O JOGO (TAMBÉM) É APRENDER A SOFRER – #impressões Bahia 0 x 0 Atlético-PR

 Por Hudson Martins

Prazer e dor estão intimamente conectados. O amor tem momentos de êxtase e de sofrimento. O ato sexual não separa o prazer da dor. A gestação é uma dádiva, mas é penosa. A dor extrema do parto é seguida de rara alegria – e assim poderíamos avançar indefinidamente.

Da mesma forma, prazer e dor estão igualmente conectados no futebol. Aqui, daremos maior ênfase ao sofrimento. Durante o processo, as boas equipes sofrem tanto quanto as ruins. O que diferencia uma da outra é justamente a capacidade de aprender a sofrer. A pedagogia do futebol também é a da dor.

Bahia e Atlético fizeram um jogo movimentado na Fonte Nova. Foram perceptíveis alguns dos méritos do Bahia na sua estratégia de jogo e, simultaneamente, os motivos que levaram o Atlético a sofrer em diversas situações. Falemos melhor.

bhia 1Gráfico fornecido pelo SofaScore. Em verde, os momentos de pressão do Bahia.

Como já observamos anteriormente, o Atlético está interessado em atacar melhor. O Atlético trabalha para se defender atacando. Daqui, nascem duas situações: a primeira é que será comum que os adversários do Atlético subam o bloco defensivo. A segunda é que, apesar disso, o Atlético ainda não consegue criar situações de gol em uma base regular. O Atlético está descobrindo como atacar melhor.

O Bahia escolheu subir o bloco desde os primeiros minutos – como fizera o Grêmio, na última rodada. Como você bem sabe, esta é uma decisão que agrada ao Atlético. Atraindo o bloco, o Atlético espera movimentar o adversário e encontrar não apenas um momento ótimo para superar a primeira linha de marcação (como bem observou Paulo André, na saída para o intervalo), mas também um adversário descoberto, quase nu, exposto aos mecanismos ofensivos do CAP. Ou seja, o Atlético escolhe sofrer primeiro. Adia a recompensa.

Como dizíamos, o Bahia escolheu subir o bloco desde os primeiros minutos – como fizera o Grêmio, na última rodada. Com os três zagueiros e o goleiro Santos, tínhamos então uma situação de 4 v 2 em favor do Atlético na primeira fase da construção. Edigar Junio e Vinicius iniciavam a pressão. Mas, enquanto um deles pressionava o portador da bola, o outro fazia uma espécie de balanço, não necessariamente pressionando o próximo recebedor em potencial, mas sim trazendo constrangimentos para a linha de passe do lado oposto à bola. Basicamente, o Bahia buscou direcionar a posse do Atlético: usou um recurso posicional para compensar a inferioridade numérica que imaginava ter neste momento. Mas quem foi o maior prejudicado?

Em um nome, Santos. Veja bem, se o zagueiro do lado oposto à bola estava vigiado por um dos atacantes, quer dizer que a circulação da bola estava comprometida. Se a circulação está comprometida, a ideia de movimentar o adversário em largura também está. Logo, o Bahia restringiu o uso que o Atlético faria dos espaços exatamente através… dos espaços. Ao invés de circular a bola para o lado oposto, Santos me pareceu induzido a forçar alguns passes por dentro, ou mesmo lançamentos mais longos, o que permitia que o Bahia recuperasse a posse. Repare que isso não necessariamente comprometeu a posse de bola do Atlético em volume (terminou o primeiro tempo com 65%, segundo o SofaScore), mas trouxe repercussões importantes na armadilha criada para superar a primeira linha adversária.

Some-se a isso outro mecanismo interessante, ocorrido por dentro: ainda que Bruno Guimarães e Lucho González fossem linhas de passe disponíveis, não lhes eram dados tempo e espaço, porque Gregory e Élton seguiam o movimento dos atacantes e subiam metros fazendo encaixes quase que individuais nos meias do Atlético. Não perca de vista (especialmente se você for treinador ou treinadora) que um time de futebol deve viajar junto. Onde vai um, vão todos. No pressing do Bahia, especialmente no primeiro tempo, houve um senso de ocupação espacial e solidariedade que trouxe constrangimentos importantes na saída sustentada do Atlético. As consequências foram não apenas de ordem tática, mas também mental – o Atlético sentiu-se atingido naquilo que, por ora, faz melhor. O Bahia fez o Atlético sofrer um pouco mais.

A natureza pressionante do sistema defensivo do Bahia me parece ser a razão principal para que tivéssemos um jogo de transições. Neste caso, o Atlético era mais exposto em transição defensiva, já que o adversário subiu o bloco. Pelo mesmo raciocínio, o Bahia tinha maior tendência ao jogo em transições ofensivas.

Tendo em vista que o desejo do Bahia era desarmar o mais próximo possível do gol, era esperado que o comportamento pós-recuperação fosse substancialmente vertical. Não por acaso, o Bahia acabou finalizando muito mais do que o Atlético (23 a 9, segundo o whoscored). Repare, aliás, como o jogo entrelaça as ideias de cada equipe: o Atlético quer atacar em campo grande e defender em campo pequeno. De acordo com a zona em que era desarmado (repare na figura abaixo), era evidente que haveria espaços a serem atacados pelo Bahia, tendo em vista a disposição espacial que está no coração do modelo de jogo deste Atlético. O jogo sempre oferecerá um antídoto, uma kriptonita capaz de expor as fraquezas de um dado modelo ou de uma dada estratégia. As melhores equipes são aquelas que, apesar disso, estão dispostas não apenas a contar os custos, como também a pagar o preçodas suas escolhas.

bahia 2Aqui, as regiões de cada desarme no jogo (em laranja, os desarmes do Bahia, que ataca para a direita). Repare que quase metade dos desarmes do Bahia acontecem no campo de ataque. Na verdade, os números das duas equipes são muito próximos, com uma diferença principal: o Bahia atacava se defendendo – pressing! – enquanto o Atlético se defendia pelo ataque (Créditos: whoscored).

Ainda sobre a organização defensiva do Atlético, chamo a atenção para outro ponto que me parece importante: o posicionamento de Guilherme e Nikão. Como você bem sabe, eles dois e Pablo formam otrio ofensivo – Pablo mais centralizado, Guilherme e Nikão pelos lados. Quando o Atlético tem a bola, os dois não estão exatamente abertos, porque o corredor deve estar livre para os alas (no caso de Nikão, pode até haver trocas com Matheus Rossetto, como pudemos observar no primeiro tempo), mas geralmente estão entre os corredores lateral e central, e entre as linhas de marcação do adversário – uma solução ofensiva que me agrada muito, aliás.

Mas, quando o Atlético se defende, eles não necessariamente recompõem a linha de Bruno Guimarães e Lucho González. São dois os motivos: primeiro, porque esta é uma estrutura que me parece favorecer o pressing pós-perda, especialmente se considerarmos o modelo de jogo do Atlético. Depois, porque a impressão é que espera-se exatamente que os dois (especialmente Guilherme, que me parece menos propenso à recomposição) preocupem-se em se defender mais adiante, na transição ofensiva do adversário. Assim, é comum vê-los alguns metros à frente dos meias, deixando eventuais espaços às suas costas. Tendo em vista que o Atlético não necessariamente sobe o bloco (marcou muitas vezes em bloco médio neste jogo), isso significa que, em caso de superação da primeira linha defensiva, é possível que o Atlético sofra com repercussões importantes tanto para Bruno/Lucho quanto para os alas – especialmente contra equipes que têm jogadores fortes no 1 v 1 pelos lados do campo (como era o caso de Zé Rafael, por exemplo). Me parece uma questão a ser observada.

Por último, uma breve observação sobre o Atlético quando ataca. Como dissemos acima, parece que o Atlético real ainda razoavelmente distante do Atlético ideal, especialmente se pensarmos na construção de situações claras de gol com bola rolando. O Atlético, em zonas mais baixas, mantém a posse e progride. Em zonas mais altas, mantém a posse, sem que necessariamente evolua. Ainda não me parece uma questão definida, mas tenho algumas hipóteses. Neste jogo, a primeira está no comportamento defensivo do Bahia, já analisado anteriormente. Os comportamento no pressing e na organização defensiva (veja a figura abaixo) trouxeram constrangimentos importantes para o Atlético quando em posse da bola. Além disso, me parece que o trio ofensivo pode ser ligeiramente mais participativo, ainda que em momentos diferentes. Quando a bola está no primeiro terço, Nikão e Guilherme me parecem levemente distantes do resto da equipe (o que piorava quando o Bahia encontrava encaixes individuais, especialmente de Nino Paraíba sobre Guilherme), de modo que havia menos apoios ofensivos disponíveis. Da mesma forma, me parece que Pablo poderia ser mais requerido ofensivamente – em 85 minutos, tocou apenas 15 vezes na bola, segundo o whoscored. Quando o Atlético estiver próximo do último terço, imagino que Pablo possa recuar alguns metros, não apenas para criar outra linha de passe, como para abrir espaços às suas costas, eventualmente após atrair um dos zagueiros. Assim como o Atlético cria uma armadilha para progredir a partir dos zagueiros, pode criar outra para encontrar espaços a partir dos meias/atacantes, invadindo a área em boas condições de finalização.

bahi 3Repare como o Bahia restringe os espaços centrais. Paulo André está com a bola, mas os dois apoios mais próximos estão fechados. Lucho González está adiantado, mas não exatamente disponível. Rossetto provavelmente havia feito algum movimento interior segundos antes. Pablo é quem dá profundidade – imagino se não seria interessante caso, em determinadas situações, ele voltasse alguns metros, criando um novo apoio e abrindo espaço para um dos meias. (Créditos: Reprodução Premiere)

Para o segundo tempo, com o placar ainda zerado, o Atlético não fez substituições. Mas tive a impressão de que houve uma instrução para explorar as costas do lateral-esquerdo Leo Pelé. Este é outro benefício do posicionamento ofensivo de Nikão e Guilherme: eles têm alguma flexibilidade para encontrar espaços tanto por dentro quanto por fora. Neste caso, me parece que a ideia era que Santos considerasse acionar Nikão, às costas de Leo – o que acabou acontecendo vez ou outra. Repare aqui que mesmo um modelo de jogo desenhado com tanto esmero está sempre aberto – na verdade, o modelo de jogo deve estar aberto. O modelo não é fechado. O modelo é um roteiro escolhido a priori. Mas é um roteiro em aberto, adaptável.

À medida que o jogo avançava, minha sensação era que o Bahia baixava gradativamente o bloco. É importante considerar que o Bahia disputa quatro competições simultâneas, e mesmo os mais leigos sabem dos efeitos fisiológicos que o acúmulo de situações de intensidade máxima (jogos) causa sobre qualquer atleta. Apesar do desgaste, o jogo não me pareceu ter perdido seu caráter transicional. Nenhum dos times se apartou da busca pelo gol: o Bahia, pela condição de mandante. O Atlético, pela natureza do seu modelo. O jogo seguiu aberto, dando margem para que Santos se firmasse como o melhor em campo (pelos constrangimentos a que foi submetido com as mãos e os pés), ao mesmo tempo em que expunha alguns dos riscos corridos pelo Atlético em transição defensiva, como já falamos acima.

Mais uma vez, o Atlético esteve envolvido em um jogo interessante, ainda que sem gols. Neste domingo, me parece ter sofrido consideravelmente, o que certamente serve como aprendizado para uma equipe que não é, mas que está. Aprender a sofrer é parte importante na maturação de qualquer organismo. Não seria diferente no futebol.

Mas me parece interessante perceber como as boas ideias causam repercussões maiores. A riqueza conceitual e o entretenimento resultante dos últimos jogos são, em grande parte, responsabilidade do próprio Atlético, que joga futebol como se estivesse na rua de casa – e chama o adversário para jogar junto. Neste sentido, o Atlético parece construir um futebol que, para além do tatiquês, é democrático, porque convida para o jogo todos os seus jogadores, o adversário, a torcida (que vibrava com cada pressão) e a imprensa. O modelo de jogo não precisa de ‘jogadores de qualidade’. É o modelo que qualifica o jogador! O jogador sabe muito, mas precisa de quem nele desperte o saber adormecido.

Ainda que isso cause sofrimento.

 

@hudrmp

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