SE NÃO VAI NA TÉCNICA, VAI PELO ALTO – Análise tática de Botafogo 2 x 1 Fluminense

Por Sergio Santana

O Botafogo teve, durante boa parte da partida, sua pior atuação nesse Campeonato Brasileiro, enquanto que o Fluminense, mostrando uma grande organização tática, fez, provavelmente, a sua melhor exibição no campeonato. Como futebol passa longe de ser uma ciência exata e, em até certos pontos, justa, a equipe de Alberto Valentim aproveitou as chances que teve e venceu o ‘Clássico Vovô’, chegando à sexta posição na tabela.

Na verdade, o Botafogo “soube sofrer”, como diria uma das máximas do futebol. No primeiro tempo, foi envolvido pelas rápidas trocas de passes e de posição do Fluminense, que acabou se esgotando no início da etapa complementar, justamente o período em que o alvinegro ficou mais inteiro na partida – embalado por um gol marcado, é verdade. No geral, porém, a atuação passou longe de ser convincente, mas o resultado foi positivo.

Espaço para os adversários entrelinhas e falta de conexão

Não é segredo: o Botafogo de Alberto Valentim joga em um 4-1-4-1. Um dos componentes da segunda linha de quatro é Renatinho, um meia de origem, mas que, no momento defensivo, tem que se comportar como um volante, fazendo uma pesada recomposição para tentar conter os ataques adversários. O atleta, porém, não teve uma boa atuação, não conseguindo ajudar no momento defensivo e nem contribuir com sua habilidade na construção de jogadas – fator quase que inoperante do Botafogo no primeiro tempo.

Assim como o duelo contra o Cruzeiro, o Botafogo teve dificuldades em defender o espaço entre as duas linhas, já que Rodrigo Lindoso ficava, em grande parte das vezes, sozinho. Dessa vez, a equipe de Abel Braga soube explorar – e muito – esse fator: as melhores chances do tricolor surgiram justamente desse espaço do campo, tendo Junior Sornoza como destaque: o equatoriano foi bastante participativo na partida, trocando 46 passes e finalizando cinco vezes para a meta de Jefferson, que foi o principal jogador alvinegro no duelo.

bota 1Reflexo do primeiro tempo: jogadores do Fluminense com espaço de sobra nesse terço do campo, o que ajudou para as inúmeras triangulações e jogadas de profundidade que aconteceram (Foto: Reprodução)

Outro fator que pode explicar o domínio do Fluminense no primeiro tempo foi a atuação ruim do Botafogo em termos coletivos e criativos. Como já citado, Renatinho não teve uma boa atuação (apenas 14 passes enquanto esteve em campo), o que ajudou para esse cenário pouco animador, com o Botafogo não conseguindo trocar passes e criar jogadas por meio da bola no chão e pelas rápidas subidas pelos lados do campo, um dos estilos mais marcados do jogo de Alberto Valentim.

Os números comprovam a atuação abaixo da média do Botafogo nos primeiros 45 minutos: 44% de posse da bola, com o Fluminense trocando mais 33 passes em relação ao Botafogo (203 contra 170). Desse número da equipe de General Severiano, 131 foram certos – o que representa uma taxa de acerto de 77%. Para uma equipe que busca propor o jogo e ser participativa com a bola no pé, os comandados de Alberto Valentim não conseguiram suprir essa expectativa, tendo finalizado apenas três vezes nesse período.

Lado direito foi a solução ofensiva

Em um cenário de pouca criatividade em geral, o lateral-direito Marcinho conseguiu se destacar nesse cenário, ajudando demais na parte ofensiva da equipe: no total, foram 93% de aproveitamento nos passes, 75% nos lançamentos e 43% nos cruzamentos. O atleta oriundo das categorias de base foi de extrema importância no primeiro gol do Botafogo, colocando uma bola na medida para Rodrigo Lindoso cabecear para o fundo das redes.

             bota 2Estatística que mostra os setores em que os ataques do Botafogo começaram. O lado direito, de Marcinho, representou a maioria (Foto: WhoScored)

O interessante do tento foi que ele representou a única boa jogada trabalhada do Botafogo no primeiro tempo: Brenner inverteu posição com Kieza, caiu pelo lado esquerdo do campo e achou Marcinho com muito espaço pelo lado direito. Perto de quando o lateral ia colocar a bola na área, Renatinho correu para trás, atraindo Luan Peres com ele, o que gerou o espaço para Rodrigo Lindoso ficar livre e cabecear após um cruzamento na primeira trave, que impedia a saída pelo alto do goleiro Júlio César.

bota 3No frame, Brenner já retornou ao centro, mas partindo do lado esquerdo. Na foto, também é possível enxergar que Luan Peres deixou sua posição inicial, desistiu no meio do caminho, mas não havia mais tempo de retornar, deixando Rodrigo Lindoso livre, já que o mesmo estava à frente de Richard. (Foto: Reprodução)

Segundo tempo e a entrada de Gustavo Bochecha

Após desastrosos 45 minutos iniciais, o Botafogo retornou para o jogo com o jovem Gustavo Bochecha no lugar de Renatinho. O volante, outro criado nas categorias de base do clube, mudou completamente o panorama defensivo, ajudando justamente na marcação entrelinhas. Apesar de continuar criando algumas boas chances, a atuação do Fluminense na etapa complementar não foi parecida com a do primeiro tempo, muito por conta do cansaço sentido por alguns jogadores, por conta do alto ritmo colocado anteriormente.

Nesse contexto, Bochecha teve uma sólida atuação no segundo tempo, com 21 passes certos (87% de aproveitamento), três duelos vencidos (de cinco embates), uma interceptação e um desarme. Além disso, Gustavo conseguiu potencializar Matheus Fernandes, que conseguiu aproveitar mais os espaços do campo, ajudando a começar as jogadas do alvinegro.

Após o gol marcado por Kieza, em outro passe de Marcinho, o Botafogo passou a controlar a partida, ficando bem mais inteiro do que o Fluminense. Para esse cenário, as triangulações – fato raro nos minutos anteriores do duelo – começaram a aparecer. Até no próprio lance que gerou o escanteio do tento da vitória, foi possível enxergar uma inteligência troca de passes, quando Kieza avançou em diagonal, abrindo espaço para Gilson avançar nas costas da defesa com um passe de Rodrigo Lindoso. O lateral-esquerdo avançou, mas teve o cruzamento cortado por Gum. Na cobrança de corner, o gol.

bota 4Em outro lance, é possível ver que a movimentação de Kieza gera um espaço para Gilson avançar e buscar um cruzamento para o meio da área. Após o gol, esse cenário aconteceu bastante, com o lateral tendo uma grande participação nisso (Foto: Reprodução)

@sergiostn_

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