Por que Gabriel Jesus é titular?

Por Pedro Galante e Daniel Rohr

A função tática em meio ao jejum de gols: por que Gabriel Jesus é titular?

Lá se vão quatro jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, e o centro-avante que veste a camisa 9 do Brasil, consagrada pelos gols de Romário e Ronaldo, ainda não conseguiu marcar. O jejum de gols de Gabriel Jesus, aliado às boas aparições de Firmino – que já deixou o seu – instaurou um debate entre os torcedores brasileiros. Se centro-avante vive de gols, por que Jesus continua titular?

Entre os jogadores e a comissão técnica, porém, essa dúvida parece não existir, e Gabriel Jesus está garantido entre os titulares na partida de amanhã, contra a Bélgica, pelas quartas de final. Há vários motivos para Tite acreditar que Jesus continua sendo o atacante que melhor pode contribuir para a Seleção. Neste texto, vamos abordar os principais: aplicação tática, contribuição defensiva e coerência.

Jesus ou Firmino?

Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer alguns pontos. Ninguém questiona que Jesus e Firmino são bons jogadores e poderiam ser titulares da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. O momento de Firmino é excelente: foi finalista da Champions League dividindo o protagonismo do ataque do Liverpool com Salah. Já Jesus foi reserva em boa parte da temporada 2017-2018 e começou o ano no departamento médico do City devido a uma lesão no joelho. Voltou à titularidade em março, devido à lesão de Aguero, e encaminhou uma sequência de jogos quando o título da Premier League já estava encaminhado.

Se o critério para titularidade fosse apenas o momento vivido pelos atletas em seus clubes, talvez Firmino merecesse começar entre os 11 iniciais. Mas Tite já deu mostras de que há muito mais em jogo no momento de convocar a Seleção e escalar os titulares. O retrospecto da Seleção depõe a favor das ideias do técnico e da titularidade de Jesus, camisa 9 incontestável e de imensa contribuição nas Eliminatórias. Entre as explicações para a preferência de Tite está a aplicação tática de Jesus, um centro-avante que não se limita à missão de fazer gols.

A aplicação tática de Jesus

Pode até soar absurdo, mas no cenário atual do futebol, em que jogadores de defesa tem tarefas ofensivas, jogadores de ataque tem tarefas defensivas e até o goleiro passa a ser importante na organização ofensiva e defensiva, o jogo sem a bola é tão importante quanto com ela. No futebol de elite, o centro-avante pode – e deve – contribuir com muitas coisas além da capacidade de finalizar e converter as oportunidades criadas em gols.

Jesus é fundamental em dois aspectos que dizem respeito à aplicação tática: a movimentação sem bola para criar espaços no momento ofensivo e a pressão na saída de bola adversária.

Na movimentação sem bola, ele arrasta defensores consigo e abre espaços para seus companheiros infiltrarem vindo de trás, principalmente, Paulinho que é especialista nesse quesito. O primeiro gol contra a Sérvia mostra muito bem essa dinâmica. Jesus leva consigo o zagueiro pela esquerda, aproveitando de um momento de desatenção do lateral esquerdo, Paulinho infiltra e marca. No mesmo jogo, a dinâmica se repetiu diversas vezes (Jesus arrasta, Paulinho infiltra), provando que essa dinâmica faz parte da estratégia ofensiva e da dinâmica de jogo da Seleção.

Ainda no aspecto das movimentações sem a bola, Jesus tem o nível de mobilidade considerado perfeito para o 4-1-4-1 que costuma ser adotado por Tite. Não é um centroavante fixo, que fica “plantado” entre os zagueiros, o que tornaria sua marcação relativamente mais fácil por parte da dupla de zaga, e nem um falso nove, o que deixaria a região da área adversária sem nenhum atleta brasileiros em diversos momento da partida. Essa presença de área é importante no esquema de Tite, porque Jesus dá suporte e cria linhas de passe aos avanços de Willian, pela direita, Neymar, pela esquerda, e Paulinho e Coutinho, por dentro. É um centroavante móvel, perfeito para o sistema brasileiro.

O atacante que mais desarma

Partindo para o segundo aspecto, Jesus tem um papel muito importante na hora de pressionar a defesa adversária, e não se trata de uma pressão passiva: muitas vezes esse movimento leva a recuperação da bola:

São 48 duelos, tendo vencido 23:

– 4 cortes

– 6 desarmes

– 6 interceptações

De acordo com dados do Footstats, Jesus é o atacante com mais desarmes e interceptações na Copa. Essa característica se mostra vital quando o modelo de jogo da Seleção depende da recuperação de bola no setor ofensivo para ter sucesso. E os números mostram que o esforço do atacante, combinado às ações de Willian e Paulinho, principalmente, vem dando certo.

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Das seleções que ainda estão vivas na competição, o Brasil é a segunda que mais recupera a bola no ataque. A Inglaterra é a primeira. (Foto: FutbolAvanzado)

Essa aplicação tática e o vigor físico na marcação foram alvo de elogios dos companheiros e da comissão técnica recentemente, provando que, se alguns torcedores questionam a titularidade de Jesus pela falta de gols, dentro da Seleção ele continua sendo unanimidade.

Capitão contra o México, Thiago Silva rasgou elogios a Jesus quando foi questionado sobre o poder defensivo da Seleção, que sofreu apenas um gol na Copa, condição que a coloca no posto de melhor defesa da competição ao lado do Uruguai. “Se não estamos levando gol é porque marcação está equilibrada desde o nosso ataque. Parabenizei o Jesus pelo grande jogo. Ele se doa para o time ao máximo. Se precisar colocar a cabeça para o adversário chutar, ele coloca”, valorizou Thiago.

A solidez defensiva da Seleção sob comando de Tite salta aos olhos. São 20 vitórias, quatro empates e uma derrota, com 54 gols marcados e apenas seis sofridos. Nesses 25 jogos com Tite, a Seleção saiu de campo 19 vezes sem sofrer gols, o chamado e valorizado “clean sheet”.

Quem também elogiou a capacidade tática de Jesus depois da partida contra o México foi Sylvinho, auxiliar de Tite. “O Gabriel é um trator, a origem dele na base foi de externo. A utilização dele é muito importante numa competição como essa, de recuperação cada vez menor. Nós conversamos e decidimos que o Gabriel poderia contribuir demais pelo lado esquerdo. Ele cumpre uma função excepcional”, disse Sylvinho, se referindo à mudança de posição durante a partida, quando Jesus foi deslocado para a esquerda.

Por sinal, esse é um bônus de Gabriel Jesus: geralmente ao final das partidas, ele recompõe pelo lado esquerdo e deixa Neymar mais à frente, sem muitas preocupações defensivas e pronto para o contra-ataque. Na partida contra o México isso ficou bem evidente. Inclusive, Neymar só está livre para receber o passe de Fernandinho que dá origem ao segundo gol, porque Jesus está fazendo o lado.

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Jesus faz a marcação pelo lado enquanto Neymar fica mais a frente. Na sequência do lance, Fernandinho intercepta a bola e aciona Neymar. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

A opção de Tite e a coerência

Firmino poderia entregar algo muito parecido com o que Jesus faz. Na questão da movimentação, poderia fazer até melhor. No ataque funcional, sua movimentação saindo da área abriria espaços preciosos para Willian, Neymar e Paulinho. Talvez não teria tantas roubadas de bola, mas manteria o nível na pressão, afinal é um dos integrantes de, senão o melhor, um dos melhores “pressings” da Europa, no Liverpool. Parece claro que ambos estão aptos à titularidade, o que justifica parte do clamor da torcida. Da mesma forma, Tite tem suas razões para manter Jesus na equipe, pelo critério da coerência e do equilíbrio, que costuma trazer à tona para justificar suas decisões.

Além da aplicação tática abrindo espaços no ataque e pressionando a zaga adversária, o que tem garantido Jesus como titular é o retrospecto e o extracampo. Gabriel é o artilheiro da Era Tite, foi fundamental na reconstrução do ataque brasileiro e protagonista nas Eliminatórias. Tem a confiança da comissão e dos jogadores. Trocar um jogador da sua importância a essa altura da competição, nesse contexto, não é apenas improvável, como questionável. Todos conhecemos Tite e seu perfil conservador, que busca o equilíbrio e valoriza a continuidade. Suas últimas grandes mudanças no time titular – Marquinhos por Thiago Silva, e Renato Augusto por Willian – aconteceram de forma gradativa. Não vai ser agora, nas quartas de final da Copa do Mundo, no momento decisivo do trabalho que começou a ser desenvolvido há 25 jogos, que ele vai abrir mão dessa característica, por uma razão simples: coerência.

Quem sabe ele não planeje uma troca de Jesus por Firmino no pós-Copa, no novo ciclo? É difícil dizer. De qualquer forma, fica o alento para os torcedores brasileiros: em tempos de ressignificação do papel do atacante, a Seleção está bem servida com duas opções de alto nível, criando a famosa “dúvida boa” na cabeça de Tite.

Foto destaque: Lucas Figueiredo/CBF

@Pedro17Galante

@danielrohr

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