O ABISMO É TÃO GRANDE?

Por Juan Carlos Moura e Rafael Lima

No dia 01/04/2015 o Corinthians vencia o Danúbio (URU) por 4×0, em jogo válido pela fase de grupos da Libertadores da América. Durante a partida o comentarista Walter Casagrande Junior disse que o Corinthians jogava um futebol digno de time da Champions. A equipe alvinegra foi eliminada nas 8° de final pela inexpressiva equipe do Guarani (PAR) naquela edição do torneio. O comentário do ex-atacante tornou se a piada pronta. Talvez pelo fato de menos de 1 ano antes, a seleção brasileira sofrera sua maior derrota em copas do mundo, o comentário pareceu totalmente desconexo com a realidade.

Pouco mais de 3 anos, e a seleção já tem seus 23 selecionados para o mundial da Rússia. O que mais causou discussão na convocação do técnico Tite foi a presença dos nomes de Fagner, Taison, Cassio e um pouco menos do meio campista Fred. Ou seja, muito barulho para pouca história.

O foco do debate deveria ser outro, a partir do mundial de 2006 a quantidade de jogadores convocados que atuam no país despencou. Veja o gráfico abaixo:

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É inquestionável a convocação de atletas que atuem nos principais clubes das principais ligas (Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha). Mas por que tamanha contestação para atletas que atuam na Ucrânia, Turquia e principalmente no Brasil.

Fernandinho e Douglas Costa eram bastante questionados antes de atuarem nas grandes ligas da Europa. Com Fred possivelmente se transferindo para a Inglaterra na próxima janela de negociações, as cornetas em volta do seu nome devem diminuir em futuras convocações.

A simples menção da convocação de nomes como Jó, Hernanes, William José, Talisca, Naldo, Luiz Gustavo, Felipe, Giuliano, entre outros que não atuem nos principais times da Europa, já é motivo para expor o baixo nível técnico do futebol praticado no brasil, ou que é absurda a convocação de atletas que atuem em equipes menores da Europa, especialmente do leste europeu.

O debate muitas vezes é raso. Não é aprofundado, não se enxerga a opção tática que o atleta pode oferecer. É mais simples a crítica pela convocação de um atleta do Shaktar, Besiktas ou Real Sociedad, por que (mesmo sem provas) supostamente se busca uma valorização do atleta, em uma eventual futura venda.

Verdade que o técnico Tite “queimou” alguns cartuchos, com a insistência em nomes como Diego, Lucas Lima, Diego Souza e Rodrigo Caio. Todos jogadores com bom nível técnico, mas que tiveram uma péssima temporada em 2017.

Retomando o raciocínio do Casão, será que foi tão absurdo o comentário do ex-atleta. Cassio, Fagner e Renato Augusto e Guerrero estão na Copa. Felipe é titular absoluto na zaga do Porto e formava uma forte dupla de zaga com o outrora selecionável Gil. Jadson teve enorme destaque jogando pelo Shaktar Donetsk e ao lado de Elias (nome constante na seleção com Dunga) e Renato Augusto formaram um excepcional meio campo, Malcom esta valorizadíssimo no Bordeaux e Vagner Love que hoje é titular do Besiktas, era banco nesse time. Claro que esse time dificilmente seria campeão da Champions League, mas dependendo dos adversários poderia fazer bonito no torneio.

Na última edição da UCL se o Grêmio atual campeão da América, estivesse no mesmo grupo do PSG no lugar do Bayer de Munich. Seguindo a mesma tendência do grupo com o PSG em primeiro, seria fácil imaginar o Grêmio em segundo, com o Celtic em 3° e o Anderlecht em 4° lugar. Em um confronto contra o Besiktas (adversário do Bayer) seria difícil imaginar o tricolor gaúcho nas 4° de final da UCL?

Ou mesmo o poderoso Real Madrid que na edição 2015/2016 enfrentou a Roma nas 8° e o Wolfsburg nas 4° de final da UCL, o Corinthians campeão brasileiro de 2015 não seria capaz de fazer frente e essas equipes?

Veja  abaixo:

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As médias de gols são semelhantes em todos os campeonatos, inclusive algumas equipes conquistou o campeonato mais de uma vez nos últimos 3 anos.

O fato de disputarem (é apenas disputar, por que a última vez que algum desses países teve um representante na final da Champions foi em 2004. Porto x Mônaco). A Champions League dá uma chancela maior para o atleta?

Lembrando que a Ucrânia e Turquia nunca tiveram um representante na fase semifinal da UCL. Apenas jogadores do Real, Bayer, Barça ou City podem atuar com a camisa canarinho?

Qual o parâmetro que define os melhores jogadores do futebol brasileiro? Apenas o fato de jogar na Europa? Entendendo de forma indiscutível que os melhores jogadores estão nos times mais ricos do mundo.

Vamos olhar para Luan do Grêmio, jogador habilidoso, versátil, joga entre as linhas de defesa adversária com maestria e tem sido cada vez mais decisivo. Apenas por que até hoje joga no Grêmio ele não tem nível para jogar com/contra os melhores do mundo?

 luan

Rodriguinho é outro exemplo, ambidestro, faz gols, dá assistência joga em várias posições e é extremamente decisivo. Mas aqui mesmo se duvida da capacidade do atleta. Apenas por que joga aqui. Ele é o melhor jogador do atual Campeão Brasileiro.

rodriguinho

 

Dudu tem um temperamento mais volátil, é o principal jogador de um Palmeiras que investe cada vez mais. Ataca e defende com muita intensidade e qualidade. Sabe jogar tanto pelos lados quanto por dentro, atrás do centroavante.

dudu

Thiago Neves é o que se chamava antigamente de ponta de lança, arma jogadas e as define com a mesma eficiência. Habilidoso, técnico e inteligente.

t neves

Em um outro extremo Fagner foi convocado, mas tem sido questionado se pode ou não jogar na seleção, por que pode enfrentar jogadores como Sané, Isco, Di Maria entre outros… Por mais difícil, o atleta é um jogador profissional que joga há mais de 4 temporadas, na linha de defesa mais regular do futebol brasileiro nos últimos 10 anos, se estiver concentrado e a equipe bem organizada pode fazer bons jogos. Não é apenas um jogadorzinho que o técnico confia.

fagner

O atleta brasileiro sai cada vez mais cedo para o exterior. Com o mercado externo inflacionado com atletas atingindo cifras superiores a 100 milhões de euros, é cada vez mais viável investir 20, 30…40 milhoes em jovens promessas. Que vão desde cedo se adaptar a velocidade e intensidade do futebol europeu e podem facilmente dobrar ou triplicar o valor de mercado em uma ou duas temporadas.

Jorge (Fla) Arana e Malcon (Cor) Jesus (Pal) Douglas Silva (Vas) Wendel e Richarlisson (Flu) David Neres e Luis  Araújo (SP), Jemerson (Galo) esses são apenas alguns dos jovens talentos que saíram do país nos últimos 3 anos. Outros tantos já estão de malas prontas (Maycon, Vinicius Junior, Paulinho e Arthur). Além desses, Rodrygo (San) Pedrinho (Cor) Paquetá (Fla) Pedro (Flu) Iago (Int) Lizieiro (SP) Gustavo Blanco (Galo) podem ser os próximos da lista.

A questão financeira é o verdadeiro abismo entre as equipes brasileiras e demais equipes (tanto da Europa quanto da Ásia). A moeda brasileira vale muito pouco em comparação com o euro e o dólar, isso torna inviável a permanência desses jovens jogadores, que poderiam qualificar ainda mais o Campeonato Brasileiro.

Quando falamos do futebol europeu vem sempre a mente Real Madri, Atlético e Barça (Esp), City, United, Arsenal, Chelsea, Liverpool e Totteham (Ing), Bayern (Ale) e Juventus (Ita). Essas equipes são verdadeiras seleções mundiais, porém há de se ressaltar que seus campeonatos nacionais tem vários times fracos, que jogam em campeonatos bem organizados e milionários, que faz com que as equipes de qualquer lugar da Europa possa adquirir jovens promessas.

O fator econômico é um aspecto que não pode ser negligenciado, as equipes brasileiras não podem competir com as equipes da Europa ou mercados emergentes (China, Japão, EUA, Emirados e Arábia) e mesmo assim o futebol continua sendo extremamente competitivo.

A Libertadores não tem o mesmo nível técnico da Champions, mas isso não torna a competição mais fácil.

Até 1992 o futebol brasileiro havia conquistado 5 títulos. Desde 1992 quando o São Paulo conquistou a Libertadores o futebol brasileiro conquistou outros 13.

A argentina é o país com maior número de títulos com 23.

Ranking por país

titulos lib

A ideia aqui não é falar de modelos de jogo ou comparar as equipes brasileiros com a de outros países. Mas entender por que há tanta rejeição a alguns nomes veiculados a seleção brasileira apenas por jogar no Brasil ou em equipes menores na Europa. Se o atleta está sendo convocado têm um motivo.

Nunca antes uma comissão (principalmente em tão pouco tempo) observou in loco, tantos atletas. A crítica pela convocação de alguns jogadores deve existir, mas independente se joga a Champions, no Brasil, Las Palmas, Dynamo Kiev, CSKA. É diferente da convocação de atletas que atuam no Japão, China ou Oriente médio, ligas essas quase amadoras, (apesar da convocação de Renato Augusto) por mais milionária que algumas dessas ligas sejam.

Outro fator importante é a instabilidade dos técnicos, até mesmo na seleção brasileira. Joaquim Low já renovou seu contrato até a Copa de 2022, Lopetegui até a Euro de 2020. Tite não pode se dar ao luxo de levar um jovem (como Arthur, David Neres ou Vinicius Junior) para observar seu comportamento, precisa vencer o mundial, ou então é olho da rua.

Como exposto no início do texto, com o êxodo cada vez mais precoce das jovens promessas para o exterior, é possível na próxima Copa nenhum atleta de clubes brasileiros na seleção brasileira. A base da seleção é hoje e deve continuar sendo por muito tempo o Manchester City, Barcelona o Bayer de Munich, ou alguma outra super. potência do velho continente. Os melhores jogando com e contra os melhores. A questão é duvidar da capacidade de um jogador que atue no Brasil. O jogo aqui é intenso, disputado, apesar de tecnicamente ser nivelado por baixo.

Até para a seleção voltar a ter um apelo maior junto ao público seria bom atletas dos clubes nacionais na seleção. Hoje o maior ídolo “caseiro” atende pelo nome de Tite o técnico da seleção. É claro que será cada vez mais difícil, mas questionar a convocação de algum jogador “brasileiro” me parece bastante raso e aleatório.

@10juancarlitos e @rafjoga101983

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