Pelo delirante sonho de pontuar: ANÁLISE TÁTICA DO PANAMÁ

Por Daniel Rohr

Ao pisarem no gramado do Estádio Fisht, em Sochi, na próxima segunda-feira, para enfrentar a seleção da Bélgica, os onze panamenhos comandados pelo técnico Hernán Gómez podem até não sair com os três pontos, mas terão cravado os próprios nomes na história do futebol. Pela primeira vez, o Panamá estará representado na Copa do Mundo.

Celebrada como um título pelo país de 3,5 milhões de habitantes localizado na América Central, a classificação à Rússia teve contornos dramáticos, com direito à virada sobre a Costa Rica com gol improvável do zagueiro Román Torres faltando dois minutos para o fim da partida. A apoteose que tomou conta do estádio Rommel Fernandez com a classificação em terceiro lugar no hexagonal final, eliminando a poderosa seleção norte-americana e jogando a seleção de Honduras no alçapão da repescagem, levou o presidente Juan Carlos Varela a decretar feriado nacional no dia seguinte e não foi arrefecida nem pelo sorteio dos grupos, que colocou duas potências do futebol mundial no caminho do estreante da América Central.

panama 1Zagueiro e capitão, Torres foi o autor do gol que classificou o Panamá para a Copa

Ao lado de Bélgica, Inglaterra e Tunísia, no grupo G, o Panamá é considerado, pelas casas de apostas, como o grande azarão da Copa. Em uma das mais tradicionais, o título panamenho paga 1.001 vezes o valor apostado. Para efeitos de comparação, o hexa da Seleção Brasileira, favorita para as casas de apostas, paga cinco vezes o valor apostado.

Imbuída pelo espírito da zebra e diante de um fato inédito, a imprensa nacional trata a participação panamenha na Copa com exaltação. O regozijo é tamanho que o empate em 0 a 0 no amistoso com a Irlanda do Norte foi tratado pelos jornalistas como uma “apoteótica despedida”.

 panama 2Imprensa nacional está em êxtase com participação na Copa

Os panamenhos embarcaram para a Rússia alimentando o delirante sonho de pontuar, mas será que serão capazes de contrariar prognósticos e fazer frente a seleções tradicionais, no grupo em que a única dúvida parece ser quem, entre Inglaterra e Bélgica, ficará com o primeiro lugar da chave? Fizemos um apanhado da seleção panamenha e analisamos taticamente a equipe para tentar encontrar algumas respostas.

Idade é experiência?

Ironicamente, a solução encontrada pelo técnico Hernán Gómez para lidar com a estreia em Copas do Mundo é recorrer a jogadores experientes. Com média de idade de 29 anos, 4 meses e 13 dias, a seleção panamenha só perde em experiência para Argentina, Costa Rica e México. A média de idade é elevada principalmente pela presença do zagueiro Felipe Baloy (ex-Grêmio e Atlético-PR) e do atacante Blas Pérez, ambos de 37 anos, e do goleiro Penedo, de 36 anos.

Raízes americanas

Afastados dos grandes centros do futebol mundial, os selecionados pelo Panamá atuam, em sua maioria, no futebol norte-americano: seis deles competem na Major League Soccer (MLS). A liga nacional do próprio Panamá aparece em segundo da lista, porque lá atuam os dois goleiros reservas, Calderón e Rodríguez, além do meia Pimentel. Os demais atletas se espalham em mercados marginais, com panamenhos atuando nas ligas da Romênia, Bélgica, Eslováquia, Guatemala e Honduras, por exemplo.

Apenas 23% nos amistosos pré-Copa

O baixo nível de competitividade deve ser o grande desafio enfrentado pelos panamenhos na Copa, e os amistosos pré-Copa são outro indicativo de que os panamenhos vão encontrar dificuldade no Mundial. Em sete amistosos desde 9 de novembro, o Panamá marcou apenas dois gols e venceu uma partida, contra Trinidad e Tobago.

Nas três vezes que enfrentou seleções que disputarão a Copa contra Irã, Dinamarca e Suíça, foi derrotada. Depois, em uma aparente tentativa de recuperar confiança, fez testes contra seleções que estão fora do Mundial, como Irlanda do Norte e Noruega, mas isso também não impediu os resultados negativos. No mais recente deles, derrota por 1×0 para os noruegueses. Confira o placar dos amistosos:

09/11/2017 – Irã 2×1 Panamá

12/11/2017 – País de Gales 1×1 Panamá

22/03/2018 – Dinamarca 1×0 Panamá

27/03/2018 – Suíça 6×0 Panamá

17/04/2018 – Panamá 1×0 Trinidad e Tobago

29/05/2018 – Panamá 0x0 Irlanda do Norte

06/06/2018 – Noruega 1×0 Panamá

Como joga o Panamá

Habitualmente montado pelo técnico Hernán Gómez com um 4-4-2 em duas linhas bem definidas, o Panamá tem flertado com o 5-4-1 e com o 4-1-4-1 nos amistosos pré-Copa, em uma aparente busca de Gómez para neutralizar o poderio ofensivo de Bélgica e Inglaterra.

 panama 3Time padrão, segundo o SofaScore
 panama 4Montagem no 4-4-2 no início da partida contra a Noruega, amistoso mais recente

Na defesa, muitos espaços e pouca intensidade

Mesmo assim, a compactação em linha de cinco tem surtido pouco efeito, porque o time tem uma recomposição defensiva muito lenta, deixa espaços enormes em frente à área e não consegue pressionar o portador da bola. A seguir, algumas imagens que revelam esses problemas recorrentes na organização defensiva panamenha, retiradas das derrotas para a Suíça e para a Noruega.

panama 5Linha de cinco contra a Suíça, com liberdade para o portador da bola
 panama 6Liberdade para o portador da bola e espaços à frente da área são comuns
panama 7 Linhas compactas, mas desorganizadas e sem pressão ao portador
 panama 9Suíços tiveram facilidade para infiltrar e trocar passes em frente à defesa panamenha
 panama 10Na partida contra a Noruega, problemas de organização defensiva se repetiram

Com pouco tempo para encaixar o time, ainda não há definição se o Panamá vai explorar os três zagueiros, com Cummings (ou Baloy) e Escobar (ou Machado) entre o capitão Torres. O técnico Gómez parece estar tentando alternativas para solucionar o problema da fragilidade defensiva. Referência técnica do time, a opção por Torres como uma espécie de líbero foi pensada para resolver esse impasse, mas não surtiu efeito. Com atletas acostumados a um baixo nível de competitividade e recomposição defensiva lenta, os cenários indicam extrema dificuldade para fazer frente à Bélgica e Inglaterra, que devem encarar a partida contra o Panamá como oportunidade de fazer saldo.

No ataque, ligações diretas e aposta na bola parada

Tendo como referência o centro-avante Blas Pérez, atacante destro de 37 anos que está desde 2000 na seleção e tem 18 gols nesse período, o Panamá deve abusar das ligações diretas para brigar pela segunda bola e, a partir daí, criar oportunidades de gol. Nos amistosos recentes, contra Suíça e Noruega, os chutes de fora da área e a bola parada foram as principais maneiras de chegar à meta adversária.

Quando consegue reter a bola com os meias Godóy e o volante Gomez, o Panamá tende a buscar a velocidade dos extrema Barcenas, jogador veloz e propenso a lances individuais, que tem, na tabela com Gabriel Torres, uma das melhores jogadas de infiltração da seleção panamenha.

Em geral, no entanto, o time não consegue trabalhar a bola com esse nível de qualidade, e a quantidade de ligações diretas é uma prova disso. Na partida que garantiu a classificação do Panamá à Copa, o jogador que mais acertou passes foi o zagueiro e capitão Torres. O time trocou apenas 225 passes na partida, e Torres foi responsável por 42 deles.

 panama 11Ataque contra a Noruega, com quatro jogadores contra oito e nenhuma opção de passe para progredir
 panama 12Também contra a Noruega, flagrante da falta de opções para construção do jogo e o abuso da ligação direta, ainda nos primeiros minutos do segundo tempo

Fique de olho

Aos 24 anos, Bárcenas joga no Cafetaleros de Tapachula, do futebol mexicano. Tem velocidade, ocupa o lado esquerdo do ataque e mostra vigor físico para atacar espaços. Ao lado do veterano Blas Peres, é a esperança de gols dos panamenhos em uma Copa em que balançar as redes já será motivo de êxtase.

panama 13Jovem atacante Bárcenas é esperança de gols do Panamá

 

Confira a lista completa do Panamá:

panama 14

Goleiros: Jaime Penedo (Dinamo de Bucarest-ROM), José Calderón (Chorrillo-PAN) e Alex Rodríguez (San Francisco-PAN)

Defensores: Felipe Baloy (Municipal-GUA), Harold Cummings (San Jose Earthquakes-EUA), Éric Davis (DAC Dunajská Streda-EVN), Fidel Escobar (New York Red Bulls-EUA), Adolfo Machado (Houston Dynamo-EUA), Michael Amir Murillo (New York Red Bulls-EUA), Luis Ovalle (Olimpia-HON) e Román Torres (Seattle Sounders-EUA)

Meias: Édgar Bárcenas (Cafetaleros de Tapachula-MEX), Armando Cooper (Universidad de Chile-CHI), Aníbal Godoy (San Jose Earthquakes-EUA), Gabriel Gómez (Atlético Bucaramanga-COL), Valentín Pimentel (Plaza Amador-PAN), Ricardo Ávila (Gent-BEL) e José Luis Rodríguez (Gent-BEL)

Atacantes: Abdiel Arroyo (Liga Deportiva Alajuelense-CRC), Ismael Díaz (Deportivo de La Coruña-ESP), Blas Pérez (Municipal-GUA), Luis Tejada (Sport Boys-PER) e Gabriel Torres (Huachipato-CHI)

@danielrohr

 

ANÁLISE GOLS

Por Pedro Cardoso Petrachini

PANAMENHO

Foto: Monika Majer-Getty Images

Gols a favor

O técnico Hernán Dario Gomez está no Panamá desde 2014, mas não dá para dizer que conseguiu formar um grande sistema ofensivo, principalmente por não ter tantas peças. No ciclo pós-Copa América 2016, a seleção disputou 22 jogos e marcou apenas 20 gols, média inferior a 1 por partida (0,90).

O estilo é claro, até pela falta de muitos talentos. Bolas paradas e contra-ataques são muito importantes, e 4 e 5 tentos saíram destas formas, respectivamente. Somando, são 9 de 20, quase metade (45%). Construções mais trabalhadas foram muito raras, 1 gol veio em troca de passes mais longa.

No aspecto individual, a artilharia foi para Gabriel Torres (foto). Ele foi o responsável por 6 bolas na rede adversária. O atacante do Huachipato-CHI ficou isolado na primeira posição. Atrás dele, com 3, veio Abdiel Arroyo. Ambos estarão na Rússia como esperanças de alguma produção ofensiva.

Gols contra

Se o ataque não conseguiu brilhar, a defesa até teve bons momentos, mas que não se repetiram nos últimos jogos antes de Gomez definir a lista final. Ao todo, foram 27 gols em 22 partidas (1,22 por duelo).

No último jogo amistoso antes de fechar a lista de 23, os panamenhos levaram 6 da Suíça, o que piorou a média, que até então era de 1 por jogo. Para piorar, foram 15 tentos nas 6 partidas derradeiras (2,5 na média). Nas primeiras 16, foram 12 (0,75).

As infiltrações nas costas da última linha foram sempre perigosas, com 5 gols saindo desta forma (18,5%). Perdas de posse ainda na defesa (2) e bolas paradas (5) também incomodaram o sistema defensivo do Panamá.

@PedroPetrachini

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