Precisamos falar sobre o time de Ricardo Gareca – ANÁLISE TÁTICA DO PERU

Por Caio Alves

 Como chegou na Copa?

A Seleção Peruana volta à Copa do Mundo após 36 anos, tudo isso graças ao treinador Ricardo Gareca e seus jogadores. Contratado em 2015, Gareca teve a missão de dar uma cara à um time que tinha material humano, mas que não tinha um estilo e muito menos rumo. Após boa campanha nas Eliminatórias — em questão de resultado e desempenho —, o Peru terminou em quinto, sendo obrigado a disputar a repescagem, contra a Nova Zelândia.  No primeiro jogo, fora de casa, foi superior ao adversário, mas empatou em 0x0. No jogo de volta, diante de sua torcida, repetiu o cenário, mas, dessa vez, vencendo por 2×0.

Com a classificação em mãos e a afirmação de um bom trabalho de Gareca, todos os olhos, então, partiram sobre sua seleção. Afinal, deixar o Chile de fora da Copa chamou a atenção do mundo. Após a repescagem e já em fase de preparação para o Mundial, o Peru fez alguns amistosos. Venceu todos. 2×0 contra a Croácia (!), 3×1 contra a Islândia, 2×0 contra a Escócia e 3×0 contra a Arábia Saudita. Ainda enfrentará a Suécia, seu último adversário antes de viajar à Rússia.

Como joga?

A Seleção Peruana tem fortes características e seu estilo próprio, mas não com uma forma única de atuar. Tudo isso porque, basicamente, Gareca escala o time de acordo com seus adversários, se adaptando ao seu plantel e não possuindo apenas um esquema tático ou modelo de jogo. Entre Eliminatórias e amistosos pré-Copa, o Peru atuou no 3-5-2, 4-1-4-1, 4-3-3 e 4-2-3-1, esquema que está mais acostumado a jogar.

peru 1Provável equipe e esquema de Ricardo Gareca na Copa

Ainda não tem como cravar o esquema tático que Gareca utilizará e muito menos o time titular. Como citei acima, o treinador ajusta sua equipe de acordo com o adversário. Com a volta de Paolo Guerrero, porém, há chance de Ricardo optar pelo 4-2-3-1 acima, esquema mais utilizado pelo treinador. As dúvidas estão entre Santamaría e Rodríguez na zaga e Farfán e Carrillo de extremo direito. Com Farfán é ainda mais duvidoso porque, ao jogar sem Guerrero, o camisa 10 atuava (bem) de falso 9, abrindo espaços para Cueva, Carrillo e Trauco.

Com o retorno de Paolo, titular absoluto, Farfán, que vive boa fase na seleção e no Lokomotiv, seria obrigado a jogar de extremo se Gareca optar por permanecer no 4-2-3-1. Farfán joga como tal, mas, ainda assim, é uma dúvida, já que o bom Carrillo, do Watford, pede passagem. Sempre entrou bem e, no amistoso contra a Arábia Saudita, foi um dos melhores em campo. De resto, é bem provável que sejam essas as peças, alterando apenas o esquema tático.

PERU 2Advíncula, lateral-direito, atacando por dentro e em profundidade contra a superioridade numérica da Arábia Saudita

Como já citado no texto, o Peru tem algumas formas de jogar — mesmo que não mude sua filosofia e características. Em suas alternâncias táticas, ora defende no 4-5-1 e ataca no 4-3-3, ora defende no 4-1-4-1 e ataca no 4-2-3-1. O time tem algumas características nítidas e bastante destacáveis.

PERU 3Peru defendendo-se da Arábia Saudita no 4-1-4-1

Ao proteger sua área, na maioria das vezes, com uma primeira linha de 4, o Peru executa a linha sustentada. Se estiver sendo atacado do lado direito, Edison Flores compõe a linha. Ao ser atacado do lado esquerdo, Yotún é quem compõe. Yotún-Tapia são os alicerces da equipe cobrindo a entrada da área, principalmente este segundo.

No momento ofensivo, a responsabilidade da criação fica por conta de Christian Cueva, do São Paulo, e dos extremos Edinson Flores e Farfán (ou André Carrillo). Cueva costuma ter liberdade e procurar o jogo entre-linhas, Flores faz papel versátil — cobrindo espaços no meio, compondo linhas defensivas, abrindo campo para Miguel Trauco e dando opções em profundidade — e Farfán é muito acionado enquanto oferece amplitude e profundidade ao time e alternativas para o jogo de Guerrero.

PERU 5

Contra a Colômbia, ainda pelas Eliminatórias (partida na qual Paolo Guerrero levou a seleção à repescagem), foi possível ver o Peru alternando entre 3-5-2 o 4-3-3. Laterais abrindo o campo ao máximo já em solo ofensivo foi um dos maiores destaques do time.

PERU 4

O Peru vai enfrentar França, Dinamarca e Austrália na fase de grupos do Mundial, sendo 3 propostas diferentes e podendo encontrar até mesmo uma linha de 5 defensores. Portanto, repito, não é possível saber a equipe de Gareca durante o torneio.

De qualquer modo, o que a Seleção Peruana executou em alguns momentos foi o pressing. Ora bem, resultando no retorno da posse de bola, ora mal, gerando espaço para a saída adversária pelo meio-campo. No frame, contra a Nova Zelândia, por mais que existisse a maioridade numérica adversária e um jogador livre na cabeça de área, o pressing foi bem executado, resultando na devolução da bola ao campo peruano.

Melhor jogador? Paolo Guerrero

 PERU 6Números de Guerrero pelas Eliminatórias (SofaScore)

Não foi necessário ir muito longe e analisar muitos jogos para saber que Paolo Guerrero é o melhor jogador do Peru. Isso sem falar de sua idolatria e números gerais por seu país. Paolo fez uma de suas melhores Eliminatórias, terminando como um dos artilheiros, com 6 gols.

No caso do doping, a seleção passou a jogar sem ele, já achando que o atacante não conseguiria mais reverter a sua pena, estando ausente do Mundial. Com isso, passou a jogar com Farfán de falso 9. Em questão de desempenho, o time não sentiu sua falta pela excelente fase do camisa 10. Mas, quem conhece Guerrero, sabe que ele é importantíssimo em qualquer time/esquema e faria falta de um jeito ou de outro.

PERU 7Números do atacante em seu último jogo pelo Flamengo, contra a Chapecoense

 

Ao ser liberado, Paolo voltou a jogar pelo Peru diante da Arábia Saudita. E mostrou à que veio. Como na maioria das partidas, foi importante. Fez infiltrações, atuou nas costas do zagueiro, proporcionou profundidade, executou o pressing na saída de bola adversária quando necessário, venceu duelos (e primeiras bolas) e, por fim, marcou 2 gols. Por mais que Farfán viesse substituindo Guerrero à altura, o camisa 9 provou que, mesmo sem ritmo, pode ajudar e será muito bem-vindo em território russo.

Fique de olho em Renato Tapia

 PERU 8Números de Tapia jogando a Eredivisie pelo Feyenoord (SofaScore)

Eu poderia muito bem indicar, por exemplo, os já conhecidos Trauco, Cueva, Farfán e Ruidíaz, mas pouco acrescentaria à análise. A graça da indicação de um jogador para ficar de olho é que ele seja “desconhecido”, “azarão”, alguém que ninguém aposte as fichas e, no fim, acabe surpreendendo pelo bom futebol apresentado. É exatamente o significado do termo “underdog”, no qual classifico o camisa 13.

Renato Tapia é um meio-campista defensivo de 22 anos. Revelado pelo Esther Grande-PER, foi vendido, em 2013, ao Twente, da Holanda. Bastaram 3 anos para transferir-se ao Feyenoord, do mesmo país, onde joga até hoje. Por enquanto.

PERU 9Números de Tapia em sua última partida pelo Feyenoord, contra o Heerenveen

Tapia tem função essencial na Seleção Peruana e serve como o alicerce, ao lado de Yotún. Na posição de volante, Tapia tem a saída de bola, o passe vertical, a recomposição, a cobertura e leitura dos espaços e a presença em solo ofensiva como suas qualidades. Ainda mostra-se lento em seus gestos, mas compensa com a leitura do jogo.

Contra a Arábia Saudita, foi o melhor em campo. Ao mesmo tempo em que soube ser presente em ataques peruanos, soube não colocar o time em perigo defensivamente. Nas poucas subidas árabes, soube recompor a segunda linha do meio-campo, subir o bloco de marcação e ocupar os espaços deixados por Yotún. Portanto, Renato Tapia é a minha indicação de underdog do Mundial 2018.

PERU 10

É de conhecimento geral que o Peru está em um grupo equilibrado e tem confrontos complicados pela frente. Pretende surpreender o mundo e vencer a França e disputa, na teoria, a segunda vaga com a Dinamarca. Não posso dizer se vai passar, mas afirmo que a Seleção Peruana joga um futebol agradável e que vale a pena assistir nessa Copa do Mundo. Não se surpreendam com o time de Ricardo Gareca.

@caioaives

 

ANÁLISE GOLS

Por Pedro Cardoso Petrachini

GUERREROFoto: Reuters

Gols a favor

A seleção peruana de Ricardo Gareca tem boas qualidades ofensivas, e se engana quem pensa que só Paolo Guerrero joga no setor de ataque da equipe. Apesar de ser o principal nome, o camisa 9 tem boa companhia, e um sistema bem organizado para ajudá-lo.

Assim, não foi incomum, no ciclo que abrangeu desde o fim da Copa América 2016 até os primeiros amistosos de 2018, ver o Peru construindo gols a partir de troca de passes e movimentação. O meia Cueva, conhecido do futebol brasileiro, é peça importante nos tentos construídos com bola no chão. Exemplo claro é o segundo gol em amistoso contra a Croácia, em março. O time toca desde o campo de defesa e acelera no fim, superando a defesa rival.

Além das jogadas armadas com posse e movimento, a bola parada ofensiva foi um ponto importante. Ao todo, foram 29 gols em 18 jogos (média de 1,61). Destes, 9 saíram em jogadas iniciadas em faltas ou escanteios (31%), contando 2 tentos de pênalti e 2 de falta.

Apesar de o atacante mais famoso ser Guerrero, o artilheiro desta fase peruana foi Edinson Flores, meia que atua no Aalborg, da Dinamarca. Ele fez 7 gols, contra 6 de Paolo. Vale constatar que o centroavante do Flamengo perdeu os últimos jogos pelo caso de doping.

Gols contra

Neste recorte de 18 jogos, a defesa de Gareca teve fases distintas. No começo, era mais vulnerável, tornando-se mais segura no momento em que a seleção embalou de vez, a partir de 2017. Dividindo as partidas em dois blocos de 9 duelos, fica clara a evolução.

Na primeira metade, foram 13 gols sofridos (média de 1,44 por jogo). Na segunda, apenas 5, baixando para 0,55. E não dá para dizer que os adversários ficaram mais fracos. Nas partidas que indicam a evolução, houve rivais bem interessantes, como Argentina, Colômbia e Croácia, por exemplo.

Ao todo, com 18 tentos levados em 18 partidas, a média é de 1 por jogo. O principal problema foram as bolas paradas laterais, jogadas para a área. 5 lances deste tipo terminaram em gol contra o Peru, representando 27% do total.

@PedroPetrachini

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