A MONOTONIA DO FUTEBOL BRASILEIRO

Por Juan Carlos Moura e Rafael Lima

O futebol brasileiro sempre foi um prodígio na produção de pé-de-obra qualificada. Jogadores rápidos, habilidosos e técnicos. Mas em território nacional o futebol praticado é paupérrimo de um nível baixíssimo.

Nos últimos anos o futebol no mundo mudou, ou melhor, evoluiu.

Vencer partidas de futebol hoje em dia é como estar em uma batalha. Você deve progredir no território adversário, ser rápido, superar trincheiras, estar concentrado, ter maioria em cada território do campo de batalha, ser letal… Para isso, é necessário ter qualidade técnica e habilidade. Os principais clubes europeus tem isso aos montes. Neymar, Robben, Ascencio, Messi, De Bruyne, Sané, Iniesta, Ozil.

Não comparando o nível técnico com os jogadores a cima citados, mas, Dudu, Clayson, Rafinha, Keno, Rodriguinho, Diego, Alisson, Roger Guedes entre vários outros não poderiam fazer suas respectivas equipes jogarem um futebol de melhor nível?

Mas será que a culpa é apenas dos atletas? Vamos mostrar algumas estatísticas que ajudam a entender a qualidade do jogo praticado aqui:

monotonia 1

monnotonia 2Fonte Footstats

Existe quase um padrão nos jogos entre as grandes equipes brasileiras. O mandante tem a posse de bola tenta pressionar o adversário que busca jogar em transição rápida,  no contra ataque. Se o mandante faz um gol recua e o cenário se inverte. O visitante passa a pressionar e o mandante agora quer o contra ataque. E o  que mais acontece em terras tupiniquins, às equipes recorrem ao famoso chuveirinho.

Em geral as equipes derrotadas tiveram mais posse de bola, trocaram mais passes, porém o número de cruzamentos é mais ou menos equivalente. Se acontece o empate aí (às vezes) o jogo fica interessante, fica por vezes mais aberto, mais rápido, mas pouco pensado.

Mesmo o badalado e milionário Palmeiras  recai no mesmo cenário. Verdade seja dita que o trabalho é recente. Mas essa troca constante de técnicos/elenco é uma realidade no país.

Assistir partidas inteiras do campeonato brasileiro é quase um martírio, os torcedores assistem apenas aos jogos do seu time de coração.

Os sistemas defensivos em grande parte são muito bem montados para anular a qualidade individual de cada atleta. Ficaria a cargo de uma ideia sólida e bem treinada de jogo coletivo para facilitar que a qualidade técnica se sobressaia.

Eis aqui algumas razões do jogo nos principais campeonatos brasileiro ser tão aleatório, depender mais do erro do adversário ou bolas alçadas na área para fazer gols.

Saída em U

As melhores equipes do mundo sabem que pra terem êxito precisa jogar pra frente de forma vertical, o objetivo é passar a bola pra frente quebrando as linhas de marcação, progredindo no campo adversário.

Aí começam os problemas.

Os zagueiros precisam ter qualidade no passe para passar a bola para os meio campistas.

Mas o que mais acontece são duas situações:

A) O adversário fica todo postado no campo de defesa (atrás da linha da bola) e os zagueiros fazem a famosa saída em U. É a jogada em que o lateral direito passa para o zagueiro central, que passa para o quarto zagueiro, que passa para o lateral esquerdo. Não contentes fazem a bola voltar pros mesmos jogadores no sentido contrário.

Saída em “U” e o famoso “chutão”

B) O time adversário sobe a marcação e os zagueiros não pensam duas vezes em se livrar da bola, o famoso chutão.

 

Jogo vertical

Não é segredo que para progredir em uma partida do campo defensivo até o ofensivo é necessário trocar vários passes.

Mas se é tão “simples” por que não vemos o jogo fluir naturalmente?

Como dito no inicio do texto, as equipes montam verdadeiras trincheiras em seu campo defensivo. A era das marcações individuais praticamente se extinguiu, dando lugar a marcação do espaço/bola.

Dessa forma o que eram diversos duelos individuais deu espaço a marcações setorizadas com o objetivo de sempre ter o maior número de jogadores próximos à bola.

Sendo assim a equipe portadora da bola precisa ter algumas alternativas:

– Velocidade na troca de passes.

– ‎Jogadores próximos pra facilitar a troca de passes (jogo apoiado).

– ‎Mudar o lado da jogada sempre que possível, facilitando o 1 contra 1.

– ‎Jogadores que saibam jogar entre as linhas do adversário.

Nesse último detalhe reside um grande problema no futebol brasileiro. Quantos jogadores conseguem jogar entre as linhas adversárias, “exprimido” entre zagueiros e meio campistas. Luan é a resposta óbvia, Rodriguinho também sabe atuar nesse setor, alguns estrangeiros também tem essa facilidade como Guerra e Cueva.

Diego do Flamengo, ”por exemplo ,” é lento, retêm muito a bola, sempre desacelera o jogo e invariavelmente dá apenas passes laterais.

Outro problema é a falta de qualidade dos volantes atuantes na maioria dos times.

São jogadores mais preocupados em proteger a zaga e cortar contra ataques do que iniciar a transição defesa/ataque. Ralf, Gabriel, Rodrigo Dourado, Alison, Adilson, Henrique têm essa característica.

Felipe Mello, Jucilei e Maicon (Grêmio) são exceções, tem bom passe longo, curto e vertical. O que pesa contra os três é a falta de mobilidade e velocidade.

Atacantes que não dão profundidade

Ronaldo, Romário, Careca, França, Adriano esses são apenas alguns exemplos de atacantes que seguravam 2 às vezes 3 defensores.

A falta de capacidade de revelar novos centroavantes facilita o trabalho dos zagueiros.

Imagine a cena:

O time A que esta de posse da bola toca a bola de um zagueiro pro outro, então time B sobe a marcação pra pressionar os zagueiros, que rapidamente toca a bola de forma vertical para o volante quebrando a primeira linha. Se o centroavante fizer um movimento vertical ou diagonal (o facão) afundando os zagueiros adversário “alargando” o campo. A equipe de posse da bola terá todo território a frente para trabalhar a bola com generosos espaços à frente. É quase um contra ataque, mas com a posse de bola o tempo todo. Hoje em dia temos apenas centroavantes com quase 40 anos como titular dos principais times brasileiros (Fred e Ricardo Oliveira) sem centroavantes (Corinthians e Santos) ou com jogadores muito limitados tecnicamente (H. Dourado e Tréllez) isso sem falar em estrangeiros (Guerrero e Tréllez). Pra quem acha que não é necessário centroavante é só lembrar o impacto descomunal do Gabriel Jesus no título nacional do Palmeiras em 2016 e Jô no título nacional do Corinthians em 2017.

Passe vertical do zagueiro(4) quebrando a primeira linha adversária, centroavante(9) fazendo o ‘’facão’’

 

Goleiros apenas goleiros.

Por que Alisson é indiscutível na seleção e esta sendo assediado por grandes equipes do futebol mundial? É um excelente goleiro sem dúvidas, mas a qualidade em jogar com os pés ajuda muito. Ederson vai pelo mesmo caminho.

Por aqui, nenhum realmente sabe jogar como um líbero.

Na dinâmica de jogo em progredir com a bola desde o campo defensivo, o goleiro torna-se peça fundamental por que além de um desafogo para os zagueiros, ele dá vantagem numérica frente ao adversário.

 

Saída de bola com goleiro criando superioridade numérica

 

 Seleção brasileira criando superioridade com Alisson.

É claro que toda a regra tem a sua exceção, o Grêmio pratica o futebol mais prazeroso de assistir.

Geromel e Kaneman realizam passes verticais, Maicon consegue fazer a transição defesa/ataque com qualidade, Arthur é o facilitador do time todo. É o famoso todo campista, Luan joga com facilidade entre as linhas adversárias e o jogo flui naturalmente e com qualidade. Claro que nem tudo são flores, o centroavante (Jael) é bem abaixo da qualidade do time, até por isso o time se qualificou com a contratação de André. Mas mesmo com todas essas qualidades o Grêmio parecia um time de garotos jogando contra os adultos madridistas do Real Madrid, na final do mundial de 2017.

O futebol, deixou de ser uma caixinha de surpresa, todos se conhecem (in loco ou através de vídeos), superstições deram lugar a análises minuciosas do adversário (análise de desempenho) para encontrar a mínima brecha e explorar de forma letal.

Não explorei a formação dos atletas, o calendário maluco ou a desvantagem financeira abrupta entre os clubes europeus e os brasileiros.

A grande questão que fica, é,  esse cenário é irreversível? Ou ainda há luz no fim do túnel.

Com tantas opções de entretenimento (netflix, esportes, campeonatos internacionais,cinema etc) o futebol brasileiro precisa mudar e ser um produto mais atraente, mais agradável.

Ou será que apenas a competição acirrada, mas com nível de jogo nivelado por baixo é o suficiente para continuar atraindo novos torcedores.

Talvez o confronto de Grêmio e Atlético Paranaense, os dois times que praticam o futebol mais bonito aos olhos seja um fio de esperança no Brasil. Fizemos o pré jogo nessa análise https://mwfutebol.com.br/2018/04/21/gremio-x-atletico-pr-o-futebol-mais-bem-jogado-no-brasil/ e esperamos que se confirme, para o bem do futebol brasileiro.

@10juancarlitos

@rafjoga101983

 

 

 

 

 

3 comentários sobre “A MONOTONIA DO FUTEBOL BRASILEIRO

  1. Muito oportuno o comentário de Juan Carlos, o futebol brasileiro está muito chato de se assistir. Concordo, acompanho não na íntegra como os profissionais em Análise Desempenho, mas o tempo que tenho vejo jogos de futebol de base na Bahia, copa São Paulo Júnior, Estaduais, Nordeste, Brasileirão que começou agora, mas os jogos da Copa do Brasil entre São Paulo x Atlântico Paranaense e alguns jogos do Grêmio, nos motiva a acreditar em mudança para o Futebol. Isso quer dizer, se os profissionais da base dos clubes, passar a trabalhar os atletas dentro das suas características, investir, gastar tempo, com eles. Mas não variar tanto, a característica do jogador, isso porque, o profissional da base diz que eles é que faz o Jogador, perdeu a ideia de que Eles os Jogadores precisam é ser lapidados. Por outro lado não é todo jogador que compreende um esquema tático, se a coisa não for trabalhado desde cedo na base a partir dos 8 anos de idade. Sou fã de um jogo, bem jogado com esquema tático definidos e jogadores obedecendo os mesmos, mas por conta do técnico não ter muita segurança se permanece no mínimo 1 ano num time, eles ao serem contratados agem mais num faz de conta que trabalha taticamente as equipes, pois é um tal de jogar defensivamente, encher o meio de campo de Zagueiros e 1° volantes, fazendo de tudo para não perder o jogo. Então, está sificil.

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  2. Perfeito o comentário do Rudival. Os técnicos não tem tempo para desenvolver o elenco, pois são pressionados por resultados imediatos. E o problema maior está na base: quantos jogadores são formados no Brasil com qualidade nos fundamentos (passes rápidos, lançamentos, cabeçadas, chutes fora da área etc)? Qual a tecnologia disponível nas bases para boa nutrição e preparo físico dos atletas? Não é difícil ver o quanto nossos jogadores evoluem quando saem para a Europa. A cultura do futebol no Brasil está defasada.

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