O GALO VENCEU O ATUAL CAMPEÃO BRASILEIRO E COMPROVOU QUE SEGUE EM MOVIMENTO E EVOLUÇÃO – Análise tática de Atlético-MG 1 x 0 Corinthians

Por Matheus Eduardo

galo 1Roger Guedes e Fábio Santos representam bem o ritmo e a velocidade do time na tarde desse domingo (Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro)

A temporada do Atlético-MG segue em constante mutação. Se a estreia no Brasileiro — com derrota para o Vasco, de virada — trouxe um momento de considerável instabilidade e desconfiança quanto à capacidade da equipe, a série de duas vitórias consecutivas no campeonato nacional, acrescida às boas atuações individuais de muitos atletas, recoloca em pauta a ideia de crescimento coletivo.

Como dito anteriormente, o Atlético tem se caracterizado como um time que gosta de ser reativo e não vê nenhum problema em trabalhar de uma maneira mais vertical, sem tanta elaboração por dentro e, em determinadas situações, o conjunto alvinegro potencializa o trabalho com a posse de bola. Os jogadores estão cada vez mais familiarizados a trabalharem conectando-se e melhorando a qualidade dos ataques. Foi o que aconteceu na vitória sobre o Corinthians, atual campeão brasileiro e que segue em uma mesma linhagem — com algumas alterações, mas pouca mudança na sua raiz — há alguns anos, especialmente com a forma de se defender dos adversários implantada por Tite e Fábio Carille.

Mesmo triunfando pelo placar mínimo, o que se viu foi uma equipe bem mais fluida, com destaque para triangulações e dominação sobre o rival, a ponto de criar bastantes oportunidades. Somado ao gol da vitória, o conjunto atleticano obrigou o goleiro Cássio a fazer quatro defesas importantes, além de uma cobrança de falta de Rómulo Otero que explodiu no travessão e um cruzamento de Gustavo Blanco que raspou a trave. Nessa conta, ainda é desconsiderado o lance que resultou no gol anulado, em que Ricardo Oliveira também acertou o poste e, no rebote, Roger Guedes marcou. Do outro lado, apenas uma finalização a gol do Corinthians em 90 minutos, em um arremate não muito potente de Emerson Sheik, já na etapa final da partida.

galo 2Lance do gol teve triangulação entre Otero, Alerrandro e Patric pela direita até surgir o cruzamento para Roger Guedes, do lado oposto. É uma das principais jogadas do Atlético durante o ano, com a direita como lado mais forte (Reprodução/Twitter)

Importante dizer que, partindo de algumas alterações cruciais, Thiago Larghi ainda não parece estar com uma equipe pré-definida para as próximas rodadas do campeonato. Tendo Cazares e Leonardo Silva de volta, o mais provável é que o treinador siga a sua rotação de jogadores, com escalações montadas em vista de cada tipo de jogo e adversário. Desde sua chegada já ficou claro que não existe um time titular fixo, mas um trabalho com 15 ou 16 atletas que possuem capacidade para atuar constantemente. Em momentos assim, valoriza-se a força do elenco e de peças que podem ser complementares em busca de um melhor rendimento, especialmente na parte ofensiva e na criação de chances de gol.

Entre as mudanças mais positivas, está evidente que Gustavo Blanco e Luan atuando como meio-campistas, no que modela o 4–3–3/4–1–4–1 da equipe, pode ser uma tendência. Como entre eles não há um armador que trabalhe o passe vertical em profundidade nessa posição, os atuais donos das vagas neste setor fazem um trabalho de ocupação de espaços e subidas em velocidade. Elias, o antecessor, tinha dificuldade para sair com a bola e combater sem ela. Com a ideia de superar esse problema, tanto Luan quanto Blanco alternam o trabalho na saída de bola desde a defesa, cada hora um deles mais recuado para sair de trás enquanto o outro pisa no campo ofensivo para apoiar — sempre com o intuito de manter seis jogadores no próprio campo para a saída sustentada. Além disso, a dupla ocupa um espaço muito amplo do campo, seja para recuperar muitas bolas e ajudar no ataque vertical ou para fazer triangulações. Como dito anteriormente, as interações entre jogadores, pelas duas beiradas do campo, em forma de triângulos, possibilitam muitas trocas rápidas de passe e construção de jogadas usando as extremidades do gramado. O lance do gol, já no final da partida, começa com uma troca de passes na esquerda que faz a bola ir para o lado oposto e, logo depois, uma troca de passes na direita que termina em cruzamento. Ao fim, o lance volta à esquerda na conclusão de Roger Guedes — o ponta por aquele lado.

galo 3Mapa de calor de Luan e Gustavo Blanco, os dois meio-campistas do Atlético na vitória diante do Corinthians: a mancha na parte superior, cobrindo todo o grande círculo, pertence ao Luan, enquanto a mancha próxima à linha lateral, mais abaixo, pertence ao Blanco. Além disso, todas as zonas em azul foram ocupadas pelos dois, mas de maneira menos fixa. A dupla é o maior expoente da equipe quanto à ideia de ocupação de espaços para atacar e defender bem (WhoScored)

Com o retorno de Cazares, outro que atua neste setor, o sistema pode sofrer algumas alterações quanto à posição dos jogadores. O equatoriano pode atuar como meio-campista, na função que hoje é da dupla citada antes, ou colocado em constante alternância com Luan, cada hora um deles atuando aberto, por exemplo — na vaga de extremo esquerdo, atualmente de Roger Guedes. Em vista do que foi o rendimento abaixo do padrão por parte do Cazares na estreia do Brasileiro, quando o Galo perdeu para o Vasco, há de se pensar em alguma mudança posicional para ele seguir bem e manter a funcionalidade do jogo contínuo por meio da posse. Quando atuou aberto na esquerda, o camisa 10 reduziu pela metade o número de passes em uma partida (deu 37 naquele jogo, enquanto sua média na temporada era de 73 por jogo), o que não deixa de ser preocupante em vista da perda de controle ao ter a bola em seus pés por muito menos tempo.

Mas, afinal, o que é esta equipe?

Na 1ª rodada do Brasileiro, foi dito que o outro Atlético da competição, o paranaense, não é, mas está. Sim, está. Tudo é ligado ao movimento constante, ao que cada atleta é e faz em cada momento. O mesmo se aplica ao xará mineiro. O Galo está em constante adaptação. Por momentos, é o time que trabalha a posse de bola e os giros para buscar o jogo por fora, os dribles na beirada do campo e/ou a triangulação, enquanto em outros momentos é a equipe que marca mais atrás e bloqueia as linhas de passe do rival. É um conjunto que explora o físico e as perseguições individuais em determinadas ocasiões para pressionar o rival à frente, mas que também marca a posição e controla todos os movimentos para sair com a bola de maneira sustentada e sem correr riscos. O Atlético de Thiago Larghi é uma constante alternância, com alguns pontos fixos enquanto equipe, mas com variantes que aumentam sua competitividade e, especialmente, facilitam o jogo para quem está em campo. Há planos detalhados quando se imagina o time mais pronto para armar com Cazares, pressionar alto e acelerar com Blanco de infiltrador, ocupar os espaços com Luan e buscar as individualidades com Otero, Erik e Roger Guedes, etc. Há distintas formas de jogar com cada um deles.

galo 4Mapa que representa as zonas de drible dos jogadores do Atlético diante do Corinthians. Ao todo foram 29 tentativas atleticanas (8 certas), representadas em laranja, quase todas elas pelas beiradas de campo, em especial no campo de ataque, no intuito de chegar ao gol de maneira mais rápida e baseada nas individualidades. Além disso, destaque para as oportunidades dentro da área, com o drible como recurso para conclusão de jogadas (WhoScored)

E, dentre os muitos destaques da partida desse domingo, importante olhar com mais atenção para o crescimento do Patric na temporada. O lateral-direito tão contestado pela maioria da torcida faz uma temporada muito positiva e de mais momentos bons do que ruins, especialmente em partidas importantes. É quem facilita as interações pelo seu lado e, além disso, ajuda a produzir oportunidades de gol desde a beirada do campo. Contra o Corinthians, deu a assistência para o gol e ainda foi o responsável pelo cruzamento que gerou o tento anulado. Não é de agora que suas qualidades têm sido potencializadas pelo atual treinador do time. Em transição defensiva, o camisa 29, bem como os companheiros da última linha, mantiveram a concentração e o bom trabalho defendendo espaços e evitando que o rival adentrasse com o 4–2–4 de tanto movimento e infiltrações. Em aspectos de retaguarda, o Galo também merece algum destaque e pode crescer.

Por fim, a vitória e a euforia do grande jogo contra o atual campeão brasileiro precisam de uma dosagem. Nem para o céu, nem para o inferno. Se, há algumas semanas, a discussão era sobre o time não ter qualidade e o elenco não possuir boas peças de reposição, o que foi mostrado nas duas últimas partidas e em outros momentos da temporada é que este grupo pode, sim, crescer e apresentar qualidades complementares para competir dentro de suas capacidades. É importante ter calma a esperar a melhora gradativa. Como o Atlético bem deve aprender, é necessário paciência. Dentro dos seus passos, o que se mostra é um cenário bastante otimista. A ver.

Dados: WhoScored e Footstats

Flagrante tático: @magalhaesDavi_ (Twitter)

@matheusesouza

 

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