O que esperar do Real Madrid de Julen Lopetegui?

Por Caio Aives

Em 2016, sucedendo Vicente Del Bosque, Julen Lopetegui foi anunciado como treinador da Espanha, 6 meses após ser demitido pelo FC Porto. Desde então, a seleção espanhola seguiu com o seu modelo de passe-posse e verticalidade.

Nas vésperas da Copa do Mundo – dois dias antes, para ser mais específico –, o treinador foi demitido por aceitar uma proposta para comandar o Real Madrid após o torneio, substituindo Zinédine Zidane. A seguir, dissecando seu último trabalho, uma análise de sua Espanha e modelo que deve implantar em Madrid.

Modelo de jogo

De forma clara, o futebol espanhol apresentado em campo sob o comando de Julen Lopetegui é o de passe-posse, baseando-se no Jogo de Posição. O time não media esforços para administrar a posse e mostrava-se extremamente paciente até encontrar espaços para executar o passe vertical.

Como características, a Espanha atuava com o bloco alto (no meio-campo), enquanto seus laterais abriam o campo e davam alternativas para a saída de bola. Na base da jogada, Sergio Busquets era o responsável pela transição entre defesa e ataque, com Isco Alarcón, jogador-chave para esse jogo posicional, flutuando em zonas rivais. Tudo isso valorizando a posse de bola e aguardando o surgimento do terceiro homem, sempre nas costas do adversário, onde poderia receber livre e conduzir por metros.

Além de Andrés Iniesta, que dispensa comentários, a vida desta Espanha girava em torno de Busquets-Isco. O mediocentro do Barcelona, além de se responsabilizar pelo início das jogadas, tomava conta da defesa transicional, aparecia como opção de retorno em triangulações e tinha o passe vertical como uma de suas maiores qualidades, muitas vezes deixando seus companheiros em grandes oportunidades na zona do funil.

Isco, coringa da equipe, era o todo-campista, mesmo que se guardasse como uma espécie de interior. Dando origem nas extremidades, principalmente pela esquerda, o jogador do Real Madrid era o início, meio e fim, seja direta ou indiretamente. Era com ele que as triangulações apareciam, os espaços eram gerados e Silva-Iniesta ganhavam mais metros em campo rival. E, curiosamente, o treinador seguirá comandando-o, dessa vez nos gramados de Santiago Bernabéu.

Diego Costa, na Copa do Mundo, por exemplo, foi uma das engrenagens essenciais da Espanha. Lopetegui, em muitos momentos, optou pelo atacante Rodrigo Moreno, do Valencia, por ser mais móvel e abrir mais espaço para quem conduzisse de trás. Pouco deu certo. Na fase final de preparação, Costa, mesmo sendo com Fernando Hierro, ganhou a vaga e melhorou a equipe de forma considerável. Atraindo desmarques, abrindo campo, fazendo o pivô e associações rápidas e vencendo duelos aéreos, o camisa 9 pôde oferecer profundidade – com efetividade – como nenhum outro jogador do plantel havia oferecido.

A transição defensiva, no entanto, deixou a desejar em muitos aspectos e foi extremamente criticada durante o Mundial. Por melhor que seja, Gerard Piqué não se encontra no auge físico. Para acrescentar, além de Sergio Ramos ser pego desprevenido e tendo que correr de costas em muitos lances, o bloco alto e os laterais em campo rival dificultaram a velocidade e compactação da primeira linha.

Resultando em muitos gols adversários, a defesa transicional espanhola pecou do início ao fim. Hora menos, hora mais, mas pecou. E ficou claro sempre que víamos Ramos ou Piqué correndo de costas para seu gol, com a postura corporal totalmente equivocada e em descompensação com o jogador que atacava.

Com os laterais à frente do meio-campo e o bloco alto, o risco de errar a saída de bola e ser pego em quebra de linha era grande – e foi o que aconteceu. Ademais, quando enfrentava alguma seleção que pressionava o portador da bola ou anulava as opções de passe (Tunísia, Irã e Marrocos, por exemplo), tinha dificuldades em ambas as transições.

A Espanha de Lopetegui encantou pelo estilo paciente – mas eficiente – e gerou dúvidas pela insistência em jogadores como Thiago e Rodrigo Moreno e erros ao defender seu próprio campo. No mais, pelo acerto com o Real Madrid e toda a polêmica gerada em sua atitude, o comandante saiu queimado em muitos lados. Já do lado de Madrid, somente apoio e entusiasmo. Por mais que o clube tenha perdido um jogador insubstituível, ídolo e atual Melhor Jogador do Mundo, Julen chega com a filosofia de jogo coletivo, móvel, de posse de bola e muitos passes.

lope2

O modelo de jogo do Real Madrid 2018-2019 não terá um choque tão grande – como o Chelsea, que mudou de Antonio Conte para Maurizio Sarri –, mas haverá mudança. Zidane prezava pela qualidade de passe e priorizava o talento individual, como aconteceu entre Cristiano Ronaldo-Karim Benzema. Com Lopetegui, ainda haverá a qualidade do passe – ainda maior, talvez –, mas com uma posse mais considerável, um jogo mais coletivo, blocos mais altos e o Jogo de Posição sendo apresentado em sua mais pura essência.

O mais interessante é que, na convocação para a Copa do Mundo – que continha 23 jogadores –, sua última como treinador da Espanha, Julen selecionou 7 atletas do seu novo clube (Carvajal, Nacho, Odriozola, Ramos, Isco, Asensio e Vázquez). Formar a base da seleção com seus maiores centros é normal, uma vez que os melhores jogadores atuam por Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid, mas o entrosamento, principalmente ao chegar em seu novo ambiente profissional, ajuda muito.

Devemos esperar um Madrid de muita qualidade na saída de bola sob os pés de Carvajal, Ramos, Varane e Marcelo, um meio-campo de posse com Casemiro (que deve melhorar seu passe vertical), Kroos e Modric e o Isco como, talvez, seu maior destaque. Outros aspectos que aguardarmos são a decisão de Kovacic por sua permanência, mais minutos à Ceballos e Bale, o primeiro ano de Álvaro Odriozola e Vinicius Junior como jogadores do clube e as funções de Benzema em campo, agora sem Cristiano.

É início de temporada, reforços ainda chegarão e mais jogadores devem sair. Mais incógnitas surgirão – em campo e fora dele – e as críticas por parte da torcida continuarão, assim como sempre foi, mas o novo Real Madrid tem tudo para agradar. Não será fácil à Lopetegui, principalmente por ter que substituir um treinador que foi ídolo jogando e treinando, tendo conquistado 4 Champions em 5 anos – sendo 3 seguidas. De qualquer forma, devemos esperar uma equipe propositiva, intensa, inspiradora e vencedor, acima de tudo.

@CaioAIves

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