Entre perdas, ganhos e notáveis mudanças desde 2014, os campeões mundiais vão à Rússia em busca do penta – ANÁLISE TÁTICA DA ALEMANHA

Por Matheus Eduardo

Por que iniciar a análise com jogadores que já se aposentaram da seleção? Simples: uma das questões recorrentes nesta equipe é a passagem de bastão e a transição de gerações. Nada melhor que a representação de ícones que fazem falta nessa mudança de ciclo alemã (Foto: Joern Pollex/Getty Images Europe)

Quando Joachim Löw assumiu a seleção alemã, ainda em 2006, era improvável imaginar um cenário sem as grandes referências surgidas na equipe naquele momento. Em uma era que começava a florescer o futebol de gigantes do futebol local, como Bastian Schweinsteiger, Philipp Lahm e Lukas Podolski, uma equipe futura sem esses jogadores sinonimizava o desamparo. Dez anos após a chegada do treinador, a projeção antes inimaginável se tornou realidade, e fez com que a Nationalelf buscasse uma nova forma de retomar a competitividade frente às grandes potências do planeta.

O desafio da transição de gerações

Em muitos momentos, o futebol comprova ser um esporte de constante adaptação. Se você perde seus melhores jogadores, busca outras formas de competir para que não seja ultrapassado pelos demais. Como em toda mudança de ciclo, a Alemanha se renovou, e esbarrou em algumas dificuldades na entressafra que acabara de surgir. Após perder jogadores que deixaram uma herança hierárquica para a equipe nos últimos campeonatos, o grande desafio deste grupo é manter a escrita das boas chegadas em grandes torneios com uma nova geração de atletas. Durante o processo de qualificação — e torneios/amistosos paralelos, que serão melhor destacados no texto -, essa passagem de bastão esteve cada vez mais nítida, em busca de novas referências e uma mudança na forma de jogar.

Atual campeã mundial, a Alemanha atual pouco se assemelha à equipe que faturou a taça no Brasil em 2014. O elenco de quatro anos atrás praticava um jogo mais misto (proposição/reação) e acelerado que o atual, com destaque à fisicalidade de meio-campistas que estiveram em ótimo nível ali — como Bastian Schweinsteiger e Sami Khedira, que recuperaram a melhor forma durante o Mundial -, e uma força mental mais presente, com jogadores que já haviam disputado Mundiais e Euro anteriormente.

Diferente do conjunto que goleou o Brasil, a atual seleção germânica traz diferenças em toda a sua estruturação. Dos 23 que estiveram na campanha do título mundial, apenas nove estarão na Rússia, e um dos porquês de a lista ter mudado tanto, mesmo com a conquista, explica-se pela iminente transição de gerações. Os adeuses de Lahm, Klose, Mertesacker e, posteriormente, Schweinsteiger e Podolski, pediam reposições satisfatórias. A partir da Eurocopa de 2016, Löw percebeu a necessidade de reformulações pontuais na equipe e buscou, dentro dos destaques no país, soluções para suprir carências. Com isso, foram surgindo sucessores pontuais: Joshua Kimmich como uma das grandes afirmações da equipe seguindo o legado de Lahm na lateral-direita; Timo Werner como nova opção de referência no ataque; Leon Goretzka e Emre Can para o meio-campo físico e de transições; Leroy Sané e Julian Brandt para jogar por fora e todo o talento individual na condução de bola etc. Além deles, outros nomes que poderiam surgir na entressafra, mas que apresentaram queda inestimável, como Mario Götze e Andre Schürrle, integrantes do elenco campeão em 2014. A diferença: os mais novos ainda não possuem a mesma bagagem de campeonatos e experiência internacional, o que, aparentemente, influenciará no ajuste e na parte mental desta equipe no Mundial.

Características principais na forma de jogar

No que se refere à maneira de jogar da equipe, houve uma grande mudança quanto à proposta e quem é o ponto central do conjunto: nos novos rumos do time, Toni Kroos se tornou a grande referência e justifica o protagonismo na construção de jogo alemã. Com o meio-campista multicampeão no Real Madrid, o modelo de jogo se baseia em seu controle para dominar partidas por meio da posse de bola e da circulação, aproximando jogadores e utilizando o seu ritmista para ocupar o campo do adversário e, com bastantes jogadores instalados, criar situações de gol. Nesse cenário, o que foi visto da Alemanha é, também, uma grande adaptação ao Bayern de Munique, com Pep Guardiola entre 2013 e 2016, influenciando na saída de bola da seleção — com muitos jogadores que atuaram no time da Baviera -, e um ataque posicional muito bem estruturado.

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A partir da Eurocopa de 2016 — ponto de partida desta análise -, percebemos melhor quais eram os propósitos de Löw em sua equipe, com algumas características determinantes no modelo:

  • Saída de bola bem estruturada a partir do seu goleiro, seja ele Manuel Neuer ou Marc-André ter Stegen — dois expoentes no jogo com os pés na posição. A partir do arqueiro, com capacidade de reter a bola e lançá-la com precisão, quebra de linhas quando necessário ou garantia da qualidade de acerto nos passes curtos, mesmo sob pressão rival
  • Zagueiros capazes de acelerar e chegar ao campo de ataque conduzindo a bola. Isto porque, em muitos momentos, por ser uma equipe de muita posse, a Alemanha se instala completamente em campo oposto. Com Jerôme Boateng e Mats Hummels, dois excelentes passadores e condutores, o plano poderia ser executado com maior facilidade. Após a queda física — e, parcialmente, técnica — de ambos, a ideia acabou comprometida. Os substitutos — especialmente o promissor Niklas Süle, também jogador do Bayern -, parecem mostrar características evolutivas aí. Diferente de Süle, o outro zagueiro da lista, Antonio Rüdiger, é um rompedor físico, que acelera com a bola e antecipa mais, com maior mobilidade para se mover e menos passador que os outros companheiros de posição
  • Fluidez e liberdade aos jogadores para executarem trocas de posição entre si. Não são raros os momentos em que vemos jogadores em zonas do campo que não são as suas habituais para manter a aproximação entre eles e trocar passes em busca da conclusão. Especialmente quando acelera um pouco mais o jogo com a bola nos pés, o time alemão tende a concentrar cinco ou seis homens em uma mesma zona, próximos à bola, em busca de trocas rápidas de passe e conclusão

 

Mesmo com o vídeo em qualidade ruim, nota-se a troca posicional de alguns jogadores no momento do lance que gerou gol de Thomas Müller contra a Espanha: no momento da conclusão, oito jogadores espalhados pelo campo ofensivo, ocupando todo o espaço em ação de ataque, em posições diferentes das habituais
  • Geralmente postada no 4–2–3–1 (4–4–2 na fase defensiva), a Alemanha tem em Mesut Özil um ponto de fluidez e circulação. Özil é como um curinga, e flutua por todo o campo em busca da aproximação com companheiros em qualquer que seja o lado para gerar superioridade (numérica e técnica) no momento de circular a bola. Posicionalmente, o camisa 10 é o meia central por trás do atacante, e gera variações quando a equipe ataca e defende. Sem a bola, raramente faz a pressão direta sobre o adversário que a detém, mas executa de maneira inteligente o bloqueio de linhas de passe, em uma das excelentes características do conjunto de Löw

 

  • Sem um centroavante mais fixo em boa parte das partidas disputadas nesse intervalo de tempo, a Alemanha passou por uma adaptação diferente com Timo Werner como referência. Com a sua extrema mobilidade e explosão partindo de uma zona mais distante da área, não são incomuns os momentos de troca posicional dele com Thomas Müller, fazendo com que o jogador do Bayern, que é, inicialmente, o ponta direito nesta equipe, infiltre e busque a área para concluir, enquanto Timo ocupa uma zona de campo mais próxima da linha lateral — ou abre espaços por dentro, puxando marcadores em velocidade

 

  • Neste modelo, os dois laterais alternam amplitude/jogo por dentro na saída e abrem bastante quando o time ocupa o campo rival porque, trabalhando com posse e, gradativamente, na tentativa de “empurrar o rival para trás”, é necessário que se utilize todos os espaços possíveis. Na direita, são habituais os momentos em que Kimmich espera as bolas bem aberto, fazendo daquele setor o lado fraco, para receber da esquerda e executar a assistência. Com Jonas Hector na esquerda, mais profundidade para associar-se com o ponta naquele lado. Como geralmente o dono da posição é Julian Draxler, que possui facilidade em buscar jogo por dentro, Hector compensa pelo corredor. É possível até que esse tenha sido um dos fatores que justificaram a ausência do talentosíssimo Leroy Sané — um ponta que prefere e mostra suas principais virtudes atuando por fora — da lista final de convocados (outro tema que será falado aqui, posteriormente)
Lance, analisado pela ESPN, que gera gol de Podolski contra a Inglaterra: saída de bola com superioridade numérica, Kimmich vindo por dentro e Hector aberto, dando amplitude e profundidade. No campo ofensivo, ataque posicional e, sem pressão do rival, finalização de longe com gol
  • Toni Kroos como aproximador e gerador de linhas de passe em praticamente qualquer zona do campo: ponto central na organização, a ideia é fazer com que a bola sempre passe por ele. Próximo aos zagueiros quando a equipe está acoada, facilitando as subidas dos meio-campistas por dentro, como ferramenta de controle de ritmo, boas inversões, verticalidade, etc. Kroos é a elite da elite como meio-campista controlador, e o foco não poderia ser em outro jogador que não ele.

A escolha dos convocados

É muito complicado julgar as decisões tomadas por um treinador. Olhando de fora, e sem conhecer o entorno da equipe, os propósitos do técnico e as medidas imaginadas dentro de um trabalho, talvez as opiniões sejam um pouco mais equivocadas do que imaginamos. Após a divulgação da lista final, o grande foco de discussão foi a ausência do ponta Leroy Sané, além de outros nomes de grande potencial/importantes no ciclo, mas que acabaram fora, como o goleiro Bernd Leno, os zagueiros Shkodran Mustafi e Jonathan Tah ou o meio-campista Emre Can.

Nos casos de Mustafi, Tah e Can, variáveis que tornaram menos discutíveis as suas ausências: Mustafi, embora tenha feito uma grande temporada com o Arsenal, tem um perfil menos adaptável à forma de jogar que os seus concorrentes, e ficou fora provavelmente por isso. Além dessa desvantagem, o zagueiro, que esteve na Copa de 2014, teve poucos minutos em campo no ciclo para 2018 e, mesmo quando convocado, não se afirmou na Copa das Confederações; Tah é um defensor promissor e de muito físico, mas ainda está um nível atrás dos concorrentes. Já Emre Can sofreu uma séria lesão em março e retornou aos campos apenas na final da Liga dos Campeões, quase em junho, tendo desvantagem no físico frente a uma disputa acirrada no meio. Além disso, a grande temporada de Leon Goretzka o afirmou na vaga que, teoricamente, estava em disputa entre eles.

Dentre os muitos motivos possíveis, o que possivelmente pesou muito nas escolhas de Löw foram as oportunidades concedidas a cada atleta e como suas características pesariam no sistema. Dito isto, compreende-se, por um lado, a ausência de um talento desequilibrante como Leroy Sané deste grupo. Explicado pelo treinador como um jogador que foi preterido por Julian Brandt, especialmente pelo baixo impacto deixado enquanto atuou pela seleção, o extremo do Manchester City também não contou com a sorte ao perder a Euro 2016/Olimpíadas do mesmo ano por lesão (poderia ir em um ou no outro), e ter fraturado o nariz quando poderia ter jogado a Copa das Confederações de 2017.

Nesse tempo, Brandt entrou e apresentou diferentes funções a Joachim Löw, tanto como ponta direito no 4–2–3–1 (Eliminatórias) quanto como ala pela direita no 3–5–2 (Eliminatórias e Copa das Confederações). Certamente, isso pesou muito. Se foi algo correto, a resposta é subjetiva. Sané é um jogador de individualidade extremamente desequilibrante, fez duas temporadas de completa evolução na Inglaterra e apresenta qualidades raras de se ver no que se refere a encontrar gols partindo das beiradas de campo, com um 1 contra 1 muito diferencial (drible e velocidade extremamente aguçados, com um talento incrível no pé canhoto), além das tantas assistências para gol partindo da ponta esquerda. É um tipo de talento que o elenco alemão não possui no grupo, mas que, nos últimos amistosos, não conseguiu reproduzir com a seleção o mesmo desempenho feito no Manchester City — por questões que extrapolam a qualidade do atleta, é verdade, como o contexto e a utilização do jogador ali/importância dele para o sistema.

Na visão de Joachim Löw, Brandt possui maior capacidade de acrescentar qualidades à equipe que Sané. Diferença de tempo no aproveitamento de ambos foi marcante para um ser preterido pelo outro (Foto: Bundesliga/Reprodução)

No gol, a confirmação de Manuel Neuer dependeu apenas da questão física, que determinará sua titularidade na Copa. Ao que tudo indica e, mesmo sendo substituído no intervalo contra a Arábia Saudita, o último amistoso pré-Copa, terá condições de jogar. Se não puder atuar, Marc-André ter Stegen é o seu ótimo sucessor, haja vista seu crescimento como protetor da meta, defendendo finalizações no cara a cara e na absurda reação, além do espetacular jogo com os pés. Desde que se afirmou no Barcelona, ter Stegen subiu muito de patamar. A surpresa se deu na disputa pelo terceiro goleiro: mesmo tendo uma temporada mais segura, Leno acabou preterido por Kevin Trapp, que perdeu muito da sequência de jogos e caiu em qualidade no PSG — sendo reserva em toda a temporada -, mas segue com a confiança do treinador na seleção.

Entre outras escolhas, a definição com Boateng e Hummels como os melhores zagueiros alemães e mais capacitados a executarem, a priori, o que se necessita com e sem a bola, se mostrou completamente acertada. Embora apresentem dificuldades em defender a equipe em campo aberto — algo perigoso, já que a Alemanha concedeu, no mínimo, 13 ações de contra-ataque a cada um dos rivais nos últimos seis amistosos -, são essenciais no modelo. Também por isso, mostram-se importantes Süle e Rüdiger como alternativas, zagueiros mais físicos, capazes de proteger campo aberto e que entendem as variações na necessidade de jogar com um trio. Além deles, entende-se que Kimmich e Hector são os laterais afirmados e Matthias Ginter, pela capacidade de ser lateral-direito e zagueiro, além de toda a imposição física e o bom passe que possui, pode ser substituto para zaga e lado. Na lateral-esquerda, Marvin Plattenhardt — em um cenário que o destaque local, Philipp Max, lateral cruzador e que traz algumas características similares às de Kimmich, não foi convocado ainda — não demonstrou muitas debilidades enquanto testado e segue como alternativa em uma escassa geração alemã para a posição.

No meio-campo, Sami Khedira e Toni Kroos seguem como titulares em mais uma Copa do Mundo, ao que tudo indica. Complementares enquanto infiltrador e construtor, ambos foram fundamentais na manutenção do equilíbrio nesse setor. Mesmo com os reincidentes problemas físicos, Khedira segue como um jogador de enorme concentração e entendimento de funções, além de toda a experiência internacional que possui — um dos que ainda herdou a hierarquia citada no início do texto. Nas reposições, Ilkay Gündogan -, outro meio-campista construtor, finalmente chega para disputar uma Copa do Mundo, mas com pouca confiança em suas ações e um físico ainda abaixo do ideal, tendo somado atuações irregulares e inseguras nos últimos meses (por Manchester City e pela seleção). No complemento, Leon Goretzka, como citado anteriormente, ganhou a disputa com Emre Can e faz frente no papel de meio-campista infiltrador e de diferentes qualidades, podendo atuar em zonas interiores ou por fora, com boa ultrapassagem e bons arremates — em condição até superior à de Khedira. Diferente do perfil de quase todos eles, Sebastian Rudy, meio-campista do Bayern, e que esteve cotado a ficar de fora, se mostra importante nesta lista porque é quem pode organizar o time desde uma posição mais atrasada no campo e controlar ritmo, em cenários de pausas e organização — como mostrou enquanto volante organizador no time de sucesso do Hoffenheim em 2016/17. Também é capaz de chegar bem no campo de ataque e, mesmo tendo perdido um pouco da sequência de jogos com Juup Heynckes no Bayern, justifica sua presença por possuir características complementares e que ajudaram muito a equipe nos testes no ano passado.

Rudy, Goretzka e Draxler foram alguns dos destaques alemães no título da Copa das Confederações de 2017. Também pela excelente performance ali, confirmaram vaga no grupo que vai à Rússia neste ano (Foto: Mirror/Reprodução)

No setor ofensivo, já foi explicada a preferência por Julian Brandt, que realmente possui talento na condução de bola e na exploração das beiradas de campo para atacar, embora apresente algumas dificuldades para executar a função de ala — especialmente na fase defensiva -, no que é uma possibilidade de esquema durante certos jogos. Além dos titulares Mesut Özil — indiscutivelmente, o meia que melhor aproveita espaços e visão para criar chances -, Julian Draxler — cresceu muito como ponta que busca entender os movimentos por dentro e atacar os espaços — e Thomas Müller — que parte da ponta, mas busca a área, porque é especialista em “chegar”, e não em “estar” na referência de ataque-, a presença de Marco Reus na lista de convocados passa uma sensação diferente (e positiva). Não só por enfim poder participar de um grande torneio com a Alemanha após seis anos, superando as tantas lesões, mas porque, ainda que tenha perdido confiança, velocidade e alguma capacidade em seus gestos técnicos, ainda é um jogador capaz de acrescentar muito em tomada de decisão e, à sua maneira, tem facilidade para se adaptar a funções variadas.

No comando de ataque, poucas dúvidas existentes. Sabendo que Werner já era garantido, a disputa para saber quem seria o atacante a fazer a função de pivô foi a grande incógnita. O imaginado era a luta pela vaga ficar entre Sandro Wagner (que realmente fez uma boa segunda metade de temporada com o Bayern e é um excelente disputador aéreo) e Mario Gomez, o centroavante de melhor entendimento e experiência em busca de gols, ainda que em franca decadência. Surpreendeu surgir Nils Petersen — um dos jogadores com mais gols na última edição da Bundesliga (fez 15 dos 32 marcados pelo seu time, Freiburg, no campeonato) e que também traz um domínio físico pela estatura — na vaga de Wagner nessa disputa, mas a escolha por Gomez também transcendeu a lógica. Ainda é um centroavante capaz de “achar” gols, pode somar em algumas situações e é mais consolidado na comparação.

A preparação para a Copa e comportamentos para observar

Durante a Eurocopa e nos amistosos em que a Alemanha acabou sendo mais testada, notou-se que o desafio em certos quesitos do jogo será grande com esta equipe, e alguns motivos deixam a situação um pouco mais difícil para os germânicos. O principal deles é o fato de a Eliminatória ter sido uma forma inapropriada de avaliação das qualidades desta equipe, haja vista a enorme disparidade para qualquer um de seus adversários ali. Também por isto, explica-se o fato de a Alemanha ter vencido todos os dez jogos e sem passar dificuldades em quase nenhum momento da fase classificatória.

Nos momentos mais complicados, em amistosos diante das seleções mais qualificadas e que estarão na Copa, apareceram as maiores dificuldades: defender em campo aberto, proteger-se das bolas invertidas, etc. No jogo contra a Inglaterra (vitória por 1 x 0), que marcou a despedida de Podolski, no ano passado, muitas dificuldades contra uma equipe fechada e que acelerava com bolas longas às costas dos laterais. Diante da Áustria, em amistoso que gerou derrota alemã (1 x 2, de virada), muitas bolas esticadas para as beiradas do campo — os dois gols sofridos foram com lançamentos nas costas dos laterais.

Dificuldade alemã em se proteger das bolas invertidas nas laterais, como nesse lance, é um problema sério na equipe. Além disso, dificuldade também quando não consegue exercer pressão bloqueando equipes de rápidas trocas de passes.

 

Além disso, há dificuldade para superar o pressing mais intenso de certos rivais. Durante o amistoso contra a Espanha (empate em 1 x 1), a inferioridade germânica no início da partida se deu pela menor intensidade e por ser surpreendido pelo adversário, que se instalou no campo de defesa alemão e pressionou forte sua saída lateral, ganhando muitas bolas e dominando, por meio de posse e pressão, uma equipe que habitualmente também trabalha assim. Também aconteceu, em especial no 2º tempo, na derrota para o Brasil (0 x 1), no que se pese a ausência de opções para auxiliar Toni Kroos na construção naquela partida.

Além disso, o peso mental, muito discutido quanto à sua relevância na conquista de grandes torneios, também influencia nessa mudança de geração. Dentre os muitos fatores escolhidos como defesa desta equipe, este texto traria argumentos para explicar que a equipe atual chega à Copa mais forte que em 2014, mas este fator, em especial, levou a uma reflexão que condicionou toda a análise. De fato, a perda de hierarquia desta equipe, sem muitos ícones que estiveram em anos anteriores, dificultou para que a equipe saísse campeã da Eurocopa, por exemplo. Em um torneio que a Alemanha demonstrou um nível coletivo alto e que poderia, sim, ser suficiente para sair com o título, faltou imposição hierárquica para derrotar a França nas semifinais, mesmo apresentando bom nível de atuação. É o que tem acontecido em alguns jogos, em que o volume de jogo é alto, mas falta a capacidade de concluir e definir a vitória.

Por outro lado, essa também é uma das virtudes da equipe, que, como já foi dito, produz muito com a bola nos pés e não deve abdicar de ter a posse de bola contra qualquer adversário. A maior prova foi o jogo diante da Espanha — adversário que sabe trabalhar em diferentes propostas -, em que, mesmo contra uma equipe que possui alto poder físico para pressionar e tocar rápido a bola, houve momentos em que quem esteve com a redonda nos pés por mais tempo foram os germânicos. É um perfil diferente do pensado anos atrás, e que faz de Löw um verdadeiro treinador adaptável. Se, antes, conseguiu fazer essa equipe ser a das transições mais velozes e das vitórias em intensidade física, agora tenta levar o time mais ao caminho do controle e da variação de ritmos. O treinador se adapta aos jogadores.

Maiores armas alemãs, a construção elaborada por meio da posse de bola e a pressão não tão intensa, mas que cerca e bloqueia linhas de passe rivais de forma gradativa, foram bem utilizadas nesse lance diante da Espanha. Ponto forte para ver na Copa

Além disso, mesmo sem Leroy Sané, esta equipe ainda possui bastante qualidade para atacar em campo aberto. Além da capacidade de pressionar bem — mesmo sem manter a intensidade a todo tempo -, há jogadores que apresentam capacidade de atacar espaços longos em velocidade, como Timo Werner, que obteve bastante êxito nesse sentido durante a Copa das Confederações e nas suas tantas jogadas assim pelo RB Leipzig. Se o atacante não é como Miroslav Klose, que garantia gols e excelentes conclusões na área — e toda a imposição como o centroavante que era nos grandes torneios -, ao menos soma muito na transição.

Destaques individuais

Figura central nesta seleção, Toni Kroos é o meio-campista com maior influência na construção das jogadas e, além disso, o grande nome desta equipe por ter evoluído ainda mais após o título de 2014 e ter construído uma mentalidade ainda mais vencedora no Real Madrid, sendo dominante e afirmativo durante quase todo o ciclo entre 14 e 18. Não à toa, foi o jogador com mais passes por jogo nas Eliminatórias para a Copa (112) — ainda que considerando o contexto -, o sétimo meio campista com mais passes por jogo em toda a Europa durante a última temporada, com o Real Madrid — que nem é uma equipe que prioriza posse — (76,7), e o terceiro meio-campista com maior aproveitamento nos passes curtos em 2017/18 (acertou 93,1% dos passes que tentou), sendo superado apenas pelo companheiro de equipe, Mateo Kovacic, e por Thiago Motta, que tiveram bem menos minutos em campo que ele.

Foto: Alexander Hassenstein/Bongarts

Além dele, o grande destaque alemão nos últimos anos foi Joshua Kimmich. Além de ter atuado — como lateral, ala, zagueiro e meio-campista — em todos os minutos das Eliminatórias para a Copa do Mundo (10 partidas completas — 900 minutos) e em todos os minutos da Copa das Confederações (5 partidas completas, sem prorrogação — 450 minutos), só perdeu duas partidas da Eurocopa (atuou em 4 das 6, todas completas — total de 390 minutos — uma delas com prorrogação). Além dos números comprovarem que Kimmich foi o atleta que esteve mais tempo a serviço da Nationalelf a partir da Eurocopa de 2016, o lateral também foi o jogador que mais deu assistências nesse intervalo de tempo (11 passes para gol). Nas Eliminatórias, ele também obteve destaque, sendo o jogador com o maior número de passes-chave — que deixam o companheiro na cara do gol — do torneio (total de 59 em 10 partidas), além de ter participado de 17 ações ofensivas que geraram gol da Alemanha na mesma qualificação.

Qual é o patamar da Alemanha na Copa? O que disputa?

Mesmo com as mudanças, a Alemanha chega na Rússia para defender o posto de atual campeã mundial. Ainda que em constante mutação e com alguns problemas apresentados em jogos de exigência mais alta, o conjunto de Joachim Löw tem capacidade para competir entre as melhores seleções. Além disso, a preparação para a Copa evidenciou a preocupação com os potenciais adversários no mata-mata. Entre novembro do ano passado e março deste ano, os alemães enfrentaram quase todos os potenciais destaques do torneio — França, Inglaterra, Brasil e Espanha no período. Contra todos eles, duelos complicados (1 vitória, 2 empates e 1 derrota) e com pontos a buscar correções.

No fim de tudo, os primeiros desafios e o mental dos novos jogadores, aliados à forma com que se recuperarão pilares da equipe que estão em fase de queda física/técnica — como Neuer, Boateng, Hummels e Reus — determinarão o rumo da Alemanha na Copa. É mais incógnita do que em anos anteriores, mas o histórico e o repertório/potencial técnico rico da equipe mantém o nível da equipe bem alto. Em todas as Copas do Mundo que disputaram neste século, chegaram, pelo menos, nas semifinais. A expectativa, também por isso, não deixa de ser muito alta. A ver.

Estatísticas: InStat, WhoScored e Soccerway

@matheusesouza

 

Análise Gols

Por Pedro Cardoso Petrachini

aleFoto: AFP

Gols a favor

A seleção da Alemanha já tem seu estilo bastante conhecido há alguns anos, e o longo comando de Joachim Low faz com que apenas alguns ajustes sejam feitos a cada ciclo. Na era pós-Euro 2016, a equipe seguiu extremamente competitiva e com um ataque forte.

Em 23 jogos, foram 62 gols marcados (média de 2,69). Em que pese algumas goleadas sobre seleções fraquíssimas, como Azerbaijão e San Marino, o fato é que o sistema ofensivo preza pela boa qualidade de passe, e também pela paciência, que leva a ataques no momento certo ao espaço deixado pelos rivais.

Quando constrói as jogadas pelos lados, os alemães têm várias opções, não dependem de lançamentos para área. Podem fazê-los, mas também infiltram, levam para o meio, invertem o jogo. Gols saem de todas estas formas, e mais de uma vez, mostrando padrão, e não lances gerados pelo acaso.

E ainda que as construções longas, com posse, sejam uma característica fortíssima, pressão na saída de bola para roubar e já definir, além de bolas paradas jogadas na área, também renderam 3 e 6 gols, respectivamente. Essa gama de possibilidades é o que permite ao time de Low ter média tão alta de bolas na rede.

O jovem atacante Timo Werner, do RB Leipzig, foi o artilheiro do período, com 7 gols. A seu favor, contou o fato de ter participado da Copa das Confederações, diferentemente das principais estrelas, como Thomas Muller, por exemplo. O jogador do Bayern marcou 5 vezes, e poderia ter ido além se atuasse na competição de 2017.

Gols contra

Por ter o controle da grande maioria de seus jogos, a Alemanha não leva muitos gols. Em 23 duelos, foram apenas 14 (média de 0,6). Com a bola na maior parte das partidas, o time é menos ameaçado. Porém, como joga bastante adiantado no campo, as vezes deixa espaço para saídas rápidas ao perder a posse.

Por isso, além de 2 gols sofridos em contra-ataques, foram também 2 tentos nos quais a bola foi perdida ainda no início da construção, com erros na saída de bola por parte dos defensores. Um deles aconteceu na Copa das Confederações, na qual o time atuou com formação alternativa.

As infiltrações por trás da última linha também apareceram, já que a Alemanha atua compacta e, por isso, sobe as linhas de marcação, abrindo algum espaço entre o goleiro e os zagueiros.

Lembrando que Neuer, titular absoluto da meta dos atuais campeões do mundo, é mestre em sair do gol e fazer coberturas neste tipo de caso, mas o arqueiro do Bayern perdeu vários duelos por estar contundido. A expectativa é de que atue sem problemas na Rússia.

@PedroPetrachini

 

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