FUTEBOL LÍQUIDO

Por Pedro Galante

O futebol está em constante mudança. O aspecto que mais sofreu com a passagem do tempo certamente foi a intensidade do jogo. O ritmo das partidas é diferente de vinte anos atrás, por exemplo. Se antes o jogo era mais cadenciado, com muito mais espaços e uma zona de ocupação do campo muito maior, hoje se vê o contrário.

Nas palavras de Miroslav Blazevic, técnico croata: “Atualmente falamos mais sobre conceitos – um estilo de jogo ofensivo ou defensivo – do que sobre sistemas. Hoje você lida com a constante transformação dos atletas. Jogadores da linha de defesa avançam, jogadores da linha de ataque recuam e defendem. Tudo se tornou muito fluido. Tudo acontece num espaço de trinta metros: praticamente todos devem jogar em todas as posições e saber fazer de tudo. ”

A tendência é que os esquemas táticos como conhecemos – o 4-3-3, o 3-5-2 ou o 4-4-2 – deixem de existir, pois eles dão noções espaciais mínimas. Guardiola os despreza, alegando que “são apenas números de telefone. ” Juanma Lillo vai além: “Os jogadores não ficam nessas posições nem no pontapé inicial. “

Com o passar dos anos e a evolução da analise tática, criou-se uma espécie de padrão de análise, onde se fala sobre o esquema tático e os conceitos presentes nele. Por exemplo, o Barcelona de Pep Guardiola jogava em um 4-3-3 (esquema tático) e usava dois pontas abertos para dar amplitude (conceito) e abrir a defesa adversária.

Não há nenhum problema em falar de esquemas ou de conceitos, a questão é a forma como se fala, como se isso fosse algo estático que acontece ao longo dos noventa minutos. É consenso que Pep usava o 4-3-3 no Barcelona, pois esse era o desenho identificado na maioria das vezes, mas quando por exemplo, Busquets recuava entre os zagueiros e os laterais subiam a altura do meio campo, o desenho era muito mais parecido com um 3-4-3. Isso também ocorre com a questão dos pontas e da amplitude, os pontas não passam o jogo inteiro abertos, quase presos a linha de lado, haviam momentos que esse ponta cortava para dentro e outro jogador vinha a dar amplitude, ou até mesmo momentos em que não se usava da amplitude.

Isso vem de uma compreensão de que o futebol é composto por diversas situações com diversas variáveis. A posição da bola, o movimento da bola, a posição de quem porta a bola, a distância dos adversários em relação ao portador da bola, o movimento dos adversários, a posição de quem está apto a receber a bola, o movimento de quem está apto a receber a bola. E cada situação dura um ou dois décimos de segundo, já que a bola se movimenta, a posição corporal muda e a ocupação dos espaços se altera, configurando um novo cenário. É de uma complexidade imensa.

A tendência é que cada vez mais os jogadores estejam sensíveis a essas variáveis e busquem responder esses estímulos da melhor forma, e como esses estímulos variam numa velocidade absurda, estratégias estáticas não terão espaço.

Uma equipe não vai mais jogar no 4-3-3, mas sim ocupar os espaços de forma a configurar um 4-3-3, quando o jogo pedir por esse desenho tático, quando for conveniente. A mesma coisa para a amplitude, tudo vai depender das circunstâncias.

Esse futebol do “futuro”, vai ser quase que intuitivo e exigir extremamente do corpo e do cérebro. Do cérebro para reconhecer, analisar e criar um plano de acordo com as circunstâncias, e do corpo para executar esse plano da forma mais perfeita e rápida possível, antes que todas as variáveis se alterem.

Dinamismo, fluidez, intensidade. Um caos organizado. Isso é futebol líquido.

alegriA Juventus de Massimiliano Allegri é um exemplo de futebol líquido. (Foto: The sun)

  @pedro17galante

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2 comentários sobre “FUTEBOL LÍQUIDO

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