NÃO É SÓ FUTEBOL – Análise de Nacional de Potosí 2 x 0 Fluminense

Por Jorge Junior

Acredito que nós torcedores apaixonados por este esporte, já ouvimos e/ou falamos por algumas vezes a frase “não é só futebol.”. Ao longo desta semana, confesso ao leitor, que por diversas oportunidades mentalizei esta expressão.

Caos na Bolívia com encerramento parcial/total de várias atividades como aeroportos, estradas e ferrovias, além de violentos protestos com frequente enfrentamento entre forças de segurança e manifestantes. O Fluminense enviou um pedido à CONMEBOL para adiar o jogo com o Nacional Potosí, marcado para o dia 11 de Maio. Argumento justo e válido, afinal “não é só futebol”. Como bem disse nosso diretor Paulo Autuori :“Esta situação transcende o futebol. Espero que as pessoas deixem os interesses de lado e comecem a pensar na segurança dos jogadores. Não os vamos colocar em risco por um jogo.”

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Confronto entre manifestantes e forças de segurança na Bolívia.

Em 2007, um grupo de pesquisa da FIFA, formado por cientistas médicos renomados, e que estudou a performance física dos futebolistas, concluiu que altitudes abaixo de 500 metros não tinham efeitos sobre os jogadores. Acima de 500 metros, porém, efeitos negativos como aceleração dos batimentos cardíacos, falta de ar e vigor reduzido foram apontados – e ficavam mais acentuados conforme a altitude crescia, notando que algumas pessoas eram mais afetadas do que outras. A 2.000 metros, o mal-estar passava a ser um problema e era necessária a aclimatização [período de ajustamento ao clima e altitude local]. Acima de 3.000, havia golpes decisivos de performance. Veio a proibição de jogos internacionais com altitude superior a 2.500m, afinal, não é só futebol. Porém, em maio de 2008, pressionada pela Bolívia, a FIFA decidiu suspender a decisão que havia tomado anteriormente até que se conheçam os resultados completos de um estudo feito sobre a prática do futebol em condições extremas de temperatura, umidade e altura.

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Evo Morales e Diego Maradona, em amistoso contra a proibição da Fifa. ironicamente, alguns meses após a revogação do veto, a Argentina, de Diego Maradona, que defendeu os jogos em altitudes elevadas, foi goleada por 6×1 pela Bolívia na altitude de La Paz.

Face o veto da CONMEBOL ao pedido do Fluminense, a equipe de Abel Braga, teve dificuldade na logística da viagem e pouco tempo para fazer sua aclimatação. Para se ter uma ideia do quão grave é o assunto, horas antes do inicio da partida, o atacante Marcos Junior sentiu indisposição por conta da altitude e ficou fora da partida. Em seu lugar, o técnico Abel Braga escalou Pablo Dyego.
Com placar favorável construído na primeira partida, 3-0, somado o temor dos efeitos da altitude, o técnico tricolor adaptou o 1-3-5-2 para o 1-3-6-1, na primeira etapa, que em teoria permitiria:
– menos desgaste físico na recuperação da bola;
– boa ocupação de espaço no setor defensivo;
– atrair o adversário possibilitando situações de contra-ataque (um gol fora, liquidaria o jogo).
– utilização dos alas no contra-ataque (destaques da temporada Gilberto e Ayrton);
– poucos atletas com características de atacantes (Sornoza, Pablo Dyego e Pedro);
– poucos atletas à frente da linha da bola quando ela é recuperada no meio;
– o adversário sofreria dificuldade para entrar com 1 ou 3 atacantes;

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No segundo tempo, com time mais cansado e com adversário pressionando pelos flancos, os laterais se aproximaram da linha de 3 zagueiros, formando 1-5-4-1, conforme demonstro a seguir.

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Foram muitas as dificuldades encontradas durante o jogo, destaco 3 (três). O modelo de jogo proposto exigia que a bola quando recuperada tivesse muita qualidade para não ser perdida rapidamente, cobertura dos alas ao apoiarem e qualidade de passe para início da transição ofensiva, iniciada geralmente por zagueiros e volantes.
Sobre os passes, o quadro abaixo resume quantitativamente os passes. Notar que apenas 4 jogadores tiveram mais de 80% de precisão do passe, dos atletas que jogaram mais de 20 minutos: Gilberto, Sornoza, Robinho e Pedro.

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A construção das jogadas ofensivas passaria pelos pés dos alas Gilberto e Ayrton / Marlon e do meia Sornoza. Observem nos mapas abaixo, o local dos passes com precisão de cada jogador. Observem o baixo número de passes trocados com êxito no último terço do campo (o mais próximo do gol adversário).
GILBERTO , 1º TEMPO ( 13 PASSES PRECISOS, SENDO 2 NO TERÇO FINAL)

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GILBERTO, 2 º TEMPO ( 17 PASSES PRECISOS, SENDO 2 NO TERÇO FINAL)

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AYRTON, 1 º TEMPO ( 8 PASSES PRECISOS, SENDO APENAS 2 NO TERÇO FINAL – AMBAS EM COBRANÇA DE LATERAL)

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MARLON, 2º TEMPO ( 5 PASSES PRECISOS, NENHUM PASSE PRECISO NO TERÇO FINAL)

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SORNOZA, 1º TEMPO (14 PASSES PRECISOS, SENDO 7 NO TERÇO FINAL)

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SORNOZA, 2º TEMPO (12 PASSES PRECISOS, SENDO 7 NO TERÇO FINAL)

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Como dito anteriormente, o modelo de jogo proposto exigia que a bola quando recuperada tivesse muita qualidade para não ser perdida rapidamente e a transição ofensiva iniciaria pelos pés dos 3 zagueiros (Gum, Renato Chaves e Frazan, e pelos volantes Richard e Jadson), não foi o que ocorreu.
Selecionado os passes efetuados por esses 5 jogadores, aos longos dos 90 minutos temos o mapa abaixo (observação as setas indicam a trajetória dos passes):

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(Mapa de passes ERRADOS/trajetória de Frazan, Renato Chaves, Gum, Richard e Jadson – total 39)IMA14.jpg

(Mapa de passes PRECISOS/trajetória de Frazan, Renato Chaves, Gum, Richard e Jadson – total 70)

O quinteto somou 109 passes dos 262 passes do time (42%) ao longo dos 90 minutos de jogo. Erraram 39 passes e acertaram 70, precisão de apenas 64%).

A última dificuldade supracitada, refere-se a cobertura dos alas. Infelizmente não foi bem executada. Exemplos:
1 minuto de jogo:

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59 mins de jogo:

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Se os planos táticos, técnicos e físicos, norteadores do bom futebol, não encaixaram como o planejado, como conseguimos nos classificar? Como, muitos de nós, ficamos eufóricos no pós-jogo. Volto a pensar, “não é só futebol”. O que os jogadores e comissão técnica do Fluminense fizeram, vai além de qualquer análise. O Fluminense teve alma, paixão, vontade, espírito de luta e grupo. E isso leitores, somente quem assistiu pode sentir tamanha entrega e energia. Para quem não teve oportunidade de assistir ao jogo, fique com as imagens abaixo que dirão mais que mil palavras.

NNN

E o que dizer dos nossos torcedores? Quanta devoção, fidelidade, amor e gratidão. Festejamos um CLUBE ENORME, GIGANTE, e um time repleto de GUERREIROS. Definitivamente não é só futebol.
https://www.youtube.com/watch?v=KVTo-xZ5Gpw

Por @jorginhoffc

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