DITADURAS IMORAIS E CAMPEÃO MORAL: A COPA DE 78

Por Ícaro Caldas

Aquilo que a rica e civilizada Argentina de antes da guerra não conseguirá — sediar a Copa, reivindicada em 1930, 1934 e 1938 –, é que lhe continuou a ser recusado no delicado período peronista — tentativas falhadas em 1950 e 1962 –, ironicamente aconteceu quando o país era dominado por uma sanguinária ditadura militar que tomara o poder em 1976. Na Europa, formou-se um comitê de Organização de Boicote à Argentina visando a mudar o Mundial para outro país. Na Holanda e na França surgiram protestos contra a copa da Argentina, inclusive por parte de jogadores. Mas o alemão Berti Vogts, conhecido pela simpatia por regimes políticos fortes, tomou a defesa da Argentina, lamentando que “tantas coisas desagradáveis tenham sido ditas sobre este belo país”. De toda forma, o presidente da FIFA, João Havelange, não se mostrava disposto a alterar o programado, e na cerimônia de abertura foi condecorado pelo general Vídeos, chefe da junta militar. Por outras razões, o papa Paulo VI enviou sua Bênção para a copa, e o secretário de estado norte-americano Henry Kissinger, convidado especial, saudou o país de “grande futuro em todos os níveis”.Com efeito, se nos bastidores ocorriam torturas e assassinatos políticos, a fachada era de um país organizado e próspero. Segundo informa o escritor Eduardo Galeano, “os jornalistas alemães mais veteranos confessaram que o Mundial de 1978 lhes recordava a Olimpíada de 1936, que Hitler tinha celebrado com toda a pompa, em Berlim”. Lançada a competição e todo o alvoroço midiático em torno dela, o mundo esqueceu a conturbada situação política Argentina. Estela de Carlotto, presidente da associação das avós da Praça de Maio — que tem como finalidade denunciar as atrocidades cometidas pelo regime e localizar os desaparecidos durante o período da ditadura militar Argentina –, conta que enquanto ela e o marido choravam na cozinha o desaparecimento da filha, o resto da família vibrava na sala com os gols da seleção nacional. Terminada a Copa, foi nomeado vice-presidente da FIFA o almirante Carlos Alberto Lacoste, que se suspeitava ter mandado eliminar fisicamente dois companheiros de governo para se tornar o responsável pela organização do Mundial e pelas imensas verbas destinadas a ele.Dentre os países mais ou menos assíduos em Copas, quase todos estavam lá. Faltaram apenas Inglaterra, Iugoslávia e União Soviética. Como debutantes chegaram o Irã e a Tunísia, que se tornaria o primeiro país africano a vencer uma partida de copa do mundo (3a1 sobre o México). A artilharia foi um pouco maior (102 gols no total, média de 2,68 por partida) que na edição anterior (97 gols, média de 2,55), e entre eles esteve o milésimo gol em Copas, anotado pelo Holandês Rensenbrink no jogo frente à Escócia. E teve também o gol mais rápido da história das Copas até então, marcado pelo francês Lacombe aos 37 segundos contra a Itália (recorde quebrado em 2002 pelo turco Sükür). O goleador do torneio, o argentino Mario Kempes, fez seis gols. Apesar de entusiasmo dos argentinos, o público foi um pouco menor (42 374 por jogo que na Alemanha (46 684).A seleção brasileira, comandada por Cláudio Coutinho, que tinha sido um dos preparadores físicos em 1974, não apresentou um Futebol menos burocrático do que na copa anterior. Empatou quatro jogos e ganhou três. Para chegar então à final, precisava que a Argentina não derrotasse o Peru por uma diferença de quatro gols. No entanto, ela ganhou de 6 a 0. Logo surgiram suspeitas de corrupção, mas o Brasil tinha vencido o mesmo Peru por 3 a 0 quando este ainda podia aspirar a alguma coisa na competição. Não era impossível, portanto, que a motivada Argentina, jogando em casa, goleasse o Peru, que já não tinha nenhuma chance no torneio. Kempes explicou que a equipe jogou “sem trapaça, mas com muita força em nossas almas”. Aí Brasil restou disputar o terceiro lugar contra a Itália, com uma vitória de 2 a 1.Cláudio Coutinho diria depois que o Brasil foi “campeão moral”, semblevar em conta o fraco Futebol apresentado. A dúvida sobre a lisura na partida entre Argentina e Peru persistiu, até que em princípios de 2012 o ex-senador peruano Genaro Ledesma denunciou a existência de um plano de cooperação entre as ditaduras argentina e peruana para exterminar opositores. Como parte desse acordo, a seleção do Peru entregou o jogo. Em troca, a Argentina recebeu presos políticos peruanos (entre eles Ledesma) deportados como “prisioneiros de guerra” (El País, 7 fev. 2012). O secretário do Tesouro argentino à época, Juan Alemann, acrescentaria mais tarde que seu governo doou 35 mil toneladas de trigo ao Peru e emprestou-lhe 50 milhões de dólares. Como quer que seja, a decisão no monumental de Núnez opôs Argentina e Holanda. Embora ainda fosse um time respeitável, a Holanda não era mais dirigida por Michels e ressentia-se da ausência de cinco jogadores da final de 1974z entre eles Cruijff. Mesmo assim, quase venceu no último minuto, quando Rensenbrink mandou a bola na trave. O empate em 1 a 1 no tempo regulamentar levou a decisão para a prorrogação, e a Argentina, empurrada por seus torcedores, fez dois gols e ficou com o título.

 

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