Para reesecrever a história de uma nação – ANÁLISE TÁTICA DA COLÔMBIA

Por Felipe Holanda

O futebol na Colômbia sempre foi timbrado por vexames, tragédias e poucos êxitos. O desenvolvimento do esporte por lá deu-se há 60 anos, época em que o País passava por uma séria crise do narcotráfico. A máfia, inclusive, chegou a financiar clubes e competições durante muito tempo. A primeira Copa do Mundo, entretanto, só veio 14 anos mais tarde, no Chile, em 1962, quando os cafeteiros foram eliminados na primeira fase com a pior defesa do certame. Passando pela Era de Ouro na década de 1990 e pela ótima campanha no último mundial, os comandados de José Pékerman chegam à Rússia com  com uma ciência tática remodelada e dispostos a reescrever a história de uma nação.

No Grupo H ao lado de Polônia, Senegal e Japão, a Colômbia da Copa conta com vários nomes de respeito no elenco, carimbados nas maiores Ligas do futebol europeu. Além de James Rodríguez, craque do Bayern de Munique e estrela do time, nomes como o longevo Falcao Garcia, do Monaco, Juan Cuadrado, da Juventus-ITA, e David Ospina, do Arsenal, são outros destaques. Na defesa, o maior “calo” da seleção colombiana historicamente, Yerry Mina, do Barcelona, e Davinson Sánchez, do Tottenham, impõem respeito aos adversários.

O time base de José Pekerman é formado num 4-2-3-1, com uma linha de quatro composta zagueiros e laterais, com dois volantes e a trinca de meias jogando em linha, formada por James Rodríguez, Cuadrado e Muriel – Carlos Bacca e Matheus Uribe também têm chances de começarem jogando alguns jogos.  O capitão Falcao Garcia é a referência no ataque.

Esquema 4-2-3-1

taticaNesse sistema, a principal proposta é fazer James, a cabeça pensante do time, flutuar entre as pontas e o meio. Cuadrado também pode jogar em qualquer uma das extremidades.

ANÁLISE DO ATAQUE: TURBINADO EM CONTRAGOLPES

Com uma defesa compactada em linha e com maior responsabilidade de proteger Ospina, a principal arma desse esquema é os contragolpes, costumeiramente mortais e com muita velocidade. Nos amistosos pré-Copa, por exemplo, o time conseguiu explorar as brechas deixadas pelos adversários e criar chances de perigo.

col 2Contra o Egito, em Atalanta, na Itália, James puxou contra-ataque e lançou Cuadrado, que entrou com total liberdade na grande área para finalizar com tranquilidade, enquanto Falcao buscava dar opção no centro.

Na vitória histórica por 3×2 sobre a Franca, em Paris e de virada, Cuadrado não pôde atuar por desgaste físico, Muriel foi acionado na ponta esquerda e James continuou revesando entre as extremidades. No gol de empate, em superioridade numérica, o craque do Bayern de Munique avançou pela ponta direita com uma liberdade que seria letal para os franceses.

col 3Num quatro contra dois da França, James encontraria Falcao livre para empurrar a bola ao fundo das redes de Lloris. Uma aula de como contragolpear o oponente com êxito.

Mas não é sempre que James deixa os companheiros em boas posições para o arremate. Diante da Austrália, com um time alternativo, Carlos Bacca, do Milan, fez a função pela esquerda, enquanto que o palmeirense Borja atuou como referência na vaga de Falcao. Dos pés de Bacca, surgiu um cruzamento para o camisa 10 cabecear com liberdade.

col 4Em contragolpe veloz, Bacca cruzaria para James Rodríguez, que só não marcou graças à uma ótima intervenção do arqueiro australiano.

Em alguns casos, Pékerman tem a tendência de utilizar o esquema 4-1-4-1, com a entrada de Uribe no lugar de Muriel, e James sendo deslocado para jogar pelo lado esquerdo. No meio, o que era trinca, vira um quarteto, com Lerma mais adiantado e apenas Cuadrado se mantem na mesma posição, podendo reversar de lado com o próprio James. No sistema, o contra-ataque continua sendo a melhor pedida.

WhatsApp Image 2018-06-13 at 14.21.27

ANÁLISE DA DEFESA: COMPACTAÇÃO É A PALAVRA-CHAVE

Como citado acima, a defesa tem o histórico de ser o maior problema da Colômbia em Copas do Mundo. Pekerman, no entanto, vem impondo uma responsabilidade tática que mudou o futebol colombiano. O maior exemplo disso foi a ótima campanha no mundial passado, no Brasil, quando os cafeteiros fizeram cinco jogos, com quatro vitórias e apenas uma derrota.

Em outro recorte dos jogos pré-Copa, a seleção colombiana se mostra bem postada na defesa, sofrendo dois gols – todos na vitória por 3×2 sobre a França – em três partidas.  A tática defensiva conta com duas linhas de quatro, buscando compactação para diminuir os espaços deixados ao adversário. Sistema que, nem sempre, dá certo.

col 5Marcando acuada e na defensiva, a Colômbia não conteve o ataque francês, que chegaria ao gol de Olivier Giroud.
Já contra o Egito, sem Mohamed Salah como ameaça (Disputava as finais da Champions League, pelo Liverpool-ING), os colombianos conseguiram imprimir o ritmo da peleja, cedendo poucas tentativas de gol do adversário. Numa delas, o sistema defensivo fechou duas trincas de marcadores e anulou o ataque dos Faraós.

col 6Sem opções para o passe, Tarek Hamed tentou o chute despretensioso, que sairia à esquerda da meta de Ospina.

Contra a Austrália, em outro jogo sem sofrer gols,  Pekerman impôs novamente a principal caraterística de sua defesa: estar sempre em maior número na grande área em momentos de ameaça do oponente.

col 7Defesa colombiana com seis homens só na grande área, contra três australianos, força o arremate de fora da área e ganharia o tiro de meta.

A LIGA DAS ESTRELAS E ERA NARCOS

Lembra que falamos no início do artigo sobre a influência direta do tráfico de drogas no futebol colombiano? Foi nesse quadro que o futebol se desenvolveu por lá, com o País vivendo uma crise sócio-política sem precedentes. Em meio à uma verdadeira guerra de Conservadores contra Liberais, o chefe único na época, Jorge Eliécer Gaitán, foi baleado e acabou falecendo.

Era o estopim. No mesmo dia do assassinato de Gaitán, em 9 de abril de 1948, 142 edifícios foram destruídos, igrejas incendiadas, unidades de transporte coletivo destruídas e 500 pessoas assassinadas em Bogotá. A data entrou para a história colombiana como “El Bogotazo”.

Nesse clima de calamidade cívica, o futebol se desenvolveu na Colômbia. No mesmo ano de 1948, aconteceu o primeiro campeonato nacional, que contava com dez clubes. De Bogotá, participaram o Millonarios e o Santa Fé; de Medellín, os representantes eram o Atlético Municipal e o Medellín; Manizales sediava o Deportes Caldas e o Once Deportivo; já em Cali, os representantes eram o América e o Deportivo Cali; o Junior, de Barranquilla; e, o Universidad, que era de Bogotá, mas possuía sua sede em Pereira, fechavam a lista. O Santa Fé foi o o campeão, mas o torneio parece não ter melhorado a situação do País.

col 8Elenco do Santa Fé, primeiro campeão colombiano.

Após o fechamento da competição, a Federação e a Associação de clubes começaram uma briga pelo controle do futebol no país. Em determinado momento, a Federação passou a não reconhecer a Dimayor (campeonato colombiano na época) como uma liga oficial, sem ligação alguma com as federações oficiais de futebol, dentre elas a FIFA.

Essa foi a brecha para a máfia entrar de vez no futebol. A Dimayor se viu forçada a criar uma liga com regulamento próprio sem atender às regras da FIFA. Nesse meio tempo, a Argentina impôs um salário limite para os jogadores em $175. Algumas estrelas, como Pedernera, Alfredo Di Stéfano e Julio Cozzi não aceitaram. E foram parar na Colômbia, ironicmente no Millionarios, ganhando fortunas financiadas pela máfia.

col 9Alfredo Castillo, Alfredo Di Stéfano, Adolfo Pedernera, Antonio Baéz e Reinaldo Mourin pousam para a foto com a camisa do Millionarios.

Mas foi nos anos 1980 que o narcotráfico entrou de vez no futebol Colombiano. Nomes como Pablo Escobar, líder do Cartel de Medellín, e os irmãos Rodríguez Orejuela e Gonzalo Rodríguez, chefes do Cartel de Cali, gastaram abusivamente no Atlético Nacional, América e Millonarios, respectivamente.

A ERA DE OURO E A MAIOR TRAGÉDIA

Os mais jovens não devem lembrar, mas a Colômbia era uma das seleções mais badaladas na década de 1990. Na Itália, em sua segunda Copa, chegou pela primeira vez à segunda fase, caindo nas oitavas de final. O feito deixou a esperança do País para o próximo mundial, disputado nos Estados Unidos.

Os cafeteiros chegariam àquela Copa com uma pompa de sensação nas Eliminatórias Sul-Americanas. Tiveram o melhor ataque do certame, com direito à uma vitória emblemática em cima da Argentina por 5×0 em pleno Monumental de Núñez lotado, jogo que até hoje é considerado como a maior vitória do futebol colombiano.

col 10Na goleada, foram dois gols de Faustino Asprilla e dois de Fred Rincón, com Valencia fechando a contagem.

Mas foi na América, justamente contra os anfitriões daquele mundial, que a Colômbia protagonizou a maior de suas tragédias. A eliminação precoce na primeira fase foi pouco diante do gol contra de Andrés Escobar, que foi assassinado a tiros em Bogotá menos de um mês após a derrota para os estadunidenses. Um erro técnico que custou uma vida.

col 11Escobar tinha a chance de jogar para lateral ou escanteio. A tentativa de corte entrou na meta colombiana e custou caro.

Em 1998, na França, a Colômbia perdeu dois dos três primeiros jogos e foi eliminada no Grupo G, com Romênia e Inglaterra se mantando vivas da competição.

A SURPRESA NO BRASIL

Na Copa passada, a Colômbia registrou a melhor campanha de sua história em mundiais. A estreia em solo brasileiro foi emblemática, com uma vitória por 3×0 em cima da Grécia, seleção que tem o sistema defensivo como setor mais forte. Pablro Armero, Theo Gutíerrez e James marcaram no Mineirão diante de mais 40 mil pessoas.

col 12Com uma transição muito rápida dos cafeteiros, principalmente pelas laterais, os gregos foram surpreendidos e não tiveram forças para reagir.

Ainda na primeira fase, a Colômbia venceu a Costa do Marfim, por 2×1, em Cuiabá, e goleou o Japão por 4×1, em Brasília, chegando ao 100% de aproveitamento. Nas oitavas de final, a vítima de vez foi o Uruguai, que vendeu caro a derrota por 2×0 na Capital. Foi neste jogo que James Rodríguez fez o gol mais bonito daquele mundial.

col 13Após dominar de costas para o gol, James girou e acertou um voleio de perna esquerda com uma precisão raríssima.

O sonho colombiano e de James acabou diante dos donos da casa. Em Fortaleza, o Brasil venceu por 2×1 com gols dos zagueiros Thiago Silva e David Luiz, enquanto a joia colombiana deixou o seu.

DESTAQUE: O CANDIDATO A SALVADOR DA PÁTRIA

Como não podia ser diferente, James Rodríguez é o principal destaque da seleção colombiana na Copa da Rússia e grande candidato a salvador da pátria. O camisa 10 foi o principal destaque da equipe no mundial do Brasil, sendo o artilheiro do certame com seis gols em quatro jogos.

Em boa fase no Bayern de Munique, onde chegou às semifinais da Champions League, James promete carregar o time nas costas e é a principal fonte de criação de jogadas da seleção de Pekerman na Rússia. Na temporada 2017/2018, o colombiano disputou 39 partidas, com 2.643 minutos jogados e marcou oito tentos, além de 14 passes para gol.

col 14

PRA FICAR DE OLHO: O CAPITÃO ESTÁ DE VOLTA

Ele voltou. Cortado às vésperas da Copa de 2014 por uma lesão no ligamento anterior do joelho esquerdo, Falcao Garcia terá a chance de representar seu País pela primeira vez em um mundial. O camisa 9 chega à Rússia com sede de gols.

Falcao vem de boa temporada no Monaco, vice campeão francês, onde marcou 24 vezes em 36 partidas, com 2.870 minutos jogados. Além disso, deu cinco assistências.

col 15

@holandareporter

Análise Gols

Por Pedro Cardoso Petrachini

ames

Foto: Aurelien Meunier-Getty Images

Gols a favor

A Colômbia conta com alguns nomes badalados no setor ofensivo, principalmente James Rodríguez, Falcao García e Juan Cuadrado. Sob o comando de José Pékerman desde 2012, a seleção já tem o padrão bem definido para o Mundial na Rússia.

Em 18 jogos após a Copa América 2016, quando se iniciou um novo ciclo após mais uma competição, foram 26 gols marcados (média de 1,44). Inclusive, o ataque mostrou bom poder em jogos de peso. Por exemplo, fez 3 tentos contra a França, no Stade de France.

As bolas paradas foram um ponto forte, com 5 gols saindo neste tipo de jogada. Não à toa, o ex-palmeirense Mina (3 gols) ficou atrás apenas de James Rodríguez e Falcao García na artilharia geral. As construções pela direita, usando da velocidade de Cuadrado principalmente, também se mostraram úteis: 5 tentos vieram assim.

Artilheiro da Colômbia na Copa de 2014, James Rodríguez repetiu a dose em mais um ciclo. Ele fez 5 gols no período, superando Falcao García, principal atacante do elenco, que ficou com 4. Lembrando que o atleta do Monaco não jogou a última Copa, pois estava lesionado.

 

Gols contra

Em 18 partidas no ciclo analisado, os colombianos sofreram 17 gols (média de 0,94 por jogo). Um fato curioso é que o sistema defensivo costuma ser “8 ou 80”. Em apenas dois duelos, levou 1 tento. Nos outros, ou passa ileso, ou acaba sendo vazado mais de uma vez.

As bolas paradas cruzadas na área se mostraram um dos pontos mais vulneráveis, com 3 gols sofridos desta forma. Ainda assim, não é um número absurdo, já que representa 1 tento saindo neste tipo de lance a cada 6 jogos.

Pelos lados do campo, a direita da defesa se mostrou menos eficiente do que a esquerda. 4 gols vieram em construções por aquele lado, contra 2 pelo flanco oposto. Para a Copa, Pékerman perdeu Frank Fabra, lateral esquerdo, que se lesionou poucos dias antes do Mundial. A conferir se isso fará alguma diferença no equilíbrio defensivo.

@PedroPetrachini

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s