Um time castigado por sua displicência ofensiva: ANÁLISE TÁTICA DE PERU 0 x 1 DINAMARCA

Por Caio Alves

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Christian Cueva, o personagem do jogo (Getty Images).

Seria oportunismo da minha parte dizer que o Peru perdeu para ele mesmo, afinal, havia um adversário do outro lado, no qual levou a melhor. Aos resultadistas, no final das contas, pouco importou o bom desempenho peruano na partida, o que é uma pena. Quem procurou ver o jogo de forma mais profunda, notou e valorizou a partida feita pelo time de Ricardo Gareca.

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Posições e funções dos 11 iniciais escalados contra a Dinamarca.

Gareca surpreendeu a maioria ao deixar Paolo Guerrero, seu principal jogador, no banco. Em seu lugar, entrou Farfán — destacado na análise pré-Copa. Com Farfán na função de falso nove, Carrillo ficou responsável pela extremidade direita da equipe peruana. No mais, nenhuma surpresa. Gareca seguiu com Edinson Flores aberto na esquerda e priorizou o entrosamento da dupla de zaga Ramos-Rodríguez.

No seguimento do jogo, a equipe manteve sua compactação e proposta de jogo. No momento ofensivo, um claro 4-2-3-1, pouco se usou de seu ataque funcional, diferentemente do imaginado. Enquanto achávamos que o time priorizaria seu lado forte (esquerdo), foi o direito que se destacou. O lateral-direito Luis Advíncula, juntamente com André Carrillo, fizeram do lado esquerdo dinamarquês uma festa. Enquanto Carrillo fazia seu jogo interior (atacava por dentro) e abria o corredor, Advíncula aproveitava para dar profundidade ao Peru e pisar em solo ofensivo sempre que necessário.

O lado esquerdo com seu ataque funcional, porém, não foi esquecido. Em muitos momentos da partida foi possível notar a seleção fazendo a ligação direta com Cueva e/ou Farfán, enquanto Flores abria o corredor esquerdo para Miguel Trauco atuar em profundidade.

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No frame acima, nota-se Advíncula pisando em solo ofensivo com profundidade, com Carrillo aparecendo por dentro, enquanto Trauco ataca pelas costas de Dalsgaard. Outro detalhe é Yotún completamente livre na cabeça de área, falha que Delaney-Kvist cometeram muito durante o jogo. Todos os pontos destacados no frame e neste trecho foram, basicamente, o resumo do jogo. Advíncula e Carrillo com gestos ofensivos louváveis, Cueva em atuação de gente grande entre as linhas, Trauco atacando em profundidade, Farfán (no meio dos zagueiros) abrindo espaços e Yotún avançando metros e pisando na área dinamarquesa. Todos com um nível de aproveitamento muito bom — até a página 2. Faltou o gol, e isso fez com que a Dinamarca acordasse em sua reatividade e aproveitasse os espaços gerados pelo Peru.

Guerrero fez falta e isso é inegável. Farfán viveu grande temporada em seu time, o Lokomotiv-RUS, e sempre que solicitado por seu país, mas, contra a Dinamarca, aconteceu o oposto. Farfán não jogou mal; abriu espaços, ganhou duelos pelo alto (importantíssimos no ataque funcional peruano) e tornou o ataque ainda mais móvel ao lado de Cueva. Mas foi preciso mais. Foi, para o que o jogo pediu, necessário um camisa 9 que aproveitasse os espaços e chances criadas. Paolo, pelo alto, venceria os mesmos duelos aéreos e abriria espaço para quem viesse de trás, mas daria o bônus da boa colocação dentro da área e do oportunismo com a bola nos pés. Difícil imaginar que Guerrero não colocaria, pelo menos, uma bola para dentro em todos os 17 chutes contra a meta de Kasper Schmeichel (o melhor do jogo, por sinal).

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Um exemplo muito claro de como o Peru sentiu a ausência de Guerrero é este frame. Neste lance, Farfán encontrou-se sem companhia alguma (além de Flores muito atrás, tentando recuperar o tempo) e tendo a opção de chute como única, mas já com seu ângulo fechado por Christensen. Com o camisa 9, o time, muito dificilmente, encontraria a área vazia nas ocasiões de contragolpe.

O momento defensivo do Peru, por mais que tenha tomado gol, foi muito nítido e seguro. Sempre em duas linhas de 4, formando o 4-4-2, o time pouco executou o pressing, mas soube defender bem sua área quando necessário. A defesa ganhou a maioria dos duelos aéreos (com a ajuda das saídas de Pedro Gallese), por mais que os atacantes dinamarqueses fossem mais altos.

Renato Tapia surpreendeu negativamente por aparecer pouco em solo ofensivo, mas explica-se à partir do momento em que o meio-campista segurou suas passadas por conta do tripé central Poulsen-Eriksen-Sisto. Com 3 dinamarqueses entre as linhas peruanas e com Yoshimar Yotún ganhando campo, foi necessário que Tapia focasse mais no papel defensivo. E o fez bem.

Como nem tudo são rosas, o Peru também errou. Não foi muito, até pelo pouco poder ofensivo da Dinamarca na partida, mas errou. Enquanto o lado esquerdo tem Flores (que sustenta a primeira linha), Yotún (compensa a ausência de Flores) e Cueva (que também recompõe) na marcação, o lado direito corre mais riscos defensivos por ter pouca recomposição. E foi como o gol aconteceu.

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Quando Advícula desce pelo corredor, Carrillo não é capaz de recompor por estar atacando juntamente com o lateral, o que acaba sobrecarregando Tapia e Ramos, o zagueiro da cobertura. No gol, a Dinamarca saiu em contragolpe pela direita no espaço gerado por Advíncula, com Poulsen recebendo livremente em profundidade. Fatal.

Sem contar que, pela quebra de linha do lateral, os zagueiros precisam cobrir, e isso vai formando um efeito dominó: Ramos cobre Advíncula, Rodríguez faz a cobertura de Ramos, Trauco ocupa o espaço de Rodríguez e acaba recebendo o atacante em suas costas (Jorgensen, neste caso). Ou seja, se não aproveitado o ataque peruano, preparado para ser contra-atacado e recomposto corretamente, as chances de gol tornam-se brutais.

Por mais que o resultado tenha sido péssimo tendo em vista que a Dinamarca era adversária direta pelo teórico segundo lugar do grupo, o Peru fez uma ótima estreia. Há pontos negativos, como o abalo no jogo mental — a Dinamarca foi fria defendendo sua área e aproveitando efetivamente sua reatividade e o Peru abalou-se após o pênalti perdido por Cueva e o gol tomado na segunda etapa —, mas, pelo desempenho, há esperança.

Dia 21 (quinta-feira), 12h, o Peru enfrenta a temida França e precisa vencer se quiser continuar sonhando com a classificação. É difícil e a equipe vai precisar fazer seu papel e torcer por uma zebra entre Dinamarca vs Austrália, mas o peruano nunca desiste, ainda mais depois de 30 anos sonhando com este momento.

@caioaives

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