OS DOIS JUVENTUDES – Análise de Juventude 1 x 1 Oeste

Por Nícolas Wagner

A estreia do Juventude em casa na Série B, contra o Oeste, teve dois momentos distintos. No 1º tempo, o alviverde conseguiu pressionar bem os rubro-negros, impondo uma superioridade que culminou no gol contra de Sueliton, já aos 45 minutos. Mas o recuo e o desgaste físico, aliado à melhora dos visitantes, resultou no empate dos paulistas, fazendo do 1 a 1 um bom retrato da partida.

Com Rangel e Queiróz, Ju inicia agressivo

Sendo coerente ao que aconteceu na estreia em Florianópolis, Julinho Camargo promoveu os ingressos de Guilherme Queiróz e Caio Rangel à equipe titular (o do segundo, também por conta da triste lesão de Felipe Lima, que fraturou o tornozelo no treino de quarta-feira). A estrutura, no entanto, se manteve: 4-2-3-1 com Fellipe Mateus na direita, Rangel na esquerda e Leandrinho atrás de Queiróz.

ju 1Juventude no 4-2-3-1

Jogando no Alfredo Jaconi, o Juventude iniciou agressivo, alternando a marcação em bloco médio com momentos de pressão aos zagueiros do Oeste. Com isso, dificultou as ações dos visitantes e teve o domínio da posse de bola.

Com a bola, muitas tentativas de inversões longas, especialmente para Caio Rangel, aberto na esquerda – o atacante, aliás, fez o que se espera dele, buscando o jogo vertical e tornando o lado esquerdo do ataque bastante agressivo a partir de sua dobradinha com Pará. As melhores ocasiões, no entanto, vieram nas poucas vezes em que o Ju conseguiu trabalhar por dentro antes de desafogar para fora. Foi assim na construção do chute cruzado de Pará, que obrigou Tadeu a fazer grande intervenção, e no gol impedido de Felipe Mattioni, que repetiu a postura de atuar em uma faixa adiantada, quase na altura da última linha adversária, com o ponta (Fellipe Mateus) caindo por dentro.

ju 2Juventude consegue causar um desequilíbrio por dentro com Fellipe Matheus se aproximando de Queiróz. Percebam como a movimentação repecute na linha defensiva do Oeste, que afunila e deixa o corredor direito livre para Mattioni, impedido, marcar.

Se o Juventude teve alguma dificuldade para infiltrar pelo centro, um recurso decisivo foi a bola parada. Mesmo que os 10 escanteios não tenham surtido efeito ao longo da partida, nas faltas laterais o alviverde levou vantagem. E as duas vezes em que isso aconteceu foram semelhantes, com Pará buscando Bertotto próximo à primeira trave. Na primeira ocasião, o volante desviou por cima. Na segunda, a bola passou por pouco do camisa 5 e Suéliton marcou contra.

O gol no final do primeiro tempo refletiu a superioridade alviverde, na posse de bola (62% a 38%), nas finalizações (4 a 1) e principalmente ao dar pouquíssimos espaços ao Oeste, sendo eficiente na pressão ao portador da bola e na transição defensiva.

Recuo na segunda etapa

O início do 2º tempo até apresentou um Juventude continuando a se fazer valer da bola parada para tentar ampliar – em dois lances em sequência, Pará, em cobrança de falta, e Caio Rangel, livre após escanteio, quase marcaram. Entretanto, seja por ordem de Julinho, intuição dos atletas, desgaste físico e/ou próprio mérito do Oeste, o fato é que na etapa final o alviverde teve sua postura perigosamente alterada. Sem exercer a mesma pressão na saída de bola, o Ju deixou que o controle da posse se invertesse (64% a 36% para o Oeste no 2º tempo) e que a equipe visitante crescesse na partida. Com mais espaço para jogar, os paulistas transformaram o goleiro Matheus Cavichioli de um mero espectador a um dos destaques da partida.

Após a primeira boa defesa do arqueiro alviverde, o Oeste colocou uma bola na trave em escanteio cobrado pela direita. O lance voltou a atentar para a fragilidade da bola parada defensiva do Ju, que já havia sofrido gol assim contra o Figueirense. Por mais que Julinho tenha trabalhado exaustivamente esse tipo de jogada durante a semana, sua marcação individual continua sendo deficitária inclusive no posicionamento dos jogadores de sobra. Além da bola na trave originada do escanteio ilustrado abaixo, nos outros dois escanteios que tiveram a seu favor na partida os paulistas levaram vantagem sobre os gaúchos.

ju 3Posicionamento equivocado da defesa alviverde no escanteio do Oeste que resultou em bola na trave. 4 jogadores nos encaixes individuais, 3 na sobra e ninguém de olho em Bruno Lopes, sozinho na 2ª trave

O gol de empate Oeste, aos 31 minutos, foi consequência do que se observava em campo e contou com a desatenção e mau posicionamento da defesa esmeraldina. Após cobrança de lateral, César Martins rebateu para a frente da área, onde nem Bertotto nem Jair estavam. Bruno Lopes pegou o rebote e finalizou rasteiro para empatar.

ju 4Na cobrança de lateral, Juventude tem vários encaixes individuais. No entanto, Bertotto sobra dentro da área e ninguém compensa o movimento, deixando a frente da área livre para Bruno Lopes pegar o rebote e finalizar

A desconcentração do Juventude no lance também teve a ver com o desgaste físico, uma vez que a mente e o corpo já não respondiam da mesma forma. Isso foi perceptível individualmente em jogadores como Jair (que mesmo assim foi novamente um dos destaques da equipe, com 5 desarmes) e nos problemas de organização e recomposição que se sucederam a partir do momento em que o Ju passou a buscar o gol da vitória. Assim, a grande chance da fase final da partida foi do Oeste, em contra-ataque que pegou a defesa alviverde totalmente desajustada e obrigou Matheus a fazer mais uma grande defesa e salvar o Juventude do pior.

ju 5Juventude fora do lugar – Bertotto é obrigado a cobrir Pará e desocupa a faixa central – e em inferioridade númerica no contra-ataque salvo por Matheus

Bola parada defensiva, condicionamento físico, mentalidade ofensiva e posicionamento de Queiróz – os pontos a melhorar

Além dos já citados problemas na bola parada defensiva e na parte física – que além do prejuízo técnico ainda tiraram Felipe Mattioni e Fred de campo por lesão – é necessário lançar luz a outros dois pontos em que o Juventude precisa melhorar: a mentalidade ofensiva e o posicionamento de Guilherme Queiróz.

A papada estava sentindo falta, especialmente nos jogos no Jaconi, da agressividade com que o Juventude atuou no 1º tempo. Porém, a equipe perdeu quase que completamente esse ímpeto nos 45 minutos finais, permitindo ao Oeste crescer na partida. Nesse sentido, ter ficado pouco tempo com a bola também foi prejudicial, e é consequência de uma equipe que não tem na mentalidade o gosto pela bola e por atacar o adversário. Assim como foi durante a Série B do ano passado com Gilmar Dal Pozzo, o Juventude é agressivo apenas quando o placar lhe é desfavorável, e o recuo excessivo após fazer o gol já começa a custar pontos. Evidente que não se trata de exercer marcação alta o tempo inteiro e sair “na loucura”, até porque o elenco não tem condições físicas para isso. Mas ficar mais com a bola e atacar mesmo quando ganhando é fundamental para quem tem atletas com boa qualidade técnica, como é o caso de Fellipe Matheus, Leandrinho, Queiróz, etc.

Outra questão a ser reavaliada é justamente o posicionamento/função de Guilherme Queiróz. Não há dúvida de que o atacante, artilheiro do Ju na temporada com 7 gols, precisa ser titular. Mas mais uma vez seu desempenho como “9” deixou a desejar. Queiróz sente-se desconfortável atuando preso entre os zagueiros. Dessa forma, participa pouco do jogo e depende muito da criação do resto da equipe para poder exercer seu poder de definição. O mapa de calor do atacante contra o Oeste evidencia isso, assim como os míseros 7 passes que Queiróz trocou com os companheiros ao resto do jogo. O posicionamento médio do Juventude na partida também mostra como o camisa 9 só conseguiu participar quando saiu da área – caindo principalmente pelo lado direito. Queiróz na ponta? Atrás do centroavante? Fazendo a função de falso 9 alternando o posicionamento com um dos meias? Opções Julinho têm.

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Mapa de calor atesta pouca participação de Queiróz. Fonte: Footstats

 

ju 7Posicionamento médio do Juventude na partida mostra  Queiróz (9) com poucas ações perto do gol. Fonte: SofaScore

Por terem sido vários os problemas nesse empate contra o Oeste (até mais do que na derrota para o Figueirense), é natural que uma chuva de pessimismo tenha caído sobre o Jaconi. Mas, dos 180 minutos jogados até aqui na Série B, em cerca de 90 o Juventude apresentou um futebol capaz de ser um norte. E ele tem agressividade e pressão no portador da bola, não retraimento.

@analiseECJ

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