Virou passeio: ANÁLISE TÁTICA ARGENTINA 0 X 3 CROÁCIA

Por Luis Doering  

Na partida mais esperada do dia, a Croácia não teve misericórdia e goleou a Argentina pelo placar de 3×0, com gols de Rebic, Modric e Rakitic. Os croatas garantiram a classificação para as oitavas de final de forma antecipada e é muito provável que consigam a primeira vaga do Grupo D, garantindo um confronto supostamente mais fácil na próxima fase.

Por outro lado, a derrota pesada sofrida pelos Hermanos praticamente ceifou as chances de classificação da Argentina, que precisa torcer para a Nigéria contra a Islândia amanhã (21/06) e vencer a própria Nigéria na partida final com uma boa margem de gols, além de torcer por um tropeço da Islândia contra a já classificada Croácia no encerramento do grupo.

Desde o início do jogo era perceptível que a entrevista do técnico Zlatko Dalic era verdadeira: a Croácia jogava leve, quase que descompromissada, jogando toda pressão para Messi e seus compatriotas. Jorge Sampaoli alterou o esquema, introduzindo uma defesa com três homens, sacando Rojo, Di Maria e Biglia para os ingressos de Mercado, Pérez e Acuña. As diversas modificações mostraram uma Argentina confusa e desequilibrada, com os jogadores visivelmente perdidos dentro de campo em diversos momentos da partida.

A Croácia, diferentemente da Argentina, manteve a formação do primeiro jogo, modificando apenas uma peça (entrou Marcelo Brozovic na vaga de Andrej Kramaric, com Modric sendo adiantado para municiar de modo mais efetivos os homens de frente). A mudança de posicionamento de Modric aliado aos diversos espaços deixados pela confusão dos Hermanos foi um prato cheio para a Croácia, que chegou muitas vezes com perigo e poderia até ter ido para o intervalo já com a vitória no placar. De outro lado, as raras chances criadas pela Argentina foram oriundas de erros do selecionado croata, especialmente na saída de bola dos defensores (que segue sendo o aspecto mais crítico da seleção Vatreni).

Logo no início da segunda etapa o que já era ruim ficou ainda pior quando, após um erro grosseiro de Caballero na saída de bola, Rebic aproveitou e inaugurou o placar sem grandes dificuldades. Era o início de uma longa e triste tarde para os hermanos.

Desconcertado, Jorge Sampaoli mandou a campo alguns dos astros argentinos, como Higuaín, Pavón e Dybala. Entretanto, em meio a tantos problemas (onde nem Messi conseguiu render como em outras partidas), as trocas não fizeram nada além de espaçar ainda mais o campo para deleite dos croatas.

O lance do segundo gol é tão emblemático e resume tão bem o que foi a partida que me dei ao luxo de editá-lo duas vezes, para mostrar uma série de coisas que chamaram a minha atenção.

Nesse primeiro recorte, reparem na movimentação de Luka Modric:

O grande craque da Croácia andou pelo campo argentino sem que nenhum jogador o acompanhasse de perto. Momentos antes de receber o passe de Rakitic, o camisa 10 passeou pela faixa central do campo, a poucos metros da área adversária. Dar todo esse espaço para um jogador como Luka Modric, que tem muita qualidade no passe e finaliza muito bem de média distância, é aceitar que, a qualquer momento, você levará um gol.

Agora olhem novamente o lance, mas com enfoque no comportamento dos atletas argentinos ao perder a bola:

A Argentina atacava com cinco jogadores ao perder a posse da bola. Se olharmos para Messi, bem aberto pela direita (lado esquerdo do vídeo), veremos que ele apenas observa o lance de longe, sem fazer qualquer menção de reagir à perda da posse. O mesmo pode ser dito de Higuaín, Pavón e Acuña.

Apenas Dybala apresenta uma reação (recompõe para auxiliar seus companheiros a retomar a bola). Detalhe: nesse momento, a vantagem da Croácia era de apenas um gol. Não havia razão para que quatro atletas simplesmente desistissem do lance, transformando-se em meros espectadores, na torcida para que algum companheiro consiga recuperar a bola e lança-la novamente ao ataque.

Esse lance demonstra alguns pontos que identifico como determinantes para o fracasso da Argentina na Copa do Mundo: ausência de um sistema de jogo definido, jogadores completamente perdidos em campo (resultando em espaços incríveis para os adversários) e a total ausência de espírito coletivo. A Argentina é uma anarquia completa.

A pá de cal veio em um lance digno dos campos de várzea, com jogadores croatas escolhendo quem faria o gol, enquanto Mascherano e seus companheiros observavam estáticos, pedindo impedimento e torcendo para que o único defensor na jogada operasse um verdadeiro milagre.

Se confirmar o provável primeiro lugar, a Croácia deverá enfrentar a Dinamarca na próxima fase. Ainda que não esteja desempenhando o potencial que pessoalmente acredito que tenham, é de se destacar que os Vatreni vêm numa crescente. O técnico Zlatko Dalic demonstra muita desenvoltura à frente da equipe, fazendo alterações pontuais que amplificam o potencial de seus comandados. Não se surpreendam se os croatas forem às quartas de final, podendo até, quem sabe, bater a histórica equipe de 1998, que chegou às semifinais da Copa do Mundo naquele ano.

Quanto à Argentina, nada me leva a crer que poderão se recuperar na competição. Matematicamente é possível, mas o retrospecto recente e tudo que gira em torno dos comandados de Jorge Sampaoli não nos permite acreditar que a situação poderá se reverter o quadro tão negativo em que se encontram.

@lfmdoering

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