BRASIL DE 1970 EM PLENA “TRItadura” – Análise da Seleção na Copa de 70

Por Ícaro Caldas

Talvez a metáfora que melhor descreva a Seleção campeã mundial em 1970 tenha sido a do escritor inglês Nick Hornby, em seu livro Febre da Bola. O Brasil era, compara ele, como um carro do James Bond, que atira mísseis de, dispara assentos ejetáveis e solta paraquedas, enquanto a Seleção Inglesa era um carro comum, digamos um Corsa de duas portas.

Outro inglês, o jornalista Jonathan Wilson, autor do livro Inverting the pyramid: The history of soccer tatics (“Invertendo a Pirâmide: a História das táticas no futebol”), usa um trecho de uma matéria do Jornal do Brasil que da uma ideia da dimensão daquele título: “A Vitória do Brasil é comparável à conquista da lua pelos americanos”.

Uma das maiores injustiças que se comete até hoje é não reconhecer o papel decisivo que Zagallo teve para o êxito daquele time.

 SEM ZAGALLO, O BRASIL DE 70 NÃO EXISTIRIA.

Zagallo inventou o Barcelona de Messi 40 antes de Guardiola

70 1

É ele que arruma espaço para os “cinco camisas 10” no time: Pelé, Rivelino, Jairzinho, tostão e Gérson. “Zagallo foi gênio ao juntar todos eles”, disse Jairzinho.
Com a demissão de Saldanha, em março de 1970, a três meses da Copa do Mundo, Zagallo assumiu a Seleção e comandou uma pequena revolução.

A maneira como Zagallo dispôs os craques foi o mais surpreendente. Centroavante no Botafogo, Jairzinho, que jogava mais recuado no Corinthians. Tostão, meia-atacante no cruzeiro, virou um falso centroavante, que constantemente trocava de posição com Pelé. Clodoaldo e Gérson eram as peças mais recuadas do meio-campo. Atrás, Carlos Alberto, Britto, Piazza e Everaldo. Piazza, que era um volante em seu clube, virou zagueiro na Seleção.

“Era um 4-4-2, era um 4-3-3, era um 4-2-4, era mesmo um 4-5-1? Era tudo isso e ao mesmo tempo nada disso: eram apenas jogadores dentro de campo, um complementando o outro perfeitamente. No vocabulário moderno, provavelmente seria descrito como um 4-2-3-1”, escreveu Jonathan Wilson.

70 2

Quase 40 anos antes de o Barcelona de Guardiola ser alçado ao posto de um dos maiores times da história, com um 4-2-3-1 extremamente fluido e um gênio (no caso, Messi) como falso centroavante, o Brasil era campeão mundial exatamente da mesma forma. O que dá uma nova dimensão à declaração do técnico espanhol, após a vitória massacrante sobre o Santos, no mundial de clubes de 2011, de que o Barça apenas fazia o que o futebol brasileiro havia feito ao longo de toda a sua história.

“É mentira e uma injustiça com Zagallo quando dizem que a seleção de 70 não precisava de técnico porque tinha muitos craques. Dos treinadores que tive, Zagallo foi o único que sabia e treinava os detalhes táticos. Na época, os técnicos não se preocupavam com isso. Hoje, só pensam nisso”, escreveu Tostão em sua coluna na Folha de São Paulo em 12 de junho de 2005.

O jogo a que Tostão se refere é a semifinal contra o Uruguai, que o Brasil ganhou por 3 a 1. Antes de chegar à semifinal, o Brasil venceu a Tchecoslováquia por 4 a 1, a Inglaterra por 1 a 0 e a Romênia por 3 a 2, na primeira fase, além do Peru por 4 a 2 nas quartas de final. O 4-3-3 de Zagallo variava para um 4-5-1 em que todo mundo —- menos Tostão —- voltava pra marcar e também subia para atacar, à exceção dos três defensores.

“Pouco antes do Mundial de 70, o técnico Zagallo percebeu que havia, no futebol brasileiro, enormes espaços entre a defesa, o meio-campo e o ataque. Daí, o time passou a marcar a partir do meio-campo. Hoje, a maioria dos técnicos tenta fazer isso. Zagallo, nos gramados, como técnico e Jogador, estava à frente do tempo”, escreveu Tostão em sua coluna na Folha em 10 de agosto de 2011.

Uma amostra da participação fundamental de Zagallo para o sucesso daquela seleção veio na final contra a Itália. Segundo a reportagem da revista Placar, antes da partida, Zagallo projetou Filmes sobre as últimas exibições da Itália e mostrou os pontos fracos do time Italiano, uma inovação para a época. “ Jairzinho deveria afastar Facchetti da lateral direita e abrir espaço para as subidas de Carlos Alberto. Foi assim que saiu o Quarto gol.”

Dos problema que ficaram ressaltados na Copa da Inglaterra levaram mudanças a partir da copa no México. Diante do número de jogadores contundidos que continuavam em campo apenas fazendo número, a FIFA decidiu que dois jogadores (além do goleiro, o que já acontecia desde 1958) poderiam ser substituídos durante a partida, o que premiava os melhores elencos, dava maiores possibilidades de trabalho aos treinadores e elevava o nível do espetáculo. Diante da pouca transparência quanto aos jogadores advertitos pelo árbitro, introduziu-se o uso de cartões coloridos exibidos publicamente aos faltosos. Mudanças estas que contribuíram para que a copa de 1970 tivesse números um pouco melhores que a anterior na quantidade de gols (95 contra 89) e na média geral destes (2,97 contra 2,78), no público presente nos estádios (1 673 975 contra 1 614 677), na média de torcedores por partida (52 312 contra 50 457), na audiência televisiva da decisão (600 milhões contra 400 milhões). A maior diferença, contudo, foi o ambiente festivo que os mexicanos imprimiram ao evento.

Outra novidade, acompanhando a expansão mundial do futebol e os interesses econômicos da FIFA, foi a redistribuição das vagas. Além das duas reservadas, uma ao campeão anterior (Inglaterra) e outra ao país-sede (México), coube pela primeira vez uma vaga à África, oito à Europa, três à América do sul, uma contra à América Central e do Norte, uma à Ásia e Oceania. Assim, as eliminatórias foram as mais concorridas até então, estendendo-se por quase dois anos e envolvendo 69 países (onze deles africanos) em 172 partidas. Nesse contexto, algumas surpresas eram inevitáveis. A Romênia voltou a disputar uma copa depois de 32 anos. Ausente das três edições anteriores, a Bélgica também retornou. O peru, que até então só participara da copa de 1930, reentrava no cenário internacional, em detrimento da Argentina, derrubada nas eliminatórias. El Salvador, Israel e Marrocos faziam suas estreias.

Como a fase de grupos e as quartas de final não apresentaram nenhum resultado inesperado, as semifinais reuniram quatro antigos campeões mundiais em dois jogos emocionantes. Na cidade do México se Itália e Alemanha ficaram em 1 a 1 no tempo regulamentar, nos trinta minutos da prorrogação fizeram cinco gols numa sequência empolgante: vantagem alemã, empate italiano, virada italiana, empate alemão e, por fim, Vitória italiana. No mesmo horário, em Guadalajara, Brasil e Uruguai reencontravam-se numa Copa do mundo. Em erros individuais de um zagueiro e do goleiro brasileiros, o Uruguai inaugurou o placar e abriu a ferida do célebre Maracanazo, vinte anos antes. Mas em 1970 a pressão psicológica não era tão grande: a seleção não jogava em casa, não começara favorita e o time não era mais maduro. Antes do intervalo veio o empate, e no segundo tempo, jogando com paciência, o Brasil conseguiu marcar aos 31 e aos 44 minutos. A seleção não só estava na final, como também —- fator de peso, porém minimizado pela imprensa e pela torcida brasileiras —- tinha escapado da prorrogação, que havia esgotado a Itália para a decisão.

Na final, o domínio brasileiro foi pouco eficaz no primeiro tempo, que ficou em 1 a 1, até que a partida se resolveu no segundo tempo, quando o poder de marcação italiano —- historicamente a grande virtude da Azzurra —- diminuiu. Pesou aí não apenas a prorrogação contra a Alemanha, três dias antes, como também o horário da decisão, meio-dia no calor mexicano. O fôlego italiano acabou acabou aos quinze minutos do segundo tempo, e então Gerson marcou aos 21,. Jairzinho aos 24 e Carlos Alberto aos 42, em gol de antologia que concluiu 28 toques na bola dados por nove brasileiros diferentes. Jogada literalmente coletiva que selava a conquista do inédito tricampeonato mundial.

70 3
@caldas_icaro

Anúncios

Um comentário sobre “BRASIL DE 1970 EM PLENA “TRItadura” – Análise da Seleção na Copa de 70

Os comentários estão desativados.