O passeio dos leões e o sonho realizado: ANÁLISE TÁTICA DE INGLATERRA 6×1 PANAMÁ

Por Daniel Klabunde e Daniel Rohr

Em um jogo de opostos, Inglaterra e Panamá se enfrentaram pela segunda rodada da Copa do Mundo nesse domingo, e o resultado revelou uma diferença de desempenho do tamanho do oceano que as separa. A vitória de 6 a 1 a favor dos ingleses é a maior goleada desta edição do Mundial até o momento. Com direito a hat-trick de Harry Kane, o selecionado da terra da rainha abriu saldo suficiente para enfrentar a Bélgica, na última rodada da fase de grupos, precisando apenas de um empate para garantir a primeira colocação do grupo.

Tamanha superioridade, no entanto, não significou que os panamenhos, estreantes na Copa ao lado da seleção islandesa, não tenham encontrado motivos para sorrir. O gol de honra anotado pelo zagueiro Felipe Baloy (ex-Grêmio e Atlético-PR), do alto dos seus 37 anos, levou a torcida panamenha ao delírio e provocou comoção ao final da partida. Neste texto, vamos analisar as duas equipes com base no desempenho que era projetado antes da Copa, que você pode conferir aqui e aqui, e com base nos jogos da primeira rodada, cujo desempenho já foi analisado aqui e aqui.

O furacão Harry Kane dá as cartas no passeio inglês

Foi uma partida tranquila para os ingleses levando em conta o placar, mas a zaga cometeu dois erros no início da partida que não podem acontecer contra seleções consideradas mais fortes, um deles aos três minutos de partida em uma saída de bola com Stones, que errou o passe para Young e possibilitou um contra-ataque para os Panamenhos, mas Godoy errou na finalização. O time teve mais tranquilidade na partida por marcar um gol logo cedo aos 7 minutos em cabeçada de Stones depois de uma cobrança de escanteio efetuada por Trippier, jogador este que vem se destacando muito pela precisão em cruzamentos e lançamentos, tanto que um de seus lançamentos foi na medida para Lingard nas costas da zaga, que invadiu a área e sofreu pênalti convertido por Harry Kane.

Se falarmos de lançamentos, precisamos falar de Jordan Henderson, que executou 8 lançamentos na partida com 6C e 2E (75% certos), é o termômetro do time, praticamente todas as jogadas iniciam por ele por este motivo, precisão no passe, foram 60 ao todo com 57C e 3E (95% de acerto).

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Mapa de passes da Seleção Inglesa, podemos ver a atuação de Henderson sempre iniciando as jogadas. Imagem: @11tegen11

A qualidade no passe ou cruzamento de Henderson é tão importante para o time que é usado até mesmo em jogadas ensaiadas, e foi assim que saiu o quarto gol dos Three Lions na partida, onde Trippier cobrou falta para Henderson que cruzou para Kane no lado direito de ataque, o qual cabeceou para o meio onde estava Sterling, este deveria ter feito o gol, mas o goleiro Penedo fez ótima defesa, só que a bola acaba sobrando na cabeça de Stones que marca o seu segundo gol na partida.

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Na imagem podemos ver que é uma jogada é ensaiada nos treinamentos, e não é algo que foi decidido no momento da partida, tanto que são usados 4 jogadores até o momento da primeira conclusão à gol, seria mais simples se Trippier tivesse cruzado para Stones concluir direto à gol ou cruzar para o meio da área, mas o primeiro passe sai para Henderson, que cruza para Kane no lado inverso e cabeceia para o meio, onde Sterling se posiciona. Outro ponto importante a destacar é o posicionamento corporal de Sterling, que no momento que Henderson está executando o cruzamento ele já se posiciona de frente para o gol, tendo assim mais precisão na hora da finalização, e mostrando que ele já sabia que a bola viria para ele.

No ataque ainda ficamos com a boa movimentação de Lingard por toda a zona de ataque, chamando o jogo para si e fazendo boas triangulações com Sterling, tanto que uma destas triangulações terminou em um golaço no ângulo de Lingard. A minha dúvida ficou por parte de Loftus-Cheek, que entrou no lugar de Dele Alli para esta partida, no qual atuou muito pela direita, não se movimentando e trocando de posição com Lingard e Sterling, como foi na primeira partida contra a Tunísia, onde os três jogadores se movimentaram muito no ataque invertendo várias vezes de posição. Acredito ter sido orientação de Southgate para que Trippier pudesse apoiar mais, tanto que Young atuou mais defensivamente.

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Mapa de movimentação onde atuou Loftus-Cheek. Imagem: Footstats

Não podemos deixar de falar de Harry Kane, é claro, goleador desta Copa do Mundo até agora com 5 gols. Ele teve seu primeiro Hat-trick neste jogo, com dois gols de pênalti e um contando com a sorte em finalização de Cheek, em que a bola acaba bateu no seu calcanhar e enganou o goleiro adversário. Como dizem, “a sorte acompanha quem trabalha”, e podemos ver muita dedicação e trabalho por parte de todos os integrantes deste grupo.

Próximo jogo dos ingleses será contra a Bélgica, confronto que apresentará uma prova mais dura para o sistema defensivo da Inglaterra. A Inglaterra atua no 5-3-2, mas acho bem provável que seja mudado para o 5-4-1, tendo precaução com Hazard e cia.

@dktricolor.

Sonho realizado e missão quase cumprida

Ao desembarcar na Rússia, a estreante seleção do Panamá realizou um sonho: pela primeira vez, o país da América Central estava representado na Copa do Mundo. A classificação à Copa foi comemorada com festa (e até feriado nacional) no país, e nem o fraco desempenho nos amistosos pré-Copa (apenas 23% de aproveitamento em 7 jogos) arrefeceu o ânimo dos panamenhos. Com um time de elevada faixa etária formado por atletas que disputam ligas nacionais pouco competitivas, como a de Honduras, a da Eslováquia e da Guatemala, os panamenhos sabiam que não teriam condições de brigar pela classificação em um grupo com Bélgica e Inglaterra. Mas chegaram à Rússia alimentando dois sonhos: comemorar o primeiro gol em Copa do Mundo e pontuar na fase de grupos.

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Baloy se emociona ao marcar o primeiro gol panamenho nas copas. Foto: Getty Images

O primeiro desses sonhos foi alcançado na derrota por 6 a 1 para a Inglaterra, neste domingo. E quis o destino que um personagem símbolo da seleção estivesse por trás da façanha: o veterano zagueiro Felipe Baloy, que interrompeu a aposentadoria para emprestar sua experiência de 101 jogos pela seleção na Rússia, foi o autor do gol de honra, comemorado como uma vitória pelos panamenhos nas arquibancadas.

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Jornais panamenhos repercutem o gol marcado, e não a goleada sofrida. (Montagem: @futpapers)

Em campo, a goleada sofrida para os ingleses é explicada por diferentes fatores – nenhum deles inesperado. Os já conhecidos problemas defensivos panamenhos, com sua transição lenta e marcação frágil, que concede muitos espaços aos adversários e tem sua linha quebrada facilmente por meio de triangulações, se repetiu contra os ingleses. Contra a Bélgica, na estreia, a zaga foi resiliente por 45 minutos, apesar das diversas oportunidades criadas por De Bruyne e Hazard. Contra os ingleses, o sistema ruiu logo aos oito minutos. Em cobrança de escanteio, a marcação individual na área falhou e o lateral Murillo concedeu espaços para Stones correr em liberdade e cabecear na marca do pênalti, sem precisar saltar.

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Velhos problemas defensivos na origem do segundo gol: liberdade ao portador da bola e desatenção na primeira linha defensiva. Reprodução: FifaTV no Youtube

O gol precoce pareceu abalar o psicológico dos panamenhos, ao mesmo tempo em que deu confiança e tranquilidade aos ingleses para trabalhar a posse e buscar alternativas para furar o frágil sistema defensivo da seleção da América Central. No segundo gol, Lingard aproveita a desatenção de Román Torres, se desprende da marcação e recebe com liberdade dentro da área. Escobar se afoba e comete o pênalti. Mais um gol inglês com apenas 20 minutos de jogo.

A partir daí, os problemas se sucederam em uma bola de neve. Interessada em fazer saldo, a Inglaterra não tirou o pé do acelerador, enquanto os panamenhos batiam cabeça, em especial na bola parada defensiva.

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Circulação de passes do Panamá e o desequilíbrio à esquerda. Foto: @11tegen

 Com a bola no pé, o Panamá revelou pouquíssimo repertório, abusando da saída pela esquerda com Davis e Rodriguez. A dupla trocou 28 passes na partida, e o lado esquerdo foi responsável por 58% das ações ofensivas. Um desequilíbrio que criou uma obviedade facilmente combatida pelos ingleses. O gol panamenho surgiu em uma cobrança de falta, no segundo tempo. Aproveitando erro da zaga inglesa, Baloy concluiu de primeira e garantiu um motivo de comemoração aos torcedores.

Eliminado, o Panamá enfrenta a também eliminada Tunísia na próxima rodada, mas vai precisar de mais organização defensiva e ofensiva para realizar o segundo sonho: pontuar na Copa do Mundo.

@danielrohr.

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