Virada alemã sobre a Suécia foi algo além de Toni Kroos e dos conceitos de jogo: ANÁLISE TÁTICA SUÉCIA 1 X 2 ALEMANHA

Por Matheus Souza

Após estreias completamente distintas, Alemanha e Suécia protagonizaram um duelo com ideias também contrastantes e que justificaram o resultado final. Ao entender o contexto, ficou compreensível o porquê de os germânicos terem obtido o êxito, ainda que de maneira tão tardia, com o golaço de Toni Kroos aos 50 minutos da etapa final — no que foi o último lance da partida.

Mesmo com muitas mudanças na escalação, Joachim Löw manteve o 4–2–3–1 (4–4–2 na fase defensiva) que a Alemanha apresentou na estreia. Contudo, muitas diferenças na estrutura, que geraram alterações na forma de jogar. Da derrota para o México para o triunfo contra os suecos, quatro jogadores foram sacados: Hummels — pela lesão sofrida no pescoço — , Plattenhardt — jogou a estreia porque o titular estava gripado — , Khedira e Özil deram lugar a Rüdiger, Hector, Rudy e Reus. As trocas significaram um time mais rápido nos ataques e um pouco menos caótico na transição defensiva, especialmente pelo maior vigor físico de Rüdiger e pelo fato de o volante Rudy ser um jogador que fica mais recuado em campo, próximo dos defensores.

4–2–3–1 alemão: laterais mais abertos e os três meias ofensivos mais por dentro; centroavante (Werner) com movimentos de desmarque; Kroos e Rudy, os “volantes”, mais próximos e na base das jogadas. Como de praxe, Boateng importante na construção. Do outro lado, olho nas linhas suecas: 4–4–2, com a última delas nem toda mostrada no flagrante, mas bem postada aí; mesma coisa na fase ofensiva, variando um pouco para o 4–4–1–1 de acordo com o movimento de um dos atacantes (geralmente Toivonen).

A Suécia do técnico Jan Andersson manteve seu 4–4–2 (com e sem a bola) e quase não mudou características. Diferente da Alemanha, os suecos mantêm um padrão um pouco menos mutável em sua forma de jogar. Na fase ofensiva, jogo direto como opção mais viável em vários sentidos: favorece a equipe pela sua vantagem física — jogadores fortes e de vigor contra a zaga rival, porque o time marca quase todo o tempo em bloco médio/baixo e pelo fato de a principal fraqueza alemã ser a transição defensiva ao sofrer contra-ataques. Na primeira etapa, o plano foi eficaz. Além de contra-golpear, havia marcação por pressão, em alguns momentos, no campo de ataque (o gol foi gerado assim, pressionando o passe de Kroos) e muita vantagem nas bolas alçadas na área — os atacantes Berg (1,84m) e Toivonen (1,89m) ajudaram bastante nisso.

Suécia no 1º tempo teve as rápidas transições, contra a defesa alemã exposta, como arma letal. Temporariamente, deu certo, e foi a principal causa da expulsão de Boateng na etapa derradeira (que cometeu pênalti, não marcado pelo árbitro de campo/VAR, neste lance).

Durante a etapa inicial, algum equilíbrio nas duas equipes, e vantagem sueca no placar porque errou pouco e cedeu menos que o seu adversário. Nesses minutos, a Suécia chegou até a pressionar um pouco no campo ofensivo e dificultar a circulação de bola germânica. Isso também aconteceu porque Kroos esteve sem uma opção segura de passe atrás, após a saída de Rudy (que entrou para ajudar nisso), ainda no 1º tempo, quando machucou o nariz. Com Gündogan, que não acrescentou nesse sentido, e nos momentos em que a Alemanha ficou momentaneamente com um a menos, enquanto Rudy era atendido, vimos o melhor do time sueco pressionando. Depois, estagnou e se perdeu.

Após o intervalo, o que foi visto era literalmente um jogo de ataque contra defesa. Löw já havia colocado Mario Gomez no lugar de Draxler, e o time estava mais agudo e agindo melhor na fase ofensiva. Com Werner aberto pelo lado esquerdo, vieram as melhores chances de gol. Foi dele o cruzamento rasteiro para Gomez desviar e Reus marcar. Nesse momento, o alemães já conseguiam mais espaços no campo de ataque e Toni Kroos foi chave para o funcionamento dos lances, tendo liberdade para avançar e articular, como visto no lance do gol [logo abaixo]. Aconteceu porque a Suécia se retraiu completamente e não tentava pressionar, só recuava para fechar a área, na esperança de que o adversário não encontraria a virada. No fim, vimos que não deu certo. E a explicação vai além da tática.

Três fatores interessantes aí: a liberdade de Kroos para conduzir a bola (bloco baixo sueco), Werner com condições para produzir jogadas na esquerda e como os jogadores alemães ocuparam bem a área neste lance. Resultado? Gol de Marco Reus e reação germânica.

Durante o 2º tempo, a Alemanha dominou em todos os aspectos: teve a bola, o campo ofensivo e quase não sofreu contragolpes porque os suecos estavam muito mais longe da meta rival e ficaram mais cansados. O contexto facilitou para uma reação. Além disso, entra o aspecto mental. Isto, sim, fez muita diferença. Desde a volta do intervalo, Löw e seus jogadores se mostraram bastante confiantes que encontrariam os gols e, em cada ação ofensiva, era notório o entendimento da equipe na forma de agir — salvo exceções, como a péssima tomada de decisão de Thomas Müller nos minutos finais. Por pouco, o gol da virada não saiu antes: um chute na trave de Julian Brandt (como na estreia), uma defesaça de Olsen no cabeceio de Gomez… parecia ser questão de tempo, mesmo que já estivesse quase no fim.

Quando chegou o gol de Kroos, fruto de uma falta sofrida por Werner (um diferencial desde foi para a ponta esquerda), parecia algo predestinado. Além dos conceitos de jogo, aqui entraram aspectos únicos do esporte para os alemães, em que tudo parece “projetado” para acontecer dessa forma. Com o jogo terminado e a vitória no sufoco, não parece ter gerado uma impressão de que o resultado deveria ser outro, até porque a Suécia não se comportou tanto como a equipe que “soube sofrer” até sair de campo com um placar satisfatório. Entra aqui a diferença no mental, no que pesou de forma totalmente negativa no rendimento da equipe derrotada.

Ataque alemão no 2º tempo: Suécia em bloco baixo, como esteve em quase toda a etapa final; liberdades para Kroos avançar com a bola e encontrar soluções. Olhem como a defesa sueca foi “puxada” pelos atacantes alemães, liberando espaços por fora. Werner na esquerda foi o maior beneficiado com isso, sempre livre na beirada do campo.

Além disso, é importante frisar que, em todo o segundo tempo, a Suécia finalizou apenas duas vezes contra onze tentativas da Alemanha. A derrota ficou ainda melhor refletida na ineficiência sueca em recuperar a bola: em 90 minutos, apenas 6 desarmes — apenas um no campo de ataque; soma-se a isso o fato de a Suécia ter tentado competir sem pressionar muito, tendo apenas 27% de posse de bola e, mesmo com um a mais por 10 minutos, ter passado a impressão de que era ela que teve um jogador expulso. No fim das contas, o castigo chegou. Com a segunda virada desta Copa, a tabela do Grupo F ficou ainda mais imprevisível na rodada decisiva.

Dados: InStat e WhoScored

@matheusesouza

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