FUTEBOL EFICIENTE vs FUTEBOL TOTAL: A COPA DE 1974

Por Ícaro Caldas

O mundo naquele ano esteve bem agitado. De um lado esbocaram-se mudanças positivas, como o fim do salazarismo em Portugal ( e a consequente independência de suas colônias africanas), a expectativa de redemocratização na Espanha, confirmada no ano seguinte com a morte do general Franco, e a renúncia de Nixon nos Estados Unidos após escândalo de Watergate. De outro lado, entretanto, não tinham desaparecido grupos e governos favoráveis a ações violentas, fossem eles de esquerda, como o Baader-Meinhof na Alemanha, fossem de direita, como a linha dura militar no Brasil, que não aceitava a abertura “lenta, gradual e segura” proposta pelo presidente Geisel. No plano esportivo, o projeto idealista de Jules Rimet terminou de ser sepultado em junho daquele ano com a eleição de João Havelange para a presidência da FIFA, cargo que ocuparia até 1998.

Na copa de 1974, a seleção mais aguardada era a da Holanda, dirigida por Rinus Michels, que havia montado o time do Ajax campeão europeu de clubes em 1971 e que, sem grandes mudanças, venceria ainda em 1972 e 1973 sob o comando do romeno Stefan Kovács. A dinâmica de jogo criada por Michels impressionava pelas novidades que trazia e pelas dificuldades que impunha aos adversários —- movimentação constante (daí as célebres denominações de “Carrossel Holandês” ou “Futebol Total”), ataque e defesa em bloco, troca continua de passes, alto percentual de posse de bola. Para executar esse tipo de jogo, eram necessários futebolistas não somente de qualidade, mas também ecléticos, desempenhando variadas funções ao longo da partida. E Michels os tinha, sobretudo Johan Cruijff, ganhador da bola de ouro em 1971, 1973 e 1974, escolhido pela revista italiana Guerin Sportivo em 1996 como o terceiro maior camisa 10 de todos os tempos (superado apenas por Pelé e Maradona) e definido pelo jornal francês L’Équipe em 2005 como “talvez o melhor jogador europeu de todos os tempos”. Também se esperava bastante da Alemanha Ocidental. Além de jogar em casa, a seleção alemã tinha como base o time do Bayern de Munique, que conquistara o título europeu de clubes apenas cinquenta dias antes da final da Copa do mundo. Nesse plano, ocorria uma transmissão de cetro que augurava coisas boas para a seleção alemã: ao tricampeonato de time de Munique (1974-6). Da mesma forma, quem interrompeu a sequência de Cruijff na premiação de melhor jogador da Europa foi Beckenbauer, Bola de ouro em 1972 ( e depois em 1976).

Ademais, como país de futebol, a Alemanha já tinha naquele momento um cartel nada desprezível: ia para sua oitava participação em Copas do mundo, tendo sido campeã em 1954, vice-campeã em 1966, terceira colocada em 1934 e 1970 e quarta colocada em 1958. Sua pior participação havia sido um décimo lugar na distante Copa de 1938. Embora menos brilhante que a Holanda, a Alemanha tinha uma equipe consistente e mentalmente forte. Como haviam feito vinte anos antes com a Hungria, de novo os alemães se superaram e venceram (2 a 1) a equipe mais bem dotada tecnicamente.

O Brasil, de seu lado, chegou a copa de 1974 sem a brilhante geração de 1970, da qual continuavam apenas Jairzinho, Rivelino, Piazza e Marco Antônio (este sem ter atuado). Fosse por falta de interlocutores, como tivera no México com Pelé, Gérson, Carlos Alberto e Tostão foi enfrentar a Holanda na semifinal pouco conhecendo dela, qualificando-a depreciativamente como dona de um “futebol alegrinho”. A declaração antes da partida foi ainda mais infeliz: “O time deles é bom, mas os holandeses não têm tradição em Copas é isso pesa. A Holanda não me preocupa. Estou pensando na final com a Alemanha”. Mas o retrospecto da seleção na primeira fase da Copa não autorizava essa empáfia. O Brasil havia empatado em 0 a 0 com Iugoslávia e Escócia, classificando-se para a etapa seguinte pelo saldo de gols ao vencer o Zaire por 3 a 0.

Ora, esse ano era um resultado a levar muito em conta. Dos países que estreavam em Copas (Alemanha oriental, Austrália, Haiti e Zaire), este último foi o pior de todos. Quando conquistou a Copa Africana de Nações e a classificação para ir à Alemanha, o ditador do país disse que daria generosos prêmios aos jogadores, mas não cumpriu o prometido e a seleção estava desmotivada na Copa: tomou catorze gols e não marcou nenhum. É verdade que, depois do Zaire, o Brasil passou por Alemanha Oriental (que na fase inicial vencera a futura campeã Alemanha Ocidental) e Argentina, porém naquelas cinco partidas o time fez apenas seis gols. A Holanda, por sua vez, antes de enfrentar o Brasil, assinalara o dobro de gols e conseguira resultados mais expressivos contra os mesmos adversários: 4 a 0 na Argentina (a seleção brasileira fez 2 a 1) e 2 a 0 na Alemanha Oriental (nossa seleção venceu por 1 a 0). Não foi surpresa, então, a tranquila Vitória da Holanda sobre o Brasil por 2 a 0, nem a derrota brasileira para a Polônia por 1 a 0 na disputa do terceiro lugar.

 

@caldas_icaro

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