TEMPO E ESPAÇO NO PAÍS DE GALES – Análise de Swansea 0 x 1 Chelsea

Por Hudson Martins

Swansea e Chelsea fizeram um jogo interessante no Liberty Stadium. O placar magro não reflete a riqueza de situações perceptíveis em campo. A vitória do Chelsea me parece resultado de três fatores principais: o controle do corredor central, o posicionamento defensivo de Andre Ayew e as dinâmicas recorrentes entre Eden Hazard e Olivier Giroud – especialmente no primeiro tempo. Hazard personificou o controle do tempo e do espaço. Foi o melhor jogador em campo.

Embora falemos de duas equipes que partem de uma linha de cinco, temos aqui estruturas coletivas essencialmente diferentes. O Chelsea me parece mais equilibrado e confortável. Não por acaso, foi superior.

A primeira diferença importante está na organização da segunda linha ofensiva, logo depois dos zagueiros. Carlos Carvalhal optou por uma linha de quatro meias, composta pelos dois alas (Connor Roberts e Martin Olsson) e pelos dois meias interiores (Andy King e Ki Sung-Yueng). Por dentro, era nítido que King tinha a função de promover uma espécie de balanço, oferecendo uma primeira linha de passe para os zagueiros, além de cobrir os espaços deixados por Ki – cuja posição média, durante todo o jogo, fora alguns metros acima do colega. O controle do tempo e do espaço não parecia exatamente fino: embora fosse perceptível, especialmente no início do jogo, uma intenção do Swansea de atrair o Chelsea para zonas mais laterais, e depois buscar uma inversão para o lado oposto, a impressão era de que o Swansea não conseguia encontrar o timing certo para fazê-lo. Assim, não raro, o ataque do Swansea fluía vagarosamente, de modo que o Chelsea tinha o tempo necessário para recompor-se nas suas linhas defensivas.

A estrutura ofensiva do Chelsea era diferente. Enquanto o Swansea tinha dois meias a frente dos zagueiros, o Chelsea tinha um triângulo, formado por N’Golo Kanté, Tiemoué Bakayoko e Cesc Fabregas. Pelas alas, bastante abertos, Victor Moses e Emerson Palmieri. Ou seja, o Chelsea forma dois tripés no corredor central: um com os zagueiros (Cesar Azpilicueta, Gary Cahill e Antonio Rudiger), outro com os meias. Mas não são estruturas iguais. O tripé de zagueiros ocupa um espaço mais horizontal, porque Azpilicueta e Rudiger criam a amplitude necessária para superar a primeira linha de marcação adversária – neste caso, formada apenas por Jordan Ayew. O tripé dos meias tende a ser equilátero, os três meias dispostos de forma quase equidistante, mas com Fabregas e Bakayoko uma altura acima de Kanté, o que fez com que o Chelsea tivesse uma dinâmica posicional favorável para controlar o jogo por dentro. Não raro, o Chelsea modelou o tempo e o espaço, especialmente no primeiro tempo, desequilibrando a defesa do Swansea e apresentando não apenas dinâmicas de manutenção da posse nitidamente bem treinadas, como também bastante agradáveis esteticamente (uma delas, que termina em uma inversão de Fabregas para Bakayoko, é realmente admirável). A superioridade numérica obtida no centro do campo é um primeiro fator que nos ajuda a entender o domínio do Chelsea neste jogo.

Tendo o corredor central dominado, o Chelsea precisava progredir. Muito embora tivesse os alas em amplitude máxima e tão profundos quanto possível, o caminho desejado ainda era interior, onde estavam Hazard e Giroud. Vejamos como o Chelsea chegou até eles

Na defesa, o Swansea desenhava uma linha de cinco e outra de quatro jogadores, todos atrás de Jordan Ayew. Mas a linha média tinha uma particularidade: Andre Ayew não fazia exatamente uma recomposição. Enquanto Sam Clucas preenchia o corredor esquerdo, Ayew até retornava, mas não recompunha na mesma altura da sua linha – ocupava um espaço alguns metros adiante, às vezes mais próximo do irmão Jordan do que dos outros meias. O resultado era uma linha assimétrica, eventualmente desocupada pela direita. Some-se a isso a organização ofensiva do Chelsea (com Bakayoko exatamente às costas de Ayew) e temos aqui uma nítida repercussão: a sobrecarga tática de Ki. O bom meia coreano precisava não apenas flutuar ao lado de King, como também encurtar os espaços de Bakayoko. Os deslocamentos laterais de Ki deixavam espaços importantes entre ele e King. Assim, a causa primeira deste problema não era exatamente o movimento de Ki (que nada mais era um mecanismo compensatório), mas sim as questionáveis decisões defensivas de Ayew. Foi neste espaço interior que o Chelsea encontrou, por diversas situações, tanto Hazard quanto Giroud – especialmente o primeiro. Repare como os momentos do jogo estão profundamente conectados, e como decisões aparentemente desimportantes têm, na verdade, repercussões sistêmicas no modelo de jogo.

O gol está logo nos primeiros segundos do vídeo. Repare na assistência de Hazard para Fabregas.

O comportamento do Chelsea me pareceu substancialmente materializado no desempenho de Hazard. Muito embora Giroud e ele estivessem em suposta inferioridade numérica (4 v 2, no mínimo), era nítido que o entendimento entre eles estava além da compreensão da (desfalcada) defesa do Swansea. Aqui, me parece interessante perceber como o que os espanhois chamam de superioridade sócio-afetiva não se constroi através do tempo puramente cronológico. Hazard e Giroud jogam juntos há pouco tempo. Mas mesmo assim demonstraram, ao menos neste jogo, uma sintonia admirável.

Para além da inteligência dos dois, as dinâmicas da dupla também me parecem fruto de treino de boa qualidade. Hazard e Giroud se comunicavam em poucos toques – geralmente apenas um. Este detalhe já era suficientemente infernal para a defesa do Swansea. Não bastasse isso, os dois replicavam, na sua dinâmica, o posicionamento dos meias, como falamos acima: próximos, mas em alturas diferentes. Assim, era possível uma comunicação fluida, corrente, em que o movimento da bola e dos dois causava desequilíbrios recorrentes ao sistema defensivo do Swansea. Quando Giroud voltava alguns metros, não raro observávamos Hazard buscando falsos desmarques em profundidade, simplesmente para jogar a linha defensiva para trás. Quando era o próprio Hazard que voltava, Giroud servia como pivô (o que faz bem, tanto pelo alto quanto por baixo), podendo encontrar rapidamente o colega, que recebia a bola em posição confortável, de frente para o gol.

Repare que não se trata de uma situação exatamente agradável para qualquer defensor. O desempenho acima da média de Hazard não se viu exatamente quando lhe sobravam tempo e espaço, mas sim na sua falta, quando ele estava pressionado e encontrava alguma solução mirabolante. A maturidade parece fazer de Hazard ainda mais confortável com a bola, mas com um controle mais fino do tempo, da diferença entre o tempo de condução e o tempo exatodo passe, este nas melhores condições possíveis – se tiver dúvidas, veja abaixo o lance do primeiro gol. Além de consequências táticas para a própria equipe, os momentos eventualmente obscenos de Hazard trazem efeitos psicológicos devastadores para o adversário, ainda mais para uma equipe em delicada situação, como o Swansea. Se Carlos Carvalhal utilizasse três meias por dentro (criando igualdade numérica no setor), imagino que a influência de Hazard sobre o jogo poderia até ser amenizada. Mas mesmo assim seria significativa

Por ter feito um gol precoce, além de mais duas ou três boas situações no primeiro tempo, o Chelsea parecia muito confortável em boa parte do jogo. Sabendo disso, Carvalhal fez duas mudanças que merecem registro: na primeira, colocou Nathan Dyer no lugar de King, deixando Clucas ao lado de Ki. Dyer entrou pela direita, o que significa que Andre Ayew foi deslocado para o lado oposto, por onde ainda deixava os espaços de que falamos acima. A diferença é que o Chelsea parece ter um sistema compensatório que autoriza Cesar Azpilicueta a subir mais metros do que Rudiger no ataque (talvez em razão da posição de origem do espanhol). Assim, os riscos corridos pelo Swansea poderiam ser até maiores, visto que não apenas o meia poderia se apropriar dos espaços deixados por Ayew, como também um zagueiro.

A questão é que, no segundo tempo, o Chelsea jogou menos em posse e mais em transição, de modo que as decisões defensivas de Ayew não tiveram maiores consequências. Mesmo assim, Hazard teve espaços generosos no segundo tempo. Emerson Palmieri apareceu bem em transição ofensiva, e poderia ter tido melhor sorte em pelo menos duas situações. O Swansea, por sua vez, sua mais importante mudança estrutural aos 63 minutos, quando Tom Carroll substituiu Roberts, de modo que os mandantes passaram a jogar com uma linha de quatro atrás, ao invés de cinco. Na prática, os resultados foram tímidos. Muito embora o Chelsea tenha passado mais tempo no seu próprio campo, me parece tê-lo feito deliberadamente (o tripé de meio-campistas agora estava em igualdade numérica, mas em superioridade posicional). Apesar dos riscos aqui envolvidos, me parece que o resultado fora substancialmente ameaçado em momento algum.

Restando três rodadas para o encerramento da Premier League, o Chelsea ainda guarda suas esperanças sobre a Champions League. Observa com atenção o Tottenham, que joga nesta segunda. Enquanto isso, lida com situações internas aparentemente desconfortáveis, como a decisão de Conte em deixar Willian no banco por 80 minutos. Apesar do bom desempenho da equipe, falamos de uma decisão bastante questionável – e cuja motivação não soa exatamente tática ou técnica, como sabemos. Ao mesmo tempo, me parece razoável que o questionamento tenha parcimônia: não falamos apenas de um treinador de ótimos resultados, como também falamos de um trabalho de duas temporadas, em um clube importante. Desgastes são parte absolutamente natural do percurso. Se estivéssemos lá, provavelmente também nos sentiríamos no nosso limite.

@hudrmp

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