Heróis e vilões do nosso imaginário

Por Carlos Guimarães

Nossa vida é um roteiro de filme. O nosso filme, individual, pessoal, intransferível. Nossa história secreta, discreta, onde somos protagonistas das nossas próprias glórias e tragédias. Donos de uma trajetória acidentada, onde o final não é escrito e, claro, espera-se um final feliz. Nossa vida é o nosso filme, escrito, dirigido e estrelado por nós. Nesse roteiro, há um claro personagem principal, coadjuvantes e secundários que variam de importância, acontecimentos que determinam nossas decisões e um bem bolado roteiro chamado de destino, onde se atribui papel a todos que vivem no nosso cotidiano. É uma novela completa, com heróis e vilões.

De quatro em quatro anos, desde 1930, com um pulo rápido nos anos 1940, por causa da guerra, essa incontrolável e imprevisível entidade chamada destino oferece ao fã de futebol o seu ponto máximo. É onde a ponta do lápis rabisca as mais improváveis histórias numa amostra de luxo do que alimenta o nosso imaginário da vida cotidiana. Parece ser só futebol, mas não é. Como a vida, a Copa do Mundo se torna, através de devaneios, sonhos, risos, lágrimas, suor, sangue, fúria, triunfo e redenção, um grande roteiro de filme que representa todos os nossos ideais, frustrações, alegrias e decepções. A Copa do Mundo, como a vida, é um exercício de criação de grandes histórias, com heróis e vilões que escolhemos para rir ou chorar juntos.

Em 1994, o tetracampeonato nos Estados Unidos demonstra o quanto esse roteirista pode ser, por exemplo, bipolar. O Brasil só garante a vaga para o Mundial na última partida, no Maracanã, contra o Uruguai, por causa do jogador que era desprezado pela comissão técnica. Romário fez dois e o Brasil chegou à Copa sem encantar boa parte da imprensa, que, a rigor, conduz toda a opinião pública brasileira. Na Copa de 1994, o danado do roteirista aprontou mais. Nossa zaga titular, machucada, não atuou. Um Ricardo foi cortado e o outro, ficou no banco. Nosso maior craque no ciclo de quatro anos, Raí, sucumbiu e teve que sair do time para que melhorasse. Nosso time era bem diferente daquilo que o brasileiro gostava. Era duro, pragmático, cirúrgico, defensivo. Não era artístico, sambista, malabarista. Nas oitavas-de-final, no dia do 4 de julho ianque, com um a menos, um cotovelaço violento do bom moço Leonardo, um a zero nos Estados Unidos. Contra a Holanda, futebol, jogo para a frente, mas a bomba santa salvadora de Branco. O sorridente Ravelli só foi batido na cabeçada do baixinho Romário, contra zagueiros de quase dois metros. A final, com os melhores italianos isolando a bola, com Viola loucão entrando no segundo tempo, com Romário perdendo gol feito, com Taffarel herói e Baggio vilão. Que roteirista criativo!

Claro que antes, o cara que pega caneta e papel para escrever sobre a Copa também foi bem inventivo com o Maracanazo, a máquina húngara parando na Alemanha, com um herói de 17 anos e outro de pernas tortas, com aquela bola da Inglaterra que entrou só para o juiz, com aquela pintura clássica que finalizou com o petardo de Carlos Alberto Torres, com um futebol tão total, mas tão total que fez quase tudo, menos ganhar, com aquela Argentina que conseguiu – não se sabe como – fazer seis no Peru para ser campeã, com um Brasil encantador perdendo para Paolo Rossi, com a sorrateira malícia de desenhar uma mão de Deus em 1986, com um craque que dá cabeçada no colega, com um tiki-taka que dá taça, com uma mão salvadora de Suárez para um final apoteótico, com um tal de Ronaldo que passou de inapto para o futebol a craque de Copa e, finalmente, com umgran finale que, por ironia, recalque, raiva ou sei lá por qual motivo, contou com o maior vexame que o maior vencedor de todos sofre dentro de sua casa. Esse artista do impossível faz coisas que a gente só vê em filme de ação: se é impossível pular de um prédio para o outro no cinema, quem diria que tudo isso realmente poderia acontecer?

Quem será o roteirista em 2018? Qual capítulo será escrito? Quem serão os nossos novos heróis? Serão novos velhos ou velhos novos? Quem serão nossos vilões? Em qual parte desse filme a gente vai rir? Ou chorar? Quem será inesquecível e quem será decepcionante? Quem nos encantará? Alguém revolucionará? A história é escrita pela exceção, pelos caprichos de quem a escreve, pela ótica de quem conta. Não é por causa da lógica, é por causa do inusitado. O extraordinário é muito melhor, sempre.

É como a vida: a gente sabe que precisa seguir em frente, que o dia a dia é duro, que é preciso pagar as contas. A gente sabe que tem muito jogo ruim, que é um evento comercial, que demora a engrenar. Só que, em ambos, tem aquele 1% que nos faz viver tudo isso. Essa é a mágica. Eu poderia escrever sobre tática, sobre aquilo que eu espero do Mundial, sobre os possíveis favoritos, craques e tendências. Eu escrevo sobre algo muito maior que isso. Escrevo sobre a formação do nosso imaginário, que se confunde com a nossa própria formação de vida. Escrevo sobre os heróis que nos fascinam, sobre os vilões que nos irritam, sobre as fábulas que nos estimulam e sobre os ideais que nos movem. Porque, no fundo, Copa do Mundo não é só futebol. Porque, no fundo, também é sobre isso que se trata a vida.

@csguimaraes

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