O FUTEBOL INATINGÍVEL NÃO É MOTIVO PARA NÃO QUERÊ-LO #impressões  de Grêmio 0 x 0 Atlético-PR

Por Hudson Martins

1_aLRqtYur9fKgrX1gMNcV_gCréditos: Fotos Públicas

(quais são as diferenças principais entre o senso comum e o pensamento rigoroso? São muitas – você não precisa se atentar a todas. Pense nisso por um instante)

  1. Na semana passada, nós dissemos aquique o traço distintivo deste Atlético é o movimento. O Atlético não é, o Atlético está. Mas e o Grêmio? Bom, o Grêmio também não é, ele está. Até porque, se o Grêmio fosse, já teria sido plenamente decifrado pela crítica e pelos adversários (principalmente). A diferença central é a seguinte: Grêmio e Atlético estão. Mas o Grêmio está há mais tempo.
  2. A relação com o tempo é um começo interessante para separarmos o senso comum do incomum. O senso comum procura as singularidades. Quer encontrar o diferente, o exótico. Mas esta não é uma preocupação do pensamento rigoroso: ele quer as generalidades, as repetições, quer saber o que se sucede ao longo do tempo. Quando falamos sobre o jogo deste domingo, este é um fator que deve ser levado em conta: não podemos ter um olhar exatamente isonômico, porque temos aqui dois trabalhos diametralmente opostos na sua relação com o tempo – quase dezessete mesesde saldo para o Grêmio! Não por acaso, o Grêmio é uma equipe em pleno domínio de si mesmo. O Atlético, idealista, pavimenta o caminho para encontrar-se consigo.
  3. O meio encontrado pelas duas equipes é o mesmo: a bola. Mas os itinerários são iguais? Não, não são. Para criar desequilíbrios, o Grêmio busca o trio Maicon/Arthur/Luan. A construção ofensiva gremista é regida pelos três e, a partir deles, o ataque acontece. É especialmente interessante notar o funcionamento das dinâmicas ofensivas quando Luan está em campo. Com ele, é estabelecida uma relação ambígua: Maicon e Arthur parecemter sua performance relativizada, porque Luan está igualmente destinado a tocar muitas vezes na bola (91 contra o CAP), tanto pela sua própria natureza quanto pelo modelo estabelecido. Mas, ao mesmo tempo, Luan é uma peça solta no meio-campo, sempre em movimento, o que faz com que haja mais espaços livres… exatamente para Arthur e para Maicon! É uma relação de barganha, com juros fixados (para o adversário). Some-se a isso o bom entendimento de André – outro que respira a faixa central, embora metros acima – e podemos entender não apenas como o Grêmio estabeleceu, ao longo do tempo, um controle absolutamente admirável do corredor central, mas porque este controle trouxe tantas repercussões ao sistema defensivo do Atlético, especialmente no primeiro tempo. Encontrar a mais fina sintonia dos mecanismos defensivos (em organização ou nas transições) é uma tarefa que demanda tempo. Não apenas o tempo cronológico, mas o tempo do jogo. Que, vez por outra, é mais complexo.
  4. O Atlético, por sua vez, circula a bola com outras intenções. O Atlético joga como um enxadrista, que ilude o adversário com uma ou duas decisões supostamente questionáveis quando, na verdade, está pensando cinco ou dez jogadas à frente. As pressões exercidas pelo Grêmio, especialmente nos primeiros 60 minutos, não foram responsabilidade exclusiva do sistema defensivo gremista. O Atlético, nitidamente, queria ser pressionado. Por quê? Porque este é o traço que distingue as equipes altas das equipes médias. As boas equipes não têm medo dos adversários que sobrem o bloco. Pelo contrário, as boas equipes querem que o adversário suba o bloco, porque sabem que o pressingdeixa espaços, e é justamente dos espaços que as boas equipes se alimentam. Basta um passe vertical e – xeque-mate! – quebram-se as linhas adversárias, o campo se abre. As equipes médias, como estão apenas parcialmente comprometidas com o seu modelo, com as suas ideias e, em maior escala, com o jogo, desistem ao primeiro sinal de embaraço, tão logo se fecham as primeiras linhas de passe, apenas desistem. O problema é que o futebol, inclusive no alto nível, tem uma função educativa inesgotável. O jogador que resiste no jogo, também resistirá fora dele. A responsabilidade do treinador não está apenas no jogar, mas está no viver.
  5. Como exemplo das pressões intencionais de que falo acima, basta compararmos o número de vezes em que Marcelo Grohe e Santos tocaram na bola durante o jogo. Leio no whoscoredque Santos tocou na bola 55 vezes (!), contra 19 de Grohe. Embora este também seja um breve reflexo do comportamento do Atlético em organização defensiva (não subiu o bloco tantas vezes quanto o Grêmio), é certamente um grande retrato do uso de passes em regressão como convites para o pressing do adversário. Neste sentido, a ideia do jogo de xadrez é realmente interessante, porque ilustra o confronto de uma equipe que pressiona com admirável domínio do espaço, contra uma equipe treinada exatamente para criar novos espaços sob pressão. O Atlético levou à risca a ideia de que treino é jogo e jogo é treino, e implementou o mais difícil dos microciclos simplesmente contra a equipe campeã da América, na sua casaNão foi por acaso que o Atlético adaptou-se durante o jogo. Supercompensação?
  6. Enquanto isso soa curiosa a torcida (às vezes explícita) de parte da crítica para que cada saída sustentada das equipes de Fernando Diniz termine em um erro grotesco, seguido de um gol do adversário. Além de um traço de má-fe (porque o sucesso do comentário depende do fracasso alheio), também parece um traço de enorme infantilidade. O crítico desconsidera que uma diferença central entre o senso comum e o pensamento elogiável é que este último não busca a exceção, mas busca a regra. Nós estamos em busca de padrões, porque eles é que podem nos levar à lógica do jogo. Sendo assim, o que significa um erro em face de cem acertos? Exato, absolutamente nada.
  7. Voando um pouco mais alto, é importante que todos nós, de alguma forma envolvidos com o futebol, tenhamos mais respeito com o jogo e com quem nele trabalha. Sim, há mais razão no jogo do que pode imaginar nossa vã filosofia. Sendo assim, qual é a função do treinador? O treinador é uma espécie de médico: faz uma anamnese do jogo e do seu grupo de trabalho e traça um procedimento, profilático ou não, que ajude a estabelecer um jogar saudável. Aos tratamentos suplementares, que mudam a cada rodada e que são mais frágeis em relação ao tempo, nós damos o nome de estratégias de jogo (ou similares). Ao tratamento essencial, escolhido para o médio/longo prazo, e que não é facilmente negociável, damos o nome de modelo de jogo. Uma anamnese mal feita e o tratamento vai por água abaixo. Quais são os recursos para uma boa anamnese? Boas ideias e bom diálogo. Qual o papel do crítico? Conhecer os tratamentos disponíveis e analisar, com rigor, se a escolha do treinador está adequada ou não ao contexto.
  8. A falta de rigor nos leva exatamente aos argumentos metafísicos (apagãoe similares) e este é outro traço que distingue nitidamente o senso comum do pensamento curioso: acomodar-se ou não no sobrenatural. Não é porque o jogo tem suas próprias razões que vamos nos resignar com as aparências. Se as coisas são inatingíveis, isso não é motivo para não querê-lasdiria o poeta. O mesmo vale para o futebol.
  9. Muito embora tenha replicado, em parte do segundo tempo, a pressão que impusera no primeiro, tive a sensação de que o Grêmio não teve uma queda unicamente física, mas também mental – e que esta fora igualmente causada pelo Atlético. O cansaço gremista também foi cognitivo, não apenas porque os espaços por dentro ficaram mais restritos, mas porque a organização ofensiva e as transições do CAP me pareceram mais seguras após a entrada de Bruno Guimarães. Mesmo jogando cerca de 20 minutos com um a menos, o Atlético saiu da Arena com mais posse de bola do que o Grêmio. Para além do resultado (e tendo em conta a anamnese e os procedimentos de Fernando Diniz e Eduardo Barros), este é um feito admirável.
  10. Afinal, esta é outra diferença do senso comum para o pensamento rigoroso: um está obcecado pelo produto, o outro pelo processo. Há infinitas formas de se chegar ao gol, mas como levar à perfeição uma forma criteriosamente escolhida? Quem já foi treinador, por um instante que seja, sabe que não é fácil. É preciso boas ideias e bom diálogo. E tempo. O Grêmio já maturou, firmou-se em alto nível. O Grêmio é Luan e Arthur. O Atlético ainda é jovem, carece de minutos e experiências, mas o Atlético está tomado de talento e tem ideias. O Atlético é Bruno Guimarães! É uma arrancada admirável no segundo tempo, mas é também é um cartão amarelo instantes depois de entrar. O todo, de fato, está nas partes. Tudo é um.
  11. Por fim, aqueles que sabem sobre o jogo talvez sejam os que sabem que não sabem. E esta é outra grande diferença – deveria ser – entre o senso comum e qualquer outro pensamento. Saber que não se sabe é uma dádiva, também no futebol. O jogo já sabe. Nós ainda queremos saber.
  12. Não por acaso, soa irônico que exatamente este jogotermine empatado sem gols. Azar dos números.

@hudrmp

 

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