Os súditos do Rei Salah – ANÁLISE TÁTICA DO EGITO

Por Sergio Santana

Dono de uma das classificações mais dramáticas das seleções classificadas para a Copa do Mundo, o Egito retorna ao principal torneio do planeta após 28 anos, já que a última participação foi em 1990, na Itália. Para conquistar essa vaga, os egípcios superaram um grupo com Uganda, Gana e Congo, vencendo quatro partidas, empatando uma e perdendo outra.

É impossível não falar de Egito sem citar Mohamed Salah. Apesar de sua presença na estreia, contra o Uruguai, não estar garantida, por conta da lesão no ombro na final da Uefa Champions League, o jogo da equipe treinada por Héctor Cuper passa muito pelos pés do camisa 10, principal fonte técnica do elenco. Não apenas no astro do Liverpool, atuando pelo lado direito, mas o esquema do Egito é um que preza pelas jogadas nas beiradas do campo.

Para isso, é preciso criar cenários favoráveis para que a bola chegue em Salah e Ramadan Sobhi ou Trézéguet, que brigarão pela vaga no lado esquerdo. Nesse contexto, o volante Mohamed Elneny, do Arsenal, é peça fundamental no esquema: dono de um bom passe e de boa movimentação nos dois lados do campo, o camisa 17 é o grande organizador do jogo egípcio, mesmo não jogando como – de fato – um armador.

Capturar

Normalmente, o Egito entra em campo em um 4-2-3-1, formação que favorece – como citado anteriormente – o jogo pelas beiradas do campo. Atacando, porém, há uma variação em algumas ocasiões: Abdallah Said, o meia mais avançado da formação, se infiltra para a área, promovendo a locomoção de Ahmed Hassan, o atacante, para os lados ou até recuando para a entrada da área, o que resulta em uma espécie de 4-2-4 (ou 4-4-2).

 EGITO 1Said avança e Elneny assume o posto de organizador do jogo. Em ataques mais rápidos, porém, é comum ver o atleta do Arsenal trocando de função e sendo o atleta que infiltra na área. Todos esses fatores exemplificam uma equipe que se movimenta bastante (Foto: Reprodução)

O jogo posicional se completa quando Elneny, assumindo o posto de armador, tem a bola nos pés e passa a explorar passes de ruptura ou bolas em profundidade, tentando achar os atletas que estão no lado do campo, oferecendo amplitude a equipe, que podem tentar resolver a jogada por meio de sua habilidade, driblando adversários, ou cruzar para o meio da área, onde Said e Kouka estão presentes.

No momento após a recuperação de bola, os papéis de Elneny e Said se invertem: o atleta do Arsenal, em vez de centralizar e articular o jogo, se infiltra por trás dos defensores adversários, contando com os espaços gerados pela amplitude dos jogadores de lado, que estão o tempo todo ativos pelas beiradas do campo, seja ofensiva ou defensivamente. Porém, Mohamed Salah não recompõe tanto como o atleta da outra banda, justamente para conseguir aproveitar um possível cenário de desorganização da defesa rival.

A equipe de Héctor Cuper, num geral, é marcada pela intensa movimentação de seus homens de ataque, que trocam passes em um determinado lado e se mexem a todo momento buscando deixar um jogador livre. Esse atleta, geralmente, é o que está do lado oposto àquele em que a jogada está concentrada, justamente para aproveitar um possível espaço gerado pela desatenção rival. É um time interessante, de intensas trocas de posições e muita participação – obviamente – pelos lados do campo.

Outro ponto interessante da equipe é a tranquilidade para a saída de bola. É muito difícil ver os jogadores de defesa, mesmo que eles estejam longe de ser exímios passadores, recorrerem à ligação direta em uma saída de bola; o objetivo é buscar triangulações com participação dos volantes e dos pontas para conseguir sair de uma suposta pressão da equipe adversária.

No vídeo, apesar de retratar um momento de retorno da partida, mostra esse cenário: os dois zagueiros trocam passes entre si até que apareça uma opção, também é possível enxergar o volante Tarek Hamed aparecer e ser mais uma opção de toque, mas o atleta, sendo marcado, não recebe a bola, que é tocada para o lateral Abdel-shafy, que tenta vencer o adversário na velocidade.

Essa é uma das dificuldades do Egito: suportar a pressão da equipe adversária na sua saída de bola. Como citado anteriormente, os defensores tem uma certa dificuldade em sair jogando com a pelota em seus pés e, consequentemente, nem sempre conseguem superar os jogadores rivais posicionados em seu campo. Quando os egípcios perdem a posse nestes cenários, geralmente têm dificuldade de se recompor por completo.

Destaque – Mohamed Salah

SALAH 2Salah foi o herói da classificação do Egito para a Copa do Mundo (Foto: NurPhoto/Getty Images)

Mohamed Salah viveu a temporada de sua vida. Contratado pelo Liverpool no início da janela cercado de dúvidas, o egípcio respondeu ao mundo da melhor maneira possível, reproduzindo uma das melhores épocas que um africano já conseguiu fazer na história do futebol, se colocando num patamar – ou perto disso – ao lado do liberiano George Weah, o único jogador nascido na África que conquistou a bola de ouro.

Jogando pelo lado direito do ataque, Salah consegue ter acesso às suas principais qualidades com facilidade: o corte em diagonal, a velocidade e o drible. Ainda completando este pacote, o egípcio evoluiu muito no quesito de finalização na Inglaterra, se tornando um jogador completo. Ao todo, foram 44 gols e 16 assistências: é um dos candidatos para o prêmio de melhor atleta da temporada e a grande esperança dos Faraós de superar a fase de grupos.

Fique de olho – Mohamed Elneny

EGIYO 3O controlador do jogo (Foto: Robert Hradil/Getty Images)

É um dos melhores passadores dessa Copa do Mundo. Um jogador que, sob o comando de Arsène Wenger no Arsenal, desenvolveu um enorme senso tático e de posicionamento, se tornando um interessante controlador e atacador de espaços, o que o ajuda a superar algumas de suas dificuldades defensivas, como dar botes e pressionar um adversário com seu físico.

Como visto anteriormente, Elneny é peça-chave na seleção de Héctor Cuper justamente pela sua qualidade no passe e sua movimentação, fatores que evoluíram exponencialmente por conta da contribuição da Premier League, que é um campeonato muito dinâmico, o que exige uma alta coordenação de movimentos por parte dos atletas. Atrelado a isso, está a qualidade para rodar a bola e criar situações favoráveis aos seus companheiros de equipe.

@sergiostn_

 

ANÁLISE GOLS

Por Pedro Cardoso Petrachini

EGITOS 2 SALAFoto: Robbie Jay Barratt – AMA-Getty Images

 

Gols a favor

A seleção do Egito tem um trabalho já consolidado com o experiente técnico Héctor Cuper, que chegou ao comando em março de 2015. Assim, é possível ver o padrão ofensivo nos gols marcados. E, como não poderia ser diferente, o jogo gira em torno do craque Mohamed Salah. Não por acaso, ele foi o principal artilheiro deste ciclo, com 12 gols (27% dos 44 marcados ao todo), o dobro do segundo colocado Said, que fez 6.

O atleta do Liverpool costuma atuar pelo lado direito. Assim, o principal objetivo dos africanos no momento ofensivo é, em construções rápidas e curtas, fazer a bola chegar a este setor. Além de Salah, outros jogadores (laterais, meias…) se aproximam, buscando gerar superioridade numérica. Assim, aparecem espaços para cruzamentos, que encontram alguém na área. Assim, saíram 10 dos 44 gols (22%).

Vale destacar também as infiltrações por trás da última linha defensiva, sejam com Salah ou com outro atleta. Por característica, os egípcios não têm tanta paciência para ficar trocando passes e montando ataques posicionais. Assim, com verticalidade, tentam rapidamente definir, e passes mais longos, quebrando as linhas, são boas opções: 7 tentos foram marcados assim, o que equivale a 15,9% do total.

Gols contra

Primeiramente, é importante destacar a força defensiva do Egito, algo que deve ser mais testado na Copa do Mundo. Nos 34 duelos sob o comando de Cuper, foram apenas 21 gols sofridos, média de 0,61 por jogo.

Porém, é importante destacar que, por conta de vários compromissos por Eliminatórias, tanto para o Mundial como para a Copa Africana, o time praticamente só enfrentou rivais do mesmo continente neste período, sem ser testado contra escolas diferentes. Amistosos contra Portugal e Grécia foram exceções, e nestes jogos foram 3 tentos sofridos, subindo a média para 1,5.

Entre as jogadas que incomodam a retaguarda da equipe de Cuper, o principal destaque vai para o problema com cruzamentos para a área, tanto em bolas paradas como também com a pelota rolando. Por 13 vezes, os egípcios foram vazados desta maneira, o que representa 61% do total.

@PedroPetrachini

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