DO DESENCAIXE À DESORDEM – Análise de Juventude 1 x 3 Avaí

Por Nícolas Wagner

Se diante de Figueirense e Oeste bons 45 minutos de futebol deixaram um certo otimismo em relação ao Juventude, contra o Avaí, nesse sábado, no Alfredo Jaconi, o alento durou apenas 7 giros do ponteiro do relógio. Foi o suficiente para o alviverde abrir o placar (em gol muito bem construído, por sinal) mas, por consequência, voltar a mudar radicalmente sua postura a partir da vantagem no marcador. Some a isso o desencaixe proporcionado pelo sistema com três zagueiros do adversário, novas falhas de concentração, decisões erradas do técnico Julinho Camargo, e o Juventude concluiu a partida com um desastroso, porém justo, 3 a 1 contra.

Com apenas uma novidade em relação à equipe que empatou com Oeste (Vidal no lugar do lesionado Fellipe Mattioni), o Ju iniciou agressivo no 4-2-3-1. Com mais posse de bola, o alviverde conseguiu o gol cedo a partir de uma construção com todos elementos necessários para um bom sistema ofensivo: inversão de jogo, de Jair para Caio Rangel, ultrapassagem de Pará, cruzamento para Fellipe Mateus, meia que pisa na área, e conclusão perfeita do centroavante Guilherme Queiróz.

A construção do gol teve o Juventude se aproveitando do sistema em que Geninho, técnico do Avaí, mandou sua equipe à campo. No recém incorporado 3-5-2 catarinense (que na prática esteve mais para um 3-4-3), a compensação e a abordagem pelos lados ainda não estava bem assimilada pelos atletas, e o Ju se aproveitou disso no lance do gol através da dobradinha entre Caio Rangel e Pará contra Guga e Fágner Alemão.

ju 1Guga e Fágner Alemão são superados pela dobradinha entre Caio Rangel e Pará, que aproveita que nenhum meio-campista (Pedro Castro era o mais próximo) fecha o buraco na primeira linha e cruza com liberdade no lance do gol de Queiróz.

Desencaixe e recuo

No entanto, depois disso a plataforma utilizada pelo Leão mais resultou em problemas para o Juventude do que o contrário, tanto pelo estranhamento causado por um esquema pouco usual no futebol brasileiro quanto pela marcação prioritariamente individual que o alviverde adota não encontrar “encaixe” no embate 4-2-3-1 x 3-4-3. Julinho tentou ajustar isso no primeiro tempo, mas problemas de comunicação do treinador com os atletas fizeram com que o Ju simplesmente variasse para um 4-1-4-1, com Leandro Lima fechando em uma segunda linha de 4 ao lado de Jair. Ação que teve pouca influência na prática.

ju 2Percebam como o 3-4-3 avaiano gera um “desconforto” no 4-2-3-1 gaúcho. Por exemplo: os pontas pressionam os zagueiros dos lados ou os laterais? A consequência dessa decisão repercute e tende a gerar um desconforto em uma equipe que marca prioritariamente de modo individual como o Juventude. Fonte: TacticalPad

Além disso, o processo que resultou no crescimento avaiano na partida também esteve muito atrelado ao recuo mal feito pelo Juventude após o 1 a 0, algo que já havia sido notado na partida contra o Oeste. Por mais que Julinho Camargo afirme que esse tipo de atitude não é culpa sua, é nítido que o modelo de jogo pragmático do treinador influencia os atletas a perderem a ambição. Baixar as linhas de marcação não seria de todo ruim se a equipe conseguisse fechar os espaços e, quando com a bola, tivesse ímpeto e buscasse o jogo associativo. Mas, além de rifar bolas e deixar a posse confortavelmente sob controle do Avaí (que chegou a picos de 74%), o Juventude ainda começou a dar alguns espaços entre as linhas de marcação.

O gol de empate, assim como contra o Oeste, surge de uma cobrança de lateral. Fred e César Martins não fazem o “sanduíche” de maneira eficiente contra Rodrigão e, após a defesa de Matheus Cavichioli, Rômulo marca no rebote, às costas de Vidal.

ju 3Fred e César Martins não ganham pelo alto de Rodrigão, e, após o rebote de Matheus Cavichioli, Rômulo aparece às costas de Vidal para marcar.

Ineficiente tentativa de ajuste leva à desordem

Para o segundo tempo, Julinho alterou radicalmente a disposição tática do Juventude. Objetivando principalmente preservar Caio Rangel do acompanhamento ao lateral Guga, o técnico alviverde montou um esquema quase assimétrico, que se assemelhou a um 4-4-2 losango.

ju 4Distribuição tática do início do segundo tempo. Fonte: TacticalPad

Por mais que o Ju tenha começado a 2ª etapa com uma postura mais agressiva, logo surgiram problemas de recomposição, especialmente no lado direito defensivo – de onde Fellipe Mateus saiu para compensar Rangel. Nada coincidentemente, foi nesta faixa do gramado que surgiu o gol da virada do Avaí. Novamente tendo como origem um arremesso lateral, o lance conta com a passividade alviverde ao portador da bola. Com isso, Capa cruza com extrema liberdade e encontra Renato livre às costas de Pará no segundo poste, em situação parecida com o primeiro gol.

ju 5Rômulo sai da área para receber arremesso de Capa e devolve ao lateral. Como César Martins não sai ao combate do atacante, Vidal fica entre Rômulo e Capa, dando ao lateral extrema liberdade para cruzar e encontrar Renato livre às costas de Pará.

Pouco tempo após o gol sofrido, Julinho alçou ao gramado Yuri Mamute no lugar de Guilherme Queiróz e Diones no lugar de Fellipe Mateus. As substituições não trouxeram qualquer tipo de impacto positivo na equipe. Pelo contrário, o Juventude virou uma verdadeira bagunça e, com recomposições extremamente mal-feitas, passou a ceder contra-ataques generosos ao Avaí, que se aproveitou de um deles para liquidar a partida com mais um tento de Renato.

ju 6Juventude completamente descompactado no lance do terceiro gol avaiano. Laterais fora da jogada e muita liberdade para Renato receber e marcar.

A desordem se intensificou na tentativa desesperada de Julinho ao colocar o centroavante Ricardo Jesus no lugar do lateral direito Vidal. Com Jair fechando o lado direito, o Juventude virou um remendo tático que só não resultou em goleada porque Matheus Cavichioli colocou a mão na bola para impedir que Rodrigão fizesse o quarto. Dessa forma, como o Julinho já havia feito as três alterações, o zagueiro César Martins foi para o gol. Um final melancólico para um jogo em que o Juventude completou sua pior atuação na temporada.

A partida desse sábado foi extremamente preocupante para a torcida jaconera, que tem motivos mais amplos do que a desorganização da equipe para protestar (isso abrange pontos como a má utilização das categorias de base, entre outros aspectos que demandariam reflexão mais complexa). Atendo-se apenas ao campo e à bola visto contra o Avaí, a involução alviverde foi gritante, e Julinho tomou decisões erradas que foram determinantes no curso do confronto.

@analiseECJ

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2 comentários sobre “DO DESENCAIXE À DESORDEM – Análise de Juventude 1 x 3 Avaí

  1. Excelente análise! Acredito que a montagem do grupo foi totalmente equivocada. Temos muitos problemas dentro e fora de campo, mas erros individuais estão custando os jogos (César Martins falhou em cinco dos seis gols sofridos até agora; Vidal totalmente perdido no terceiro gol, assim como o Pará). Me parece que o Ju recua naturalmente após sair na frente, espera o adversário, mas a defesa não tem condições de suportar uma pressão por muito tempo por ter peças ruins e ser mal protegida, e com isso acaba levando gol (s) em sequência. Claro que o conjunto precisa ser melhorado, mas acredito que o elenco foi pessimamente pensado… e isso falando desde o Gauchão do ano passado. A Série B anterior foi um pingo de ilusão na cabeça dos dirigentes, que viveram às custas de Ruan Renato, Domingues pré-caxumba e Tiago Marques vivendo momento mágico.

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