preferia distribuir passes para os companheiros do que marcar gols. Segundo Steve Bloomer, isso transformou o papel do centroavante: de atacante individualista para um unificador da linha ofensiva.

Um dos primeiros grandes pensadores e influenciadores na forma de se “pensar futebol” foi o inglês, Jimmy Hogan. A responsabilidade por disseminar o estilo escocês nos demais países europeus, é totalmente sua. Países que se tornaram referência técnica no futebol na primeira metade do século XX, como Áustria, Hungria, Holanda e Suíça, beberam muito da fonte do “Sacerdote Hogan”.

Hogan pensava diferente e visivelmente estava muito à frente de sua época. Certa vez, quando ainda era jogador, errou um chute na cara do gol e perguntou para seu treinador o que tinha feito de errado: a posição do pé não estava certa? O corpo estava desequilibrado? Obviamente que seu treinador não lhe deu importância e disse somente que se mantivesse sua média de marcar 1 gol à cada 10 finalizações, seria o suficiente. Ou seja, Hogan acreditava na técnica e entendia que o futebol não era fruto somente de eventos aleatórios.

“Hogan usava um quadro-negro para ensinar como ele achava que o futebol deveria ser jogado. Táticas e posicionamento passaram a ser compreendidos e explicados não em campo conforme a necessidade, mas em diagramas numa sala de aula.”

Hugo Meisl, outro importante “pensador do futebol”, contratou Jimmy Hogan para comandar a seleção austríaca em 1912. Buscando incorporar o 235 estilo escocês, Meisl e Hogan acabaram debatendo muito sobre como aperfeiçoar a tática da Áustria. Ambos achavam que a movimentação era muito necessária e que muitas equipes acabam sendo rígidas demais em suas estruturas, o que acaba as tornando previsíveis. A dupla acreditava que a bola tinha que circular rapidamente e que a técnica individual tinha que ser trabalhada principalmente para controlar a bola nos passes e domínios.

Interessante que Hogan já via o futebol como algo extremamente dinâmico, pois apesar de optar por passes curtos, admitia que os passes longos (conscientes) consistiam de um importante recurso para desestabilizar as linhas defensivas adversárias. Apesar de terem muito em comum, Meisl era mais romântico enquanto Hogan era mais pragmático em suas ideias de jogo.

“Ele (Hogan) não pregava o jogo de passes como um Dom Quixote convencido do que era certo: simplesmente acreditava que o melhor caminho para a vitória era manter a posse da bola.”

O estilo do futebol austríaco, baseado na escola escocesa mais radicalizada, foi identificado como “escola danubiana”.

Uruguai e Argentina, inicialmente inspirados pelo estilo inglês, adaptaram seus modelos próprios baseados principalmente no controle de bola e fintas com a bola (algo espantoso para a época). Ainda mantendo a pirâmide, as equipes divergiam muito na forma de jogar em relação aos europeus. O Uruguai inclusive fez sucesso na medalha de ouro conquistada nas Olimpíadas de 1924.

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“Esse é um princípio fundamental: pode-se dizer que a história da tática é a descrição de um embate contínuo, pelo qual se busca alcançar o melhor equilíbrio possível entre a solidez defensiva e a fluidez ofensiva.”

“Os sul-americanos logo começaram a modificar a ciência do jogo e moldar um estilo próprio […], que é diferente do britânico por ser mais colorido, menos disciplinado e metódico, porque não sacrifica o individualismo em nome dos valores coletivos […]. O futebol do Rio da Prata faz mais uso da condução da bola e da iniciativa pessoal, e é mais ágil e atraente.”

             Os estilos de jogo foram se tornando ainda mais claros:

  • Inglaterra: Jogo físico-individual, sustentado por longas conduções e lançamentos longos, priorizando o ataque direto;

 

  • Escócia: Jogo técnico-coletivo, sustentando por passes curtos, priorizando o ataque apoiado;

 

  • Áustria/Hungria: Jogo técnico-coletivo, sustentando por passes e constantes movimentações rápidas, priorizando preferencialmente o ataque apoiado;
  • Uruguai/Argentina: Jogo técnico-individual, sustentando principalmente por vitória pessoal e fintas, priorizando o ataques em velocidade;

O ato de recuar um zagueiro para se posicionar atrás da linha defensiva, fazia com que o público passasse à apreciar menos o espetáculo. Quanto menor o número de gols, menor a satisfação da plateia.

Com constantes ajustes na regra de impedimento, buscando encontrar o equilíbrio maior, estratégias de linha de impedimento foram se formando (sendo que ainda estamos nos anos 20). Em 1925, a International Board estipulou a exigência de 2 defensores para o atacante ter condições de jogo, fazendo estourar a média de gols na Inglaterra… foi o estopim para uma nova revolução.

 “O efeito imediato mais evidente da mudança na lei do impedimento foi que, com mais espaços para os atacantes se movimentarem, o jogo ficou mais alongado e os passes curtos deram lugar a bolas longas. Alguns times se adaptaram melhor do que outros, e o início da temporada 1925-6 foi marcado por resultados estranhos.”

“Às vezes, eu me pergunto se vale a pena ter três médios em um time que é capaz de alimentar muito bem os seus atacantes”, Brelsford escreveu, em janeiro de 1914. “Eles se divertem tanto com esse aspecto do jogo que as tarefas defensivas tendem a sofrer. A melhor linha média, na minha opinião, é a que tem uma boa mescla de vigor e habilidade, mas não com os três homens jogando exatamente da mesma forma. Se você tem um par de jogadores hábeis no toque curto, precisa de um bom destruidor ao lado deles; se tem dois marcadores fortes, é imperativo contar com um terceiro que saiba passar com estilo.”

Surge então o terceiro-zagueiro, de Herbert Chapman, formando então o famoso WM (3223). Chapman queria que seu time reproduzisse “a sutileza e inteligência” que ele enxergava como essências da maneira escocesa de jogar futebol. Muitos times variavam a formação W no ataque (Chelsea, Souhtampton, etc.), mas foi no Arsenal que o 3223 realmente se consolidou.

“Quem marcava os pontas eram os zagueiros, não os pontas-médios. E quem marcava os atacantes que jogavam por dentro (os interiores) eram os pontas-médios, não os zagueiros. O centromédio, agora um zagueiro a mais, lidava com o centroavante, e os dois atacantes interiores sempre recuavam:       o 2-3-5 havia se transformado em um 3-2-2-3, o W-M.”

Montado no 3223 reativo, focado na fase defensiva, para atacar rapidamente em contra-ataques. O Arsenal baixava linhas para atrair o rival e afunilava a defesa. A saída era rápida através de conexões longas buscando as pontas.

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À partir deste ponto, a velocidade das inovações foram aumentando consideravelmente e a parte tática do Futebol só evoluía.

  • Wunderteam de Meisl
    • Bastante movimentação e troca de posições. Sindelar como “falso 9”. Jogando no 2-3-5 ofensivo, conhecido como “a espiral de Danúbio”;
  • Vittorio Pozzo e a Força Física Italiana:
    • A Itália teve grande destaque nos anos 30 comandada por Vittorio Pozzo, com sua seleção focando na preparação e desempenho físico (algo inovador para a época). Combinando um sistema híbrido entre o WM e o 235 Danubiano, a seleção italiana marcou época. Dispensando o terceiro zagueiro e exigindo que seu centromédio tivesse capacidade para realizar lançamentos qualificados ao ataque;
  • Pozzo também foi um dos primeiros à se utilizar da marcação individual;

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  • Desorganização Organizada Russa Idealizada por Arkadiev:
    • Diante das marcações individuais e das constantes trocas de posição dos centroavantes adversários, o técnico russo idealizou uma série de trocas sistemáticas de posição para seus jogadores.
  • Os Malabaristas Húngaros:
    • Comandados pelo técnico Gusztáv Sebes e as estrelas do ataque mágico: Puskás, Hidegkuti, Kocsis, Bozsik e Zoltán Czibor. Variando em algo que parecia um 3-2-3-2 ou 3-2-1-4 (MM), a Húngria tinha como principal diferencial, a troca constante de posições e um sistema ajustado de coberturas e compensações. Além de praticamente atuar sem uma referência no ataque, evoluindo ainda mais o conceito de “falso 9”.

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“Ter fluidez é ótimo, mas é claro que, quanto mais fluido um time for, mais dificuldades ele terá em manter a estrutura necessária para defender.”
  • Nascimento da Seleção Canarinho:
    • No início do futebol, mais precisamente até 1958, o Brasil era tratado como país emergente no cenário futebolístico. Como o autor do livro diz, “o Brasil era um deserto tático”. O WM tardou para chegar em terras tupiniquins: nos anos 20-40, boa parte das equipes ainda eram alinhadas no 2-3-5, e poucas no WM tradicional ou sua variação em diagonal. No final da década de 50, o 4-2-4 já se consolidou.

 

  • Pessoas importantes para o desenvolvimento tático, inicial no Brasil: Charles Miller (apresentação), Gentil Cardoso (evolução tática, disseminando o WM), Dori Kürschner (WM), Flávio Costa (WM Diagonal), Zezé Moreira (4-2-4 e a marcação por zona)


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  • A consolidação da linha de 4:
    • Em meados da década de 50, realizando uma mescla entre a Diagonal Brasileira de Flávio Costa e o Centroavante Húngaro Recuado, surgiu a linha de 4, no esquema conhecido como o 4-2-4.
  • O técnico paraguaio, Manuel Fleitas Solich, consolidou essa formação, ao conquistar o tri-campeonato carioca entre 1953 e 1955.
  • Martim Francisco, pelo Vila Nova – MG, amadureceu ainda mais a linha de 4, ao recuar um médio para “quarto zagueiro”, fazendo com que a equipe com a bola jogasse em um 3-3-4 e sem a bola, se defendesse praticamente em um 4-3-3;

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  • Pragmatismo inglês:
    • Durante muito tempo a Inglaterra tentou encontrar uma forma de jogar que pudesse lhe tornar novamente competitiva. Adotando um sistema híbrido entre o 4-2-4 e 4-3-3, o técnico Alf Ramsey percebeu que sua equipe era muito limitada diante adversários mais fortes, e acaba tendo problemas na marcação.

 

  • Para sanar este problema e tornar sua equipe mais equilibrada, Ramsey adotou 4-1-3-2. Um esquema inovador para época, principalmente por atuar sem pontas. Atuando com um estilo mais cauteloso/reativo, a equipe inglesa prendia muito à bola em seu centroavante e forçava a criação por dentro.

 

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  • Jogo comprimido:
    • À cada ano, o futebol ser tornava mais veloz, passando exigir mais atenção nas perseguições e marcações. Estes foram os principais motivos para se diminuir/encurtar as marcações, criando a popular “Pressão”;
  • Viktor Maslov (russo que trabalhava na Ucrânia), é um precursor deste futebol moderno de maior intensidade sem a bola. Além de ter uma senso tático apurado, Maslov era reconhecido também como um treinador atencioso com o aspecto humano, sendo conhecido como “vovô”;
  • O 4-1-3-2 utilizado por Ramsey, na verdade foi elaborado por Maslov. Além disso, o esquema era somado à uma marcação zonal;
  • O Dynamo treinado por Maslov era caracterizado por não ter um estilo único e imutável durantes as partidas: de modo muito rápido, poderia passar de um estilo mais técnico, com combinações de passes e variações de ritmo, para um estilo mais direto (jogo simples, buscando os cruzamentos pelos corredores e bolas longas);
  • Maslov estava muito à frente do seu tempo e certa vez afirmou que chegaria o tempo em que o futebol jogaria com apenas 1 homem na frente: “O futebol é como um avião, quando a velocidade aumenta, o mesmo acontece com a resistência do ar; então você precisa tornar a cabeça mais aerodinâmica.”;
  • O Dynamo de Maslov foi o protótipo do Futebol Total Holandês (com marcação por zona e pressão defensiva, aliado á troca de posições em grupo);
  • O primeiro catenaccio:
    • Inspirado no sistema Verrou da Suíça de Rappan, na qual partindo do WM posicionava um líbero para cobrir a primeira linha de defensores. Porém este sistema suíço acaba sobrecarregando demais os centromédios e acabou não vingando tanto;
  • Além disso, houve uma certa adaptação também do “Grampo do Volga”, do russo Boris Arkadiev. Porém ao invés de partir do WM, partia do 2-3-5, e recuava um dos médios para atuar como líbero. Com um futebol extremamente pragmático e focado em anular o poder ofensivo adversário, o Grampo se tornou efetivo para clubes menores quando enfrentavam adversários de maior peso;
  • O grande expoente do Catenaccio foi Helenio Herrera à frente da La grande Inter. Um time talentoso, que não abria mão de chegadas mais ríspidas;
  • “Herrera não era ótimo apenas no plano tático: era um perfeccionista, envolvia-se em todos os assuntos ligados ao time”: controlava a dieta dos atletas, período de concentração dos atletas antes dos jogos e foi um primeiros à trabalhar em cima da psicologia no futebol;

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  • Herrera se utilizava de um 1-3-3-3 desalinhado, com o seu ponta esquerda posicionado bem mais atrás (para ter campo para correr e explorar sua velocidade) e seu ponta direito mais avançado (para se juntar aos atacantes). Um centromédio avançado que tinha imensa liberdade para flutuar (Luis Suárez) e outro posicionado à frente da defesa. Além de ter o líbero cobrindo a linha de zagueiros;

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  • Um dos últimos ajustes no esquema, foi avançar o líbero quando a equipe tinha à bola, para contribuir na construção no meio campo (para diminuir a inferioridade numérica na região de criação). Essa foi a grande evolução do catenaccio para il gioco all’italiana — “o jogo à italiana”;
  • Porém por ter alcançado relativo sucesso, o declínio do catenaccio iniciou quando sua popularização disseminou inúmeros clubes com imitações parciais e falhas do sistema.
  • La Nuestra Argentina
    • Nos anos 40, a argentina possuía um dos melhores times do mundo, La Maquina do River, com uma linha de 5 atacantes lendários: Juan Carlos Muñoz, José Moreno, Adolfo Pedernera, Ángel Labruna e Félix Loustau

 

  • Neste período a seleção argentina passou por inúmeras variações de esquema, até encontrar o seu sistema “ideia”. Passou do 2-3-5 (método) para o 4-2-4, variando no 4-3-3 até se consolidar no 4-3-1-2;

 

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  • Mas a grande mudança argentina foi estilística: passando de um futebol altamente técnico-ofensivo, para algo quase violento e defensivo;

 

  • Aí se dá a origem do “antifútbol”, quando se acreditava que o futebol poderia ser muito mais questão de motivação do que talento;

 

 

 

  • Futebol Total
    • Ao contrário do que pensamentos, Rinus Michels não foi o pensador exclusivo do Futebol Total, o ucraniano Valeriy Lobanovskyi também possuía as mesas ideias para o futebol;

“Ambos encorajavam seus jogadores a trocar de posições, ambos dependiam do compromisso dos atletas com as coberturas, e ambos produziram times capazes de praticar um futebol de emocionar. Nesse aspecto, eram a continuação lógica da passovotchka dos anos 1940 ou do estilo húngaro da década seguinte — com o qual a maneira de jogar dos holandeses foi muitas vezes comparada —, mas o que permitiu que o Ajax e o Dynamo fizessem história foi a implementação de uma agressiva armadilha de impedimento. A pressão era a chave, mas provavelmente foi apenas a partir da metade dos anos 1960 que ela se tornou viável.”

  • O futebol holandês, já havia apresentando sinais de evolução, principalmente nas figuras do Ajax (primeiramente com Jack Reynolds e depois com Vic Buckingham). Após a demissão de Buckingham em 1965, Rinus Michels, recém aposentado, assumiu o comando técnico do Ajax;
  • O Ajax de Michels só atingiu seu ápice, após migrar de um 4-2-4 estilizado para o 4-3-3, com o líbero avançando para criar um 3-4-3.
  • A maturação plena do carrossel holandês foi acontecendo naturalmente, até atingir o jogo posicional ideal, quando todos os jogadores tinham a mentalidade ocupar corretamente os espaços, realizar coberturas e participar de todas as fases. A troca de posições no Ajax, surgiu como estratégia para superar equipes fechadas;
  • A troca de posições não era nova (Dynamo Moscow de Arkadiev fazia em linha, com seus pontas; a Hungria misturava as linhas, recuando os avançados; após o 4-2-4, os defensores laterais também atacavam), porém o Ajax encorajava trocas de posições longitudinais e em grupo, o que tornava ainda mais latente a ideia de pressão;
  • A constelação brasileira no Mèxico
    • Quando Zagallo assumiu a seleção antes da Copa e 1970 e resolveu acomodar todos os craques na equipe titular: Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, muitos foram céticos de que poderia dar certo, mas o Velho Lobo afirmou que precisava de jogadores técnicos e inteligentes para jogar juntos;
  • Com um sistema complexo de compensações e flutuações do meio para frente, e apenas 1 volante realmente defensivo (Clodoaldo), a seleção brasileira de 1970 apresentava um esquema oscilando entre um 4-4-2, 4-3-3, 4-2-4 ou 4-5-1. Mas esses números não conseguem representar perfeitamente a dinâmica desta equipe. Talvez o mais indicado, seja nomear um 4-2-3-1 (com Clodoaldo de Volante ao lado de Gerson com a função de Armador Recuado / Regista). Pelé e Tostão alternavam entre a meia central e a “centroavância”.

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  • A tragédia de Sarriá
    • Em 1982, Telê Santana conduziu uma das seleções mais encantadoras em Copas do Mundo. Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico abrilhantavam o meio campo e abasteciam o ataque de Chulapa e Éder.
  • Montado em um 4-2-2-2, com dois volantes técnicos (Falcão e Cerezo eram registas), dos meias armadores (Zico e Sócrates como trequartistas) e uma dupla de atacantes;

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  • Surge o 3-5-2
    • Após o declínio do gioco all’italiana (reativo e com líbero), com poucos ajustes, surgiu o 3-5-2: “Puxe o tornante (meio campo recuado e lateralizado) para trás, mova o lateral direito defensivo um pouco mais para o centro e o defensor central um pouco para a esquerda, avance o lateral esquerdo e você terá o 3-5-2.”
  • O 3-5-2 serviu para povoar o meio campo, abdicando dos pontas e tornando mais fácil a superioridade em fase defensiva;

 

  • “O formato defensivo, obviamente, era muito diferente do M no W-M: no M, os três defensores ficavam mais distantes entre si; os dois jogadores dos lados eram responsáveis pelos pontas e os dois meios-campistas recuados trabalhavam por dentro, marcando os atacantes interiores do rival. No 3-5-2, os três zagueiros se mantinham em posições relativamente centrais, geralmente com um homem na sobra e dois marcadores atentos aos centroavantes adversários, enquanto os meios-campistas mais recuados os protegiam pelos lados.”

 

  • Muitos atribuem a criação do 3-5-2, aos italianos, ao ao Bilardo na Argentina de 1986, porém há muitos indícios que o inventor fora Ćiro Blažević, no Dinamo Zagreb;

 

  • A mudança para o 3-5-2 começou, disse Blažević, logo que ele chegou a Zagreb. “Para tomar uma decisão sobre formações e táticas, você precisa levar em conta três fatores: 1) as características dos jogadores à disposição; 2) a tradição; 3) o encaixe dos fatores 1 e 2 no sistema de jogo. Só um técnico ruim chega a um clube e diz ‘vou jogar com tal sistema’, sem respeitar os atributos dos jogadores do elenco. Só um técnico ruim se torna uma vítima do sistema.”

 

  • Uma seleção que consolidou o esquema nos anos 80, fora a Dinamarca na Euro de 1984, comandada pelo técnico Sepp Piontek;

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  • Com muita fluidez e priorizando a posse de bola, a “Dinamáquina” apresentava um futebol propositivo, sólido defensivamente e bastante estético;
  • A era de Arrigo Sachi
    • Sacchi primeiramente amadureceu a Marcação por Zona, transformando-a em uma Zona Pressionante, onde os espaços eram fechados com um belo sincronismo de posicionamento, coberturas e compensações;

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  • Montando o Milan em um 4-4-2 em linhas, estilo bastante ofensivo e com uma pressão alucinante sem bola;

 

  • CONCLUSÃO DA RESENHA

 O livro é uma viagem histórica, onde rapidamente podemos passar entre diversos portais temporais e acompanhar eventos determinantes para a evolução do Futebol.

Passando por períodos marcantes, no cenário político, econômico e cultural, o leitor consegue identificar a ligação intrínseca do futebol à tudo que o rodeia.

Passamos por evoluções táticas baseadas na intuição, no empirismo, baseadas em convicções e baseadas em muito estudo: toda e qualquer forma de se jogar futebol é válida (dentro das regras estipuladas). O livro nos ensina o quão relativo, complexo e dinâmico este esporte se tornou.

Não existe um ÚNICO MODO CORRETO DE SE JOGAR FUTEBOL: no livro lemos sobre equipes que venceram seu jogo priorizando estilos completamente distintos:

  • Priorizando ações defensivas
  • Priorizando ações ofensivas
  • Priorizando a técnica
  • Priorizando as condições físicas
  • Priorizando a tática
  • Valorizando a posse
  • Valorizando a troca de posições
  • Com centroavante fixo
  • Com amplitude no terço final (pontas)
  • Com regista (armador recuado)
  • Com enganche (armador ofensivo)
  • Com linha de 3 defensores
  • Com linha de 4 defensores

Assim como na vida, o futebol é cíclico (muitos já percebem isso) e sendo assim, muitas vezes devemos olhar para o passado, para buscar absorver e encontrar soluções para os problemas/dificuldades atuais.

Dificilmente haverá inovações no futebol atual, pois como o livro nos ensina, MUITO JÁ FOI TESTADO, por isso é importante estudar o passado para poder COPIAR/ADAPTAR ideias (assim como Guardiola faz muito bem).

  • REFERÊNCIAS E DICAS DE LEITURA
  • Livro: A Pirâmide Invertida (Jonathan Wilson). Editora Grande Área;
    • LEITURA OBRIGATÓRIA PARA QUALQER PESSOA INTERESSADA POR TÁTICA OU PELA HISTÓRIA DO FUTEBOL;
  • Artigo: “Inverting the Pyramid” de Eduardo Cecconi, publicado no site wordpress;
    • LEITURA OBRIGATÓRIA PARA QUEM GOSTARIA DE LER DETALHADAMENTE SOBRE OS PRINCIPAIS ESQUEMAS TÁTICOS CITADOS NO LIVRO;
  • APÊNDICE A

Como curiosidade, elaboramos um estudo dos esquemas táticos ao longo da história, onde observamos os números de jogadores distribuídos em cada uma das 3 zonas de campo:

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Podemos perceber as oscilações e uma certa tendência na diminuição dos homens de frente: o que não necessariamente significa que ocorrerá uma extinção dos atacantes, mas sim o aumento das preocupações com as Zonas de Defesa e Meio Campo.

@rafaellomaciel

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