Breves pensamentos de uma tarde em Moscou: ANÁLISE TÁTICA RÚSSIA 1 (4)x(3) 1 ESPANHA

 

Por André Andrade e Hudson Martins 

Muito se falou e muito ainda será dito sobre a eliminação da Espanha, nos pênaltis, para a Rússia, neste domingo.

Embora saibamos que as análises sobre o que se passou ontem já estejam razoavelmente saturadas, deixamos aqui algumas impressões. Talvez menos atreladas ao retrato deste domingo e mais próximas do filme dos últimos meses.

Uma das bandeiras que defendemos assim que Fernando Hierro assumiu, logo após a saída de Julen Lopetegui, é que o modelo de jogo provavelmente não se perderia, por dois motivos: porque Hierro não parecia inclinado a fazer mudanças bruscas (como não fez, de fato) e porque uma das nuances do modelo de jogo é que ele resiste ao tempo. Ainda que Hierro optasse por uma ruptura importante, provavelmente seria traído pela herança de um currículo que se treina, naquele país, desde a mais tenra idade.

O que não exatamente consideramos foram as nuances dentro do modelo. Elas é que parecem ter dissolvido a cada dia de trabalho do novo treinador. Nos primeiros instantes, defendemos que Hierro deveria agir como se tivesse uma bomba-relógio nas mãos, devendo assim cortar o fio que evitasse sua explosão. Depois de ontem, temos a leve impressão de que Hierro, é bem verdade, não cortou um dos fios errados. Mas também não cortou o certo.

A bomba explodiu antes disso.

Na escalação inicial, Hierro optou por deixar Andrés Iniesta no banco. A decisão causou uma espécie de indignação coletiva – não exatamente compreensível, ao nosso ver. Mesmo aqueles que acompanham com alguma distância, sabem que Iniesta não mais aparenta ter condições de jogar 90 minutos em altíssimo nível. Não por acaso, ele geralmente é substituído. No caso específico deste confronto, Hierro parece ter planejado o jogo já considerando a possibilidade de prorrogação e pênaltis. Ou seja: era preferível ter Iniesta em campo na metade decisiva do jogo, ao invés de ter que retirá-lo do jogo nos instantes anteriores ao clímax. Imagine você o nível das críticas oportunistas a que Hierro seria submetido se decidisse pela segunda opção.

Mas o que pouco se falou foi sobre a escolha de Hierro para preservar Andrés. Não falamos aqui de Marco Asensio, mas sim de quem fez a do camisa seis: David Silva. Na estrutura espanhola, Silva acostumou-se a ser o extremo pela direita, buscando eventuais incursões em diagonal e o espaço entrelinhas, abrindo o corredor para Dani Carvajal ou Nacho. O problema é que esta equipe nasceu e se criou mais à esquerda, tanto pelo posicionamento médio de Iniesta quanto pelo crescimento exponencial de Isco, cuja liberdade lhe permitiu alcançar um desempenho que talvez sequer houvesse experimentado em nível de clubes.

Quando tomou a decisão de deslocar Silva para o flanco oposto, imagino que Hierro buscou uma possibilidade, em especial: recuperar, ainda que parcialmente, o futebol de Silva. Desde o início do Mundial, David parece ser um dos jogadores mais questionados pela imprensa local, e tê-lo em bom nível seria fundamental para a fluidez ofensiva de uma equipe que, mesmo antes da eliminação, já dava sinais de involuir naquela que era sua arma principal: a organização ofensiva. Pela esquerda, David tocaria na bola mais vezes, seria eventualmente mais participativo. O que não significa que o faria bem – como realmente não fez. Se tivesse avançado, imagino que a Espanha não o veria como titular nas quartas-de-final.

Para além de uma questão tática, me parece que Hierro buscou uma solução anímica. Como soubemos recentemente, uma das qualidades do seu perfil parece estar exatamente na sua habilidade em relacionar-se com seus jogadores, uma das razões pelas quais ele foi, imediatamente, o nome levantado logo após a demissão de Lopetegui (a outra hipótese tem a ver com a sua experiência e seu significado como jogador). Talvez o deslocamento de Silva tenha sido uma cartada para recuperar um dos seus pilares em campo. Infelizmente, foi a cartada final.

Outra das críticas sofridas por Hierro está na suposta esterilidade da posse de bola espanhola durante todo o jogo – talvez durante toda a estadia espanhola na Rússia.

Tão logo Akinfeev defendeu o último dos pênaltis, mil teorias surgiram sobre o assim chamado tiki-taka (também conhecido como a carta na manga dos críticos espanhois). Ao mesmo tempo, outras tantas platitudes aparentavam querer ensinar ao treinador e à comissão técnica de uma das principais seleções de futebol do mundo aquilo que, evidentemente, eles sabem: a posse de bola não é um fim em si mesmo. A Espanha não fez um jogo burocrático (e entediante) porque quis. A Espanha fez um jogo burocrático e entediante porque não conseguiu quebrar as linhas defensivas russas em uma base regular. O teor de parte das críticas nos faz crer que há quem ache que uma equipe de futebol pode fazer com a outra o que bem quiser, desde que tenha vontade de fazê-lo. Isso nos parece, no mínimo, um desconhecimento profundo do que significam o treino e o jogo. O jogo, como bem sabemos, tem razões que a própria razão desconhece.

Neste sentido, parece admirável a postura do treinador Stanislav Cherchesov – também alvo de algumas frustrações alheias em forma de comentários. Como ele mesmo disse após a classificação, aquela era uma das únicas estratégias possíveis para vencer um jogo dessas características. O comandante russo teve humildade em recuar o bloco defensivo até a área, ressuscitar a linha de 5 na defesa, tão presente nos jogos durante todo ciclo, e que permite um controle maior de espaço, de profundidade e amplitude, e conseguiu o jogo e o resultado que queriam. Os russos jogaram com a cabeça, mas utilizando-se do coração e movidos pela boa Copa e aplicação tática de Golovin, Dzuyba, Mario Fernandes e outros personagens desse conto de fadas.

A Espanha fez um jogo burocrático e entediante porque, do outro lado, havia uma equipe absolutamente consciente da sua situação no confronto, absolutamente respeitosa, que baixou as linhas e contemplou um cenário que parecia cada vez mais claro: a Espanha conserva a posse, mas tem cada vez mais dificuldades para progredir. A cada jogo, os argumentos parecem menores, enquanto a pressão cresce. Até um ponto que poderia ser insuportável.

É por isso que Cherchesov – que não está na Copa do Mundo para agradar, mas para vencer – se manteve fiel à estratégia mesmo saindo em desvantagem no placar, após o gol de Sergio Ramos. E estava absolutamente certo. Porque um lance como aquele que gerou o pênalti de Piquè era possível, ainda que raro. Não nos esqueçamos, aliás, que a Espanha já havia demonstrado alguma fragilidade recente no jogo aéreo. Ao invés de sair para o jogo de peito aberto, Cherchesov jogou com o cérebro.

E foi premiado.

@PepGenius e @hudrmp

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