Como um rondo, tudo flui: uma leitura da Espanha de Lopetegui – ANÁLISE TÁTICA DA ESPANHA

Por Hudson Martins

Na terceira ou quarta fileira de um curso de formação de treinadores de um grande clube espanhol, eu já havia feito extensas anotações, a maioria delas de caráter histórico e axiológico, os temas que havíamos discutido até então. Como geralmente acontece com os jovens e ansiosos aspirantes a treinador, eu esperava, com algum afinco, que chegássemos às discussões sobre tática, o que aconteceu poucos minutos mais tarde.

O instrutor começa sua fala apresentando o 1-3-2-1 em que o clube estrutura seus times até os doze anos, fazendo ainda breves observações sobre as respostas esperadas de cada jogador, em cada função. Após a explanação, uma voz, algumas fileiras atrás de mim, lança um questionamento interessante: mas como vocês lidam com as crianças de nível técnico muito inferior? Sem pensar, ele fez uma observação perspicaz:

Aqui no Brasil, quando um garoto é o piorzinho, vocês costumam colocá-lo como goleiro, certo? Lá, nós fazemos diferente: os mais fraquinhos geralmente são colocados como ‘puntas’. Sabe por quê? Porque não é lá que o jogo acontece. O jogo acontece no meio.

Ainda que ali estivesse uma convicção exacerbada, o argumento era interessante: de fato, o coração de uma equipe não está na grande área adversária. O coração de uma equipe está no coração do campo. Não é por acaso que um jogador como Sergio Busquets é formado como suposto zagueiro: no futebol de sete, ele é o central da linha de três, talvez o mais sensível ao tempo e ao espaço. Quando sobe para o futebol de onze, é ele quem deve defender atacando. Como eu mesmo defendi em outras oportunidades, este jogador não é exatamente o termômetro (que apenas mensura, sem agir sobre a temperatura), mas deve ser o metrônomo, que interfere ativamente no tempo da canção que é tocada em campo. E isso brota e floresce no meio do campo. Ao redor da bola.

Quando observei a Espanha de Julen Lopetegui com atenção, tive a nítida impressão de se tratar de uma equipe especial, por uma razão bastante clara: é uma dessas equipes que fazem o futebol parecer simples. Com a bola, a Espanha é passe e fluidez. Sem a bola, a Espanha é pressing, sempre que possível. Nas horas vagas, a Espanha é vertical. A gênese do jogo reside no meio. Como veremos abaixo, o próprio treinador admite que não se deve esperar nada de surpreendente desta Espanha. Em alguma medida, ela é previsível.

O que não tira o rótulo de uma das favoritas a jogar o melhor futebol desta Copa do Mundo. Vejamos melhor.

Lopetegui

Pouco antes de uma das mais emblemáticas vitórias deste ciclo (3 x 0 sobre a Itália, no Santiago Bernabeu), Julen Lopetegui deu uma declaração interessante, mesmo soando aparentemente contraditória:

“Nada diferente a otras semanas de trabajo. Hemos intentado ser normales y naturales en nuestra preparación. No habrá grandes sorpresas. Nosotros somos bastante predecibles en todo los momentos del juego y además queremos serlo. Confiamos en nuestras virtudes y vamos a intentar potenciarlas hasta el fin y creer en ellas. Y luego dependerá de cómo juegue el rival: con cinco, con cuatro, con Insigne, con Candreva… Depende. Eso es una cuestión de partido. No ha habido un ocultamiento especial, aunque tampoco haré pública la alineación, lógicamente”.

Repare que, inicialmente, parece razoável afirmar que a natureza do jogo esteja mais próxima do movimento do que da ausência dele, o que nos permitiria um questionamento imediato: como se pode ser previsível se o próprio jogo não o é? Bom, a resposta também está na citação: uma equipe que confia nas suas virtudes e que tenta potencializá-las está, em última análise, em sintonia íntima com seus próprios padrões, com as suas ideias. Sob a suposta modéstia de uma equipe que se considera previsível (e que prefere sê-lo), me parece oculta uma confiança inabalável no modelo de jogo, muito em razão das experiências positivas cultivadas nos últimos dois anos e que fazem esta Espanha pisar em solo russo com o ânimo que talvez estivesse perdido desde Kiev, em 2012.

Isso não se sustenta sem um olhar para o passado do treinador. Para além do simples fato de ter sido um atleta profissional de elite, Julen Lopetegui foi goleiro tanto do Real Madrid quanto do FC Barcelona. Mesmo tendo jogado pouquíssimos minutos no Camp Nou, conviveu com algumas das mentes mais férteis do futebol mundial – Pep Guardiola entre elas. Além disso, esteve na lista de convocados para a Copa do Mundo de 1994. Muito embora, ao menos aos nossos olhos tardios, não tenha tido uma carreira de imenso destaque, Lopetegui me parece um trabalhador silencioso, um proletário que ergueu sua ética paulatinamente e que tenta reproduzi-la – com uma certa discrição, longe dos holofotes – nas suas ações e no seu modelo. Como treinador, sua ascensão me parece representar uma negação da figura de espectador passivo da realidade futebolística espanhola para um papel de progressiva dominância no debate. É como se Lopetegui fizesse, nele mesmo, o que deseja para suas equipes.

WhatsApp Image 2018-06-07 at 16.00.49Ignore as setas, atente para a estrutura: 1-4-3-3, sem maiores dúvidas na primeira linha defensiva. No meio, me arrisco a dizer que Koke será titular, enquanto Thiago tende a entrar na vaga de Iniesta durante os jogos. Na frente, SIlva e Isco são titulares. Ao lado deles, Rodrigo me parece o favorito.

Como bem sabemos, Julen foi treinador das categorias inferiores da federação espanhola por cinco anos, vindo do Real Madrid Castilla. Na seleção, trabalhando entre o sub-19 e o sub-21, participou ativamente de uma fase que já seria altamente sensível no processo formativo de qualquer pessoa, mas talvez o seja ainda mais para um futebolista, que enfrenta um processo duplo: a transição para a vida adulta e a transição para o futebol profissional. Educar um jovem na fase de especialização está longe de ser uma tarefa simples, pois eles ocultam seus questionamentos mais profundos atrás de um infinito leque de certezas, que apenas os educadores mais hábeis conseguem abalar. Neste caso específico, falamos de jovens jogadores com dezenas de milhares de horas de treinamento nas costas, algum interesse midiático, contratos relativamente importantes em mãos e uma visão ainda romântica do mundo, como se o universo estivesse, silenciosamente, trabalhando em função deles todos. O treinador, para muito além de quem planeja, executa e avalia seus micro/meso/macrociclos, é o educador que deve direcionar o educando para o mundo real, ao invés dos mundos ideais que aí estão. Mais ainda se considerarmos que o jogo pode ser um microcosmo do universo.

Infelizmente, não temos argumentos para nos aprofundarmos sobre o nível das relações construídas por Lopetegui. O que podemos dizer que ele participou ativamente do processo formativo de uma série de jogadores que, mesmo não estando neste grupo de convocados, têm alguma relevância para o futebol espanhol contemporâneo. São os casos de Juan Bernat, Iñigo Martínez, Asier Illarramendi, Javi Martínez, Marc Bartra, Ander Herrera, Oliver Torres, Denis Suarez, Dani Parejo, Suso Fernandez, Iker Muniaín, Sergio Canales e Alvaro Morata. Muito embora seja um lugar comum para várias seleções, repare na qualidade dos atletas que não estiveram na lista (e aqui falamos apenas de parte daqueles que foram treinados por Lopetegui na base).

A outra face está nos atletas que trabalharam com ele nas categorias inferiores e estão selecionados. São eles David de Gea, Dani Carvajal, Nacho Fernandez, Isco Alarcón, Thiago Alcantara, Koke Ressurreción e Rodrigo Moreno. Dos sete, apenas Nacho está mais afastado da titularidade. Todos os outros, além de serem substancialmente relevantes nos seus clubes, ou são titulares absolutos da seleção (de Gea, Carvajal, Isco), ou são nomes que certamente terão minutos durante o Mundial (Koke, Rodrigo, Thiago – sobre quem falaremos melhor abaixo). No caso específico de Isco, Lopetegui parece fazer um trabalho elogiável de recuperação anímica de um jogador que não parece exatamente à vontade no Real Madrid, mas sente-se em casa na seleção.

Desde as categorias menores, um modelo que parte da bola, geralmente estruturado em um 1-4-3-3, com um triângulo de base alta (volante + dois meias). Construção apoiada desde a primeira fase, tentativa de protagonismo através da bola, movimentos sucessivos dos meias, extremos deixando o corredor para os laterais e criando superioridades por dentro. Em linhas gerais, algo bastante similar ao que também vemos nesta Espanha. Para além do salto daqueles jogadores, que trabalharam com Julen anteriormente, parece um salto importante do próprio treinador, que foi das seleções de base à profissional após apenas três anos. Talvez a distância não seja tão grande assim, afinal.

Fluidez

Nos recentes esforços a que tenho me detido, tento discutir a importância de um olhar humanizado sobre o jogo. Uma das formas de se fazer isso é através do reconhecimento dos nossos limites no jogo de futebol. Tornou-se comum superestimar a interferência humana no jogo, como se o processo e o produto estivessem sob controle absoluto de treinador e jogadores. Me parece um equívoco: nossa interferência é bastante limitada, simplesmente porque o jogo tem a sua própria razão, para muito além da razão humana. É como se os jogadores fossem um instrumento utilizado pelo jogo para si próprio, e não o jogo um instrumento ao bel prazer dos jogadores.

Neste sentido, me parece saudável desapegar-se dos ideais de controle. Huizinga explica:

Mas reconhecer o jogo é, forçosamente, reconhecer o espírito, pois o jogo, seja qual for sua essência, não é material. Ultrapassa, mesmo no mundo animal, os limites da realidade física. Do ponto de vista da concepção determinista de um mundo regido pela ação de forças cegas, o jogo seria inteiramente supérfluo. Só se torna possível, pensável e compreensível quando a presença do espírito destroi o determinismo absoluto do cosmos. A própria existência do jogo é uma confirmação permanente da natureza supralógica da situação humana. Se os animais são capazes de brincar, é porque são alguma coisa mais do que simples seres mecânicos. Se brincamos e jogamos, e temos consciência disso, é porque somos mais do que simples seres racionais, porque o jogo é irracional.¹

Neste percurso, recordo ainda uma discussão importante entre os gregos, especificamente Parmênides e Heráclito. Ainda nos primórdios do entendimento do ser, Parmênides assentiu que o ser era eterno, imóvel, imutável. Ou seja, o ser era cognoscível. Heráclito, por sua vez, diz o extremo oposto. Para ele, o ser era devir, era movimento constante. O homem não se banha duas vezes no mesmo rio, afinal, o homem é diferente e o rio também. Sendo movimento constante, o ser, neste caso, não pode ser conhecido. Quando se tenta conhecê-lo, ele já não é o que era antes.

Guardadas as devidas reduções, tenho um apreço bastante razoável pelas ideias de Heráclito, que estudo aos poucos. E não consigo dissociá-las da natureza do jogo de futebol. O jogo, para além da questão supralógica citada por Huizinga, me parece movimento constante, um movimento tão constante que, em última análise, impede que conheçamos o jogo na sua inteireza. Aqui, tanto os boleiros mais ortodoxos quanto os acadêmicos mais tradicionais tropeçam: os primeiros, porque acreditam que o futebol é um dom dado por alguém (e que só pode ser ensinado por quem recebeu o presente divino). Os outros, porque acham que o conhecimento científico é capaz de interpretar, na sua inteireza, a complexidade do jogo – o que está muito distante da verdade.

Conscientemente ou não, me parece que Julen Lopetegui capta com precisão a mobilidade do jogo e, para além disso, aplica essa ideia no seu modelo. Uma das características principais desta Espanha é a fluidez da sua organização ofensiva, perceptível desde os primeiros metros da construção até a finalização ao gol adversário. Ao invés da posição fixa, a Espanha quer o movimento. Minha hipótese é que este movimento está muito bem representado em uma das estratégias metodológicas mais sólidas do processo formativo espanhol, os rondos. Ao mesmo tempo, é um movimento que talvez dialogue com um outro tempo, com o futebol do devir.

Breve explicação sobre a origem dos rondos, no ótimo ‘Senda de Campeones’.

Sobre os rondos, sabemos plenamente que ocupam um lugar central no processo formativo do jogador espanhol. Em entrevista recente, Xavi Hernández (cuja propriedade no assunto parece indiscutível) definiu melhor:

La gente todavía piensa que el rondo es para disfrutar. ¡No! El rondo es un ejercicio increíble: las dos piernas, mirar a tu segunda línea, meter el pase por dentro, atraer, atraer y cuando viene el defensa pum, das el pase al otro lado… No se agota. Es un ejercicio que permite un desarrollo infinito.

As duas pernas, a segunda linha, o passe por dentro, atrair e passar ao outro lado… a riqueza do rondo é realmente admirável. Mas ela não se expressa apenas na tomada de decisão com bola. Há uma dimensão posicional muito importante ali. Seja nos rondos pequenos (do ponto de vista numérico), seja nos grandes, falamos de alguns jogadores fora e outros jogadores dentro. Quatro fora, dois dentro. Seis fora, três dentro. Nove fora, quatro dentro. As possibilidades são infinitas, mas não alteram o quadro maior: um número importante de jogadores nas margens, gerando amplitude e profundidade, e um número menor de jogadores por dentro, para recuperar a posse ou, eventualmente, na incumbência de criar apoios. O máximo possível.

As milhares de horas de rondos acumuladas por cada um dos centrocampistas já seriam suficientes para fornecer um léxico futebolístico mais do que adequado para qualquer jogador espanhol. Mas Lopetegui parece ter conseguido um salto importante: ele aplica, com diligência, o movimento, a ubicación, ou seja: a fluidez durante o jogo formal, com o abandono estruturas mais fixas, especialmente a partir do meio-campo, em nome de mais liberdade para os criativos. Algo muito próximo de sete fora, três dentro. Ou seis para quatro, não importa: alguns saem, outros entram. Os rondos seguem.

Isco e a fluidez posicional de que falamos acima. Veja com atenção.

O objetivo é muito claro: causar danos. A questão é que causar danos não se restringe à ideia de superioridade numérica, exatamente porque ela não basta. O tercer hombre não é mais suficiente: é preciso criar danos através do espaço (superioridade posicional) e, a partir dele, através do improviso (superioridade qualitativa). E, para além delas, ainda podemos considerar um outro tipo de superioridade, mais sutil – talvez por isso mais danosa: a sócio-afetiva, os rastros que vínculos e afetos deixam no modelo de jogo. Os rondos são assustadoramente eficientes porque, embora aparentem enorme simplicidade, são ricos. E neles estão as quatro superioridades de que falamos. Basta procurar.

Foi exatamente assistindo a um dos jogos da Espanha de Lopetegui (a saber, o empate contra a Alemanha, em Dusseldorf), em um dos pequenos rondos feitos no meio de um ataque qualquer, que me ocorreu uma ideia irresistível: estes rondos não têm apenas uma simbologia futebolística, mas também carregam uma outra enorme simbologia, mais antropológica. Os rondos deste time são pequenas tauromaquias, são touradas no campo de futebol. Assim como as touradas, na sua gênese, eram o teste supremo dos cavaleiros medievais, os rondos são a prova de fogo do futebolista espanhol. O adversário é o touro, a bola é o capote. O adversário é enganado, sucessivamente, como se engana um touro dos mais bravos. E quando se escapa da zona de pressão, tudo começa outra vez. Até o gol.

O movimento de que falamos não é abstrato, está em função da bola. A Espanha está precavida para criar superioridades no centro de jogo, especialmente em situações de redução espaço-temporal (laterais/linha de fundo/pressing adversário). O simples movimento da bola na mais tenra fase de construção ofensiva, incluindo aqui o envolvimento admirável de De Gea, já seria suficiente para agradar mesmo o espectador mais leigo.

Mas o melhor acontece da segunda fase da construção em diante. À medida em avança no campo, a Espanha cria mecanismos, especialmente a partir de Isco, que permitem uma fluidez pornográfica no campo ofensivo adversário. David Silva sai da direita para o centro, liberando o corredor não apenas para Dani Carvajal, mas para os ataques diagonais de Koke ao espaço vazio. Os centroavantes (sobre os quais falaremos melhor abaixo) oscilam em largura e profundidade, com o objetivo primeiro de gerar apoios interiores – requisito a priori para se chegar ao gol. Carvajal e Jordi Alba têm liberdade ofensiva, muito embora com pequenas regras, tais como o lateral oposto atrás da linha da bola. Ao mesmo tempo, o ataque ao espaço vazio a partir dos laterais me parece distinto: enquanto Carvajal tende a procurar o espaço em profundidade pelo corredor, em direção à linha de fundo, Alba pode tanto atacar o corredor quanto buscar a diagonal, especialmente na presença de Marco Asensio, que tende a jogar mais aberto – exatamente como no primeiro gol contra a Rússia, em amistoso recente.

Mas o jogo acontece no meio. E ali estão Sergio Busquets, Thiago Alcantara, Koke, Andrés Iniesta, David Silva e Isco. Sobre Iniesta, me parece que ele personifica uma espécie de pilar em que se baseiam os companheiros na tomada de decisão. Se Iniesta cria um apoio, é por ser estritamente necessário. Se sobe metros, é porque os zagueiros podem conduzir. Se passa a bola, como passa, para quem… qualquer detalhe é relevante quando parte de Andrés. Me atenho aqui porque me parece um diferencial importante ter um jogador que inspire tamanho respeito (nos companheiros e adversários) e que, não por acaso, parte do meio. O meio é o fim.

Uma das brincadeiras da Espanha contra a atual campeã mundial, em março. Ignore a má resolução no começo.

Puntas

Como observamos no início, a função do centroavante neste modelo parece razoavelmente distante daquela que idealizamos no Brasil. Não são os meias que trabalham para os atacantes, mas os atacantes que trabalham para os meias. O fim é o meio. Rodrigo Moreno – em quem eu apostaria como titular para o jogo contra Portugal – em recente entrevista ao El Pais, falou mais abertamente sobre o tema:

“Nuestro papel es muy importante porque además de ser los que tenemos que meter el balón en la portería tenemos que ofrecer soluciones de desmarque para desahogar al equipo. No solo yendo hacia el espacio sino también hacia el balón. Hay que querer jugar también, en España el fútbol combinativo tiene un papel importante y todos tenemos que participar. Aquí te lo inculcan desde las selecciones inferiores. Cuando llegas al primer equipo ya traes muchos conceptos”.

Ou seja, ao centroavante cabe interpretar qual é o momento de profundizar (o que implica dar mais metros para Iniesta, Thiago, Koke ou Isco) e qual é o momento de recuar metros, oferecendo apoios interiores e, atraindo os zagueiros, abrir espaço às suas costas. Qual o espaço e a linguagem corporal mais favorável para receber um passe de De Gea (Rodrigo, neste sentido, tem sido absolutamente admirável). Ou mesmo quando o melhor desmarque é ficar parado. Em absoluto, repare que a mensurável de sucesso de um centroavante espanhol não reside na frieza dos números, mas na capacidade de adaptar-se ao modelo e, evidentemente, de oferecer opções.

É neste sentido que entendemos, por exemplo, porque um centroavante como Aritz Aduriz sequer foi cogitado após um determinado período no ciclo – em que pese a péssima temporada do Athletic Club. Minha mais sincera impressão é que Lopetegui decidiu que, dentre os menos móveis, por assim dizer, levaria apenas um. Talvez aqui esteja um caminho para entendermos a ausência de Álvaro Morata e, ao mesmo tempo, uma explicação para as claríssimas tentativas de recuperação da confiança de Diego Costa. Sabidamente, se trata de um jogador de níveis assustadores de força e potência mas que, ao mesmo tempo (e considerando o fato de não ter passado pelas categorias menores da seleção), não tem a leitura espacial de um Rodrigo ou de um Iago Aspas. Diego, aliás, foi titular contra a Suíça. Novamente discreto.

Assim, Rodrigo Moreno me parece o favorito para somar mais minutos durante o Mundial. Diego me parece à frente de Aspas, sendo que este último, por sua vez, pode encontrar um breve espaço pelas pelas bandas. Não me surpreenderia se visse David Silva por dentro, algo próximo do que fez Cesc Fabregas em 2010 e 2012 e que julgo ter visto muito esporadicamente em algum dos amistosos, posso estar enganado. É uma estrutura igualmente passível de causar danos, ainda que não seja a mais provável.

Pressing

Como argumentamos previamente, um dos méritos de Lopetegui está na capacidade de manter-se fiel a um estilo, ainda que o faça com algumas matizes próprias. Uma delas, que certamente será vista já nos primeiros minutos do jogo contra Portugal, é o pressing. Qual é a ideia? A ideia é o roubo e a verticalidade. Muito embora o cerne deste time esteja na bola, na manutenção da posse e na progressão, esta Espanha parece flertar mais seriamente com alguns momentos mais verticais. O que nem sempre acontece confortavelmente: em parte do primeiro tempo contra a Argentina, por exemplo, a Espanha foi obrigada a ser mais vertical, porque quem dominava as ações com bola era o adversário.

Gostaria de ter observado com mais tempo e atenção os gatilhos que permitem a pressão espanhola. Por ora, me parecem dois: o primeiro é claramente a perda da posse no último terço. Evidentemente, trata-se de uma tácita manifestação do desejo espanhol de ter a bola e de buscá-la tão logo ela se vai (neste sentido, repare que temos uma diferença importante para uma seleção como a brasileira, que não pressiona com a mesma intensidade ao longo do tempo). Isso demonstra uma face bastante interessante do modelo, porque a fluidez de que falamos acima também se exprime no pressing, ou seja: a Espanha não guarda posição para recuperar a bola, mas recupera a bola para, então, posicionar-se em movimento (alguns fora, outros dentro). Isso implica em uma pressão vinculada à posição da bola, e que prescinde, assim como no ataque, da equipe inteira. Talvez Gerard Piqué, Sergio Ramos e de Gea sejam os que mais se aproximem de guardar posição (o que não significa fazê-lo). Tenha atenção especial aos movimentos de Busquets em transição defensiva: são geralmente verticais. Para defender, um passo a frente. Ou mais.

Ainda no pressing, dois jogadores me parecem muito importantes: Dani Carvajal e Koke Ressurreción. Repare que, primeiramente, falamos de dois jogadores vizinhos, à direita do campo. Depois, lembre-se de que falamos de dois atletas que carregam consigo uma fisicalidade mais do que considerável. Koke, não nos esqueçamos, está habituadíssimo a fazer os corredores laterais, muito embora parta de uma posição mais central nesta Espanha de Lopetegui.

Ainda que não seja o mais talentoso dos meias convocados, desconfio que Koke terá muitos minutos nesta Copa do Mundo, e um dos motivos reside exatamente no pressing. Para muito além de subir as linhas, esta Espanha sobe as linhas com agressividade, faz um pressing ativo, que busca o desarme ou um erro forçado do adversário o mais rápido possível. Neste sentido, Koke não apenas me parece absolutamente importante, como me parece superior a todos os meias deste grupo – exceção feita a Busquets. Este é um dos motivos que me levam a crer que a situação de Thiago Alcântara está longe de ser confortável: como veremos abaixo, Busquets lê o espaço do pivote melhor do que ele, e Koke é uma espécie de carrillero que sustenta fisicamente um modelo também baseado na pressão. Eu realmente não me surpreenderia se Koke terminasse a Copa do Mundo com tantos minutos jogados quanto Thiago.

O mesmo se sucede na lateral, onde me parece haver, guardadas as devidas proporções, uma situação muito parecida. Alvaro Odriozola é um lateral sabidamente talentoso. Mas, neste modelo, a capacidade pressionante de Dani Carvajal me parece ser ainda mais adequada – talvez uma das razões pelo seu choro copioso em Kiev, quando temeu por uma lesão mais grave. Carvajal me parece muito à vontade para correr os riscos necessários no pressing, subindo metros em setores cada vez mais altos do campo, o que não necessariamente se sucede com Odriozola, como já pudemos observar no amistoso contra a Suíça, quando ele me pareceu bastante cuidadoso no momento defensivo.

Defesa

Quando organizada defensivamente, a Espanha pode oscilar entre o 1-4-4-2 e o 1-4-1-4-1. O que vai definir a estrutura defensiva? Bom, me parece que a ideia de Lopetegui é organizar-se com eficiência, mas desgastando minimamente Andrés Iniesta e David Silva. Em alguns momentos, Iniesta irá compor uma linha de meio-campistas logo à frente de Busquets ou Thiago. Em outros, estará uma linha acima, direcionando o início da construção ofensiva adversária. Neste sentido, são admiráveis algumas das leituras defensivas de Iniesta, e cito como exemplo uma interceptação aos 44 minutos do primeiro tempo do jogo contra a Argentina. Como dizíamos, é importante preservar Silva e Iniesta, especialmente este, que deve ter uma média de 60 minutos em campo por jogo. Na presença de Rodrigo/Diego/Aspas, imagino que Silva recomponha pelo corredor direito defensivo.

Como percebe-se abaixo, é comum ver a Espanha se defendendo em 25 ou 30 metros, bloco médio/baixo, especialmente contra seleções que têm maior facilidade na manutenção da posse (o que não me parece um cenário provável para os jogos da primeira fase, por exemplo). Me parece haver uma preocupação bastante flagrante com o corredor central, liberando eventualmente os corredores laterais, cuja premissa talvez seja evitar que Iniesta seja exposto a situações debilitantes e, ao mesmo tempo, busca lançar o adversário para os flancos, porque é lá que estão os gatilhos para a pressão que pode abrir espaço para uma transição ofensiva.

Não nos esqueçamos que Pique e Ramos formam uma das duplas mais dominantes do Mundial, além de me parecem personalidades complementares (e, no segundo caso, não necessariamente agradáveis para os adversários). Ramos está em um momento realmente vitorioso, e este tipo de mentalidade me parece bastante relevante em contextos de grande pressão e erro mínimo. Na ausência de qualquer um dos dois, Cesar Azpilicueta me parece a opção imediata, muito embora devamos ressalvar que, aqui, ele não defenderá em uma linha de cinco, como acontece no Chelsea. Nacho Fernandez me parece com menores probabilidades de jogar.

Chamo a atenção para a intermediária defensiva, logicamente orquestrada por Sergio Busquets. Em algumas situações durante o ciclo (inclusive no recente amistoso contra a Suíça), Busquets foi substituído por Thiago Alcântara. Como bem sabemos, Thiago está habituado à função desde os tempos de Guardiola no Bayern, e ali fez algumas atuações interessantes, como a recente semi-final contra o Real Madrid no Bernabeu. Muito embora a entrada de Thiago na vaga de Busquets seja uma situação apenas possível em caso de lesão/suspensão, não deixa de ser uma possibilidade. Por isso, faço uma ressalva importante: muito embora seja um jogador muito confortável com a bola, me parece que Thiago (talvez por ter tido menos horas nessa função durante o processo formativo) ainda comete alguns equívocos importantes nas leituras espaciais em momento defensivo, bastante claras no primeiro tempo dos amistosos contra a Alemanha (1 x 1) e contra a Rússia (3 x 3). Thiago ainda me parece menos condicionado ao espaço (mais condicionado ao homem) do que Busquets e isso pode trazer danos, especialmente quando a Espanha se defende em 1-4-1-4-1, com Thiago equilibrando as linhas. Além disso, como já fora observado, a própria natureza dominante do modelo de jogo espanhol tem como uma de suas consequências a sobrecarga defensiva de Busquets e, eventualmente, do próprio Thiago.

Ainda no setor, uma última opção é Saúl Ñiguez, que recentemente demonstrou alguma empolgação em jogar por ali. Honestamente, me parece difícil que Saúl tenha muitos minutos em campo. Por outro lado, é importante ressaltar que falamos do terceiro maior desarmador do Campeonato Espanhol – admiráveis 3.7 desarmes/jogo, em que pese o modelo do Atletico. Saúl me parece amadurecer em larga escala para ocupar uma posição de maior protagonismo no próximo ciclo, eventualmente às portas de uma possível aposentadoria de Busquets da seleção.

DESTAQUE – ISCO

Isco é um jogador chama a atenção logo ao primeiro toque. Desde a primeira vez em que o vi jogar, há cinco anos, no Europeu Sub-21 de 2013 (vencido pela Espanha de Lopetegui), Isco me agrada pela conjunção entre uma técnica refinadíssima e uma coordenação corporal bastante particular, como se o corpo inteiro estivesse comprometido com a decisão certa, seja ela um passe longo para o lado oposto, um drible em curto espaço ou mesmo um passe curto – normalmente o que causa mais danos.

Por razões que nos escapam, Isco oscilou substancialmente desde a transferência do Málaga para o Real Madrid. Os leitores mais atentos observarão que Isco não esteve na Copa do Mundo do Brasil (o que era esperado), assim como não esteve na Eurocopa da França – quando já poderia perscrutar um caminho que o levasse ao protagonismo. Muito embora o tempo de maturação seja absolutamente subjetivo (e não me refiro aqui à maturação física) me parece importante pontuar que, no caso de Isco, há uma espécie de contradição: embora seja um jogador absolutamente admirável na seleção, o mesmo não se sucede no Real Madrid. Mesmo somando muito minutos no clube (mais de 2000 nesta temporada), ele parece estar bem distante do jogador que é na seleção.

Pensemos em algumas hipóteses. O Real Madrid, como sabemos, cultiva um ethos razoavelmente estelar, e uma das características das estrelas é que elas são mais resistentes ao tempo (como são Ronaldo, Kroos, Modric, Bale..). Isco ainda não alcançou este status, o que significa que, no clube, ele deve primeiramente trabalhar para as estrelas, antes que alguém trabalhe por ele. Uma prova cabal disso são as obrigações defensivas que lhe cabem, talvez claramente expostas no jogo de ida das oitavas-de-final na UEFA Champions League contra o Paris Saint-Germain. Isco tinha liberdade para criar no 1-4-3-1-2 mas, em transição defensiva, precisava voltar 40 ou 50 metros, em pouco tempo, para recompor a linha média defensiva pelo corredor direito. Como sabemos, esta não é apenas uma questão de equilíbrio coletivo. É uma forma de descansar Cristiano Ronaldo, por exemplo.

Na seleção, Lopetegui parece ter encontrado uma fórmula bastante que permite o florescimento de Isco, ao mesmo tempo em que não bloqueia o rendimento dos companheiros. A fluidez de que tanto falamos soa bastante agradável para Isco, pois ele me parece um jogador que gosta da bola e que precisa de repetidas ações ofensivas para sentir-se útil.

Ao mesmo tempo, Lopetegui me parece ter lançado mão de uma habilidade moral bastante razoável, provavelmente herdeira do trabalho feito por ele próprio nas categorias de base: conseguiu estabelecer uma relação de confiança que não apenas trouxe para o protagonismo um jogador que ainda não havia alcançado este status pela seleção, como agora parece fazê-lo de imediato, como se o simples fato de juntar-se ao grupo nacional fizesse florescer uma outra versão do mesmo jogador. A resposta? Segundo ele próprio, aquí el seleccionador cree en mí. Zidane responderia mais tarde.

Isco contra a Alemanha. Desfrute.

Conclusão

Muito embora sejam importantes todas as formas de precaução nestes momentos, me parece razoável admitir que a Espanha chega para esta Copa do Mundo como uma das favoritas. A conjunção entre a maturidade de uma ideia, a iniciativa de um treinador, uma geração absolutamente talentosa (e habituada a vencer ao nível de clubes) e um ânimo poucas vezes visto na história recente me fazem crer em uma combinação potencialmente perigosa.

Gostaria de ter dedicado mais linhas às fraquezas e pormenores do modelo, mas as restrições de tempo e minhas próprias limitações me impedem. De qualquer forma, espero que o artigo desperte nos leitores e leitoras um mínimo interesse em acompanhar aquela que tende a ser a seleção mais agradável de se assistir durante o próximo mês.

Como um rio (como um rondo), a Espanha é a seleção que flui sem cessar. E, ainda que fosse previsível, talvez houvesse algo mais a ser visto, preferencialmente ao vivo. Neste caso, sempre há.

¹ Johan Huizinga, Homo Ludens, página 6.

@hurmp

ANÁLISE GOLS

 Por Pedro Cardoso Petrachini

esp 3Foto: Claudio Villa/Getty Images

 

Gols a favor

A Espanha de Julen Lopetegui chega como uma das principais forças da Copa do Mundo, e muito disso se deve ao poder ofensivo. Sob o comando do treinador, que assumiu após a Euro 2016, o time tem muita força no ataque. Em 18 partidas, foram 59 gols (média de 3,27). E o que mais impressiona é a variação de jogadas.

Gostando de manter a posse da bola, a Fúria se movimenta intensamente no setor ofensivo. Joga formando triângulos, atacando espaços e criando oportunidades. Assim, não depende um centroavante, e nem tem uma jogada pré-definida como principal fonte de criação. O padrão é ter a pelota nos pés e trabalhar até que o espaço apareça na defesa rival.

Na maioria das vezes, os lances passam pelos dois lados e pelo meio-campo. A troca de passes é intensa e veloz, o que faz os espaços surgirem para infiltrações na área. As chegadas se dão por trás da última linha, ou mesmo abrindo pelas pontas. O que marca o ataque espanhol é a criatividade. Apenas 9 tentos saíram em bola parada, 15% do total. Contra-ataques também foram raros: 3 gols.

Pela força do coletivo e das jogadas com muito movimento, o time não depende de um centroavante fazedor de gols, ainda que tenha alguns à disposição, com destaque para Diego Costa. Prova disso é que o treinador abriu mão de levar Morata, do Chelsea, ao Mundial.

Para provar que o estilo de atuar é o que leva os espanhóis aos gols, nada melhor do que citar os dois principais artilheiros da era Lopetegui foram dois meias com capacidade de encontrar espaços para se infiltrarem. David Silva fez 11 tentos, enquanto Isco marcou 9. Na sequência, vieram os atacantes Morata (7) e Diego Costa (6).

 

Gols contra

Por jogar com a bola nos pés por muito tempo, é natural que a Espanha leve poucos gols. Afinal, se possui a posse, não corre tantos riscos de ter a defesa vazada. Além disso, vários defensores da equipe são excelentes, como o goleiro De Gea e os zagueiros Piqué e Sergio Ramos, entre outros.

Nos 18 jogos com Lopetegui, foram apenas 12 tentos sofridos, com bela média de 0,66. O tipo de lance que mais levou a bola às redes da Fúria foram as bolas paradas jogadas na área: 3 vezes.

Por atuarem com alto número de atletas no campo de ataque, em jogadas posicionais, a defesa espanhola acabou sofrendo também com contra-ataques e com lances nos quais os zagueiros se encontravam em posicionamento adiantado, dando espaços nas costas. De qualquer forma, os números mostram que o time não costuma ficar exposto demais.

@pedropetrachini

 

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