Um jogo para marcar uma história: ANÁLISE TÁTICA PRÉ JOGO FRANÇA X CROÁCIA

por Luiz Martins e Luiz Doering

“Os jogadores mais velhos controlam o time, os mais jovens trazem um pouco de loucura ao campo. Mas já são maduros. É um time jovem, mas, perdendo da Argentina, soube reverter o placar. Para isso, precisa de muita solidez e cabeça”

Didier Deschamps

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Maturidade, confiança e eficiência. Estas são as palavras que melhor definem o selecionado francês em mais uma final de Copa do Mundo.
Apesar de jovem, com uma média baixa de idade, a equipe conseguiu êxito em todas as situações que enfrentaram durante o torneio, tendo muita segurança em sua proposta de jogo.

Os Bleus chegam nesta final apostando em um futebol pragmático, entendo a dificuldade de cada um dos enfrentamentos até aqui, sem correr muitos riscos, vem realizando apenas o necessário, superando as adversidades impostas. O time sofre muitas críticas, por não realizar um jogo mais pausado em muitas situações, com um maior controle de bola através da posse (exceções foram os jogos contra Dinamarca e Uruguai), em certos momentos de seus jogos, mas a equipe desde que Deschamps assumiu em 2012, vem sendo montada para praticar um futebol altamente organizado, sólido e eficiente, privilegiando a criatividade e a individualidade de seus melhores jogadores de meio-campo e ataque, apostando principalmente em transições rápidas, sejam elas defensivas ou ofensivas e muitos contra-ataques. É assim que esta seleção se sente mais confortável e seria neste momento até inapropriado retirar esta característica destes jogadores, mesmo que o adversário negue maior campo e espaço.
Pensando no enfrentamento da final, como a Croácia é uma seleção que utiliza bastante a posse de bola, muito em função da qualidade de seus homens de meio-campo, a questão preocupante no confronto, é a forma que a seleção Croata atacará a área francesa, com Módric e Rakitic sempre não podendo receber a bola de frente, sem pressão, buscandoos jogadores de extrema mobilidade no ataque, que se movem muito buscando a diagonal vindo das laterais do campo para atacar. O embate físico de meio-campo também deverá nortear a partida de domingo em Luznhiki, muito em função da capacidade física e técnica das duas equipes no setor. Este tipo de jogo croata, casa muito bem com a proposta de jogo que os Bleus se sentem mais confortáveis dentro de campo. O meio francês deverá realizar muita pressão nos jogadores croatas, principalmente o jogador com a bola, fechar linhas de passe, evitando desta forma desorganizar a última linha defensiva. As compensações deverão ser realizadas de forma correta, buscando sentirem-se seguros na partida, sem correr grandes riscos à frente da sua área. Outra questão importantíssima é o foco da equipe durante todo o tempo, para que não cometa um erro recorrente de muitos de seus jogos, que é baixar a intensidade, por entender que está confortável na partida, assim se desconcentrando e cedendo campo para o adversário realizar suas ações ofensivas com mais tranquilidade.

Nesta edição da Copa, muitos jogadores chamaram à atenção de forma mais contundente, ao longo da competição. Lloris tem se mostrado um goleiro muito seguro, tendo praticado defesas importantes em todas as partidas, Varane e Umtiti apresentam muita força e leitura de jogo defendendo a área, os laterais Pavard e Hernandéz, que inicialmente seriam reservas, conquistaram a titularidade e tem desempenhado grande papel auxiliando os centrais da equipe e aparecendo cirurgicamente no ataque, participando de muitas situações ofensivas e até marcando gols.

O meio-campo tem demonstrado ser o melhor setor da equipe, com muita capacidade física, um ótimo jogo defensivo, principalmente através de Kanté, que tem sido absurdo em suas leituras de coberturas aos companheiros, desarmes e interceptações. Já Matuidi, que iniciou a Copa na reserva, é o elo principal de toda a estratégia tática adotada. Ele tem sido extremamente importante no ataque, balizando a equipe em um 4-2-3-1 no momento ofensivo, proporcionando muitas infiltrações atrás das linhas adversárias, fechar espaços no corredor esquerdo e no centro do campo, fazendo o time defender em um 4-3-3 muito compacto, liberando Pogba de maiores obrigações defensivas. Mesmo assim, Pogba tem auxiliado bastante à defesa, utilizando muito bem seu físico para ganhar duelos dos adversários. Com grande velocidade de reação e força para conduzir a equipe à frente através de lançamentos e passes rompendo linhas, vem acionando com muita propriedade os homens de frente.
No ataque é onde se encontram os jogadores com maior potencial individual e criativo da equipe. Este setor é ocupado pelos craques Griezmann e Mbappé. Os dois possuem total liberdade de ações para agredir defesas através de velocidade, dribles e genialidade de movimentos. Estes jogadores têm realizado um ótimo torneio, mesmo não tendo grande destaque na maioria dos jogos, sendo até discretos em muitos momentos, com a exceção da partida realizada por Mbappé contra a Argentina.

Realizando uma função menos peculiar do que apresenta no Atlético de Madrid, Griezmann tem sido o jogador que dita o ritmo da equipe, ao baixar próximo a base da jogada e com apenas um rápido toque já acionar um de seus companheiros, que se desprende das linhas adversárias, em direção ao gol do inimigo. Mbappé é imprevisível e genial, com suas arrancadas lembrando muitas vezes grandes craques como Henry e Ronaldo, desmontando defesas com toques sutis e gols. Não menos importante, mas bastante questionado pelo seu desempenho, Giroud tem grande importância em toda essa mecânica do jogo francês, por possuir características de imposição física, abrindo espações entre linhas para seus companheiros, vencendo duelos contra os defensores rivais e realizando muito bem o pivô, quando é necessário um jogo mais direto.

A França chega a esta final em clara evolução de seu modelo, entendendo quais são as necessidades do jogo, na tentativa de vencer o seu adversário, mesmo que em muitas situações pareça se desligar da partida e correr riscos desnecessários.
Ela pode não agradar a maioria das pessoas, sejam estas analistas, comentaristas ou apenas torcedores normais de futebol, mas é inegável que eficiência é um ponto alto dentro da equipe.

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A Croácia, por sua vez, chega a essa inédita final de Copa do Mundo como azarão, mas um azarão com algumas qualidades importantes que podem dificultar muito o jogo da França. Ainda assim, a Croácia deverá ter muitas dificuldades, especialmente em razão de dois fatores: a velocidade dos ataques franceses, personificados em Mbappé, e a excelente bola aérea dos zagueiros Varane e Umtiti, que se torna um problema na medida em que a Croácia se utiliza demais de cruzamentos para criar situações de perigo. Se por um lado a intensidade da França e a velocidade de Mbappé são problemas com os quais Zlatko Dalic terá de lidar para sair campeão, o treinador croata também possui algumas ferramentas para tentar equilibrar as coisas na final.

É provável que o treinador mande a campo novamente a equipe que eliminou a Inglaterra, com Marcelo Brozovic abrindo o meio de campo, vigiando de perto os avantes franceses que circulam pelo setor.

Para ter alguma chance, a Croácia não poderá de forma alguma sofrer gols no início da partida. Isso obrigaria a equipe a sair mais para o jogo, entregando metros de campo para a França contra-atacar, o que pode ser absolutamente fatal para quem tem Mbappé como adversário. A manutenção do empate obriga a França a jogar e coloca a Croácia em uma situação mais confortável, podendo explorar os contra-ataques através do jogo de Ante Rebic.

Outro ponto que merece atenção é o trabalho realizado pelos laterais Vrsaljko e Strinic. Uma das principais armas da Croácia é o movimento dos extremas que, combinado com o apoio dos laterais, costuma gerar boas oportunidades de cruzamento. Atuando contra a França, é natural que os laterais apoiem menos em virtude do trabalho defensivo que precisarão desempenhar. Ainda assim, para que a proposta da Croácia flua é necessário que a dinâmica de apoio dos laterais seja mantida, visando balançar a marcação francesa e gerar situações de finalização para Mandzukic.

O técnico Dalic ainda contará com boas opções no banco de reservas para modificar a estrutura da equipe a depender do desenrolar da partida. Caso consiga abrir vantagem, poderá utilizar Kovacic para reter a bola ou Badelj para aumentar o poder de marcação. Se estiver em desvantagem, o ingresso de Kramaric (que vem acontecendo com frequência durante a Copa) deverá ocorrer novamente.

A questão física também preocupa. A Croácia atuou noventa minutos a mais do que a França em virtude das prorrogações que teve de jogar para chegar até a final. Isso por si só já faz uma grande diferença em termos de desgaste e capacidade física, que aumenta muito a vantagem da França na partida. Além disso, a equipe francesa possui jogadores jovens e atléticos, como Pogba, Griezmann e Mbappé, isso sem falar em Kante, um dos volantes mais intensos do futebol mundial.

Nesse cenário de desgaste, mais do que nunca a circulação de bola será essencial. Modric e Rakitic tem papel importantíssimo aqui, pois não ter a bola importaria em correr atrás da França, o que seria totalmente inadequado, considerando a situação física das equipes. Manter a bola pelo maior tempo possível frearia a equipe francesa e, de quebra, daria uma espécie de descanso para os principais jogadores croatas.

Dalic me convenceu. Se mostrou um bom estrategista nessa Copa do Mundo, sabendo identificar as valências de seus adversários até aqui, modificando peças para adequar a equipe às dificuldades que enfrentaria. É possível que vejamos uma Croácia diferente na final, especialmente pelo poder do adversário e pelo próprio peso da partida.

A Croácia já fez história ao chegar a essa inimaginável final, mas vencer a Copa do Mundo tornaria essa geração icônica e faria desses jogadores verdadeiras lendas na história do esporte mundial. Para isso, precisará mostrar uma vez mais todas as suas qualidades e seu repertório. Não será fácil, mas para esses croatas, nada parece ser impossível!

 

@ojunomartins

@lfmdoering

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