O inferno são os outros – #dranikadas

Por Hudson Martins

Créditos: El Independiente

Tenho acompanhado a Espanha com alguma proximidade há pelo menos três meses. É um dos motivos porque afirmei, convicto, que se trata de uma fortíssima candidata a praticar o melhor futebol do mundo pelos próximos 30 dias. Ao mesmo tempo, a demissão de Julen Lopetegui, a poucas horas da estreia, não apenas caiu como uma bomba, como revelou uma das mais complexas situações dos últimos tempos.

Dediquei-me, durante boa parte do dia, a entender a questão. O que faço aqui, basicamente, é apresentar um panorama que me parece o mais confiável até o momento, além de expor algumas opiniões pessoais – como treinador, mas também como espectador. De antemão, posso dizer que não estou exatamente com a maioria: por mais escandalosa que seja, a demissão me parece adequada. Lopetegui errou grosseiramente. Ao mesmo tempo, não descarto que a Espanha saia mais forte do episódio. Explico.


Antes de mais nada, indico severamente a leitura deste artigo, escrito por Diego Torres, publicado logo após o anúncio da demissão.

Resumidamente, Torres argumenta que Lopetegui, embora não aparentasse, já perdia parte do vestiário espanhol há algum tempo. A alegação, tanto de jogadores, quanto de alguns dos dirigentes, é que suas decisões recentes soavam muito mais direcionadas para seu futuro pós-Copa. O anúncio da ida para o Real Madrid teria sido visto como uma contradição, uma vez que ele alimentava nos jogadores a necessidade de foco absoluto. Da mesma forma, a relação entre o treinador e o agente Jorge Mendes não parecia exatamente saudável.

Lopetegui seria agenciado pela Gestifute, empresa controlada pelo português. O desejo de trabalhar no Real Madrid seria antigo, e estaria sendo alimentado por Mendes há pelo menos um ano. Aos que duvidavam, Mendes recordava o fato de ter colocado um treinador de pouquíssima experiência no futebol profissional para dirigir o FC Porto – o próprio Lopetegui, o que de fato ocorreu, em 2014. Aqui, é fundamental recordar que falamos de um treinador que renovou seu vínculo com a seleção há apenas 23 dias, antes do surpreendente (?) pedido de demissão de Zinedine Zidane.

O responsável pela negociação com o Real Madrid seria Carlos Bucero, uma das pessoas mais próximas de Mendes. Torres afirma que o presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, Luis Rubiales, estava ciente do princípio da negociação entre as partes. O que Rubiales não sabia é que Lopetegui não apenas negociava, como aceitou rescindir seu contrato e firmou vínculo com o Real Madrid sem a anuência da Federação. Rubiales teria, inclusive, sido informado da história depois dos próprios jogadores. É exatamente este o motivo para que não apenas Rubiales tenha se indignado, mas também para que Fernando Hierro – horas mais tarde anunciado como o novo treinador – e grande parte dos membros da federação tenham ficado atônitos e, ainda que sem fazê-lo publicamente, foram favoráveis à demissão do treinador.

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O próprio Diego Torres, ontem.

Uma das imagens que me vieram à cabeça durante o dia foi aquela carretilha de Neymar em Xabi Etxeita, do Athletic Club, nos minutos finais de uma recente decisão da Copa do Rei. O FC Barcelona vencia por 3 x 1, jogo praticamente ganho, e a real necessidade do drible era questionável. Não por acaso, embora tenha se defendido, Neymar não foi exatamente abraçado pelo grupo, nem por Luis Enrique, então treinador. Houve quem considerasse a atitude um desrespeito. Afinal, para o código de ética ali estabelecido, este é o tipo de limite que não deve ser ultrapassado.

Repare que a ética está longe de ser uma definição universal, mas sim um conjunto de valores que muda não apenas de pessoa para pessoa, como muda entre grupos. Este é um dos motivos porque não podemos dizer que um determinado sujeito não tem ética, simplesmente porque não é verdade: sendo um produto da cultura, todas as pessoas têm ética. A questão é que algumas ideias e/ou condutas têm a nossa simpatia, outras não. A ética é deslocável. É reflexão sobre a moral.

O caso de Lopetegui me parece demonstrar um enredo insuficiente para ferir os princípios em que nos baseamos no Brasil (onde existe uma certa aversão à hierarquia e alguma flexibilidade moral), mas talvez não seja tolerável neste contexto espanhol. Uma negociação de desfecho oculto, que fatalmente se tornaria público (contra a vontade da Federação), às vésperas dos dias mais importantes dos últimos quatro anos, tendo em conta as questões clubísticas e separatistas aqui envolvidas, e que ainda foi mediada por um novo presidente, que aparenta querer mostrar serviço, tudo isso nos faz crer que estamos longe da atitude mais adequada.

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O tweet de Thiago Arantes, ontem pela manhã, me parece o mais coerente em língua portuguesa até o presente momento.

Lopetegui me pareceu brutalmente infeliz no episódio. Há quem diga que um convite do Real Madrid não se recusa, mas me pergunto se é a decisão mais adequada neste cenário.

Rompendo seu vínculo como rompeu, Lopetegui fechou suas portas para a seleção nacional e para boa parte dos clubes europeus, que passarão a enxergá-lo treinador com alguma desconfiança. A ambição clubística de Julen parece não levar em conta que o que se sucedeu era óbvio (mesmo que não fosse demitido, quaisquer imprevistos na Rússia seriam vistos com suspeição), que um trabalho tão favorável como este dificilmente se repetirá na sua vida (mais ainda com seleção do seu país) e, especialmente, que a pressão a que ele será submetido no Real Madrid será simplesmente demoníaca, pois para além das altíssimas responsabilidades pós-Zidane, Lopetegui será confrontado, todos os dias, com os olhares da imprensa e da opinião pública, além da própria consciência. Como treinador de altíssimo nível (e com todas as variáveis aqui envolvidas) me parece um equívoco simplesmente inacreditável. Senso sensato, não me surpreenderia em vê-lo demitido do Real Madrid precocemente. Da mesma forma, imagino alguma demonstração pública de arrependimento no médio-longo prazo.


Ao mesmo tempo, a vida segue para os que ficaram. Ou para os que chegam, como Fernando Hierro. Muito embora tenha havido alguma confusão sobre o novo treinador (falou-se seriamente em Albert Celades), Hierro parece uma escolha bastante palatável, por pelo menos dois motivos: porque fala o idioma da Federação (onde já havia trabalhado e para onde retornou há pouco) e porque parece respeitado pelos jogadores, especialmente por sua trajetória dentro da seleção. Em algum lugar, vi uma comparação entre Hierro e Edu Gaspar que me pareceu bastante infeliz. Tendo em vista a trajetória profissional de Hierro e o tamanho da sua figura para o futebol espanhol, me parece que a sua chegada está mais próxima daquele momento em que Zinedine Zidane foi convidado para assumir o Real Madrid (e aqui, evidentemente, lembre-se do Zidane que assumiu, não do que deixou o clube há pouco).

Ao meu ver, tudo isso significa duas coisas: a primeira é que o trabalho de Hierro será substancialmente maior no campo dos conflitos do que do jogo. A Espanha tem um modelo de jogo assentado, implementado desde a base e praticado à exaustão pela absoluta maioria deste grupo, seja nas próprias seleções inferiores, seja nos clubes. Como já dissemos, o que Lopetegui fez foi manter o modelo, agregando suas próprias nuances. Minhas hipótese é que Hierro não fará alterações estruturais nem funcionais no modelo (seria desinteligente), assim como não necessariamente fará intervenções que ocultem os vestígios de Lopetegui, porque isso significaria colocar em risco o desempenho de jogadores como Isco, por exemplo. O mais provável, me parece, é que Hierro concentre suas energias no campo das relações, desarmando uma bomba-relógio cuja explosão seria vergonhosa. Mas, se cortar o fio certo, faz renascer uma das candidatas ao título.

Sabendo do caráter imediatista de uma Copa do Mundo, me parece que a resposta pode e deve ser dada exatamente na estreia, contra Portugal. Se resultado e desempenho forem ruins, a pressão será obscena. Mas se a Espanha vence com a autoridade com que pode vencer (não por demérito de Portugal, mas por mérito próprio), a confiança subirá a níveis estratosféricos e esta crise será substancialmente esquecida. O jogo de sexta-feira é chave.


Em suma, com as informações a que temos acesso hoje, a demissão de Lopetegui não me parece tão absurda. Mas só podemos percebê-la se olharmos com os olhos deles, porque é evidente que se olharmos com os nossos, pensaremos imediatamente em várzea e similares. Aliás, aqui me parece oculto um certo viralatismo. Não me estenderei por ora.

Posso estar absolutamente equivocado, mas não mudo uma vírgula das observações recentes que fiz sobre o modelo de jogo espanhol. O que Lopetegui levou embora não é o essencial. O essencial ficou em Krasnodar. A tarefa de Hierro é reencontrá-lo.

Isso se não fizer dele ainda melhor.


Por que dranikadas? Draniki é um prato tradicional da culinária russa. Panquecas feitas de batata e cebola, acompanhadas de um molho com creme de leite e iogurte. O nome é bonito e os ingredientes meio doidos. Eu gostei. O futebol também é assim.

@hudrmp

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